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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

VERGÍLIO FERREIRA | FICHEIROS SECRETOS


VERGÍLIO FERREIRA


FICHEIROS SECRETOS


Um livro, fruto de uma investigação de extrema minúcia no arquivo dos Seminários da Guarda e do Fundão, permite reconstituir parte desconhecida da vida de Vergílio Ferreira, um dos mais notáveis escritores portugueses do século XX

Texto António Valdemar

Com a classificação de Muito Bom, no exame geral da quarta classe do ensino primário, Vergílio Ferreira entrou, aos 10 anos, em 1926, no Seminário do Fundão FOTO Inácio Ludgero/O Jornal

O escritor, o poeta, o filósofo e outras figuras intelectuais e artísticas deverão ser estudados, a partir da sua vida real, de atos e factos concretos que surgiram desde o nascimento até à morte; ou os estudos e interpretações deverão, apenas, circunscrever-se.

Arnaldo Saraiva, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem adotado a primeira destas metodologias numa série de folhetos acerca de figuras públicas. O último intitula-se: “Vergílio Ferreira, Seminarista nos Seminários do Fundão e da Guarda”.

Uma investigação de extrema minúcia permitiu-lhe reconstituir o que se ignorava das origens familiares: o pai, fogueteiro, a mãe, doméstica, emigrantes nos Estados Unidos e que emprestavam dinheiro a juro; a criança a cargo da avó e das tias; Vergílio Ferreira estudante aplicado na escola primária e com aproximação diária à igreja (o tio-avô era o pároco), a ajudar à missa, e em latim, antes dos seis anos; a tocar violino e a participar nas atividades de organizações católicas (Congregação dos Filhos de Maria e Agregação do Santíssimo Sacramento).

Com a classificação de Muito Bom, no exame geral da quarta classe do ensino primário, entrou, aos 10 anos, em 1926, no Seminário do Fundão. Arnaldo Saraiva procurou, fundamentalmente, apurar tudo o que vem (e não vem) na obra de monsenhor Alfeu dos Santos Pires “História e Vida dos Seminários da Guarda e do Fundão”, noutros estudos monográficos e em depoimentos de contemporâneos.

Evitou Vergílio Ferreira, em “Manhã Submersa”, em “Estrela Polar”, no “Diário” e em “Conta Corrente” descrever situações degradantes que lhe marcaram a infância e adolescência até aos 16 anos. Tentou resumir esse submundo de reacionarismo e de intolerância numa frase abrangente: “solidão, desconforto, rigidez de internato.”

CULTURA DE HIPOCRISIA
No entanto, a investigação de Arnaldo Saraiva reuniu elementos esclarecedores: “O dia a dia do Seminário do Fundão favorecia por vezes menos a firmeza ou o fortalecimento da vocação do que a hipocrisia e os sentimentos de medo, culpa, frustração, desamparo e tristeza, que nem podiam ser expressos em cartas, porque estas eram obrigatoriamente entregues abertas; e, é claro, que nenhum seminarista recebia correspondência que não tivesse sido aberta e lida por um superior.” E acrescenta: “Os seminaristas não eram tão incentivados a usar ou a desenvolver as suas capacidades criticas como a cumprir e valorizar os deveres de obediência e de humildade.” (pág. 22)

O PECADO DA CARNE
Todavia, ao caracterizar o espaço fechado e asfixiante do Seminário do Fundão, Arnaldo Saraiva escreve: “O tempo diário gasto, sobretudo, em rituais religiosos” (...) “missa, terço, rezas, prédicas, exames de consciência e retiros, mais valorizados do que o tempo das aulas ou das salas de estudo”. (...) “a regra do silêncio se impunha até nas horas das refeições”. (...) E também as punições frequentes: “A imposição de uma disciplina militar ou militarista e castigando severamente mesmo pequenas infrações, que podiam merecer palmatoadas, verdascadas e bofetadas, ou largos minutos de joelhos e de pé virados para as paredes.” (págs. 21 e 22)

Arnaldo Saraiva extraiu notas manuscritas e que constam de fichas de comportamento e aproveitamento (1928-1937) de Vergílio Ferreira

Menciona a vigilância nos corredores e nas camaratas para afastar “o fantasma do pecado da carne” (sic): “As calças (obrigatoriamente pretas, como o casaco e a gravata) tinham de ser vestidas e despidas entre os lençóis; as mãos não podiam ser aquecidas nos bolsos; o entendimento entre colegas tinha de ser limitado para não conduzir a perigosíssimas amizades particulares.” (pág. 23)

Estas medidas repressivas no domínio sexual e afetivo, e a que foram submetidas gerações sucessivas — concluiu Arnaldo Saraiva — não impediram, decorridos 90 anos, que o Seminário do Fundão fechasse “as suas portas, em 2015, já depois de um escândalo que envolveu um seu vice-reitor”. (pág. 51)

NOTAS CONFIDENCIAIS
Apesar do encerramento, amplamente noticiado na comunicação social, das declarações contraditórias de bispos da diocese, de processos-crime de pedofilia julgados em tribunal e a aguardar decisões de instâncias judiciais superiores, perdura o arquivo do Seminário do Fundão. Possui fontes documentais, até agora consultadas por um número muito restrito de eclesiásticos como Alfeu dos Santos Pires e de que só chegaram ao público informações escassas e muito filtradas.

Ao ter acesso aos livros de registos, Arnaldo Saraiva extraiu notas manuscritas e que constam de fichas de comportamento e aproveitamento (1928-1937). Trata-se de avaliações de reitores e professores, advertências de diretores espirituais e denúncias de confessores que seguiam, de perto, o percurso de cada aluno, em cada ano escolar. Também se destinavam a informar o bispo da diocese da Guarda, José Alves Matoso.

Entre as observações mais significativas a propósito de Vergílio Ferreira destacam-se, nomeadamente, inteligência e aplicação “regulares”; carácter “efeminado e voluntarioso; tem muitos nervos, é um histérico”; e, ainda, por exemplo, faz “tratamento antissifilítico. É hereditária a doença.” (págs. 24 a 29)

Em “Vergílio Ferreira, Seminarista nos Seminários do Fundão e da Guarda”, Arnaldo Saraiva desfez tabus, esclareceu equívocos, desmontou opiniões falsificadas, corrigiu datas e, em especial, recolheu numerosos documentos inéditos com revelações surpreendentes. Tudo isto porque Arnaldo Saraiva reconhece que, apesar dos livros sobre Vergílio Ferreira da autoria de Maria da Glória Padrão e Helder Godinho, de Serafim Ferreira e Fernanda Irene Fonseca, entre outros estudiosos, Vergílio Ferreira “espera ainda e merece, uma biografia digna”. (pág. 7)

MANANCIAL PRODIGIOSO
O universo cadaveroso dos seminários — viveiro dos precursores da delação premiada — proporcionou a largos milhares de antigos alunos, que foram expulsos ou desistiram do sacerdócio, as habilitações indispensáveis para ingressar no funcionalismo público (Câmaras Municipais, correios, tribunais, Polícia Judiciária, PIDE, etc.) ou, então, nos cursos do magistério (primário, secundário e superior). No caso de Vergílio Ferreira serviu-lhe para fazer o liceu, entrar na Universidade de Coimbra, formar-se em Letras e lecionar, em diversos liceus, Português, Latim e Grego. A repetir, durante décadas, sempre o mesmo do mesmo.

O “exercício burocrático do ensino” — assim me declarou várias vezes — assegurava-lhe a subsistência económica e o equilíbrio financeiro. Cinco ou seis anos de vexames e de humilhações, nos seminários do Fundão e da Guarda, deram-lhe um prodigioso manancial de conhecimento vivido, para reflexões angustiantes em torno da natureza humana. Abriram caminho para se afirmar como um dos mais notáveis escritores portugueses do século XX e com legítima ambição ao Prémio Nobel da Literatura.
 
Jornal Expresso SEMANÁRIO#2338 - 19 de Agosto de 2017

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Eu não sei onde se vai legalmente buscar tanto dinheiro…

A lagartixa e o jacaré

     
José Pacheco Pereira
 


Eu não sei onde se vai legalmente buscar tanto dinheiro…



As candidaturas independentes nas autárquicas são um factor de renovação do pessoal político, e aumentam a competitividade eleitoral. Mesmo quando nessas listas estão os "rejeitados" das listas partidárias


…mas há candidaturas autárquicas que transpiram riqueza e largueza de meios por todo o lado. Acompanho, pelas razões de que falei no meu último artigo, quase 500 campanhas diferentes de concelhos e freguesias e a desproporção de meios nalguns casos é flagrante, assim como a abundância de recursos. A ostentação de meios é tão patente, que me pergunto se alguém que deve fazer essa pergunta em termos institucionais, seja a Comissão Nacional de Eleições, seja a Procuradoria, seja lá quem for, não vê o mesmo que eu vejo. Na rua, diante de todos.

Caça aos independentes

As tentativas de usar expedientes processuais para afastar listas de independentes por parte de candidaturas partidárias ou pessoas que lhes fazem o serviço, mostra como se "engole" mal o facto destas listas serem possíveis nas eleições autárquicas e, a julgar pelas últimas eleições, terem um considerável sucesso. O caso de Oeiras com Isaltino e o do Porto com Rui Moreira são exemplo disso mesmo, até porque, quer num caso quer noutro, se trata de candidaturas potencialmente ganhadoras.

Será muito difícil convencer alguém em Oeiras que assinou a propositura de Isaltino sem saber quem estava a apoiar. Isaltino é uma figura muito controversa, muito conhecida e muito popular, e quem de perto ou de longe lhe deu o nome para assinar a candidatura sabia muito bem o que estava a fazer. É muito mais provável que quem tenha assinado as candidaturas de Paulo Vistas ou em particular do candidato do PSD, saiba bastante menos o que está a fazer, e vá ao engano.

Do mesmo modo, o PSD do Porto que processou Rui Moreira por usar a expressão o "Porto é o meu partido", objectando que a palavra "partido" não pode ser usada numa candidatura independente, também não tem estado em Portugal nos últimos anos. Só dando exemplos que recentemente me passaram pelas mãos, o PS em Favaios, freguesia de Alijó tem uma lista intitulada "Favaios o nosso partido", ecoando a lista concelhia que diz "o concelho é o nosso partido", e a lista de uma candidatura independente na Vidigueira diz "o nosso partido é a Vidigueira". E movimento "O nosso partido é a Lourinhã"? Dei exemplos de campanhas eleitorais do Portugal profundo, mas há muito mais por todo o lado.

As candidaturas independentes nas autárquicas são um factor de renovação do pessoal político, e aumentam a competitividade eleitoral. Mesmo quando nessas listas estão os "rejeitados" das listas partidárias, como ainda é muito comum, isso transporta para o eleitorado a decisão que deveria corresponder a uma maior democraticidade interna. Mas é essencialmente o aumento da competitividade que preocupa os partidos e por isso, quer a lei, quer as dificuldades impostas às candidaturas independentes, destinam-se a armadilhar a competição e obrigar a maior militância, maior organização e muitas vezes ter de concorrer com muito pouco dinheiro.

Obama empurrava os conflitos para a frente, Trump torna-os intratáveis e perigosos

É verdade que a administração Obama procrastinava. Adiava decisões, ou não sabia que decisões tomar e isso em certos conflitos, agrava-os. Noutros, é uma maneira de os ajudar a resolver. Não há regra universal para todos os conflitos principalmente os que dizem respeito à política externa. Quanto a questões de defesa e segurança já o adiamento sistemático é por regra uma má solução e o caso da Coreia do Norte é disso um bom exemplo. Muitas críticas a Obama e Hillary Clinton têm por isso toda a razão de ser.

Mas isso não justifica o que Trump está a fazer, que é tornar os conflitos intratáveis, muito difíceis de resolver sem soluções muito voláteis e por isso muito perigosas. O caso da Coreia do Norte é também o melhor exemplo, tratado com todas as características de Trump, ignorância, desleixo, bravado, mentalidade de forcado diante de um touro nuclear.

Na mesma semana em que os EUA tinham tido uma importante vitória diplomática com a aprovação unânime de sanções com o voto da Rússia e da China, não foi capaz de esperar pelo resultado da sua aplicação. Se queria manter uma política firme, podia pressionar a sua aplicação rigorosa, até porque estas sanções são muito mais onerosas para o regime da Coreia do que as anteriores. Mas não. Resolveu desencadear uma retórica de ferro e fogo, que incomodou os seus aliados, acentuou o isolamento dos EUA, reforçando o principal factor de decadência da influência americana - ele mesmo, o Presidente que muitos líderes mundiais consideram incompetente e perigoso.
Revista SÁBADO, 20-08-2017

domingo, 20 de agosto de 2017

História de um ribeiro


História de um ribeiro


Nasce no alto do monte da Fontinha e desagua no rio da Vila



O leitor é capaz de imaginar as águas de um ribeiro sussurrante a correr, por entre umbrosos pomares e vi­çosas hortas, naquela área, hoje to­talmente urbanizada, compreendi­da entre as ruas de Santa Catarina, no troço que vai da Rua de Passos Manuel à Rua Formosa; e a Rua de Sá da Bandeira, na parte que liga a Praça de D. João I ao Merca­do do Bolhão ?
 
Mas é verdade. Correram a céu aberto por aquelas bandas as águas mansas de um ribei­ro, e nem foi assim há tanto tempo.

O ribeiro em causa tinha a sua nascente lá em cima, no alto da Fontinha, circuitava, ao longo do seu curso, vários terrenos agrícolas, hortas e pomares e juntava-se, onde hoje está a Praça de Almeida Garrett, em frente à Es­tação de S. Bento, a mais dois regatos, come­çando aí a formar o célebre rio da Vila. Todos esses veios de água continuam a deslizar no primitivo leito, mas, agora, devidamente en­canados.

A maior parte dos terrenos, incluindo hor­tas, pomares e terras de cultivo, que eram atravessados pelas águas do citado ribeiro, que também os regava, pertencia à D. Antó­nia Adelaide Ferreira, a célebre Ferreirinha da Régua, que, além das casas apalaçadas que possuía na Rua de Vilar, onde agora funcio­na o instituto do arcediago Ricardo van Zeller; e o palacete da Trindade, demolido para a construção do palácio dos Correios; também possuía uma casa nobre na Rua de Santa Catarina, no sítio onde depois se cons­truiu o Grande Hotel do Porto.

Era a esta última casa da 'Ferreirinha" que estavam anexos os terrenos que eram sulca­dos pelas águas do ribeiro. Em 1875, há me­nos de século e meio, D. Antónia Adelaide Ferreira cedeu uma parte significativa dos terrenos que possuía da Rua de Santa Cata­rina para baixo, para que toda aquela zona fosse urbanizada.

E foi na sequência desse desenvolvimen­to urbanístico que se rasgaram as ruas de Sá da Bandeira (1877), até à Rua Formosa; Rua de Passos Manuel (começada em 1874) na parte que vai da Rua de Sá da Bandeira até à Rua de Santa Catarina; e a antiga Travessa da Rua de Passos Manuel, hoje denominada Rua do Ateneu Comercial do Porto. A urbanização desta antiga travessa obrigou ao encanamen­to do tal ribeiro que nascia no monte da Fon­tinha e que passava por aqui.

As obras de construção das ruas atrás ci­tadas deram origem a que se fizessem alte­rações noutras artérias da zona. Uma dessas modificações aconteceu numa esconsa e tor­tuosa viela a que, ainda nos começos do sé­culo XIX, davam o nome de Viela das Pom­bas. É a atual Rua de António Pedro que tam­bém já teve a designação da Travessa do Grande Hotel por ter o seu início, precisa­mente, junto do edifício do Grande Hotel do Porto.

Era uma serventia estreita e tortuosa que foi ligeiramente alargada, utilizando-se, para esse alargamento, terrenos que faziam par­te das propriedades de D. Antónia Adelai­de Ferreira.

A antiga Viela das Pombas, antes da exis­tência da Rua de Sá da Bandeira, era utili­zada por quem, por exemplo, pretendesse ir da Rua de Santa Catarina, para as imedia­ções da Cancela Velha, pitoresca zona da ci­dade que ficava, sensivelmente, nas proxi­midades do cruzamento da Rua do Bonjar­dim com a Rua Formosa.

A Viela das Pombas era bastante exten­sa. Começava, como já foi dito, na Rua de Santa Catarina, ao lado do edifício do Gran­de Hotel do Porto, e terminava na referida Cancela Velha. No seu trajeto, fazia ligação com a célebre Viela da Neta, de que existe um pequeno vestígio, agora entaipado, a que se deu o nome de Travessa da Rua For­mosa.

Começa esse vestígio na Rua Formosa, em frente ao palácio do conde do Bolhão e termina na Rua de Sá da Bandeira. A placa toponímica com esta última designação ainda é visível do lado da Rua de Sá da Ban­deira.

Por aqui passava a Viela das Pombas que, pela outra viela, a da Neta, ligava com a de­saparecida Cancela Velha. Este topónimo existe agora, somente, no nome de um café daquele sítio.

Devia ser bem curiosa esta parte da cida­de nos finais do século XVIII, começos do século XIX. A Rua do Bonjardim, nesta par­te do seu longo traçado, tinha o nome de Rua do Paraíso. Ali perto, nas traseiras do Palácio Atlântico, existiu o Pátio do Paraíso, onde os Bombeiros Voluntários do Porto ti­veram o seu primeiro quartel. Este pátio foi, até há bem pouco tempo, um logradouro público. Chegou a funcionar ali, ainda nos nossos dias, um parque de estacionamen­to. Tinha duas entradas; uma pela Rua do Bonjardim, outra pela Rua de Sá da Bandei­ra. Agora, está fechado e consta que é pro­priedade privada. Tal como a travessa da Rua Formosa.

Como nota de curiosidade, vamos citar alguns nomes e designações bastante cu­riosas com que antigamente se identifica­vam sítios, locais e fontes existentes nesta zona da cidade; Viela da Fonte da Neta (1741); Viela da Neta junto da Quinta do Pai Ambrósio (1757); Quinta da Viela da Neta (1772); Rua da Neta (1758). •
 

A história da abertura de uma praça 
No espaço urbanístico a que nos temos vindo a referir, foi aberta, já nos nossos dias, a Praça de D. João I. As obras decorreram rapidamente e sem sobressaltos técnicos nem entraves burocráticos de maior. Para que fosse possível a construção deste amplo espaço, teve que ser sacrificada uma correnteza de casas com seus estabele­cimentos no rés-do-chão, que ficavam mesmo defronte (foto) da entrada da Rua de Passos Manuel. Da parte da Rua do Bonjardim, também se demoliram bastantes edi­fícios, com a diferença de que os deste lado eram bem mais antigos do que os da Rua de Sá da Bandeira. Um deles ti­nha um significado histórico muito especial para a nossa cidade, por ter sido nele que fizeram as suas reuniões se­cretas os homens do Siné­drio, uma organização secre­ta através da qual se fez a re­volução liberal de 24 de agosto de 1820 - a primeira revolução liberal que houve em Portugal.

Passos Manuel (José) morou na Viela da Neta

Jornal de Notícias, 20 Ago, 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

O MEU CAVALO POR UM SENSOR

HÁ HOMEM

   LUÍS PEDRO NUNES



O MEU CAVALO POR UM SENSOR


Até os dramas de viagem já não são furos


FOTO Getty Images

Estou numa estação de serviço. A mota, sofisticadíssima, alguns 1200 cc, olha para mim com ar de soberba. Funciona tudo. Está impecável. Bonita e gostosa. No entanto, a minha situação é pior do que se tivesse uma avaria complexa, centralina ou lá o que é. Algures, num qualquer quilómetro de autoestrada, terei perdido a chave. Melhor: aquilo a que agora chamam de chave e que faz a mota funcionar — um sensor que funciona por proximidade — saltou de forma suicida do bolso das calças para o desconhecido. Quando a parei já não tinha comigo esse totem mágico para voltar a pôr a trabalhar o monstrengo rocinante. A dignidade caiu no chão, espalhou-se como óleo velho e escorreu para a sarjeta, enquanto o meu companheiro de viagem bufava como uma velha chaleira em lume forte.

Perder as chaves da viatura sempre foi um clássico. Muitas perdi, bastantes, quase todas, encontrei. Ora, antigamente quem perdia chaves de um veículo imaginava o percurso que tinha feito a pé e onde poderia ter tido o descuido. Até porque tinha de colocar a chave na ignição, pelo que só nas imediações tal podia ter acontecido. Agora, tenho como hipótese de investigação mais de 100 quilómetros de autoestrada e mais umas dezenas de quilómetros de estrada nacional. E uma 2ª chave que está a centenas de quilómetros e poderá igualmente estar em parte incerta. As viagens têm sempre estes momentos que parecem nós cegos e nunca se irão desatar. Irrita que hoje em dia viajar seja uma experiência que foi sendo raptada pela tecnologia. O telemóvel até já entrou no meu capacete. O que para muitos não será novidade. Para mim foi. E é bizarro.

A conversa sobre as viagens de mota serem experiências de liberdade, mesmo com a obrigatoriedade de capacete a restringir o cabelo ao vento, têm muito a ver com a exigência do silêncio e a ausência de diálogo com outro ser humano durante horas. É mesmo verdade. Estrada, algum barulho, mais ou menos conforto, e os humores dos elementos em castigar ou não o corpinho com vento, chuva, frio, calor, o que for. As viagens longas de mota obrigam a uma certa capacidade para não pensar — o que muitos homens conseguem facilmente — ou a um necessário confronto consigo mesmo. Há que enfrentar os seus próprios pensamentos. Não há fuga, smartphones, SMS ou qualquer escape. Esse momento introspetivo é algo cada vez mais raro. E, sim, a tecnologia é o que nos ajuda a fugir de fantasmas, da má consciência ou da mera reflexão sobre a nossa vida.

Voltemos à viagem de mota. A ideia do intercomunicador é boa. Com um toque no capacete posso falar com o parceiro que vai na outra mota. Nada de sinais de luzes para mandar parar ou alertar que nos enganámos. Mas se quiser posso emparelhar com o telemóvel. E aí já posso receber chamadas. E emparelhar com o relógio do smartphone e ver os e-mails e SMS a pingar. Está-se a ver onde é que isto vai dar. Uma viagem de mota em conference call a resolver questões de trabalho pendentes. E, claro, fixar o telemóvel ali à frente, localizar-me no Google maps, marcar hotel na margem da estrada tirando apenas uma luva. A aventura é não ficar sem bateria, isso sim uma coisa demoníaca. E conseguir encontra um local para recarregar. Um stresse pior que fugir ao Yeti.

Acredito mesmo que acabará por se dar um movimento de recuperação da nossa intimidade e do nosso tempo de exigir um passado sem estar nas mãos dos gigantes da internet, bem como a um presente que possa não ser de adição à tecnologia. E vai começar exatamente no momento em que a tecnologia, as redes e os telemóveis tiverem chegado a todos os recantos da existência. Pessoalmente, acho que o interior do meu capacete era um dos últimos lugares que estava seguro e a salvo de telemóveis. Colocava aquele elmo e o mundo exterior à estrada ficava um espaço hermético do lado de lá. Agora tenho o gestor do banco a ligar.

Há ecrãs em chuveiros de hotéis, vi casas de banho hi-tech, acordo com o telemóvel dentro da cama, embora o deixe à noite na mesa de cabeceira, há rede em quase todo o planeta. Já as aulas de ioga não frequento, mas sentem-se os “síndromes de toque fantasma”, certamente (é a sensação que se tem do telemóvel a tocar, mesmo quando está no silêncio).

A questão não reside só em como estamos agarrados a esta coisa, mas como a nossa vida é armazenada. Este é o verdadeiro busílis. E enquanto não tivermos o poder de exigir para apagarem o nosso passado digital — ou, como em Inglaterra está a acontecer, a fazer a defesa da “inocência” ou de se ter uma vida imperfeita” — estamos cada vez mais reféns. Uma vida não pode ficar arruinada por causa de um momento no YouTube ou de um drama no Facebook ou de uma fase da vida que está imortalizada numa rede. A vida é nossa, o passado não é da Google, e embora tenhamos nesta fase permitido estupidamente que a tecnologia e as redes entrassem assim nas nossas vidas, também teremos de saber recuperar os momentos que só a nós pertencem.

Digo isto com a convicção de quem está numa estação de serviço em desespero, apeado por causa de um sensor, a escrever num computador ligado por wi-fi com 10% de bateria, com um smartphone a carregar no power bank e mais n aparelhómetros ao meu lado a ficar sem bateria. Desligo agora.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2338 - 19 de Agosto de 2017

A IDADE DA CONFIANÇA


A IDADE DA CONFIANÇA


É na sexta década da vida que as mulheres se sentem melhor com o seu
corpo

FOTO getty images



Não há volta a dar, é uma fórmula diretamente proporcional: à medida que a idade aumenta, o efeito da gravidade no corpo vai-se sentindo com mais intensidade. E se este pensamento atormenta a maioria das mulheres durante o período de crescimento, agora podem ter calma. Parece mesmo que tudo se aprende com a idade, um novo estudo diz que as mulheres maduras se sentem mais confortáveis com o seu corpo.

A marca britânica M&Co juntou 1300 mulheres entre os 18 e os 80 anos num estudo que conclui que as mulheres entre os 65 e os 74 sabem usar melhor as suas rugas e se sentem mais confortáveis com o seu corpo que em qualquer outra idade.

No que ao tipo de roupa de praia e piscina diz respeito, 43% das mulheres inquiridas preferem o fato de banho, para 22% de biquínis. Já a ideia de topless não passa pela cabeça de 62% das mulheres. Quando inquiridas na inspiração de corpo de verão em roupa de praia, ganharam o corpo atlético da Halle Berry (na mítica imagem de biquíni cor de laranja e faca no coldre) e o curvilíneo da Marilyn Monroe com um clássico biquíni branco de cintura subida. Curiosamente, foi a faixa das mulheres entre os 18-34 anos que preferiu o corpo com curvas da atriz americana. O mesmo grupo que diz fazer dieta e praticar o máximo de exercício físico possível de forma a sentir-se bem de fato de banho.

O tema dos chamados corpos de verão tem sido uma das lutas feministas, que se prende principalmente com o discordar da ideia de beleza imposta pela sociedade. Numa altura em que se tem tentado espalhar a ideia de uma relação positiva com a imagem corporal. Desde as modelos plus size às campanhas das mulheres reais, passando por inserir mulheres mais velhas em anúncios de teor sexual, há mentalidades a mudar.

Contudo, o verão, já se sabe, é a estação que deixa as mulheres mais conscientes das curvas, e enquanto umas vivem bem com isso, outras sentem-se atormentadas. No entanto, parece que entre os 65 e os 74 anos seis em cada dez mulheres estão perfeitamente confortáveis seja em biquíni ou fato de banho, 51% dizem que descobriram que há coisas mais importantes com que se preocuparem do que o chamado “corpo de biquíni”. Enquanto que em todas as outras idades apenas cinco em cada dez mulheres os usa sem medos.

Se, por um lado, este estudo é uma vitória das mulheres mais velhas, por outro é um sinal de esperança para as mais novas. O dia em que vão desfilar de biquíni no areal com confiança ainda não é este verão, mas vai chegar. Ana Maria Pimentel

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2338 - 19 de Agosto de 2017

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Wiener-Dog - Uma Vida de Cão

Wiener-Dog - Uma Vida de Cão 


Título original: Wiener-Dog De: Todd Solondz Com: Ellen Burstyn, Kieran Culkin, Julie Delpy, Danny DeVito, Greta Gerwig, Tracy Letts, Zosia Mamet Género: Comédia Dramática Classificação: M/14 Outros dados: EUA, 2016, Cores, 88 min.

Quatro histórias entrelaçadas sobre várias pessoas que, em comum, tiveram o mesmo cão (de raça Dachsund, também conhecido como “salsicha”). O primeiro dono era um rapazinho que sobrevivera a um cancro. Quando a sua mãe decide deixar o seu cão no veterinário para o submeter a uma eutanásia, a assistente decide resgatá-lo, tornando-se na sua nova dona. Depois disso, o cachorro vai conhecer ainda um argumentista fracassado que sonha com a grande oportunidade da sua vida e uma idosa com um sentido de humor muito peculiar...Estreado no Festival de Cinema de Sundance (EUA), uma comédia negra da autoria de Todd Solondz (“Welcome to the Dollhouse”, “Felicidade”, “Dark Horse - Diário de Um Falhado”), que conta com a participação dos actores Ellen Burstyn, Kieran Culkin, Julie Delpy, Danny DeVito, Greta Gerwig, Tracy Letts e Zosia Mamet. PÚBLICO


Trailer



Crítica Cinema 

Ao acaso, um cão salsicha


Todd Solondz continua fiel aos propósitos da sua obra: retrato das misérias culturais, sociais e emocionais americanas: Wiener Dog.

    Luís Miguel Oliveira   3 estrelas



Um “salsicha” como testemunha silenciosa das vidas horríveis dos humanos

Meio desaparecido da vista, em parte por culpa própria (nunca mais fez um Happiness), Todd Solondz continua fiel aos propósitos essenciais da sua obra, que passam quase sempre por um retrato das misérias americanas, misérias culturais, sociais e emocionais, que não poucas vezes integra, como se fosse um primo de John Waters, por uma apropriação feroz do kitsch e do mau gosto, como um espelho posto em frente do espectador (o que é provavelmente uma razão da progressiva “neutralização” do seu cinema: o espectador que ele afronta não é o espectador que, em princípio, vai ver os seus filmes). O seu filme anterior, Dark Horse, não passava muito dessa variação watersiana sobre o total descalabro do american way of life quando observado nos subúrbios alimentados a fast food, centros comerciais e televisão.

Wiener Dog é um pouco melhor: o estratagema narrativo (se calhar colhido no burro Baltazar de Bresson) centra-se num cão, da raça a que em português chamamos “salsicha”, que vai passando de dono em dono ao longo de quatro histórias, como testemunha silenciosa e acabrunhada das vidas mais ou menos horríveis dos humanos que temporariamente acompanha. Mas só a primeira história (que é a melhor) tem o cão como protagonista, e aliás é uma pequena pérola de humor negro: os pais (Tracy Letts e Julie Delpy) oferecem um cão ao filho, e em vez de uma experiência confortável e felpuda (à la Disney) sucede o oposto, tornando-se, para o garoto, numa introdução aos horrores da existência, da diarreia (o animal tem, aparentemente, um aparelho gástrico-intestinal frágil) à cremação, passando por várias outras coisas muito desagradáveis, normalmente explicadas com duvidoso sentido pedagógico pela mãe.

Depois dessa introdução quase brilhante na maneira como deixa os clichés esborrachados no chão da sala a esguichar sangue e porcaria (não é só “imagem”, aliás é até um prenúncio como perceberá quem vir o filme), Wiener Dog esmorece e o que vem a seguir parece derivativo (sobretudo a segunda história, com Greta Gerwig, Kieran Culkin e um casal trissómico, bastante inconsequente), à medida em que o próprio cão vai sendo remetido para a margem narrativa, mero “fil rouge” a fazer a ligação entre episódios.

A terceira história (com Danny DeVito num amargurado e frustrado professor de argumento numa escola de cinema) parece uma variação sobre um modelo de personagem bastante rodado (o filme cita explicitamente Jerry Seinfeld, Larry David e Woody Allen mas lembramo-nos deles ainda antes da citação aparecer), onde o mais significativo — e eventualmente “pessoal” — passa na violência do olhar sobre os “jovens”, os estudantes da escola, incapazes de citar um título dum filme, e oscilando entre projectos de “super-heróis” e projectos que lidam com “género e raça”.

DeVito, actor que se vai tornando raro e que nem sempre viu explorado o seu lado mais soturno, aguenta bem o episódio, mas para garantir que, apesar da quebra e da irregularidade de Wiener Dog, as coisas acabam na mó de cima, na quarta história surge a majestosa Ellen Burstyn, a dominar tudo por detrás de uns grandes óculos escuros, numa “velha senhora indigna” (“arte? posava nua e abria as pernas”) com pouca paciência para a neta que lhe vem apresentar o namorado e pedir dinheiro emprestado. Burstyn quase não fala, praticamente se limita a ouvir; é, como o cão, uma testemunha. Num acesso de generosidade e, coisa rara nele, compaixão pela personagem, Solondz dá-lhe um destino diferente do do salsicha — e se há muito se perdera o valor simbólico da presença do cão (representar uma forma de “inocência”) ele é ligeiramente recuperado naquele plano final, bastante horrível, em que ficamos a ver o que lhe aconteceu.
16 de agosto de 2017, 12:06 - Público
Trindade  Telefone:223162425 Sessões: 5ª 6ª Sáb Dom 2ª 3ª 4ª 19h30

domingo, 13 de agosto de 2017

AS BARREIRAS DA CIDADE



AS BARREIRAS DA CIDADE


Pequenos edifícios onde se fazia a cobrança de um imposto municipal



Muitos dos leitores destas crónicas (já com uma certa idade, claro!) se lembrarão ainda das barreiras ao redor do Porto. Foram criadas por carta de lei de 25 de feverei­ro de 1861 e só foram extintas em 1943.
 
Eram lugares onde se cobravam, para o município, certos impostos indiretos sobre determinados produtos, "no ato em que os géneros tributados dessem entrada na cida­de para consumo".

Com o pagamento desse imposto munici­pal, se assim se pode dizer, criou-se para o Porto um regime tributário diferente dos que funcionavam para outros concelhos, onde também se cobravam impostos, evi­dentemente, mas sobre os produtos que se vendiam.

As barreiras formavam, digamos assim, uma espécie de postos de vigia espalhados por uma extensão de mais de 30 quilóme­tros ao redor do Porto. Começavam no Frei­xo, em Campanhã, e acabavam junto ao Cas­telo do Queijo, à entrada da estrada da Cir­cunvalação.

A maior parte desses postos de cobrança, constituídos por pequenos edifícios propo­sitadamente construídos para o efeito, situa-va-se ao longo de um largo fosso (ou vala), com cerca de 17 quilómetros de extensão, cavado ao redor da cidade e que tinha como objetivo fundamental evitar a fuga ao paga­mento do referido imposto municipal e evi­tar o contrabando de mercadorias.

O citado fosso, ainda hoje visível em al­guns pontos da estrada da Circunvalação, era marginado por duas amplas vias de rodagem que se identificavam como sendo uma a in­terior e a outra a estrada exterior da Circun­valação.

Na Circunvalação, havia as seguintes bar­reiras: Esteiro, Freixo, Campanhã, S. Roque, Rebordões, Areosa, Azenha, Amial, Monte dos Burgos, Senhora da Hora, Pereiró, Vilari-nha e Castelo do Queijo.

Muitos dos edifícios onde funcionavam os postos de cobrança, depois de terem sido de-sativados das suas funções primitivas, pas­saram a ser utilizados para outros fins, alguns culturais, como é o caso do posto da Vilari-nha, onde funciona o teatro Pé de Vento.

No Porto, a prática da cobrança de impos­tos sobre produtos de consumo vem desde os tempos medievais. Chamavam-se "porta­gens", "sisas" ou "imposições".
 
Já no foral que o bispo D. Hugo deu ao Porto, em 1123, se ordenava que se cobrasse por­tagem sobre o vinho, gado e muitos outros géneros ou artigos, como vestuário e calça­do, que fossem trazidos à cidade para venda, excetuando-se expressamente o pão dessa obrigação.

Com o desenrolar dos anos, essas contri­buições passaram a abranger, também, as mercadorias que saíam da cidade para serem vendidas nas feiras e mercados do interior rural. Sabemos, pela leitura das inquirições de D. Afonso IV, de 1339, que nesse ano, além dos tributos instituídos pelo foral de D. Hugo, já se cobravam portagens em di­nheiro e em género de muitas outras mer­cadorias como, por exemplo: carne, pão, sal, peixe, fruta, legumes, cereais, nozes, castanhas, figos, queijos, couros, tecidos e utensílios de lavoura.

Durante um longo período de mais de dois séculos, o pingue rendimento das por­tagens era arrecadado exclusivamente pela Igreja portucalense, ou seja pelo bispo, a quem a cidade pertencia, desde a doação feita por D. Teresa em 1120 ao tal bispo D. Hugo.

Foi só a partir do século XIV, com a cria­ção dos primeiros cargos de magistrados municipais, que o concelho, ou seja, o mu­nicípio, começou a alcançar alguma eman­cipação e a usufruir do direito de cobrar rendas.

Em 1371, foi lançada uma sisa especial sobre o vinho, os panos, o sal e o pescado, cujo rendimento se destinava ao pagamen­to das obras de construção do muro da ci­dade, a conhecida Muralha Fernandina, que tendo começado a ser construída no tem­po do rei D. Afonso IV, só acabou no reina­do do neto desse monarca, D. Fernando.

Davam-se nomes curiosos a certos im­postos a maior parte dos quais eram exclu­sivos da Igreja: das Colheres; das Canadas; da Malatesta; dos Milheiros; da Redizima; da Dizima do Pescado.

A Colher era uma medida que corres­pondia à quadragésima parte de um alquei­re. Este imposto que era cobrado junto de uma fonte, ainda existente, a Fonte da Co­lher, em Miragaia, tributava o pão (cereal), a farinha, nozes, castanhas, produtos que entravam na cidade pelo rio ou por terra. Por cada alqueire de um destes produtos, uma colher era para o bispo.

O vinho que entrava no burgo por terra, pagava, por cada carro, seis canadas. Se viesse em carga cavalar ou muar, pagava canada e meia, porque a carga era menor.

Malaposta era a designação dada a um tonel. Por cada tonel, recebia o bispo qua­renta e oito reais.

Milheiro ou dez por mil, ou um por cen­to, era o que se pagava de imposto por todo o vinho vendido à prancha nos barcos.»

A HISTÓRIA DA BARREIRA DA ESTIVA
A linha de fiscalização não corria somente por terra. Estendia-se igualmente pela beira-rio, onde havia vários postos de cobrança como, por exemplo, à en­trada dos tabuleiros da Ponte de Luís I e no Cais da Estiva. Esta parte do rio, na época em que vigo­ravam as barreiras, estava circuitado por grades de ferro e possuía duas en­tradas - uma junto à Praça da Ribeira, outra do lado do Largo do Terreiro, do velho Terreiro da Alfânde­ga Velha. Era junto à porta do lado da Ribeira que se situava o posto da barrei­ra. A Câmara, que era quem mandava construir os edifícios, procurava aliar a utilidade ao bom gosto e mandava fazer pe­quenos edifícios, como o do cais da Estiva (foto), no estilo da nossa tradicional casa portuguesa.

O «direito ao primeiro sável pescado no Douro era da Igreja
Jornal de Notícias, 13 AGO, 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

LUATY BEIRÃO “JOÃO LOURENÇO JÁ GANHOU. MAS NÃO É UMA VITÓRIA JUSTA”

ENTREVISTA

LUATY BEIRÃO “JOÃO LOURENÇO JÁ GANHOU. MAS NÃO É UMA VITÓRIA JUSTA”


Não votar foi a opção de Luaty Beirão nas eleições que Angola realiza no próximo dia 23. O rosto da oposição civil, o ativista que desafiou o regime de José Eduardo dos Santos em 36 dias de greve de fome, não quer participar no que considera ser um assalto

POR cristina margato (TEXTO) e luís barra (FOTOGRAFIAS)




O rosto da oposição civil ao regime de José Eduardo dos Santos — e do seu candidato, o general João Lourenço — tornou-se muito conhecido, em 2015, durante uma greve de fome de 36 dias, que quase o matou. O cárcere político impôs-se, escreveu-se na altura, por causa da discussão de um livro. Luaty Beirão era, porém, há pelo menos uma década, uma voz dissonante. Alguém, que tendo crescido dentro do próprio regime, um dia o enfrentou para o criticar, sabendo que isso lhe poderia valer uma sentença de morte. Não nos teríamos surpreendido, por certo, quando decidiu prolongar a greve de fome até ao limite, enquanto todos os outros companheiros desistiam, se tivéssemos tido conhecimento da existência nele de uma espécie de vontade indómita, que o fez, anos antes, ir de Portugal a Angola à boleia, com apenas 100 euros no bolso. Luaty Beirão tornou-se o líder de uma geração que ficou conhecida por “revús”; e ainda que o termo lhe desagrade bastante, as ações desses “révus 15+2” ajudaram alguns a derrotar o medo. Nos últimos meses, o seu desejo de uma nova Angola fê-lo agir fora do sistema. Transformou-se num vigilante que a cada momento alerta para a areia que é colocada na engrenagem de um sistema eleitoral cujas irregularidades ele denúncia. Esta conversa, contudo, não se fez apenas do futuro, dos desejos de um país transformado, sonhado, democratizado, mas também do passado, do lugar de onde vem, do avô, rebelde em Moçambique e preso político em Caxias, do pai, homem próximo a José Eduardo Santos, que nunca endoutrinou o filho, ou da mulher, Mónica, jovem empreendedora, menos comprometida com a política, mas que o apoiou na pior fase da sua luta. E, por fim, do amor a um país do qual ainda não desistiu.


Tem feito uma série de denúncias sobre as irregularidades do processo eleitoral. Há sinal por parte das autoridades de que os seus protestos são ouvidos?
Nunca respondem oficialmente, mas reagem. Há uns meses, por exemplo, quando denunciei nas redes sociais o facto de um outdoor de João Lourenço ter sido colocado dentro de uma escola, frente ao governo provincial, o cartaz acabou por desaparecer. Nunca explicam porque tomam as atitudes, nem dizem a quem estão a reagir. O importante é que reagem, tiram o cartaz, repõem a legalidade, ainda que não punam o infrator. Como o infrator é o MPLA a impunidade é completa. Outras vezes usam a imprensa para desmentir o que se diz nas redes sociais. Só aparece a parte do desmentido, não aparece a parte da acusação. Enviei duas cartas à Comissão Nacional de Eleições (CNE), uma exclusivamente em meu nome e outra já com alguns subscritores, e até hoje não houve resposta. Em muitos casos não sou o ponto de partida da denúncia, como aconteceu com o cartaz no qual aparecia João Lourenço como único candidato e o logótipo da Comissão Nacional de Eleições (CNE). Quando partilhei no Twitter já tinha causado muito ruído e choque nas redes sociais...


Depois disso alguém pintou por cima do logótipo da CNE as cores da bandeira que também são as do MPLA...
Duvido que tenha sido a CNE a fazer algo tão grosseiro. O que queremos é que a CNE se desmarque e diga que não tem nada a ver com isso. A forma de ajudarem um concorrente, que é sempre o mesmo, é mais subtil, e passa por exemplo por criar regras que não estão na lei. De repente, como aconteceu no final de julho, passaram a exigir aos delegados de lista novos critérios para serem aceites. De um dia para outro, e com o prazo a terminar, alteraram os critérios para os partidos nomearem os observadores que irão estar nas mesas de voto. É isto que a CNE faz para minar o processo eleitoral. Ora, se não se consegue ter representantes dos vários partidos nas mesas de voto o processo está desde logo inquinado.


Há ainda a questão de terem afastado a possibilidade de a União Europeia (UE) aparecer como observadora...

Eles foram muito matreiros. Não recusaram a União Europeia (UE). O José Eduardo dos Santos fez um convite à UE em cima do prazo que esta tinha dado, e depois não quiseram assinar o memorando no qual lhes era pedido algumas garantias. Sem esse memorando assinado deduz-se que a UE não venha. Embora a UE ainda não tenha dado uma resposta definitiva. Angola já disse que não precisa de lições da UE sobre democracia ou eleições...


Qual é a sua expectativa?

Dizem que sou um pessimista, mas o que eu estou a ver é a repetição de um filme a que já assisti em 2012. As denúncias são iguais às de 2012 e o que é mais perverso é que até as empresas suspeitas de fraude, sobre as quais foram entregues documentos em tribunal que comprovavam a deturpação do processo, foram de novo contratadas através de concursos públicos duvidosos. Repetem-se as mesmas queixas por parte da oposição. O MPLA vai ganhar. Vai-se denunciar a fraude, e depois todos se sentarão alegremente no parlamento para receber as benesses. Daqui a cinco anos voltamos a conversar. Essa é uma das razões pelas quais decidi não participar neste teatro. Vou pôr um voto numa urna? Não sei o que vai acontecer com aquela urna, ainda mais agora, que não querem que os observadores dos partidos estejam lá. Se eu não tenho confiança no processo, se eu não sei se o meu voto vai ser contado, o que vou fazer ali? Legitimar uma batota?


[Sobre as eleições a 23] Não vou meter-me no mesmo carro, com os mesmos assaltantes, com o mesmo valor no bolso, para ser roubado de novo”


Não seria melhor estar dentro do processo?

Fiz isso em 2012. Senti-me ultrajado, roubado. Votei e fiz a monitoria. Não vou meter-me no mesmo carro, com os mesmos assaltantes, com o mesmo valor no bolso, para ser roubado de novo. Se ao menos eu agora pudesse arriscar porque existe algo de novo, um polícia no carro... Não vou diminuir-me à condição de pateta alegre que se entrega às mãos dos bandidos a cada cinco anos. Alguns de nós tentámos aproximar-nos dos partidos da oposição para criar esse novo elemento e dar um sinal forte à sociedade. Tem de se perceber os números da abstenção. As pessoas têm de ser conquistadas. 40 por cento de um universo de nove milhões e meio é muita gente.

Provavelmente, as razões para abstenção não serão só políticas. Para muitas dessas pessoas a prioridade não será votar, mas chegar ao fim do dia e ter conseguido comer...

Embora não deixe de concordar que para algumas pessoas tanto lhes faz, porque ganham a vida sem intervenção do Estado, isso não é o que acontece com a esmagadora maioria que vive nos centros urbanos. É preciso perceber que o regime intimida as pessoas. O que lhes diz é: “Se não votares não vais conseguir tratar disto ou daquilo, não vais poder viajar porque não vais ter documentos.” Eles nunca o fazem de forma oficial, mas disseminando informações. A minha sogra, por exemplo, não se registou para votar, mas no final veio dizer-me que afinal ia-se registar porque “eles dizem...” Eles quem? Este tipo de pressão é forte o suficiente para as pessoas se sentirem obrigadas a cumprir os trâmites que eles impõem.


Disse que queria convencer os partidos da oposição a dar um sinal forte. Que sinal?


É preciso dizer às pessoas que há razões para voltar a ter esperança. Os partidos da oposição deveriam ir a eleições como uma força única, uma coligação que reduziria o número de opções no boletim de voto e poderia envolver elementos da sociedade civil. Mas o grande problema dos partidos da oposição é: “Quem vai dirigir a coligação?” A sugestão era que não fosse nenhum dos presidentes dos partidos, de modo a mostrar às pessoas que os partidos são capazes de colocar o país acima dos objetivos imediatos... Podia ser que pessoas como eu, que estão desencantadas, pudessem sentir que estávamos de facto perante algo novo... Vamos imaginar que Rafael Marques, por exemplo, podia liderar esta coligação, uma figura consensual entre os que estão cansados do regime, e que poderia chegar a uma sociedade que está à procura de pequenos heróis. Se tivéssemos o Rafael Marques como cabeça de lista de uma coligação dessas eu acho que haveria muita gente galvanizada para voltar a dar uma oportunidade ao processo eleitoral.

O Rafael Marques tem capacidade de alcançar votos além de Luanda?

Não sei.

DENÚNCIAS Luaty Beirão diz que “o importante é que reagem, repõem a legalidade, ainda que não punam o infrator”

Não poderá estar a imaginar uma hipótese a partir de um pequeno mundo, o de uma certa elite intelectual, de Luanda?

É possível que sim.


Quem é que conhece o Rafael Marques?

As pessoas que têm acesso à internet. São cerca de 20 por cento.


Há um lado utópico no seu discurso. Por exemplo, no livro fala do perdão, da pacificação dos corações para começar do zero. Independentemente da guerra civil, e das questões políticas, será isso possível num país tão tribal como Angola?

Não sei se é possível. Mas se não tentarmos também não vamos saber. Se houver vontade de fazer as coisas...Correu bem na África do Sul? Não sei. Parece que sim. Mas se formos lá ainda vemos ressentimentos, coisas por resolver. Será que funciona? Não sei. Não acho que se deva perdoar por perdoar, que se deva esquecer tudo. O perdão não deve ser incondicional. Por outro lado, se o Rafael Marques não é conhecido, isso pode resolver-se com comunicação. Até podia ser outra pessoa. Precisamos de uma figura que seja consensual, que tenha noção de que é preciso transformar isto.

E porque é que o Luaty não se coloca nessa equação?

Simplesmente porque não me vejo nessa maquinaria. Quero estar do lado de cá, da sociedade civil, do lado daqueles que promovem e defendem as ideias, sem ter de ser o protagonista dessas ideias. Não quero estar lá, como cabeça de cartaz, como o timoneiro deste barco, pelo menos para já. Não sinto que tenha a maturidade política, nem a vontade de enfrentar a dimensão do desafio. Não tenho a apetência para governar o meu bairro quanto mais o meu país. Mas tenho ideias para dar, e elas podem ser mais ou menos válidas.

Se alguém lhe tivesse dito um dia que ia fazer uma greve de fome também teria acreditado?

Não. Mas também não sei se teria dito “nunca”. Não sei se um dia não me vou vergar à pressão que existe para deixar de fazer o que faço. Não sei o que me espera. Que variáveis podem aparecer. Dizer que algo é impossível ou que nunca vai acontecer nunca vai sair da minha boca.


Agora já não posso confrontar o meu pai, mas sei que ele não vivia com a consciência tranquila”


Imaginando que João Lourenço ganha…

Ele já ganhou. Já cozinhou isso. Gostava que ele ganhasse da forma correta. Mas com tudo o que se passou já não é uma vitória justa, já se condicionou o voto das pessoas.

Se a vitória fosse justa aceitava ter um papel ativo num governo de João Lourenço?

Não. O único papel ativo que poderia ter era o de fazer propostas. Nunca poderia ser um membro oficial de governo, ainda mais com a má reputação que o MPLA tem... Gostava que o Estado, assumindo que não é capaz de fazer tudo, desse espaço à sociedade civil, a encarasse como um parceiro e aceitasse o auxílio que esta lhe pode fornecer. Eu teria várias sugestões para dar em vários domínios. Se calhar, e se houver alternância partidária, mais à frente, já pondero tudo de uma outra forma. Há pessoas de valor dentro do MPLA, capazes de produzir ideias. Não têm é capacidade de fazer frente, de fazer como nós dizemos aqui: “Cagar na fuba.”

Cuspir na sopa?

Sim, por exemplo. A nossa expressão é mais grave. A maior parte não é capaz disso. Mas claro que haverá lá pessoas com valor.
Escapar a pessoas do MPLA deve ser, aliás, difícil para si, não só por causa da sua família, do seu pai, mas também por causa da família da sua mulher…


Sim.

Como se gere isso?

Temos as nossas conversas. Lido bem com a situação. Com os mais ferrenhos evito entrar em certos assuntos que nos vão pôr a discutir. Para os que são mais moderados, a crítica é normal assim como a discussão. O pai da minha mulher, por exemplo: discutimos muito e debater é saudável. É bom perceber que há tolerância e abertura para ouvir os argumentos e contrapor. O confronto e o debate têm de se cultivar. Temos de aceitar que os outros pensam e sentem de formas diferentes.


A Mónica [a mulher] assume-se como uma capitalista convicta, entre aspas (...). A parte política não lhe interessa”

No caso do seu pai, João Beirão, há alguma coisa que saiba que o envergonhe?

Não posso dizer que me envergonho porque não sei até que ponto é que ele esteve envolvido no 27 de maio, por exemplo. Essa era, sem dúvida, uma das coisas que eu gostava de aprofundar e de investigar. Gostava de ter elementos concretos sobre o envolvimento dele, enquanto elemento da DISA [polícia política até 1979]. Há algumas pessoas que dizem que foram interrogadas por ele. Eu falei com uma delas. Perguntei-lhe: “Como é que foi?”, “Como é que ele fez?” E essa pessoa desviou um bocadinho a conversa, disse que a atuação dele tinha sido mais a nível psicológico...

Quando diz que gostava de investigar é porque existe uma dor? Como é que se relaciona com esse passado?

Não penso muito no assunto. Mas quando leio sobre o assunto ou oiço pessoas falarem em palestras e penso que o meu pai esteve envolvido nessa história, de alguma maneira, a questão regressa. Sei que as ideologias às vezes cegam a razão das pessoas. Uma pessoa pode achar, no auge dos seus 25 aninhos [que era a idade que ele tinha na altura], que a sua ideologia é que é a certa; e que aqueles que ali estão à sua frente só querem tentar estragar o seu país: “Então essas pessoas não merecem estar aqui, têm de ser presas, ou têm de ser mortas.” Não quer dizer, porém, que ter defendido isso ao ponto de se envolver não venha mais tarde, em retrospetiva, a envergonhá-los. O meu pai não falava destas coisas. Quando era miúdo, ainda sem noção de nada, lembro-me de ter querido ler sobre o assunto e de ele ter respondido desvalorizando: “Eu tenho isso aí, mas não vais entender nada.” Agora, já não posso confrontar o meu pai, mas sei que ele não vivia com a consciência tranquila. Houve muita gente que acreditou e que quando viu o comboio a descarrilar se deve ter sentido traída. Desperdiçaram a sua juventude. Fizeram coisas de que se arrependeram. Mas o meu pai não se abria.

Como é que percebeu isso?

Era a forma como ele vivia o dia a dia. Ao chegar a casa parecia sempre cansado e abatido. Poucas vezes contava piadas ou ria, e quando isso acontecia esses momentos eram pequenos oásis para fugir à sua nuvem, que era omnipresente. Era uma pessoa não realizada.

Morreu novo...

Sim. Era muito desregrado. Fez três bypasses no coração. Proibiram-no de ter uma certa alimentação. Essa parte conseguiu cumprir. O mesmo já não aconteceu com a proibição de fumar e beber. Desenvolveu diabetes, e a doença foi fulminante.

Não teve oportunidade de conversar com ele?

Nunca o senti muito doente. Foi fulminante, e eu passei vários anos a estudar no estrangeiro.

Na prisão sentiu, porém, a necessidade de lhe escrever uma carta…

Senti que tinha de falar sobre ele. Queria escrever como se estivesse a dirigir-me a ele, mas apenas numa vertente artística, até porque não sou crente. Foi um desabafo. Tinha necessidade de imaginar que ainda lhe podia falar e ele me poderia ouvir. Queria saber o que teria feito se ele ainda ali estivesse, se teria outras precauções para defender a família... até porque ele sempre me disse que a família vem sempre primeiro, e que se deve defendê-la não importa o quê.

Coligação “Os partidos da oposição deveriam ir a eleições como uma força única, que reduziria o número de opções no boletim de voto”

O seu pai era angolano, mas com pais com origens em Aveiro?

Sim. Recentemente conheci em Portugal uns familiares do meu pai. A história que me contaram foi a de que a família ia mais para Moçambique do que para Angola. Só que o meu avô foi preso em Moçambique por atividades subversivas contra o regime de Salazar e foi deportado para Portugal. Ficou preso em Caxias. Acabou por ser solto na condição de não voltar a Moçambique. Como não queria ficar em Portugal foi para Angola, de onde mandou chamar a minha avó. Em Angola, nasceram o meu pai e o meu tio.

Quer dizer que há na família uma história de resistência e rebeldia anterior à sua?

Sim. E o que é bastante irónico, e até estranho, é que o advogado do meu avô terá sido depois um ministro de Salazar, pai daquela senhora, deputada do PS, que fez uma intervenção de dez minutos a defender-me no Parlamento português.

Isabel Moreira, filha de Adriano Moreira.

Sim, só não sei se ele se vai lembrar do meu avô.

No último livro de José Eduardo Agualusa há uma personagem inspirada em si. Trata-se de uma menina, filha de uma mãe do MPLA e de um intelectual, que faz greve de fome. Numa carta essa rapariga escreve: “Primeiro achei que Angola era o nome que se dava à rede de condomínios onde vivem a mamã, os tios, os avós e todos os amigos deles. [...] Acreditava que também os nossos empregados vivam em condomínios [...] Mais tarde, achei que Angola fosse constituída na sua maioria por artistas boémios que se reuniam aos sábados nos apartamentos uns dos outros, a beber cerveja, a fumar liamba, a discutir projetos que nunca realizarão. [...] Só conheci a Angola dos pobres [...] há poucos anos. [...] Vim para esta cadeia porque decidi ser angolana. Estou a lutar pela minha cidadania.” Também começou por acreditar que Angola era só aquela dos condomínios fechados?

Não sei, querendo ou não, fui tendo contacto com aquilo que para mim ainda eram microrrealidades. Olhando para trás... Vivi 17 anos da minha vida num perímetro de 20 quilómetros quadrados, da escola para casa, da casa para o Mussulo, da casa para o aeroporto. É uma loucura. Não há como ter noção do universo em que vivemos quando estamos dentro de um átomo, e o átomo em si já é bastante mais complexo. Lembro-me de no caminho para a escola ver miséria na rua. Não podia achar que só existia o mundo dos condomínios. Percebo a metáfora, tem a ver com a inocência, muitas vezes voluntária, com a procura de proteção... Se eu souber demais não vou estar tranquilo e eu também tenho de viver a minha vida. Há uma altura, porém, que uma pessoa ganha maturidade e se torna insustentável. Em suma, identifico-me em parte com essa descrição da menina que andou iludida...

Também existiram os intelectuais ou os artistas?

Intelectuais, para mim, são aqueles que me fazem refletir, me ajudam a pensar. Senti uma grande carência disso, o que não quer dizer que as pessoas que me rodeassem não tivessem lido muito, mas toda a gente evitava tocar em assuntos que obrigassem a refletir porque refletir era justamente um perigo. E ainda é, como pudemos constatar recentemente. Não se discutia a situação do país para proteger a prole.

Já há mais abertura?

Sim, com as pessoas com que me dou. Mas ainda não sinto que se tenha discussões em casa com os filhos. Na minha geração já há pessoas dispostas a conversar, embora seja muito pontual.


Quando um rapaz cantou uma canção e foi assassinado pela guarda presidencial (...) fiquei tão angustiado que me senti obrigado a escrever uma música. Pensei: ‘Já não quero saber!’”


A Mónica, a sua mulher, apoiou-o, mas tem convicções diferentes das suas. Discutem política?

Raramente. A Mónica assume-se como uma capitalista convicta, entre aspas, porque não pega na parte política, mas na parte económica e financeira. É empreendedora. Quer ganhar o dinheiro dela e tanto quanto for possível com o trabalho que faz, independentemente das relações de favorecimento e de privilégios das quais possa beneficiar. A parte política não lhe interessa. Acha que tem de aproveitar o que tem, e fazer o melhor por si. Entre nós raramente falamos sobre isto. Temos algumas discussões, o normal entre casal.

Mas ela apoiou-o...

Ela não me apoiou sempre. Ela apoiou-me depois de eu ser preso. Apesar de discordar dos meus métodos e das minhas posições políticas, ela discordava ainda mais do facto de ter o marido e pai da filha preso porque estava a ler um livro. Aí, ela engajou-se mesmo muito, correu riscos, perdeu oportunidades de trabalho. Fê-lo porque tinha uma urgência de algo que lhe era superior, e eu tenho que admirar isso. Assim que fui preso pensei: ou ela desenvolve um lado mais acutilante sobre o que é a justiça e a injustiça social e percebe finalmente aquilo porque me bato ou vai acusar-me de ter-me metido nesta alhada e de ter arrastado a família e vai seguir a sua vida. Felizmente, foi a primeira hipótese...

Está preocupado com um país, um futuro coletivo, e a Mónica com um projeto de vida individual. São opções muito diferentes.

É verdade. Dizem que os opostos se atraem. Eu não sei explicar isso. Por um lado há coisas que admiro nela, por outro acho que precisamos de nos confrontar com o nosso oposto. Tento sempre ver as vantagens. Obrigam-me a cultivar o espírito da tolerância, a procurar uma forma de ser flexível, compreensivo, a perceber o outro e a incorporar em mim esse outro, embora não concorde. Em sociedade haverá sempre pessoas que pensam de forma diferente, que nos aborrecem, nos entristecem, nos deixam infelizes. Se a minha filha vier a ser do MPLA não vai deixar de ser minha filha. Será sinal que falhei nalgum lado.

Voltando à carta de Agualusa, qual é o momento que o leva a dizer que o que vê em Angola é demais, que é preciso fazer alguma coisa?

Há dois momentos que são pontos de viragem na minha vida. O primeiro acontece quando o meu amigo MCK me traz uma cassete com umas cinco músicas de uns artistas que vivem em bairros degradados. Começo a ouvir aquelas músicas e dá-me vontade de chorar, por perceber a profundidade intelectual daqueles rapazes, o nível de desafio que eles tiveram de enfrentar para conseguirem refletir daquela forma... Eles conseguiram superar todas as adversidades, foram contra os meus preconceitos, a crença de que quem não tem acesso à educação não consegue ir além do que lhe foi destinado. São heróis aqueles que vão contra tudo o que está programado para a vida deles. Fizeram-me pensar: “Se eles foram capazes de falar de um problema que nos afeta a todos porque é que eu não sou? Eu que tenho o privilégio de ter acesso à informação, aos livros, à internet? Se fingir que não é um problema, se não me envolver no problema serei parte dele, ainda mais porque tenho as ferramentas que fazem parte da solução.” O segundo episódio aconteceu em 2003, quando um rapaz cantou uma canção do MCK e foi assassinado pela guarda presidencial à frente de centenas de pessoas. Amarraram-no e atiraram-no ao mar à frente de um monte de gente que implorava para não o fazerem. Não deixaram socorrê-lo e ele morreu afogado. Tudo porque cantou três frases que ofenderam suas excelências. Disse que “o país tem mais armas que bonecas/ menos universidades que discotecas/ mais cantinas do que bibliotecas…” Frases inocentes. Não era a minha música [‘A Téknika, As Kausas e As Konsekuências (Seii Lá Quê)’], mas de uma pessoa pela qual tenho muita estima. Fiquei tão angustiado que me senti obrigado a escrever uma música. Pensei: “Já não quero saber! Façam-me o que quiserem.” Escrevi ‘Kamikaze Angolano’ (2004), tema no qual abordo diretamente pela primeira vez o Presidente e a família dele. Foi o meu primeiro grande grito de Ipiranga. Tive receio de que aquela música me trouxesse a minha sentença de morte. O passo seguinte foi cantar a música em Angola. Estava borrado de medo... Não aconteceu nada; e a partir daí passei a pensar: “Afinal, ainda há espaço... Temos alguma liberdade de expressão.” Comecei a amadurecer em termos de consciência social... e as letras começaram a refletir esse processo mas também uma certa insatisfação. Cantar não é para mim suficiente. Sinto-me incompleto com a minha música. Sei que posso fazer mais. Só não sei o quê. Em 2011, acontece o terceiro ponto de viragem: determino que me envolverei mais. E estamos aqui.

Conseguiu fazer muita coisa desde que saiu da prisão?

Diria que sim. Uma das coisas que me deixa mais satisfeito é um projeto em que fazemos reportagens de violações de direitos humanos, de abusos. Chama-se “Central Angola 7311”. Entrevistámos testemunhas e familiares, tentámos abordar a polícia para termos o contraditório, embora nenhum de nós seja jornalista de profissão. Mas a urgência faz com que cada um de nós improvise. Estou muito satisfeito. Isto em si é muita coisa. Depois tenho um livro, “Sou Eu Mais Livre, Então” (Tinta da China, 2016) que me vai levando a viajar. E vai sair um novo, uma compilação das minhas letras, numa editora brasileira chamada Demônio Negro. Estou à espera que o “Sou Eu Mais Livre, Então” seja vendido em Angola. Sei que está bloqueado na alfândega.

No livro, numa carta que escreve aos companheiros, diz que já não são jovens “revús”. Já não quer que lhe chamem “revú”?

Nunca gostei do termo. Nunca o usei. Sempre o tentaram associar ao de arruaceiros. O José Eduardo dos Santos disse numa entrevista que esses jovens que andam por aí são uns frustrados. Reduziu-nos a esse epíteto. Depois deste processo [da prisão dos “15+2”] muitas pessoas deixaram de abraçar a ideia de que estávamos aqui para desestabilizar. Fomos elevados a um novo estatuto. Isso é uma conquista. Já há mais pessoas a desafiarem o próprio medo. O contexto social contribuiu, mas nós demos a nossa parte, e temos de nos congratular, sem acharmos que se não fossemos nós isso não teria acontecido. Tento manter os pés bem assentes na terra, apesar de ser difícil andar 500 metros na rua e não ser interpelado para me fazerem elogios rasgados. É importante não nos envaidecermos. Quando isso acontece perdemos o foco do que é realmente importante e começamos a pensar no que é que se pode fazer para se ser ainda mais adulado. Corrompe-se o propósito.

Sendo a Mónica mais engajada com a elite angolana, como não frequenta as festas?

A Mónica vai frequentemente sozinha, até porque vai trabalhar. Faz fotografia. Mas é evidente que pode sempre aparecer alguém da elite presidencial em qualquer evento a que eu vá. Ainda no outro dia, num casamento a que fomos, estive a duas mesas de distância do ministro do Interior. É preciso saber escolher os momentos. Se ele tivesse querido conversar sentava-me à mesa com ele e íamos conversar. Já tive a ocasião de lhe falar quando foi o assunto de Cassule e Kamulingue [ativistas políticos assassinados em 2012] e não me coíbo de dizer essas coisas... Mas não vou provocar esse tipo de situação numa festa de família, que vai causar mal-estar. Quando era miúdo, por exemplo, dei-me, bastante bem com os filhos do Kopelipa [general, ministro de Estado e chefe da Casa Militar de José Eduardo dos Santos]. Era uma amizade de ir às festas, de falar das miúdas. Não discutíamos o país. A Mónica dá-se muito bem com um dos filhos do José Eduardo, mas eu nunca estive com ele. Há quem diga: “Ah, e tal, cresceram juntos”, mas não é verdade. Nunca estive o palácio. Não conheço as instalações. Nunca privei com eles.

Mas há uma proximidade que o pode proteger?

Eventualmente, sim, protege-me. Há algo de informal. A Mónica pode telefonar, falar com quem está perto do poder sem subir muitas etapas. E há outras pessoas que podem decidir fazer coisas sobre mim...

Terá sido essa a razão porque a canção não determinou uma sentença de morte?

O MCK também não morreu. Às vezes não é fácil explicar. Ainda não percebi como é que eles fazem a gestão do medo. Percebo que nas manifestações não deixam o grupo aumentar. Partem logo cabeças. Têm medo que o grupo aumente. Daí a silenciar as pessoas para todo o sempre, a matá-las e eliminá-las...

Já o fizeram...

Sim, mas não é linear. Não podemos pensar: “Eu vou falar e vou morrer.” Não há um padrão. Não se sabe qual o ponto a partir do qual se morre. Por isso, também há muitas pessoas que preferem não procurar o limite, e então encolhem-se e não se metem em nenhum assunto.

Ser ativista não dá dinheiro. Como é que vive? O seu pai deixou-lhe dinheiro suficiente?

O meu pai morreu em 2006 e ainda não vimos um cêntimo. Ainda estamos num processo familiar litigioso... Durante alguns anos foi complicado explicar à família as minhas opções. O meu irmão, por exemplo, dizia-me: “Não entendo, tu tens tudo para seres o que quiseres nesta sociedade. Falas não sei quantas línguas, tens dois cursos, e escolhes não ser nada.” Foi difícil, durante um tempo, mas depois da minha prisão eles perceberam a dimensão e o impacto que o trabalho que escolhi fazer pode ter, a importância simbólica que pode ter para transformar o país. Todos concordaram. Mesmo a Mónica, que tem os seus trabalhos, não é insensível aos problemas do seu país. Eles perceberam que não podemos continuar assim, e deixaram de me ver como um peso. Tenho o privilégio de ter pessoas que me apoiam, e que durante muitos anos seguraram as pontas. O projeto “Central Angola 7311” é apoiado. Antes disso fazia traduções. Ter uma filha implica custos permanentes e as traduções pagam bem. Já não as faço por opção. Tenho muita coisa para fazer.

Existe uma hierarquia de cor de pele em Luanda que dá mais oportunidades a uns do que a outros?

Já existiu mais. A minoria de tom de pele mais claro está quase toda na classe alta. Vem de uma história de privilégios. Existe, de facto, essa elite que vem do tempo colonial, na qual me insiro. Há muito poucos exemplos, residuais diria, em que os mais claros sejam os mais pobres ou aqueles que vivam no gueto. Mas nem todo o branco está melhor posicionado na sociedade que qualquer preto. Dizer que há uma hierarquia de cores não é a melhor forma de descrever a sociedade angolana, mas a verdade é que mais facilmente se escolhe o branco numa entrevista de emprego só porque se é branco. Isso ainda é presente.


Às vezes pergunto-me: ‘Porque voltei? Porque estou preso a isto? Porque me sinto ligado a algo que me trata tão mal?’”


A luta é lenta. Idealmente seria possível ter uma democracia daqui a quantos anos?

A partir do momento em que tivermos dirigentes que se preocupam com o país e que invistam realmente no angolano e em Angola temos de esperar 30 anos. Só que esse momento zero ainda não chegou. A cada ano que passa são 30 anos que temos por começar. Temos de ter um sistema de ensino do qual nos possamos orgulhar, flexível o suficiente para se adaptar ao mundo, temos de investir na criança e no que ela vai ser... E isso não vai acontecer com o João Lourenço.

Há o risco de uma guerra civil?

O risco existe. Não sei o quão flagrante pode ser esse risco. Quem tem poder militar neste momento é o regime, é o MPLA, e o exército, portanto só haverá guerra se houver pessoas que não querem perder regalias e outras estejam dispostas a facilitar a existência de fações, que colidem. Caso contrário não tem como haver uma guerra.

Porque ama Angola?

Não sei dizer. Às vezes pergunto-me: “Porque voltei? Porque estou preso a isto? Porque me sinto ligado a algo que me trata tão mal?” A minha mãe desistiu há uns anos. Disse-me que percebeu que tinha de se ir embora no dia em que teve vontade de atropelar alguém. Não voltou mais.


Realidade “Vivi 17 anos da minha vida num perímetro de 20 quilómetros quadrados, da escola para casa, da casa para o Mussulo, da casa para o aeroporto”

Voltou para o ver na prisão...

Sim. Voltou pontualmente. E em momento algum, mesmo quando sentiu em mim o cheiro de acetona, a morte a chegar, pediu para eu parar.

Valoriza isso?

Sim, é preciso ser muito forte, ainda mais sendo mãe, para respeitar a minha convicção sabendo que aquela greve me estava a levar à morte. Foi de uma extrema coragem.

É um herói improvável?

Vocês [Expresso] já me chamaram isso. Não gosto de me ver nesses termos. Não devo olhar para mim dessa forma. Traz-me muita responsabilidade. Sou um cidadão preocupado, e devo agir independentemente dos riscos que isso comporte. Também percebo e concordo que o que faço possa ser considerado improvável. O mais fácil seria, de facto, fazer o que a maior parte das pessoas faz, não pôr em causa a minha família, pegar num desses empregos de 12 mil dólares, ganhar tanto quanto me fosse possível, e tranquilizar a minha consciência fazendo doações. Não sei que ligações fez o meu cérebro para eu decidir não prescindir da liberdade.


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2337 - 12 de Agosto de 2017

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