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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Para os meninos e para as meninas

A lagartixa e o jacaré

Para os meninos e para as meninas



      José Pacheco Pereira


Não contem comigo para ter de fazer as prevenções do costume, destinadas a comprovar que não sou machista. Quero a plena emancipação das mulheres e tenho uma ideia do que o impede e dos obstáculos enormes que existem

A recente polémica, muito ainda da silly season, sobre livros de exercícios escolares "para os meninos e para as meninas" revela um dos problemas de uma parte da esquerda que se dedicou ao policiamento do "politicamente correcto" e àquilo a que chama "causas fracturantes". Essa parte da esquerda une o Bloco a uma minoria significativa do PS, que envolveu o Governo num processo absurdo de excitação política acerca de nada, ou quase nada.

E não contem comigo para ter de fazer as prevenções do costume, destinadas a comprovar que não sou machista. Quero a plena emancipação das mulheres e tenho uma ideia do que o impede e dos obstáculos enormes que existem. É aliás exactamente por isso que escrevo este artigo.

Fazia-lhes bem lerem Marx

Ao desprezarem objectivamente, pela pouca importância que lhes dão, mesmo que a retórica diga o contrário, os problemas socio-económicos da condição feminina em detrimento de problemas que são de natureza cultural e de mentalidade, muito mais difíceis de desaparecerem, não servem nem a causa das mulheres, nem a causa da sua emancipação numa sociedade que lhes é particularmente injusta. Fazia-lhes bem serem um pouco mais marxistas, e perceberem que é a malvada da "infra-estrutura" que molda a superestrutura, e que o grau de autonomia da dimensão cultural está muito para além do que Marx pensava, mas… continua a ser em matérias com esta densidade, dependentes da emancipação económica e social das mulheres.

Isto é se queremos falar para a "metade do céu" e não para um pequeno grupo urbano e mais consciente que, presumo com bastante certeza, continua a dar bonecas às filhas e não aos filhos e a escolher o cor-de-rosa em vez do masculino (não muito) azul.

Passar de operária a doméstica é muito pior do que haver estereótipos sobre os meninos e as meninas

Sempre que tive de falar, nestes anos de "ajustamento", do desastre social que ele implicava, o melhor exemplo que encontrei foi sempre o retrocesso social da condição feminina quando as mulheres operárias eram despedidas primeiro e regressavam à condição de "donas de casa". E, quando perante dificuldades económicas familiares, o que primeiro sacrificavam eram coisas simples como… ir mais vezes ao cabeleireiro e cuidarem mais de si. Os que gozam estas circunstâncias, são os mesmos que produziram uma crítica nefelibata aos electrodomésticos, um aspecto da crítica ao consumismo que uma parte da esquerda fazia, ignorando até que ponto eles libertavam a mulher ( e não o homem) de muitos trabalhos domésticos mais penosos.

Aliás, com estas críticas, a esquerda mais radical abriu caminho à ideologia do "viver acima das possibilidades", que assentava não numa crítica ao esbanjamento e ao luxo, mas nas frágeis conquistas da classe média a que chamamos "baixa", para quem poder usufruir de férias era um adquirido recente, ou poderem ter, pais e filhos, novos consumos culturais como ir a um concerto de rock.

Ilustração Susana Villar

Cá como lá

Aliás, como hoje acontece com quase tudo, é nos EUA, à luz da vitória inesperada de Trump, que alguma desta discussão se está a fazer. O modo como a esquerda americana que apoiou Clinton se mobilizou para causas de identidade de grupos, olhando para os latinos, as mulheres, os negros, a comunidade LGBT, como grupos identitários, com questões de género e de raça, ignorando a condição socio-económica que os unia para além das "identidades", deu a Trump muito votos entre todos aqueles grupos que ele tratou como "desempregados" e ela como "deploráveis", insultando assim uma América pobre que as elites desprezavam.

Quando Hillary lhes chamou "deploráveis", ou seja, desprezíveis, selou o seu destino. Bernie Sanders que tinha um discurso mais acentuadamente social e que foi o único do lado democrático a dirigir-se aos mesmos eleitores que Trump mobilizava e a muitos outros que estavam radicalizados contra Trump, entre os jovens por exemplo, teve uma campanha dinâmica e pôde ganhar vários estados a Clinton, que tinha, com ela, todos os recursos e a cumplicidade, mesmo mafiosa, da direcção democrata.

Um enorme presente para a direita

As "causas fracturantes" são um enorme presente dado à direita, porque moldam num discurso policiado e escolástico uma visão dos problemas sociais apenas vistos como sendo de mentalidade ou culturais, muitas vezes assentes quase numa crítica discursiva e simbólica. As diferenças entre homens e mulheres são uma das frentes mais importantes daquilo a que podemos chamar progresso "civilizacional". Envolvem muitos factores complexos, de natureza religiosa, cultural e de mentalidade, muito difíceis de resolver. Uma parte importante do mundo, como é o caso do Islão, institucionaliza um papel secundário para as mulheres como propriedade dos homens, mas parece que isso mobiliza menos os nossos "fracturantes" do que os cadernos de exercícios da Porto Editora. No mundo cristão, a desigualdade entre homens e mulheres começa no próprio acesso aos sacramentos, e continua, por muitas formas, embrenhado na sociedade. Os estereótipos que se encontram um pouco por todo o lado são um factor nessa desigualdade. Porém, eu trocava mil livros e cadernos sexistas, ou como estes: vagamente sexistas, pela igualdade salarial entre homens e mulheres, muito mais grave e muito mais discriminatória e, caso deixe de existir, muito mais emancipatória.
 Revista SÁBADO, 17SET, 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

FRANCISCO GEORGE “NÃO VACINAR OS FILHOS É COMO INFLIGIR MAUS-TRATOS”


ENTREVISTA

FRANCISCO GEORGE “NÃO VACINAR OS FILHOS É COMO INFLIGIR MAUS-TRATOS”



No dia 20 de outubro chega ao fim a carreira do popular diretor-geral da Saúde. Durante mais de uma década alertou sem alarmar. Sai com o lamento de não ter tido deputados mais audazes




POR VERA LÚCIA ARREIGOSO (TEXTO) e NUNO BOTELHO (FOTOGRAFIAS)


FUTURO Francisco George quer continuar dedicado à causa pública e é candidato à presidência da Cruz Vermelha Portuguesa

Falta um mês para ficar em silêncio a voz mais ouvida sobre a saúde dos portugueses. Depois de 17 anos na Direção-Geral da Saúde, Francisco George vai reformar-se por limite de idade para continuar a servir o bem público. Prestes a completar 70 anos, o seu rosto ficará associado a combates contra o mal: do tabaco, do sal ou do açúcar. Sem receio do que é politicamente correto, afirma que não vacinar as crianças é como infligir-lhes maus-tratos e critica a irresponsabilidade dos pais que impõem dietas alternativas. Com pensamento à esquerda, garante que Marcelo Rebelo de Sousa veio dar o carinho que faltava depois de um Presidente, Cavaco Silva, “muito frio e muito distante”. De uma só vez, a vida roubou-lhe a mulher e uma filha. Mas não os sonhos. É dali que lhe vem o ânimo para continuar a melhorar a vida dos outros.


Cresceu e formou-se em Lisboa mas foi para o Alentejo. Porquê?


Para não ferir a sensibilidade do meu pai. Ele era médico e diretor do Hospital de Santa Marta, era o meu diretor, e para eu mudar de carreira tinha de apresentar um desejo oposto à medicina interna que estava a seguir porque não fazia sentido ficar em Lisboa no internato da especialidade com outro diretor. Um dia cheguei ao pé dele — nunca punha em causa as grandes opções dos filhos — e disse-lhe que ia mudar para saúde pública e que já tinha falado com Arnaldo Sampaio, então diretor-geral da Saúde, precisamente na mesa onde estamos. No final de 1975, os hospitais não eram as unidades modernas de hoje e era preciso dar mais visibilidade à intervenção preventiva, às dimensões da prevenção da doença e da proteção e da promoção da saúde. E a relação de filho de diretor não me atraía. Era uma relação diferente da que tinham os outros médicos.


Sentia-se mais protegido.


Sentia-me diferente. O filho do diretor ou é protegido ou está sob maior exigência. Tenho uma irmã médica que também saiu de medicina interna por perceber este fenómeno.


Mas reconhecia muita competência ao seu pai. Ia para a mesa com bloco e caneta para tirar dúvidas...


Sempre. Ainda hoje considero-me internista, com raciocínio ágil em termos de diagnóstico. Estudava com um colega, Eduardo Barroso, que todos hoje conhecem, oito a dez horas por dia porque o estudo das disciplinas básicas do primeiro ano era muito intenso. Um lia e o outro ouvia e depois trocávamos de papéis e na hora do jantar levávamos notas sobre o que não tínhamos percebido.


E quando se formou afastou-se novamente, para o Alentejo e depois para África. O que o atraiu?


O primeiro posto foi como delegado de saúde numa pequena vila, Cuba. Estava muito junto à população e o diretor-geral da Saúde de então, Arnaldo Sampaio (pai de dois dos meus amigos mais antigos da juventude, Jorge e Daniel Sampaio), enviava-me os consultores estrangeiros que vinham ver os progressos depois do 25 de Abril que iam a caminho do Algarve. Ao fim de quatro anos, em 1978, convidaram-me para ir a Genebra apresentar o nosso projeto inovador sobre a relação do médico com o cidadão, a família e a comunidade, e fui, já como consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS).


Qual foi a primeira missão?


Pediram-me para fazer um relatório na China sobre os ‘médicos pé descalço’.


Os médicos dos pobres?


Não, na China eram todos iguais. A missão era perceber o que eram os cuidados para com a família nas zonas mais rurais, as dos arrozais. O ‘médico pé descalço’ foi criado durante a Revolução Cultural e era um indivíduo com uma formação rudimentar, inferior à de um enfermeiro, que se deslocava de bicicleta — equipada com os principais meios para a prevenção, folhetos, instruções... — , que era tratado por “senhor doutor” e impunha um respeito muito grande. Andei nessas bicicletas... [sorriso]. Era dada muita atenção ao ciclo da mulher, porque os sindicatos só autorizavam um filho e quem não cumprisse era afastado da cooperativa rural. Nas fábricas têxteis, as operárias iam todos os meses às irrigações, uma espécie de bidé com repuxo, onde era verificado se havia menstruação e feitas manobras de aspiração para evitar uma segunda gravidez. Depois da China nunca mais larguei a OMS.


E em África interromperam o início de uma revolta porque ainda não tinha pago a bica.


Tal e qual [risos]. Foi a Revolução do Nino Vieira, o 14 de novembro de 1980, em Bissau. Estávamos na esplanada 24 de Setembro, ouvimos ruídos e uma brigada de revolucionários colocou um canhão mesmo no meio e mandou-nos pôr as mãos no ar. Entretanto, vem o chefe da esplanada: “Ouçam lá uma coisa, mas então como é? Quem paga os cafés?” E os revolucionários disseram: “Então, paguem os cafés e voltem a pôr as mãos no ar.”


Ainda em África, assistiu à descoberta do vírus da sida. Teve medo?


Tive muito medo. Nas escolas médicas em todo o mundo e em saúde pública o pensamento era controlar, eliminar, erradicar... Tinha havido uma grande vitória com a varíola, o último caso tinha sido em 1977, na Etiópia, e nunca ninguém pensou que pudesse emergir um problema que nunca tivesse existido. Com a sida percebeu-se que problemas de expressão pandémica podiam surgir sem que até então tivessem sido identificados. ‘Sapinhos’ das crianças, diarreia crónica que matava, herpes generalizado pelo corpo... víamos esses quadros sem saber qual era a sua natureza, foram três anos às cegas. Achou-se que podia ser transmitida por mosquitos e no dia em que se concluiu que não, fizemos uma festa, por acaso no mesmo hotel da revolução do Nino.


Apesar de todas as aventuras, pediu para regressar a Portugal.


Teve de ser, porque a licença, no conjunto de 12 anos, tinha terminado e iria perder o vínculo à função pública. Sabia que tinha que fazer por cá e regressei ao Alentejo.


Além de Arnaldo Sampaio, teve como mestre Avelino Cunhal, professor de História no Colégio Valsassina. Porque é que o marcou? Por ser pai de um opositor de Salazar?


Marcou-me porque naquela altura, sobretudo aos 13 anos, poucos sabiam quem ele era, e menos ainda no meu estrato social.


Um estrado social privilegiado.


Privilegiado, mas de resistentes. O meu pai era marcadamente de esquerda e o irmão da minha mãe esteve muitos anos preso em Caxias, submetido a torturas, por delito de pensamento. Foi aos 13 anos que os meus pais me autorizaram a visitar o meu tio e explicaram-me a diferença entre estar preso em Caxias e noutras prisões. E depois chego ao liceu e tenho um professor... Avelino Cunhal.


Os alunos sabiam quem ele era?


Todos sabiam que era pai do maior adversário do Salazar, que estava preso em Peniche.


Avelino Cunhal tinha uma postura semelhante à do filho?


Só vim a conhecer a fisionomia do filho no dia em que chegou a Portugal porque ninguém sabia como ele era, não circulavam fotografias. Tenho amigos que estiveram e viajaram com ele sem saberem que era Álvaro Cunhal e só no dia 27 ou 28 de abril de 1974 é que perceberam. O pai, em termos físicos aparentava-se com o filho, era uma figura de elevadíssima dimensão intelectual: escritor, com contos premiados, o primeiro neorrealista no teatro, advogado e pintor. No plano pedagógico, tinha atenção à filosofia e à organização do pensamento.


Foi o seu pai que lhe disse que o filho do professor tinha fugido da cadeia.


Precisamente. E eu no dia seguinte fui muito feliz ter com o meu professor porque sabia da novidade. Ninguém sabia e foi inesquecível. Ele pôs a mão por cima do meu ombro e subimos a escada em silêncio e a partir daí mantivemos a cumplicidade. Fui sempre amigo dele e fui aos serviços fúnebres no Alto de São João. Decidiu ir para uma vala comum, era uma pessoa de grande humildade.


Houve um episódio fantástico, da coroa de flores trazida num camião...


Sim. Era uma coroa gigante de flores vermelhas, que teve de ser retirada com um guindaste, e que dizia “do teu filho Álvaro”. Foi em 1966, quando entrei na faculdade, e estava um dia de muita chuva e pouca gente, talvez 30 pessoas, não mais. Fomos todos identificados e fotografados e a morte não foi noticiada. Saiu apenas uma nota no “República”, julgo que uns dias depois, a dizer que tinha ido a enterrar o antigo governador civil da Guarda...


40 anos depois esteve no mesmo sítio no funeral do filho, Álvaro Cunhal.


Estive, por um sentimento de dever em relação à figura do pai e às minhas conversas com ele durante a clandestinidade do filho.


Diz que a liderança do PS por Jorge Sampaio fez mudar o seu sentido político. De onde para onde?

Mudei. Não é frequente termos um amigo de infância eleito secretário-geral de um grande partido e depois Presidente da República, pesa muito. E por sinal, já me aconteceu duas vezes... um pequeno pormenor [sorriso]. Estava fora mas telefonei-lhe para dizer que estava às ordens para o que entendesse. Depois fui ao Largo do Rato e quem me atendeu foi António Correia de Campos, que liderava as questões ligadas às campanhas de Jorge Sampaio.


Foi lá inscrever-se como militante?

Fui lá, sobretudo, para dizer que estava ali para o que fosse preciso.


Estava à esquerda e aproximou-se dos socialistas?


Sim, mas na perspetiva de acreditar na liderança política e na capacidade de Jorge Sampaio fazer a diferença. E fez.


Mas era militante de outro partido?


Não falo em militâncias partidárias antes do 25 de Abril por razões que têm que ver com compromissos.


Compromissos com quem?


Compromissos. Entendo que o diretor-geral da Saúde é uma figura, como um embaixador ou um general, que tem de ser absolutamente imparcial.


Mas, ideologicamente...


Considero-me, desde sempre, com uma posição à esquerda.


Foi colega de escola de Marcelo Rebelo de Sousa, o segundo amigo Presidente a que se referiu, e afirma que é o líder de que o país estava a precisar. Cavaco Silva foi assim tão mau?


Cavaco Silva foi um Presidente e um primeiro-ministro distante e frio. Muito frio e muito distante. Ao fim de mais de 20 anos nos cargos não conseguiu colocar Portugal no rumo certo. Seria melhor e mais aconselhável resguardar-se em silêncio. A meu ver, agora, a sua palavra no debate político não faz muito sentido, não é oportuna e ele não pode ignorar a sua baixa popularidade.


Isso apesar de Marcelo ser do PSD, distante dos seus ideais...


Sim, mas identifico-me com ele. Claro que nem todas as políticas do PSD são de direita. Aliás, a pureza da social-democracia nunca foi considerada de direita. A defesa do Estado social, como a saúde e a escola pública, tal como a procura da justiça social, devem fazer parte das nossas ideias, valores e princípios. Então, quer dizer-me que Pacheco Pereira não é um dos nossos mais brilhantes pensadores? É de esquerda ou de direita? O brilho dele não seria modificado por rótulos nem por emblemas. Uma vez disse-lhe que ele devia receber uma bolsa do Estado para pensar e escrever [risos]. E o PSD tem homens de esquerda.


Tem?


Duvida disso? O social-democrata íntegro é um homem com pensamento à esquerda.


Pedro Passo Coelho é um homem com pensamento à esquerda?


Não. Mas há sociais-democratas e líderes de democratas... Marcelo Rebelo de Sousa é seguramente um social-democrata, uma pessoa muito apreciada e estou certo que se hoje fosse às urnas, depois destes dois anos de mandato, teria muitos mais votos.


Com amigos e ideais políticos fortes porque é que nunca entrou na política?


Não era compatível com ser médico com uma carreira na Direção-Geral da Saúde. A partir do dia 20 de outubro irei pensar nisso.


Já decidiu ir para a Cruz Vermelha.


Eu não vou. Decidi ser candidato e terá de ser a Cruz Vermelha a dizer se aceita a minha candidatura ou não, e isso faz toda a diferença. Nos termos estatutários, é o Conselho Supremo da Cruz Vermelha que em sessão eleitoral vai escolher, por consenso, o candidato. Considero que aos 70 anos tenho energia suficiente para gerir um grande projeto como é a Cruz Vermelha Portuguesa. Sempre reconheci a necessidade de o candidato assumir um perfil de total independência, imparcialidade e neutralidade, valores essenciais da atuação dos membros e que partilho.


Como diretor-geral da Saúde quantas decisões teve de tomar em que a ciência foi contrariada pela política?


Nenhuma, antes pelo contrário. Todas as decisões foram sempre peneiradas por opiniões colegiais. Por exemplo, a aquisição da quimioprofilaxia para a gripe foi aprovada em reunião que juntou 50 especialistas e a regulamentação da interrupção voluntária da gravidez foi previamente discutida pelos professores catedráticos de obstetrícia de todas as universidades portuguesas. A seguir há o filtro político e depois, se for caso disso, a intervenção parlamentar. Mas a minha responsabilidade fica limitada à primeira etapa, à fase meramente técnica [sorrisos].


Nem durante a pandemia de gripe A com a compra do oseltamivir, apontado como pouco eficaz?


A decisão foi tomada pelo Governo no seguimento de uma reunião com 50 especialistas nacionais e no seguimento de um conselho europeu onde todos os países foram aconselhados a comprar. No plano científico, todos conhecíamos o oseltamivir como tendo utilidade clínica em determinados critérios, como tomar logo no início dos sintomas. Tínhamos de adquirir porque se não as notícias, essas sim alarmantes, teriam dito que Portugal era o único país que não comprou o medicamento. Foi uma medida de segurança para prevenir uma situação que se pensava que podia ser mais grave do que veio a ser.

MEMÓRIA O médico no Hospital de Santa Marta, onde iniciou a carreira. Mudou tudo para não estar sob a alçada do pai, o diretor

A prevenção enfraqueceu a pandemia de gripe?


Pelas medidas que foram tomadas, porque quando surgiu, na região da Cidade do México, a situação foi dramática. As Forças Armadas estiveram ali para conter a propagação.


Recentemente tivemos o reaparecimento do sarampo e disse que os pais que não vacinam os filhos são negligentes.


Sim, não vacinar os filhos é como infligir maus-tratos, porque os pais têm o dever de proteger os filhos.


É isso que acham que estão a fazer.


Não, e não é uma questão de opinião.


Muitos pais que não vacinam os filhos são instruídos, alguns são médicos...


São mal informados, alguns fazem parte de seitas e pensam que têm o direito de expor os filhos a riscos, mas não têm. Os pais têm o dever de cuidar dos filhos.


Pais que imponham uma alimentação vegetariana ou que retirem o leite não cumprem o seu papel?


Tenho pena. São atitudes condenáveis os pais imporem uma alimentação vegetariana ou retirem o leite, visto que têm o dever de estar bem informados e de cuidar dos filhos, independentemente das suas opiniões. Por exemplo, no caso de não aceitarem a vacinação devem assinar um documento onde assumem que, apesar de informados, insistem em não autorizar. A criança terá de estar sinalizada na escola para ser alvo de tratamento específico. [Irritado, levanta a voz e bate com mão repetidamente na mesa.] Uma criança não vacinada não fica protegida e se está à guarda de uma escola, a instituição tem de saber que há um aluno vulnerável, fragilizado em relação aos colegas.


O Estado que obriga a usar capacete ou cinto de segurança deve obrigar a vacinar as crianças que estejam em escolas públicas?


A questão é válida em termos de legitimidade, mas prefiro que a vacinação seja tida como um dever social e não uma obrigatoriedade.


Mas, qual é a sua opinião?

As crianças têm de ser vacinadas e é um dever vaciná-las. Nesta questão não consigo usar a palavra obrigatório. É um dever! Mas há mais questões no controlo das doenças transmissíveis. Vamos equacionar o seguinte: um doente com ébola está internado no Hospital Curry Cabral, cansa-se de estar hospitalizado e quer ir embora em pleno período infeccioso. Pode fazê-lo e isto é muito grave. A lei permite-o, mas não faz sentido sobrepor garantias individuais aos interesses coletivos. Então um tuberculoso que anda a propagar bacilos multirresistentes no metro ou no autocarro não devia ser tratado? Há, sem dúvida, excesso de ‘garantismo’ na nossa Constituição. Percebe-se depois de um longo período de ditadura mas já não faz sentido.


É antitabagista mas fumou.


Fumei como todos os adolescentes. O pai do ministro da Ciência era o diretor do Colégio Valsassina, onde estudei, e uma vez, tinha eu 14 anos, viu-me com um maço e tirou-me os cigarros. Fiquei revoltado, disse-lhe que os tinha comprado com a semanada e que não tinha o direito de ficar com eles, mas hoje vejo que fez bem. E fumei durante os estudos na faculdade, sempre moderadamente.


Influência do colega Eduardo Barroso, fumador de charutos?


Não. Ele só afinou esse comportamento mais tarde, até porque não tínhamos dinheiro para charutos. Deixei de fumar em 1975, porque me tornei médico e não fazia sentido fumar e trabalhar num hospital.


Defende que um responsável de Saúde não deve ser fumador?


Não pode fumar.


E pergunta aos seus colaboradores se vacinaram os filhos, por exemplo?


Não faço isso.


Vai sair da DGS sem ter conseguido colocar semáforos nos alimentos para indicar os melhores e os piores...


É a economia. Ultimamente dizem-me que Portugal exporta muito e que com essas indicações não poderiam exportar os seus produtos de sinal vermelho [risos].


Uma medida de grande benefício para a saúde pública, como foi a redução do açúcar, não avançou para proteger a economia?

Sim. Sou contra muitos dos interesses defendidos pela economia imediata. Não sei se está a captar o que estou a dizer... Para ser claro, em algumas medidas propostas em nome dos interesses da saúde pública os deputados terão sido demasiado tímidos. Não audazes. Na questão do tabaco, por exemplo, a Assembleia da República podia ter ido mais ao encontro dos movimentos europeus antitabágicos. Aprovaram demasiadas exceções à restrição de fumar em espaços públicos fechados.


Então, o que é que falta fazer?


Os deputados foram tímidos, tímidos. Era preciso ir mais à frente, por exemplo, ter embalagens brancas, normalizadas e com imagens, letras e locais onde a marca aparece tipificados e sem os logos distintivos para perderem o design, muito atrativo para os jovens. Esta medida foi iniciada em 2011 na Austrália e teve grande impacto, mas a Philip Morris colocou o Governo australiano em tribunal e ganhou a ação. Ainda assim, a embalagem uniforme já existe em vários países europeus: Reino Unido, França, Irlanda, e a Finlândia está a trabalhar nisso.

“No conjunto da população os transexuais não representam qualquer significado estatístico”


Fez parte da Conselho Nacional para a Procriação Medicamente Assistida. Concorda com as barrigas de aluguer?


É verdade. Integrei o conselho logo depois da sua criação. Tenho opiniões pessoais, aliás liberais, mas normalmente não as discuto em público porque o meu pensamento pode não coincidir com o que pensa o diretor-geral da Saúde, que só toma parte em discussões que tenham reflexo em saúde pública depois de tirada a bissetriz de amplo debate entre especialistas. O mesmo já não acontece com a interrupção voluntária da gravidez, onde tomei claramente a defesa pelo interesse da descriminalização. Nos últimos dez anos veio a demonstrar-se que foi um sucesso em Portugal, traduzido em vários indicadores, como por exemplo o número de interrupções por cada mil nados vivos estar abaixo da média da Europa. Já a procriação medicamente assistida (PMA) coloca questões diferentes, sobretudo no plano da ética.


A que questões éticas se refere?


Alguns elementos eram diretores de centros de PMA, quando uma das funções do conselho é avaliar esses mesmos centros... Depois da regulamentação da lei, apresentei a proposta de dissolução do conselho, que não foi aceite e, por isso, pedi ao ministro a minha substituição. Por outro lado, a condução dos trabalhos não me satisfazia.


Mas qual é a sua opinião sobre a PMA?


Concordo em determinadas circunstâncias. Não concordei com as expressões, a meu ver exageradas, de Gentil Martins mas é preciso ver que não estamos a falar de um problema de saúde pública mas de uma questão que diz respeito a um número muito pequeno de pessoas.


A PMA deve ser para casos com justificação clínica.


Sim, quando clinicamente se justificar.


E sobre as diferenças de género, devemos falar em pessoas e não em homens e mulheres?

Nesta fase estamos bem. Não necessitamos de alterar os nossos códigos, até porque estamos a falar de minorias com pouca expressão que não alteram percentagens quando analisamos indicadores com base no género. No conjunto da população, os ‘trans’ não representam qualquer significado estatístico. Claro que no seio da família ou de uma determinada comunidade pode ter alguma expressão. Mas, sublinho, sem induzir a leitura referente às diferenças de género.


Continuando com questões fraturantes na sociedade portuguesa, tem testamento vital?

O testamento vital é uma criação da Assembleia da República, aliás, como aconteceu com o conselho para a PMA, mas tem fragilidades. Como pode ser alterado a qualquer momento, não faz sentido andar com um papel no bolso a dizer que não se aceitam transfusões de sangue ou ser reanimado. No plano pessoal, considero que o testamento vital não é uma necessidade sentida pelos cidadãos.


Mas pode vir a estar numa situação em que não consegue transmitir a sua vontade.


É uma questão importante a decisão do próprio sobre os tratamentos no final de vida. Morrer em casa ou no hospital, ter tubos invasivos...


Já pensou sobre isso?


Tenho pensado muito, por uma questão de direitos. Sou daqueles que entendem que deve ser respeitado o desejo sobre o fim de vida.


Deve existir o direito à eutanásia?


Tem havido um debate nem sempre feliz sobre esta questão. Aceito como princípio a decisão de pôr fim à vida numa situação de idade muito avançada, de grande incapacidade e irreversibilidade da situação clínica, como múltiplos AVC ou dependência total.


E se for um jovem tetraplégico?


Não. A única situação totalmente irreversível é a idade. Tive debates com colegas meus e não alterei em nada a minha opinião.


O que é uma idade avançada para si?


Acima dos 85 anos. Mas numa situação de doença muito grave e irreversível não será necessária uma idade tão avançada.

“Não deixo os meus netos beber refrigerantes. São sete pacotes de açúcar em cada um”


E concorda com a eutanásia ou com o suicídio assistido?


É-me indiferente. Não me preocupa.


A vida foi madrasta, ao mesmo tempo levou-lhe a mulher e uma filha.


Foi o que foi, toda a gente sabe, aconteceu. Em março de 2006, no dia 21, a minha filha fazia 31 anos naquele dia. Tinha dito aqui na DGS para não se atrasarem e irem ter ao restaurante. Fui para lá, onde já estava a minha mãe, e fiquei à espera. Telefonei uma vez e não atenderam e quando telefonei pela segunda vez atendeu-me a GNR.


Conseguiu manter-se lúcido?



Consegui porque não me disseram o que tinha acontecido, apenas que tinha havido um acidente e que estavam no hospital. E fico por aqui... [olhos com lágrimas].


Como é que se avança a partir daí?


É tudo muito complexo mas a equação é simples: as pessoas ou sentem-se derrotadas e desistem ou vão em frente, mobilizando energias onde elas existem. É um processo muito difícil mas o luto tem aspetos naturais que protegem, que ajudam: os sonhos. É ótimo quando se começa a sonhar, é como matar saudades.


Quem lhe deu a notícia de que o acidente tinha sido fatal. Lembra-se?


Lembro. Foi um grande amigo meu. Quando as ambulâncias chegaram ao hospital as pessoas souberam o que tinha acontecido. Eu telefonei a um médico amigo de Beja para ir ver e soube logo.


Tomou alguma medicação?


Não, nada.


Desabafou muito com amigos?


Isso sim. Ainda há pouco tempo estive com dois amigos que me falaram dos convívios anteriores.


Isso não o magoa?


Não, é muito bom. Almocei recentemente com um grande amigo, que todos os portugueses conhecem, e ele também perguntou se me incomodava falar sobre isto e respondi o mesmo: que não me incomoda nada, pelo contrário, é bom.


O ser humano não está desenhado para assistir à morte de um filho.


É muito complexo e difícil.


É crente?



Não.


Sendo médico é mais fácil apelar à racionalidade?


A natureza e o funcionamento do corpo humano, incluindo a mente, o subconsciente, têm mecanismos de defesa com grande utilidade. Ao fim de poucas semanas, as memórias — como a viagem de comboio em que conheci a minha mulher — surgem e dão-nos muita satisfação. Recordar é bom, aliás, os psiquiatras sabem bem que muitas terapias são feitas ao reviver os acidentes de uma forma acompanhada e tranquila.


Ainda sonha muito ou vai passando?

Ainda sonho e gosto.


Vai ao cemitério?


Vou, embora a tradição do cemitério inglês, onde está a família, seja muito diferente. A configuração do próprio cemitério é diferente, é um jardim.


Escreveu na lápide “a love like ours never dies”. Mas morreu uma parte de si.


Claro, uma parte importantíssima.

“O luto tem aspetos naturais que protegem: os sonhos. Quando se começa a sonhar, é como matar saudades”


Atende jornalistas em três telefones ao mesmo tempo e ainda fala com os seus colaboradores. Nessa fase fez-se um pacto para que nenhum o contactasse por trabalho.


Senti isso e outra coisa muito importante que não sabia que existia: a importância dos amigos e da família que aparecem nas últimas homenagens. Ver as pessoas tem um significado que eu ignorava. Tem um significado emocional de uma dimensão inexplicável e que em termos de conforto é insubstituível. Não é só para mostrar que se está lá, percebe-se que há solidariedade. Compreender o sentido da palavra solidariedade é qualquer coisa de muito importante, como nas cartas ou nos telefonemas que recebi.


Pensou em deixar a DGS?


Pensei, porque não sabia se ia ter capacidade de continuar. Mas uma semana depois, estava aqui a lutar pelos programas principais. A carta que mais me emocionou foi a de uma colega que contava um episódio que tivemos. Eu discordei dela sobre um assunto técnico da sua área e ela sentiu que não seria legítimo da minha parte, visto ser ela a especialista. Depois veio a reconhecer que eu tinha razão e que isso era a prova de que eu fazia falta na DGS e tinha de continuar.


Mas é, de facto, um pouco mandão.


[Risos] Sabe, alguém tem de dar instruções.


E trabalha com muitas mulheres.


É verdade. A quota aqui é elevadíssima a favor do género feminino.


Também é mandão com os netos? Chateia-os com a comida?


Não chateio mas não deixo beber refrigerantes, são sete pacotes de açúcar em cada um, e sou tolerante com os gelados. Tenho uma relação de grande intimidade com eles.


Como é a relação com os seus filhos?


Os meus filhos conhecem-me bem [risos] e fazem o que querem. Todas as semanas janto com eles e concentro a minha educação na redução do sal e do açúcar.


A perda que teve mudou a sua atitude em relação aos outros dois filhos e aos netos?


Mudou no sentido da necessidade de aproveitar todos os dias, todos os momentos.


Vai sair da DGS sem ‘espinhas na garganta’?


Vou sair com a sensação de dever cumprido. E não levo nada, tudo o que aqui está é do Estado. Só levo o meu computador debaixo do braço.

“Em algumas medidas da saúde pública os deputados terão sido demasiado tímidos”


Nem leva retratos?


Isso já arrumei. Vou fazer assim: no dia 19 de outubro, às 19 horas, vou colocar a minha fotografia na galeria dos diretores aqui na DGS e no dia 20 farei uma intervenção sobre 44 anos de serviço público na reitoria da Universidade Nova, em Campolide.


No dia 21 de outubro faz 70 anos. Vai celebrar com festa?


Sim, mas uma coisa familiar.


Porque é que a subdiretora-geral, Graça Freitas, não lhe sucede na DGS como seria expectável?


Não me sucede porque são precisas candidaturas e ela não teve vontade de se candidatar. Além disso, outras pessoas já o fizeram.


Qual é a qualidade necessária a um bom diretor-geral da Saúde?


[Silêncio] Gostar do que se faz e colocar o interesse público à frente de todos os outros, incluindo do interesse familiar.


Não teve excesso de entusiasmo ao fazer comunicados recomendando aos portugueses que se agasalhassem quando estava frio ou que bebessem água quando estava calor?


Não. As equipas dizem que é preciso insistir nessas questões.


Quem foram os ministros de Saúde com quem menos gostou de trabalhar?


Todos os seus colegas fazem essa pergunta.


Por isso deixei-a para o fim.


Não fiz nenhuma grelha, mas posso dizer que muitos eram meus amigos há vários anos. Maria de Belém, António Correia de Campos, Ana Jorge, Adalberto Campos Fernandes...Só posso responder que os ministros com quem trabalhei ou eram meus amigos pessoais ou tornaram-se meus amigos. Por exemplo, Paulo Macedo certa vez convidou-me para ir ao seu gabinete celebrar os bons resultados com champanhe francês.


É mais fácil quando o ministro é médico?


Nunca pensei nisso.


Acabam todos apenas a gerir dinheiro.


Sim. Acabam todos a fazê-lo porque o problema é o orçamento.


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2342 - 16 de Setembro de 2017

Rua do Laranjal



Rua do Laranjal


Ficava paredes meias com outro sítio emblemático: a Cancela Velha


Dos muitos topónimos que desapa­receram para sempre da malha ur­bana portuense, queremos evocar nesta crónica apenas dois, por nos parecer serem dos mais emblemá­ticos e por, apesar de terem sido riscados da toponímia da cidade, ainda pre­valecerem na memória de muita gente cá do burgo.

Referimo-nos ao Laranjal e à Cancela Ve­lha que, por acaso, até ficavam muito perto um do outro. Como curiosidade, recorda­mos que o nome de Cancela Velha prevale­ce ainda, mas somente na nomenclatura de um café.

O sitio do Laranjal (ou Laranjais, como também se dizia e escrevia) ficava dá parte de cima do viçoso Campo das Hortas. Este campo, como é geralmente sabido, situava-se nos terrenos onde agora está a Praça da Liberdade e estendia-se também por parte da moderna Avenida dos Aliados.

O Laranjal ocupava uma área enorme que ia, pode dizer-se, do sítio onde agora está o edifício da Câmara Municipal até perto do antigo Campo de Santo Ovídio, hoje Praça da República, e integrava várias quintas, um monte e... "os laranjais".

A origem do nome Laranjal não deixa dú­vidas: tem a ver com a abundância de laran­jeiras no local em referência. Sabemos, por exemplo, que no século XVIII existia por aquelas bandas uma Quinta do Laranjal, "sita no lugar do Laranjal, na freguesia de Santo Ildefonso, a qual confronta, de nas­cente, com o casal do Galvão e o ribeiro que vem do Bonjardim e, do poente, com o ca­minho público que vai para Liceiras e San­to Ovídio".

Foi ao longo dos terrenos da Quinta do Laranjal que se abriu a rua que tomou o nome do sítio: Rua do Laranjal, das mais movimentadas artéria portuenses. Era nela que estava a célebre alquilaria do velho José Galiza, fornecedor das mais belas equipagens que serviam a burguesia portuense do século XIX.

Na parte baixa da rua, situava-se a cape­la dos Três Reis Magos, que fazia parte do palacete da antiga Praça das Hortas, hoje Praça da Liberdade, onde funcionava a Câ­mara Municipal. E, do outro lado da rua, em frente à capela, ficava o afamado café Cha­ves, no rés do chão do edifício do Hotel de Francfort.

Atrás, fizemos referência a um casal do Galvão. Era uma enorme propriedade que, "de norte partia com o caminho que ia para a Rua da Porta de Carros". Desse casal fazia parte "o Campo da Cancela", onde mais tar­de se formaria a Cancela Velha, lugar que começou a ser urbanizado em 1784, confor­me consta de um "projeto de melhoramen­to da cidade" da iniciativa de corregedor João de Almada e Melo, a exercer, também, ao tempo, o cargo de presidente da Junta das Obras Públicas da cidade.

Desse documento consta, entre outras iniciativas, o seguinte: "e assentou-se que se abrissem as outras duas comunicações para a Rua do Bonjardim, a saber, a pri­meira pela viela chamada da Cancela Ve­lha que deve alargar-se".

Para que o leitor possa situar-se melhor nesta história, diremos que a referida Vie­la da Cancela Velha que se alargou, con­forme a determinação constante do cita­do projeto urbanístico, deu lugar à Rua da Cancela Velha que é hoje a Rua de Gui­lherme da Costa Carvalho.

Nos finais do século XIX, começos do século XX, a Rua da Cancela Velha era uma das mais movimentadas da cidade daque­le tempo. Nela estavam sediadas as redações de dois importantes jornais do Porto: "A Montanha", fundado por Júlio Ribeiro em março de 1911, que começou como vespertino e acabou matutino; e a "Auro­ra", que começou a circular logo a seguir à implantação da República e que ainda se publicava em 1913.

Quando se fez o alinhamento da viela da Cancela Velha, procedeu-se, também, ao alargamento da Viela dos Congregados que, primitivamente, era conhecida por Travessa do Bispo e que se estendia, em curvas e contracurvas, desde o início da Rua do Bonjardim, agora de Sá da Bandei­ra, à entrada da Rua de 31 de Janeiro, até à Cancela Velha.

Aquela Travessa do Bispo tinha essa de­signação por ficar perto da Rua do Bispo que, depois, se chamou Rua de D. Pedro e, após a vitória do regime republicano, pas­sou a ser designada Rua de Elias Garcia. Ficava paralela à Rua do Laranjal. Ambas as ruas desapareceram para a abertura da Avenida dos Aliados.

Voltando à Rua da Cancela Velha. A par­te de baixo desta artéria estabelecia liga­ção, para nascente, com a também já de­saparecida Viela do Cirne, que tomou o nome de uma outra quinta que tinha esta denominação. Junto a esta viela existiu, em tempos idos, uma curiosa fonte que fi­cava ao nível inferior da rua, numa espé­cie de buraco a que se tinha acesso des­cendo por uns toscos degraus de pedra. Por causa dessa insólita situação, o povo dava à fonte o pitoresco nome de "fonte do olho do c...".

História do Hotel de Francfort


A abertura da Avenida dos Aliados, hoje a sala de visi­tas, digamos assim, da nos­sa cidade, obrigou ao desa­parecimento de um dos tre­chos mais castiços e de maior movimento do Porto antigo: os Lavadouros como, na generalidade, era conhe­cido o sítio e que tinha esse nome por causa dos tanques que por ali proliferavam e onde as lavadeiras iam tra­tar das roupas dos seus fre­gueses. Era nos lavadouros que se situavam as ruas do Laranjal e de D. Pedro, para­lelas entre si. O gaveto des­sas ruas era formado por um alto edifício onde funcionava um dos mais célebres hotéis do Porto dos finais do século XIX: o Hotel de Francfort (fo­to) localizado num dos pon­tos mais centrais da cidade, muito perto da Estação de S. Bento, dos caminhos de fer­ro, então considerada a es­tação central da cidade. Era um hotel muito procurado pelos brasileiros de torna-viagem. Nele viveu, durante muitos anos, o conde Alves Machado que enriquecera, exatamente, no Brasil.

O JN teve as suas primeiras instalações na Rua de D. Pedro

Jornal de Notícias, 17SET,2017

sábado, 16 de setembro de 2017

TEMEI O PRESIDENTE Z


HÁ HOMEM

    LUÍS PEDRO NUNES



TEMEI O PRESIDENTE Z


Se o dono do Facebook chegar a Presidente dos EUA acaba a democracia


FOTO Stephen Lam/Reuters

Pior do que Trump? Impossível, pensamos. Por mais que ouçamos os analistas de política garantir que está tudo bem, que nós, os “outros”, não temos de nos preocupar, que cá, do “lado de fora”, não compreendemos a força da democracia americana, há qualquer coisa que está a mudar. Nos filmes de Hollywood começamos a deixar de torcer pelo herói que defende os US of A — mesmo quando toda a narrativa da empatia está virada para que se goste dele — e começamos a querer que o tipo se dê mal. Se está a trabalhar para a Administração Trump, porque haveremos de torcer pelo agente bonitão? Mas o importante é aguentar estes quatro anos. Até porque, em 2020, poderá chegar algo de completamente novo, como o Presidente Zuckerberg. O que é uma ameaça terrível.


Mark Zuckerberg é o criador e dono do Facebook, agora com 34 anos, cuja vida julgamos conhecer porque em 2010 vimos um biofilme, nada positivo em certos aspetos. De lá para cá passou de dono de uma rede social poderosa para um instrumento analítico global que está dentro da cabeça de dois mil milhões de pessoas. Nestes sete anos muito mudou. E Zuckerberg — deduz-se — também. Não sabemos bem o quê, dado que é muito zeloso da sua privacidade, algo que é exatamente o seu maior defeito: pois não o é em relação à privacidade dos outros; aliás, não sabe parar e finge não saber a linha em que começa o privado na vida alheia.


Foquemo-nos no ponto central deste texto. Que ideia é essa de Zuckerberg ser Presidente dos EUA? Desde que Trump venceu que as possibilidades se abriram a todas as personagens da geografia humana norte-americana. Zucker abandonou as suas famosas T-shirts cinzas, vestiu um fato e gravata e, em janeiro, anunciou que, durante este ano, iria fazer uma digressão espiritual por 30 estados, onde aproveitaria para entrar em contacto com as preocupações das pessoas. Desnecessário será dizer que muitos desses estados são os famosos swing states, os que decidem a eleição. Um Zucker engravatado negou estar a perfilar-se para presidente. Entretanto, deu em contratar uma parte substancial da antiga equipa de Obama — até o responsável pelas sondagens.


As revistas que se dedicam a estes temas, como a “Politico”, a “Vanity Fair” e, neste caso, a “Wired”, decidiram perceber o que seriam as bandeiras de um Presidente Z. Tendo em conta as suas fundações, filantropias, angariações e discursos em universidades, Zuckerberg seria o que Trump chama hoje “radical da alt esquerda”. Os temas que tocam Mark Zuckerberg são as alterações climáticas, a defesa do Acordo de Paris, a defesa dos refugiados, os direitos da comunidade LGBT, casas para desfavorecidos, seguros de saúde (na perspetiva de apoio estatal, mas à esquerda do partido democrata)... Ou seja: quem melhor do que o homem do Facebook para derrotar o Presidente do Twitter, certo? Hum...


Estamos nos finais de 2017 e ainda sem a total compreensão de como o Facebook e as redes sociais têm hoje efetiva capacidade de influenciar os atos eleitorais, nomeadamente o norte-americano — e assim minar o sistema democrático. E quando se analisa o tema das fake news ou de anúncios plantados no feed do FB, por exemplo, seja como ação de um país estrangeiro ou apenas como um maneira manhosa de putos ganharem uns cobres — falamos de um esquema exterior à rede, usada em benefício desse fim. Zuckerberg-candidato a um novo jogo diferente.


Alguém acredita que o Facebook não iria ser “programado” para ajudar o candidato Z? Não estamos no campo da ficção científica, nem de séries do Netflix, mas apenas dos algoritmos comportamentais que hoje nos perseguem de forma irritante: faço uma busca por “sapatos velhos” num motor de busca e minutos depois tenho anúncios de sapatos vintage no Instagram. Esta capacidade analítica de me pensar, de me conhecer, de moldar a mensagem aos meus gostos é facilmente adaptável à política.


E Zuckerberg deixaria de ser o que foi nos discursos de há dois ou três anos para ser exatamente aquilo que eu necessitasse que ele fosse para mim num determinado momento. No limite, haverá tantos candidatos Zucker quantos eleitores estiverem ligados com as respostas adaptadas para cada um — dado o FB saber o que os preocupa no momento.


Se o Facebook se dedicar a ser uma plataforma para eleger um homem, as democracias ocidentais estão em perigo. O mais absurdo é que o “cataclismo” Trump parece estar a criar um momento de loucura que abafa o temor por um Presidente Zuckerberg — o homem menos carismático dos Estados Unidos. O círculo íntimo de Zuckerberg já o considera o homem mais poderoso do planeta, com capacidade para influenciar um terço da sua população. Ser Presidente dos EUA seria até uma “despromoção”.


Zucker era viciado numa cena do filme “Troia”, com o Brad Pitt, em que Aquiles gritava que o seu nome iria ser lembrado até à eternidade. Dizem que essa é uma das mais perigosas motivações. Ter ciúme da fama da obra, o Facebook. “Ele quer ser imperador”, disse um amigo a uma dessas revistas.


Mas o que será essa presidência? Ah, não tenham dúvidas: um estado de vigilância total. Uma democracia decidida por likes, o que for... não o que é hoje. Zucker saberá tudo sobre os seus concidadãos, e sobre mim português — que sou um desbocado no FB. E sobre si. Ninguém pense que está de fora.


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2342 - 16 de Setembro de 2017

A MORTE GLOBAL


PLUMA CAPRICHOSA


      CLARA FERREIRA ALVES


A MORTE GLOBAL


Na semana em que assistimos à destruição das Caraíbas e a mais um furacão, a Apple lançou um novo telemóvel. O lixo tecnológico irá para cemitérios em África



Acabámos de assistir à destruição das Caraíbas. Não da Florida, que concentrou as atenções, mas das Caraíbas, e nestas incluo Cuba, que passou despercebida, e as Keys americanas, habitadas por gente que deseja escapar da América e do modo de vida americano. Um modo de vida insustentável e sustentado pelo turismo terminou com o furacão. Milhões de pessoas ficaram sem casa, sem emprego, sem vida. Apesar da ajuda humanitária e financeira, e das boas intenções da reconstrução, as Caraíbas vão demorar anos a serem reconstruídas. E até lá poderão ser destruídas por outro furacão. É difícil não olhar para o espetáculo sem concluir que o sistema capitalista atingiu aqui o ponto primeiro de implosão. Ocupado em sobreviver e replicar, em “crescer”, como um sistema orgânico, o capitalismo triunfal esqueceu-se de um planeta tornado inabitável devido ao egoísmo, cupidez e ganância. Sem adversários, persegue o lucro como um vírus que destrói o hóspede. Toda a gente fala em desenvolvimento sustentável e ninguém o pratica a sério, exceto em situações de nicho em que um grupo de milionários ou multimilionários cria a própria reserva natural. O comunismo soviético ou chinês, o histórico adversário, revelou-se ainda mais assassino destrutivo do ambiente do que o capitalismo. Não admira que os visionários de Silicon Valley e Seattle, que tanto têm contribuído para a destruição da Terra, estejam a pensar em Marte.

A revolução tecnológica, e as componentes de engenharia genética e inteligência artificial, que tornarão uma boa parte da humanidade excedentária, as alterações climáticas e a sobrepopulação das zonas de abandono, guerra e pobreza, tornarão a vida impossível. As gerações futuras não existirão. Os plásticos já ultrapassam os peixes nos oceanos. Em compensação, um pequeno grupo de privilegiados está a criar os mecanismos da sua sobrevivência e replicação. Pelo menos dois autores com popularidade têm alertado para tais riscos de morte, o israelita Yuval Hariri e o americano Jeffrey Sachs. E, de certo modo, Elon Musk. A imoralidade da proposição não deterá a marcha. Todos os dias, em todos os lugares, assistimos à predação do ambiente sem que os agentes políticos mexam uma palha. A direita está ocupada em defender o sistema sem reforma, o “crescimento”, e a esquerda está ocupada em policiar o pensamento e defender quotas de voto. Nenhum sistema político consegue inverter a estupidez global. Ou, na língua franca do mercantilismo político, make our planet great again, como Macron disse ao insustentável Trump.

A situação das Caraíbas já era uma decorrência disto. Quando visitei as Bahamas, pensei que estava no paraíso, mas os nativos não beneficiavam do paraíso nem faziam por isso. As ilhas eram o recreio de turistas e de multimilionários como o mágico David Copperfield, estrelas de cinema e da música ou capitalistas da Europa e de Wall Street. Entre os offshores e o turismo sem freio, a população das ilhas mais não era do que um corpo de servos. Um escultor nascido em Nassau, com quem falei, dizia que o paraíso estava condenado em meia dúzia de anos. Sheldon Adelson, o riquíssimo dono de hotéis e casinos, construíra Atlantis, um complexo hoteleiro género Disneylândia, um monstro na paisagem, onde empregava alguns locais. Atrás dele, investidores chineses e dinheiro do Golfo Pérsico preparavam-se para replicar a receita e construir mais e maior. Privatizando as praias azuis e límpidas, deixaram para a população as praias de areia suja e água turva, perturbadas pelas descargas dos esgotos ou o lixo. Nassau, a capital, era um ponto de desembarque dos cruzeiros, e a rua principal uma mistura de pubs e lojas duty-free. A fraca infraestrutura servia os turistas dos cruzeiros, aves de arribação. No resto da ilha, predominavam casas de estrangeiros abastados e um complexo de terceira idade, de superluxo, onde vivia Sean Connery. Os locais tinham por isto tudo uma mistura de indiferença e orgulho. Logo abaixo das Bahamas, as Turks e Caicos eram o domínio privado de meia dúzia de bilionários e amigos que tinham construído pistas de aviões para os jatos, centros de meditação, piscinas e ginásios, pequenos paraísos cheios de preocupações ecológicas restritas ao perímetro. O resto punha a farda e o avental.

Como bem notou Jeffrey Sachs, com exceção de Richard Branson nenhum destes proprietários apareceu a defender a necessidade de ajudar financeiramente a região e a população. Muito menos Wall Street. No ponto em que estamos, o sistema capitalista apoderou-se de tudo e a população mundial esclarecida permanece gelada. Alguém se há de ocupar disso. Na semana em que assistimos à destruição das Caraíbas e a mais um furacão, a Apple lançou um novo telemóvel. Fora com o velho. O lixo tecnológico irá para cemitérios em África. O sistema é tão inteligente que inventou uma maneira de rentabilizar a catástrofe através do espetáculo em direto proporcionado pelos media e os telemóveis. As pessoas filmam a própria desgraça e oferecem-na grátis. As televisões inventam o interminável direto dentro da tempestade para cativar a fugaz audiência. Sic transit gloria mundi.


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2342 - 16 de Setembro de 2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O PS e o vazio ideológico e político


A lagartixa e o jacaré

O PS e o vazio ideológico e político



   
José Pacheco Pereira

Como Cavaco Silva e Passos Coelho admitiram, a política que apoiavam e seguiam era para décadas de “ajustamento”, e tinham razão no tempo, embora estivessem completamente errados nos resultados e no menosprezo pelos factores democráticos que afectam a economia


O PS está no Governo com base num arranjo parlamentar sui generis na história portuguesa e em muita da história política europeia do pós-guerra. Sabemos que essa aliança foi resultado de um acto defensivo, e que foi de facto uma coligação negativa, para impedir os partidos do PAF de chegarem ao poder. Como solução de conveniência, ela é sólida na defensiva, mas evita discutir qualquer ofensiva, ou seja qualquer futuro. Sempre que essa questão se coloca, a coligação é frágil, como se vê pelo modo como evita discutir qualquer cenário relativo às próximas eleições legislativas. Ora essas eleições vão-se fazer num contexto diferente das de 2015, mas também na sua continuidade. Na verdade, o dilema de 2015, entre o PS, PCP e BE e os defensores do "ajustamento", PSD e CDS, não vai desaparecer de todo, embora seja natural que enfraqueça. Ora, enfraquecendo o dilema político que deu origem à coligação, enfraquecem também os laços entre os partidos PS, PCP e BE, cuja competição eleitoral nas próximas legislativas favorece a direita, muito mais unida quer pelos interesses quer pela política.

Acresce que o balanço positivo destes anos de "geringonça" tem também servido para manter a unidade das forças coligadas, mas não oculta uma contradição que está subsumida em toda a política portuguesa e que tem a ver com as baias da política do Tratado Orçamental e do Eurogrupo e as necessidades de desenvolvimento do País. Ora a conjuntura tem sido muito favorável, mas não deixa de ser conjuntura, enquanto que as imposições "europeias" são estruturais.

A euforia actual é boa para a propaganda, mas má para a cabeça. O que tem sido possível nos últimos anos, e esse é o grande mérito do Governo PS e dos seus aliados, é inverter o alvo da austeridade, permitindo alguma folga salarial, no emprego e nas reformas e pensões, particularmente nos sectores mais empobrecidos da sociedade. A mudança de discurso é igualmente relevante, e tem papel nas expectativas, e as expectativas têm um valor económico e social. Mas é mais o alívio pelo fim da política da troika, do que o fim da política da troika, que continua, a começar pela obsessão do défice zero, a melhor garantia de que um país como Portugal está condenado a longos anos de estagnação. Como Cavaco Silva e Passos Coelho admitiram, a política que apoiavam e seguiam era para décadas de "ajustamento", e tinham razão no tempo, embora estivessem completamente errados nos resultados e no menosprezo pelos factores democráticos que afectam a economia, como se viu nas eleições legislativas com o milagre da "geringonça".

Ilustração Susana Villar


Dito isto tudo, a questão é saber por que razão o PS, o partido mais interessado em discutir a actual situação e o seu desenvolvimento futuro, um partido que sempre se gabou do seu papel "intelectual", foge como o diabo da cruz a fazer essa análise e discussão. A resposta é simples e é má: o PS tornou-se um partido de poder com uma nomenclatura pouco diferente nos seus interesses da do PSD, com quem partilha esta morte "teórica". Está à espera que Costa e o seu grupo decidam ou dos aspectos mais pragmáticos das relações na coligação, e por isso não quer, como o PSD não quer, qualificar o debate político. Este é um dos factores da crise política da democracia e favorece o populismo.

Os perigos nucleares

Talvez o país do mundo que tem armas nucleares e é mais perigoso seja o Paquistão. Vários candidatos a essa perigosidade incluem com proeminência o Irão. Dadas as circunstâncias, quer a Índia quer Israel (que oficialmente não é nuclear, mas é) são igualmente detentores perigosos de armas nucleares. Na verdade, quase todos os países nucleares são potencialmente mais perigosos, a começar pela Rússia e pela China, mas a acrescentar como candidato perigoso por instável, os EUA de Trump. Nunca, nos tempos desde que há armas nucleares, um Presidente americano mostrou tão evidente vontade de carregar no botão vermelho, na crise com a Coreia da Norte. Os media dizem que é "retórica", mas nada trivializa mais um acto hediondo do que tornar-se uma ameaça habitual, quase normal. Os EUA para "esmagar" a Coreia do Norte não precisam de a atacar com armas nucleares, nem sequer como retaliação. Trump devia meter o "fogo e a fúria" no bolso.

Agora, vamos à Coreia do Norte. A primeira coisa que convém lembrar, é que a Coreia do Norte já é um país nuclear há alguns anos, não é de agora. O que se passa é que com o avanço do programa de mísseis, a capacidade de projectar um ataque nuclear para território americano vai-se tornando mais efectiva. Os americanos passam a ser um alvo, e como dizia um senador republicano, se houver uma guerra mais vale que os mortos sejam os de "lá", ou seja os aliados locais dos EUA, a Coreia do Sul e o Japão. Esquece-se que para a Coreia do Sul e o Japão a ameaça norte-coreana é mais que real, incluindo a ameaça nuclear, aí sim presente e não hipotética.

De facto, todas as opções militares são más, e é natural que mesmo assim os EUA não as recusem, visto que a ameaça norte-coreana, podendo ainda ser virtual para o território americano, é real para todo o sistema de forças e alianças americanas na região. Porém, os EUA, actuando em conjunto com a comunidade internacional, que mais do que nunca se mostrou unida na reacção aos avanços nucleares, tem ainda o espaço das sanções. Estas podem ser determinantes em impedir o regime coreano de continuar o seu programa, embora seja pouco provável que o façam recuar naquilo que já adquiriu.

Em grande parte para atacar Obama e Clinton, Trump repete todos os dias que as sanções não resultaram. Sim, é verdade, não resultaram até agora, mas não eram da mesma natureza das que agora foram aprovadas ou de outras que o possam ser, que se forem aplicadas com firmeza, podem impedir os avanços tecnológicos e industriais que são necessários ao programa nuclear norte-coreano.

Mas para isso é preciso tempo, e a belicosidade dos protagonistas impede que o tempo exerça os seus efeitos. Os que argumentam que o tempo nunca impediu os norte-coreanos de avançarem com o seu programa mais depressa do que se imaginava, têm razão. Os norte-coreanos vão ter mais algum tempo, podem dar novos passos, mas nenhum país que não é auto-suficiente pode resistir às sanções actuais e futuras, incluindo um embargo total, como, com mais sabedoria e intelligence, a Rússia e China afirmam.

Revista SÁBADO, 10-09-2017

domingo, 10 de setembro de 2017

As judiarias portuenses


As judiarias portuenses

A mais antiga que se conhece ficava na Cividade perto da catedral



Um fiel leitor destas crónicas andou a ler, com proveito, pelos vistos, o Daniel Filipe que, em "Discurso so­bre a cidade" (Editorial Presença, 1977), tem uma belíssima crónica acerca da judiaria de Miragaia, e pergunta por quanto tempo os judeus se mantiveram naquele bairro portuense; se ainda há por lá vestígios dessa passagem e do seu cemitério, o almocávar; e da razão por que D. João I transferiu dali os judeus para o Olival.
 
Do tempo da judiaria em Miragaia, existe somente a memória na toponímia local: es­cadas, pátio e Rua do Monte dos Judeus.

Nós não sabemos, com rigor, desde quan­do os judeus se instalaram no Porto. Mas sa­bemos uma coisa: esta velha e histórica cida­de, devido à sua privilegiada situação geo­gráfica, junto a um rio e perto de um impor­tante porto de mar, na embocadura desse mesmo rio, desde as mais remotas eras que atraiu a atenção de mercadores e negocian­tes que se dedicavam a negócios de grosso trato.

Sabendo nós da propensão dos judeus para este lucrativo tipo de atividade, não é de excluir que desde muito cedo eles por cá te­nham andado a participar e a impulsionar a vida económica e comercial do velho burgo tripeiro.

.A informação mais antiga que se conhece da existência de uma judiaria no Porto data do século XIV (1350) e refere-se a uma comu­na judaica que sob a designação de "judiaria velha" teria existido perto da Cividade, que ficava, por aquele tempo, ao cimo da Rua do Corpo da Guarda. Desapareceu com a aber­tura da Avenida de D. Afonso Henriques.

Posteriormente, ou seja, doze anos depois (1362), a judiaria aparece junto à Rua das Al-das, que, nessa altura, era o nome que se dava à atual Rua de Sant'Ana. Sabemos isso pela leitura do testamento do bispo D. Afonso Pi­res, falecido nesse ano, e que deixou ao ca­bido (cónegos da Sé) "umas casas que estão na rua que chamam da sinagoga e que ficam acima das Aldas".

Há notícias que referem a passagem dos judeus pelo sítio da Munhota, que ficava, sen­sivelmente, ao fundo da antiga Rua da Ferra­ria de Baixo, a atual Rua de "O Comércio do Porto", como se pode ler num documento do Arquivo Municipal: "nós, comuna dos judeus da dita cidade do Porto, os quais somos jun­tos na rua de sobre a Munhota, na loja da casa de Lourenço Peres, marinheiro, que é da nos­sa oração".

Em 1386, os filhos de Israel já estavam acantonados na judiaria de Miragaia. Foi nes­se ano que o nosso rei D. João I pediu à Câ­mara do Porto que disponibilizasse um lugar para nele se construir uma judiaria nova, onde se deviam acomodar os judeus.

A Câmara deu seguimento ao pedido real e disponibilizou um sítio, no Campo do Oli­val, da parte de dentro das muralhas, para aí se construírem as moradias destinadas aos judeus.

E assim aparece a judiaria nova do Oli­val. Os seus limites eram traçados por ca­sas que não tinham saída para as ruas cris­tãs, digamos assim. E nas outras partes por muros "altos e fortes".

Que razões terão levado D. João I a or­denar a mudança dos judeus de Miragaia para o Olival? Dizem alguns historiadores que foi para cumprir uma promessa que havia feito quando ainda era regedor do reino. Asseveram outros que dada a escas­sez de espaço na judiaria de Miragaia, ha­via muitos judeus que viviam fora dela e que estavam sujeitos, por isso, "a muitas injúrias, doestos e vexações" por parte dos cristãos e que foi para evitar tais confron­tos que o rei determinou a criação da nova comuna.

E o almocávar, o cemitério judaico, onde ficava? De certeza que em Miragaia. O sí­tio exato é difícil de determinar. Há um do­cumento de 1452 que ainda fala do cemi­tério. Trata-se de um aforamento. A certa altura, na definição de umas confronta­ções, lê-se o seguinte: "e por cima, contra o Monte, parte com o jazigo dos judeus, e da outra parte com a estrada que vai para Miragaia".

Noutro documento, este de venda, na parte também referente às confrontações, encontramos isto: "um cerrado tapado de parede, com suas árvores de fruta e laran­jeiras, o qual está acima do dito arrabalde de Miragaia, onde chamam a pedra escor­regadia que parte de uma parte com o enxido de Afonso Pires e da outra parte com o chão desta pedra que se chama e foi jazi­go dos judeus e que fraga o caminho que desce da porta do Olival para Miragaia".

Frei Fernando da Soledade, que em 1410 escreveu "A história seráfica", ao referir-se, nesta obra, à autorização dada por D. João I a Gil Vaz da Cunha para ele construir casas em Miragaia, refere que naquele si­tio, "pela encosta do pequeno monte [mons siculus - Monchique] que vai su­bindo para ocidente, em que tinham ha­bitado os judeus e havia uma sinagoga abandonada, viam-se ainda muitos mo­numentos em que eram sepultados os professores [que professavam] das ceri­mónias judaicas".
 

História do Convento de Monchique 

Como é geralmente sabido, o Convento de Monchique co­meçou a ser construído so­bre as ruínas da antiga sina­goga de Miragaia, em 1545, por iniciativa de D. Pedro da Cunha Coutinho e sua mu­lher, D. Brites de Vilhena. Foi o único convento da cidade que se construiu por iniciati­va particular. Possuidor de uma avultada fortuna e de outros bens materiais consi­deráveis, o referido casal não tinha filhos que dessem continuidade à administra­ção desses bens e prometeu construir um mosteiro se ti­vesse herdeiro. Assim nasce o convento da Madre de Deus de Monchique de reli­giosas da Ordem de S. Fran­cisco. Acedia-se ao mosteiro através de um amplo pátio onde ficava a porta (à es­querda na foto) da igreja construída no belo estilo manuelino. Com a extinção das ordens religiosas, foi tudo posto a leilão. O mos­teiro teve um comprador. A igreja foi para outro dono. Andam lá obras. Parece que vai ser mais um hotel...

A história do "Amor de Perdição" passa pelo mosteiro de Monchique
 
JORNAL DE NOTÍCIAS, 10 SET, 2017

sábado, 9 de setembro de 2017

O ESPERMATOZOIDE COBARDE

HÁ HOMEM

    LUÍS PEDRO NUNES

O ESPERMATOZOIDE COBARDE
Acabou o mito do campeão invencível. Ei-lo stressado e sob ameaças várias

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Sei que aparentemente o ciclo noticioso tem dado coisas mais importantes para nos ralar. A eventual guerra nuclear com a Coreia do Norte (uma excitação), os saltos altos da senhora Trump nas cheias (um must) ou as batalhas pela razão no caso dos labirintos do género nos livros para infantas e infantes (a luta pelo Bem e pelo Mal, pois está claro). Mas perante esta profusão temática que vai do Apocalipse a qualquer momento ao nosso desprezo civilizacional atirado à dama norte-americana — sem esquecer a luta de valores morais pela igualdade cromática — eis que um título do “El País” capta o meu olhar: “Los espermatozoides van con guardespaldas”, os girinos masculinos tem guarda-costas. Eh lá! Ora, isto sim, se não é uma revolução copérnica, anda lá perto.

Ainda só escrevi um parágrafo e já sinto ondas telúricas de choque vindas do repúdio de dois tipos de leitores: o primeiro a perguntar-se porque diabo este tema pode interessar; o outro, que se dedica às coisas da Ciência, a questionar-se, porque raio um leigo se atreve a entrar em temas que obviamente não domina — com riscos evidentes de dizer asneiras. Tenho saco para responder. A ideia de que somos fruto de um estupendo espermatozoide vencedor, que derrotou toda a concorrência para chegar ao óvulo — o melhor dos melhores — e que, numa corrida insana, se atirou de cabeça e a abanar a caudinha feito doidão, é uma imagem redutora e mera propaganda sexista à ideia de um vencedor que faz o seu destino com a sua própria cabecinha cónica. Basta ter uma oportunidade, estar na hora certa no momento certo, para vencer a concorrência (e quantos milhares de milhões não tiveram as suas hipóteses cerceadas por uma pílula ou um preservativo). Isto era mais o espermatozoide american dream dos meados do século passado, quer-me parecer.

Tenho constatado que a teoria dominante tem vindo a mudar. Lembro-me de ter ficado a matutar com o depoimento de um cientista a alertar que o comportamento tribal dos espermatozoides em direção ao óvulo não era o mesmo que se via na lâmina vidrada bidimensional de um microscópio. Os bichos, no seu meio natural, teriam reações national geographic mais diversas que não apenas aquela do acelerar unidirecional louco, sem olhar para trás.

Estive até agora a omitir deliberadamente o livro “Guerra do Esperma”. Quem está interessado neste tema sabe que o espermatozoide nunca mais foi o mesmo desde que, em 1996, o biólogo evolucionista best-seller, Robin Baker, conseguiu vender a ideia que há um “mortal kombat — you win!” pelo ovo feminino, tanto fora como dentro da mulher. Esqueçamos a questão exterior — pois é disso que falamos todos os dias quando falamos de comportamentos —, mas, dentro, Baker defendeu que o sistema reprodutivo masculino está feito para tentar anular a presença de outros machos (a forma do pénis é a de falo que suga matéria) e os espermatozoides travam uma guerra na qual uma espécie serve para matar os rivais de outros machos — caso os encontre dentro da mulher. Estudos posteriores não encontram estes kamikazes nos humanos.

Ora, isto já por si era complicado. A meu ver. Em vez da analogia olímpica do “que vença o melhor bichinho”, não. Havia uma pré-escolha dinástica. No interior das profundezas masculinas haveria um sistema de castas, nada democrático, nada casuístico. O escroto masculino seria tipo Downton Abbey. Havia a classe dos que poderiam chegar ao “prémio”. E os outros, a ralé, os que serviam apenas para proteger o “o eleito”.

Eis-nos, pois, chegados à notícia do “El País”. E o que nos diz ela? Que os espermatozoides necessitam de guarda-costas. Os pobrezinhos. Para fazer o caminho até ao óvulo, os fulanos careceriam de um corpo de segurança — compostos por uns tais de macrófagos —, não vão ser atacados, ai, tadinhos. Sinto uma certa aproximação do húmus trumpiano ao sistema reprodutor masculino.

Se fosse um tipo com eles no sítio, diria que a ciência está a copiar os movimentos da sociedade. Do espermatozoide musculado yuppie que seguia só e valente a assobiar até ao óvulo, passou-se a um ungido que necessita de ser conduzido e finalmente a um acagaçado que tem de contratar uns matulões para o levar até ao porteiro. Mas não o faço porque não sou tão afoito assim.

E nada disto é para rir. Note-se outra notícia recente e que tem a ver com a queda a pique do número de espermatozoides nos países ocidentais – números revelados há três semanas. Segundo estes dados , e com base em 185 estudos realizados em cinco continentes, a quantidade e qualidade do esperma dos homens dos países ocidentais caiu abruptamente, na ordem dos 50%. Passou-se de qualquer coisa como 99 milhões por mililitro para 47 milhões. Imagine que era a dívida pública. Estávamos aos saltos de alegria. E não é só a quantidade, é a qualidade. É que os bichinhos estão stressados, cansados, desanimados. E sim, o culpado “é o estilo de vida ocidental”. Ora, já disse que não vou entrar em questões de género, nem tomar as dores dos homens. Mas isto não vai acabar bem. Para todos.

Ah, e tenha cuidado, leitor. Sabe que, com a idade, vai perdendo ainda mais capacidade de produzir os ditos? A juntar a essa quebra civilizacional, qualquer dia ainda lhe vêm dizer que tem uma dívida ao Estado de alguns biliões de espermatozóides.


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2341 - 9 de Setembro de 2017

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