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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Da Proteção Civil a Marta Soares, precisamos de despartidarizar a luta contra os incêndios

Antes pelo contrário





Daniel Oliveira


Da Proteção Civil a Marta Soares, precisamos de despartidarizar a luta contra os incêndios


As pessoas acompanham o que os dirigentes das várias estruturas envolvidas no combate aos incêndios vão dizendo e, na sua ingenuidade, pensam que são apenas pessoas que dirigem estruturas ligas aos incêndios que estão a falar. Por isso, escapa-lhes muitas vezes as guerras que os incêndios servem e que a suposta preocupação com o bem comum esconde. Escapa-lhes as guerras entre os bombeiros e a Proteção Civil, por exemplo. Uma guerra por poder e pouco mais.

Como se sabe, o atual governo mudou metade do comando da Proteção Civil e entre os estreantes à vários outsiders da área e alguns deles com evidentes ligações políticas ao Partido Socialista. É em estruturas como estas que PS, PSD e CDS distribuem lugares a militantes para que estes se empenhem em campanhas eleitorais e reforcem o poder de quem os escolhe nas disputas internas aos partidos. Quem vos disser que os socialistas são especiais nesta matéria ou não conhece a máquina do Estado ou, mais provável, está a fazer campanha. Até o PCP o faz nas autarquias. E este comportamento ajuda a explicar a fragilidade da cúpula de muitos serviços públicos. Não porque ser militante de um partido seja um atestado de incompetência. Conheço muitos que são competentes. Mas porque quando esse critério passa a ser o mais importante deixa o da competência perde a relevância que tem de ter.

"
Esta catástrofe podia servir para limpar uma Proteção Civil carregada de boys e girls do PS, coisa que só pode ser feita por um novo ministro com uma autoridade política refrescada, e para despartidarizar as estruturas dirigentes dos bombeiros, ponto de passagem fundamental para caciques como Marta Soares, ex-autarca e ex-deputado do PSD"


Sabemos como saiu de cena o anterior comandante da Proteção Civil, com a certeza de que acumulava lugares e cargos e dúvidas sobre a sua licenciatura. Sabemos que foi substituído por alguém que, ao que tudo indica, mandou apagar a fita de tempo, fazendo desaparecer o rasto de factos fundamentais para o apuramento da verdade. Vale a pena ir ler o relatório da Comissão Técnica Independente, provavelmente o documento oficial mais completo alguma vez produzido sobre os incêndios e sobre o que é necessário fazer, que há quem cite sem qualquer rigor para dali tirar o que lhe interessa. Ali se percebe que a limpeza da Proteção Civil é fundamental e uma boa oportunidade para a transformar numa estrutura realmente profissional e não em mais um poiso para boys e girls. As nossas vidas dependem disso.

Mas do outro lado há os bombeiros. São, e compreende-se que sejam, uma vaca sagrada. Mas não devemos confundir a base das corporações, com homens e mulheres corajosos e solidários, prontos a dar vida para salvar a nossa, com as estruturas dirigentes, intimamente ligadas ao poder político local, ponto de passagem fundamental para qualquer cacique que se preze. Também vale a pena ler o relatório da Comissão Técnica Independente que, para além das falhas no comando da Proteção Civil, deixa fortes criticas ao amadorismo dos bombeiros. Um amadorismo que não resulta de menor empenho dos soldados, mas de evidentes falhas na sua formação, responsabilidade das estruturas que, a nível nacional, os coordenam. E aqui chegamos ao senhor Jaime Marta Soares, sempre lesto no ataque às outras estruturas envolvidas no combate aos fogos, sem nunca esperar sequer que os incêndios terminem. Responsabilizar os outros é a melhor forma de garantir que ninguém lhe pede responsabilidades. E sempre aproveita os incêndios para a guerra de competências e poderes que o move.

Jaime Marta Soares, que deveria estar a debater como resolver as falhas que o relatório aponta à coordenação e formação dos bombeiros, tem-se dedicado, na realidade, a fazer política. Mesmo quando os dirigentes dos partidos da oposição esperam que as chamas desapareçam para pedir responsabilidades, lá aparece ele, sempre lesto no gatilho, a distribuir culpas a torto e a direito. Sim, é política. É que Marta Soares não é apenas presidente da Liga de Bombeiros e da Assembleia Geral do meu clube (S.C.P). Foi, durante quase 40 anos, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares – deixando nela um invejável buraco financeiro de 30 milhões – e deputado do PSD entre 1983 e 2009. A sua vida de bombeiro já se perde nas memórias. É um político e é como político que tem falado.

Um dos problemas em Portugal é a ausência de sociedade civil. Da mesma forma que as estruturas do Partido Socialista conseguiram enfiar na Proteção Civil boys e girls sem experiência na área onde deviam estar os melhores técnicos e comandantes, as estruturas dirigentes dos bombeiros (mais uma vez, não confundo os próprios bombeiros) reproduzem os combates partidários. E é isso mesmo que o dinossauro do PSD Jaime Marta Soares está a fazer: uma guerra partidária. E de corporações.

Repito: vão ler o relatório da Comissão Técnica Independente. A partir dali há imenso para fazer. Mas esta catástrofe podia servir para despartidarizar os organismos de que precisamos para o combate aos fogos. Antes de tudo, limpar a Proteção Civil, coisa que só pode ser feita por um novo ministro com uma autoridade política refrescada. Não seria mau que também servisse para debatermos o tema tabu da formação e coordenação dos bombeiros, num país que depende, talvez erradamente, do voluntariado para combater os fogos. E para a mudança necessária dificilmente haverá lugar para dinossauros como Jaime Marta Soares.

Precisamos de nos livrar da asfixia partidária que, da Proteção Civil aos bombeiros, toma conta de tudo, tornando a coordenação entre estruturas, a continuidade e a competência numa impossibilidade. Precisámos dos partidos políticos para construir as estruturas de um Estado moderno e democrático. Continuamos a precisar deles para o bom funcionamento da democracia, a mediação entre a vontade popular e direção política do Estado e o confronto entre diferentes propostas políticas. Para o resto, precisamos de mais sociedade civil. Precisamos de crescer.

Jornal Expresso Terça - 17 de Outubro de 2017

A destruição do Estado

Chamem-me o que quiserem



Henrique Monteiro

A destruição do Estado


Há fotografias em todos os jornais, de ontem e de hoje, que são autênticos libelos acusatórios. De gente simples, de bombeiros, de autarcas. Todos eles referem adjetivos terríveis: dantesco, usado por Almeida Henriques, presidente da Câmara de Viseu, talvez os resuma. Remete para o inferno, para o fim da esperança. “Ó vós, que aqui entrais, abandonai toda a esperança” escreveu Dante quando o seu herói, Virgílio, chega ao Inferno. E nós? Podemos abandonar toda a esperança?

“Depois disto, o que nos segura cá?”, interroga-se uma senhora de Ventosa, um lugar do concelho de Vouzela, distrito de Viseu. A pergunta é pertinente! Que fazem ali aqueles velhos a quem o Estado abandonou à sua sorte e a quem um secretário de Estado (que noutras circunstâncias elogiei) e uma ministra (de quem nunca exigi a cabeça) pedem mais “proatividade”. Ó senhores, sabeis a idade média de uma aldeia na Beira Alta? Conheceis a mobilidade daquela gente? Tendes consciência de que em tantos sítios foi pedida ajuda sem que houvesse meios de os socorrer? Vós e os vossos governos, de um lado ou de outro, PS e PSD deram cabo do Estado – não do Estado gordo que vos serve eleitoralmente, mas do Estado que serve as pessoas, os mais carenciados, que está presente, que dá saídas, que ajuda. Fosse outro o Executivo e teríamos o Bloco e o PCP aos berros, como na Galiza, onde por muito menos se pediu a demissão do Governo… Mas, nós por cá todos bem!

Não se pode sobreviver desta maneira sem um dia algo de muito grave, como mais de 100 mortos em incêndios, nos acordar

Três pessoas abraçam-se frente a uma casa em ruínas. Sobraram as paredes de granito, embora chamuscadas por aquele fumo preto e denso que andou por todo o Norte. A fotografia é a mesma na capa do ‘Correio da Manhã’ e do ‘Jornal de Notícias’, só o enquadramento difere. Está tudo destruído – uma vida, uma casa, uma esperança. No ‘Diário de Notícias’ numa página toda em negro, um homem que já passou há muito a meia-idade, olha pelas janelas quebradas, os estragos do fogo. É um olhar resignado. Mais um olhar que nos interpela: um velho, magro, a boina direita no meio da cabeça, segura entre as mãos um cajado ou um cabo de enxada. No olhar há um misto de acusação e de falta de esperança. À sua volta paredes destruídas, janelas partidas, também só o granito, por ser granito, resistiu. É a capa do ‘Público’. Em todas elas há motivos de luto, de choro e de raiva. Que fizeram dos nossos campos? Que fizeram das nossas gentes? Ali não há nada. Quem os segura, quem os ampara?

Andaram anos a adiar o que é óbvio. Não se pode sobreviver desta maneira sem um dia algo de muito grave, como mais de 100 mortos em incêndios, nos acordar. E aí vemos como os nossos concelhos do interior são frágeis, como a regionalização podia fazer sentido, como os líderes políticos do interior de nada valem. E ainda por cima acusam esta gente de plantar eucaliptos, talvez a única coisa que lhe sobra para lhe dar algum rendimento. Este ano foi seco, não há água, não há pasto, não há castanhas, as nozes não crescem, os míscaros não saem da humidade dos campos. Falaram com eles? Perguntaram-lhes alguma coisa? Eles sabem e poderiam ter dito: não fechem a época de fogos, isto ainda não acabou.

Nas cidades, nos seus arredores, acotovelam-se funcionários. De 2016 para 2017 cresceram 0,8%. Quantos foram para o interior? Já não há nada lá. Os mesmos que acusam os outros de liberais e de querer o Estado mínimo, pura e simplesmente terminaram com ele onde pensam não ter votos, ou onde esses votos são poucos. Ide a uma aldeia e perguntai quantos deles sabem de rendimentos mínimos, de subsídios para casa, do que for… Quase nada! Vivem por si e morrem abandonados.

Jornal Expresso Terça - 17 de Outubro de 2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

24 horas no inferno

Vídeo

24 horas no inferno



video
(Abrir para ver em ecrã completo)

Um dia de fogo e terror como não se via há mais de uma década, uma ministra que não se demite mesmo que fosse mais fácil ter tido as férias que não pôde ter, um primeiro-ministro que diz que os portugueses são adultos para perceberem que não há varinhas mágicas que resolvam os problemas. E, pelo meio, a verdadeira tragédia: pelo menos 41 mortos, mais de 60 feridos e dezenas de pessoas que perderam tudo o que tinham. Este é o filme das 24 horas mais dramáticas que o país viveu recentemente, apenas quatro meses depois da tragédia de Pedrogão Grande

Edição João Santos Duarte Vídeos SIC e Lucília Monteiro Fotos Rui Duarte Silva, Tiago Miranda e Luis Barra 

Jornal Expresso Terça - 17 de Outubro de 2017

Incêndios: claro que se vai repetir. Durante anos

Antes pelo contrário





Daniel Oliveira

Incêndios: claro que se vai repetir. Durante anos


Há uma coisa impossível de explicar a um jornalista. Na realidade, ela pode ser explicada a um jornalista e qualquer jornalista a consegue entender. Mas não a consegue usar no seu trabalho, que exige respostas e soluções simples e tão rápidas como as suas notícias. Essa coisa foi a que António Costa disse ontem: não só não pode garantir que o dia de ontem não se vai repetir como é seguro que, de alguma forma, vai acontecer de novo. O que o jornalista não pode compreender é que a resposta a um problema realmente importante é muitíssimo mais lenta do que o seu trabalho. É como pedir a um pugilista que jogue xadrez. Com luvas. Mas isso não pode determinar as decisões tomadas pelos políticos.

Nesta madrugada vi jornalistas exigir auditorias para que tudo fosse resolvido. Na rapidez da sua indignação e, desconfio, com a mesma inconsequência da sua indignação. Só que, não sei se deram por isso, houve um estudo que fez algum trabalho. Não lhe foi dedicada grande atenção, porque ele exige um domínio técnico do tema que ultrapassa as frases bombásticas e as soluções instantâneas. Só que esse estudo não fala apenas do que aconteceu em Pedrógão. Fala dos problemas circunstanciais e dos problemas estruturais, da prevenção e do combate. E apresenta propostas.

"Em vez de começarmos outra vez a inventar, vamos ler o relatório publicado pela comissão independente e completemos a reforma da floresta que deu os primeiros passos há uns meses. Os problemas estruturais estão lá todos e não vão resolver-se ao ritmo das polémicas mediáticas"

Parte das propostas estão em andamento e delas destaco, antes de tudo, a mais relevante: a reforma da floresta que, infelizmente, o PCP deixou coxa e que se espera que os restantes partidos possam vir a completar. Quanto ao combate aos fogos, há um debate difícil a fazer-se sobre um sistema que se baseia sobretudo no voluntariado. Temos milhares de homens e mulheres que merecem toda a formação para que a sua generosidade se traduza em eficácia. E é hoje evidente que a Proteção Civil tem problemas gravíssimos, provavelmente fruto de nomeações demasiado partidárias, e que precisa de uma limpeza urgente. E que dificilmente será esta ministra, tão fragilizada politicamente, a fazê-la. A demissão da ministra não resultará sobretudo das responsabilidades diretas no que tem acontecido. Resultará da necessidade de ter alguém com autoridade política para fazer o que tem de ser feito. E Constança Urbano de Sousa não tem essa autoridade.

Por fim, há o dia de ontem. E quanto a esse, ninguém com juízo negará que as temperaturas que estamos a sentir quase a meio de outubro são absolutamente excecionais. E que uma década sem incêndios e dois anos de seca fazem o resto. Sobretudo quando parece evidente, pela quantidade inacreditável de ignições, incluindo à noite, que há mão criminosa e que o fenómeno está a atingir proporções só compreensíveis se estivermos perante crime organizado.

Nada, a não ser o refrescamento do Ministério e a limpeza da Proteção Civil, produzirá efeitos brevemente. Tudo o resto, que é o que interessa, precisa de tempo e de um compromisso político alargado durante uma década. Comecemos por ler o relatório publicado pela comissão independente e continuemos completando a reforma da floresta que deu os primeiros passos há uns meses. A ministra não pode ficar? Não. Mas a sua demissão não vai resolver coisa alguma. Costa tem razão: cada incêndio que apagamos é apenas um incêndio que é travado. Os problemas estruturais estão lá todos e, lamentavelmente, não se vão resolver ao ritmo das polémicas mediáticas. Esta é a altura em que os vários atores políticos se entendem e olimpicamente ignoram o ruído dos comentadores e jornalistas. O meu incluído.

Jornal Expresso Segunda - 16 de Outubro de 2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O plano: ter o homem certo em São Bento

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OPERAÇÃO MARQUÊS

O plano: ter o homem certo em São Bento


Sócrates receberia dinheiro aos fins de semana, antes dos comentários na RTP e fez lóbi pelo Grupo Lena a Manuel Vicente


ROSÁRIO TEIXEIRA, o persistente É o líder de uma investigação que durou mais de quatro anos e esteve debaixo de fogo não só pela demora como pela estratégia aparentemente errante que começou com um apartamento em Paris, passou pelo Grupo Lena e acabaria no Grupo Espírito Santo e na PT. O seu afastamento do processo chegou a ser sugerido pela procuradora-geral, Joana Marques Vidal, mas aguentou-se ao leme do barco e acabou por levá-lo a um porto que só no final do julgamento se verá se é bom. É inegável que teve a coragem de acusar um ex-primeiro-ministro, o maior banqueiro do país e dois dos maiores gestores, mas só o decorrer do processo mostrará se também tem razão. De certa forma também ele, ou a sua reputação, será julgado no caso.


A vida não parecia correr mal ao ex-primeiro-ministro, em 2013. Às sextas-feiras, viajava de Paris para fazer os comentários dominicais na RTP-1, no programa “A Opinião de José Sócrates”, que se iniciaram em abril desse ano. Segundo a acusação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), dias antes dessas viagens os dois amigos combinavam a entrega de quantias de dinheiro, que variavam entre os 5 a 10 mil euros. O modus operandi não variava muito: Gina C. ia ao balcão do BES levantar o dinheiro, entregava-o ao empresário Santos Silva e este por sua vez fazia-o chegar a Sócrates, “de forma cadenciada” durante esses fins de semana em Portugal.

Santos Silva não poderia imaginar algo do género, dez anos antes, quando terá começado a gizar um plano, que passava por ter em São Bento o homem certo: o seu amigo José Sócrates, eleito secretário-geral do PS em 2004 e primeiro-ministro no ano seguinte. “O projeto de Carlos Santos Silva era poder aproveitar o incremento de obras públicas que então se viesse a verificar e a sua proximidade ao arguido José Sócrates no sentido de angariar contratos e concessões com o Estado”, escrevem os procuradores da “Operação Marquês”.

Naquela altura, o velho amigo de Sócrates tinha em mente ganhar os concursos de obras públicas com a Calçoeme, uma empresa que detinha com o construtor civil da Amadora, José da Conceição Guilherme. Mas o negócio gorou-se e Santos Silva voltou a aliar-se a uma empresa onde já tinha sido dirigente: o Grupo Lena.

O novo primeiro-ministro ainda não tinha aquecido o seu lugar em São Bento e já os velhos amigos se encontravam para gizar uma estratégia, que nada tinha a ver com questões políticas. De acordo com a investigação, Santos Silva e Sócrates planearam a “estratégia e o desenvolvimento de negócios” a favor do ambicioso grupo de construção civil de Leiria que apostava na construção de casas na Venezuela, na rede de alta velocidade em Portugal e no parque escolar. Segundo o Ministério Público, havia uma regra tácita de que Sócrates nunca se poderia encontrar diretamente com os dirigentes da empresa.

Já depois do “esquema” montado, o então presidente da Lena, Joaquim Barroca, também acusado, começou por depositar 2,8 milhões de euros em contas do banco UBS na Suíça, “sabendo que essas quantias eram destinadas a José Sócrates” por via de Santos Silva, o “testa de ferro” nas transações financeiras que continuaram nos anos seguintes. A maior parte desse dinheiro foi depositado numa conta secreta no banco UBS da Suíça, com o número 206-863286.

Em troca, o primeiro-ministro passou a fazer pressão para que o Grupo Lena fosse o vencedor nos concursos em que ia participando. O da rede de alta velocidade no troço entre Poceirão e o Caia é um dos que mais salta à vista na acusação. O consórcio Elos (detido pela construtora de Leiria) chegou a dar início à execução material do contrato sem sequer esperar pela decisão formal de adjudicação, nem pela assinatura do final, tal era a confiança de que iriam vencer os concorrentes. Isto apesar do teor do relatório do júri do concurso ser “ambíguo”.

Para o Ministério Público não havia muitas dúvidas: “A adjudicação da proposta da Elos representava um ato ilegal, praticado por indicação do arguido José Sócrates aos (seus) ministros, no âmbito dos compromissos que havia assumido com o grupo Lena.”


“Misión Villanueva”

Um dia depois de ser conhecida a acusação do Ministério Público, o Grupo Lena emitiu um comunicado repudiando as suspeições que recaem sobre a empresa e seus dirigentes. “É revelador da consistência das acusações do Ministério Público a enorme discrepância entre as acusações e suspeitas iniciais, em que o Grupo Lena era apresentado e exposto na praça pública como o único corruptor do antigo primeiro-ministro, José Sócrates, e as acusações agora concretizadas, em que o Grupo Lena, para o mesmo Ministério Público, tem um papel residual nessa alegada teia de corrupção”, criticam. A empresa de Leiria considera ainda que nenhuma das acusações corresponde à verdade, não passando de teorias “sem nenhuma prova que as sustente”.


Grupo Lena emitiu um comunicado repudiando as suspeições que recaem sobre a empresa e seus dirigentes


Para o DCIAP, uma das provas do envolvimento obscuro entre Sócrates e o Grupo Lena chamava-se “Misión Villanueva”, um projeto de cooperação económica da Venezuela. Joaquim Barroca, o presidente da empresa que queria construir vinte mil casas naquele país, integrou uma comitiva governamental que viajou até Caracas, em maio de 2008. Mais tarde, o primeiro-ministro terá sido pressionado por Santos Silva e Barroca para interceder junto de Hugo Chávez. E foi o que aconteceu. “José Sócrates voltou a abordar com o Presidente da Venezuela a questão da construção de casas, visando que fosse firmado o compromisso contratual com o Grupo Lena”, lê-se na acusação.

Apesar de alguns obstáculos, em setembro, a construtora selou a garantia de construir 50 mil casas.

Já depois de se demitir do Governo, em junho de 2011, José Sócrates terá continuado a fazer lóbi para a construtora de Leiria, usando a sua influência como ex-primeiro-ministro para obter pagamentos em atraso da Venezuela ou abrir caminho a negócios em Angola e na Argélia.

Em 2014, o Grupo Lena queria implantar-se em Luanda mas encontrava resistências. Para desbloquear projetos e pagamentos em atraso, Santos Silva pediu a Sócrates para marcar uma reunião com o vice-presidente Angolano, Manuel Vicente. Em setembro, num hotel em Nova Iorque, o ex-primeiro-ministro liderava um encontro com o político angolano e responsáveis da construtora.

O grupo pretendia também construir 20 mil casas prefabricadas na Argélia. E Sócrates voltou a atuar, agendando uma reunião com o primeiro-ministro Abdelmalek Sellal. Voltou a viajar para a Argel, como observador nas eleições, em 2014. Depois, no programa na RTP1 onde fazia comentário político, elogiou a forma como decorreu o processo eleitoral. E todos ficaram contentes.



Financiamento suspeito foi autorizado em três minutos


Investimento da CGD em Vale de Lobo passou numa reunião da cúpula do banco. Em pouco mais de uma hora foram autorizados 24 negócios

Apesar das bandeiras vermelhas e dos sinais de alerta dados por vários departamentos de análise de risco, o negócio que levou a Caixa Geral de Depósitos a emprestar dinheiro e a investir no Grupo Vale de Lobo foi aprovado numa reunião do Conselho Alargado de Crédito do banco estatal. Num encontro realizado a 25 de outubro de 2006, Armando Vara, então administrador, convenceu o presidente do banco, Carlos Santos Ferreira, e os administradores António Maldonado Gonelha, Celeste Cardona e Francisco Bandeira de que as condições do negócio eram favoráveis ao banco. Segundo a acusação, ao conseguir fazer passar o negócio, ganhou dois milhões de euros que dividiu irmãmente com José Sócrates.

“A sessão do Conselho Alargado de Crédito da CGD teve início pelas 16h15 e terminou pelas 17h40 do mesmo dia, tendo sido apresentadas outras 24 propostas de financiamento ou de alteração a financiamentos já em curso”, descreve o procurador Rosário Teixeira. Ou seja, houve, em média, pouco mais de três minutos para apreciar cada investimento e “as propostas apresentadas eram aprovadas nos termos propostos pelo responsável do pelouro”: Armando Vara. Assim, “não obstante o montante a que ascendia e a complexidade que oferecia, perante o elevado número de propostas levadas a Conselho, a proposta de financiamento para aquisição do empreendimento de Vale do Lobo não mereceu qualquer objeção”.

Investimento da CGD em Vale do Lobo valeu um milhão a Sócrates e outro a Vara


O plano partiu de Diogo Gaspar Ferreira, administrador do Grupo Vale de Lobo que recorreu a Rui Horta e Costa para arranjar financiamento para um plano de expansão do grupo turístico de luxo. Precisavam de 250 milhões de euros. Os dois decidiram recorrer a Armando Vara que, de acordo com a acusação, foi colocado na administração da CGD por pressão de Sócrates “uma vez que sabia que poderia manter com o mesmo contacto pessoal”. Depois da saída Campos e Cunha do cargo de ministro das Finanças “Santos Ferreira aceitou convidar Armando Vara”.


O “conforto” Sócrates

Logo na primeira reunião, Vara terá percebido que o projeto “comportava uma visão demasiado otimista” e por isso “necessitava de obter conforto político junto de José Sócrates”. Por isso, e apesar de se ter apercebido de que o negócio não seria favorável à CGD, “mercadejando com a sua qualidade de administrador”, Vara disse que seria necessário montar uma estratégia para conseguir o financiamento e que haveria um preço a pagar: dois milhões para dividir com Sócrates.

Rosário Teixeira é claro: “O arguido José Sócrates tendo conhecimento da disponibilidade de Diogo Gaspar Ferreira e Rui Horta e Costa para a entrega de uma quantia de que poderia vir a beneficiar aceitou vir a manifestar o seu apoio às decisões que viessem a ser proferidas no sentido de conceder os financiamentos pretendidos para a aquisição do empreendimento Vale do Lobo, ainda que preterindo a salvaguarda dos riscos e dos interesses da própria Caixa Geral de Depósitos.”

Armando Vara montou o esquema que conseguiu passar nos intervalos dos sistemas de prevenção do banco e financiou um total de 251 milhões de euros. E em 2007 e, tal como era previsível, o Grupo Vale do Lobo entrou em incumprimento. No último balanço, feito a 1 de março de 2017, o total em dívida era de 308 milhões de euros. Só dois milhões foram pagos devido a novo empréstimo e a dívida subiu por causa dos juros.

Mas Sócrates e Vara receberam o que lhes era devido: Diogo Gaspar Ferreira e Horta e Costa convenceram um cliente holandês, Jeroen Van Doren, a comprar um lote por 6,2 milhões de euros mas a fazer a escritura por quatro. Dois milhões foram parar a uma conta de Joaquim Barroca que depois os fez chegar a Vara e a Santos Silva e, na tese do MP, a José Sócrates. Horta e Costa e Gaspar Ferreira dividiram 200 mil euros entre si.


CRONOLOGIA

INÍCIO DA INVESTIGAÇÃO Em julho de 2013, a equipa de Rosário Teixeira começa a trabalhar no caso


DETENÇÃO DE SÓCRATES José Sócrates é detido no aeroporto de Lisboa, ao chegar de um voo de Paris, a 21 de novembro de 2014


OUTROS DETIDOS No dia seguinte, é revelada a identidade de outros três detidos: Carlos Santos Silva, Gonçalo Trindade Ferreira e João Perna


PRISÃO DE ÉVORA Sócrates fica em prisão preventiva em Évora


CARTA DE PROTESTO O ex-PM critica a “cobardia dos políticos” numa carta no “DN”


LALANDA É ARGUIDO Paulo Lalanda e Castro é arguido no início de 2015


BARROCA FICA DETIDO Joaquim Barroca é ouvido pelas autoridades e fica em preventiva, a 24 de abril


DOMICILIÁRIA NÃO Em junho, Sócrates recusa proposta do MP para ficar em prisão domiciliária, com vigilância eletrónica


PRESO POLÍTICO Ex-PM reivindica a condição de preso político


288 DIAS DEPOIS Sócrates passa para prisão domiciliária depois de 288 dias em preventiva


A LIBERTAÇÃO Sócrates é libertado a 16 de outubro, mas fica proibido de sair do país


PRAZO ERA APERTADO DCIAP fixa para 15 de setembro o prazo limite para a conclusão do inquérito. No dia 14 desse mês, a PGR dá mais 180 dias


CARLOS ALEXANDRE FALA Ao Expresso, o juiz Carlos Alexandre diz que o querem afastar do cargo que ocupa


SALGADO E BATAGLIA Em janeiro de 2017, Ricardo Salgado é constituído arguido. Hélder Bataglia tinha sido ouvido quatro dias antes


BAVA E GRANADEIRO Os ex-gestores da PT Henrique Granadeiro e Zeinal Bava são arguidos em fevereiro


SÃO 28 OS ARGUIDOS PGR anuncia a constituição de 28 arguidos em março e prolonga prazo de investigação


SAI A ACUSAÇÃO Na última quarta-feira, MP divulga a acusação


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2346 - 14 de Outubro de 2017

Salgado criou offshore só para pagar a Sócrates

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OPERAÇÃO MARQUÊS

Salgado criou offshore só para pagar a Sócrates


Acusado Quase três anos depois da detenção do ex-primeiro-ministro no aeroporto de Lisboa fecha-se o primeiro capítulo da ‘Operação Marquês’: José Sócrates é acusado de 31 crimes num processo que ainda vai ter mais duas partes e um fim imprevisível: julgamento e recursos. O caso que envolve ainda o maior banqueiro do país, Ricardo Salgado, e os dois administradores do maior grupo económico português, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, também pode ser dividido em três: Grupo Lena, BES/PT e Vale do Lobo. Nas 4083 páginas da acusação redigida a sete mãos é descrito como Salgado criou uma offshore só para pagar subornos a Sócrates, como Carlos Santos Silva planeou lucrar com a conquista do poder pelo melhor amigo e como um investimento suspeito passou facilmente pelo sistema de supervisão do banco público português e rendeu dois milhões de euros ao ex-primeiro-ministro e a outro ex-governante, Armando Vara. Ninguém foi condenado e todos os 28 acusados são presumíveis inocentes, mas já se fez história

FOTO RUI DUARTE SILVA


Nas contas secretas do saco azul do GES, ex-PM era “Pinsong”, Zeinal e Granadeiro eram “PT”


Textos Micael Pereira, Rui Gustavo e Hugo Franco



Vai demorar anos até ficar claro como funcionava em toda a sua extensão o submundo que foi criado pelo banqueiro Ricardo Salgado de forma a poder dispor de dinheiro como queria, quando queria e para quem queria, sem deixar rasto. O longo despacho de acusação da ‘Operação Marquês’ mergulha bem dentro desse thriller financeiro de dimensões internacionais. Dada por encerrada esta semana, ao fim de mais de quatro anos de trabalho, a maior investigação judicial de sempre sobre corrupção em Portugal tem no seu epicentro um gigantesco ‘saco azul’ do GES gerido entre Lisboa e Lausana, na Suíça, e a Espírito Santo (ES) Enterprises, uma companhia incorporada nas Ilhas Virgens Britânicas em 1993 com o propósito de distribuir dinheiro debaixo do radar.


Na acusação que imputa 31 crimes de corrupção, branqueamento de capitais, fraude fiscal qualificada e falsificação de documentos a José Sócrates e 21 crimes a Ricardo Salgado, colocando-o como o principal corruptor do caso, o Ministério Público concluiu que os subornos pagos pelo banqueiro ao antigo líder do Partido Socialista quando ele era primeiro-ministro vieram desse ‘saco azul’ do GES. Embora isso já fosse conhecido publicamente, o despacho de acusação traz pormenores relevantes e inéditos.


Porque era tão sensível e arriscado subornar com milhões de euros um chefe de Governo em pleno exercício do cargo, o banqueiro montou um esquema para camuflar essas saídas de dinheiro com a ajuda de um talentoso e discreto gestor suíço da sua máxima confiança, Jean-Luc Schneider, o operacional do ‘saco azul’ do GES.


A partir de 2006 foi preciso pagar por baixo da mesa a figuras-chave que pudessem garantir a Salgado o controlo e o máximo proveito da Portugal Telecom, de que o GES era acionista. A par de Sócrates foram por isso também canalizados através do ‘saco azul’ alegados subornos para os então chairman e CEO daquela operadora telefónica, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava. Mais de 20 milhões para Sócrates e mais de 25 milhões de euros para cada um dos gestores de topo da PT.


O Expresso revelou no ano passado que o dinheiro usado para corromper Sócrates saiu do saco azul do BES

Schneider mantinha uma contabilidade secreta do ‘saco azul’ do GES — a ES Enterprises — que só partilhava com Salgado, segundo o despacho de acusação da ‘Operação Marquês’. Eram contas completamente diferentes da contabilidade oficial dessa offshore, cujos relatórios eram falsificados para poder esconder o seu enorme passivo — porque, na realidade, a ES Enterprises era um sorvedouro de dinheiro sem qualquer espécie de retorno e que convinha passar despercebido. “O arguido Ricardo Salgado deu instruções a Jean-Luc Schneider para que, em vez de passivos, fossem registados ativos com saldo negativo”, diz o despacho. “Deste modo, lograva que as contas apresentassem sempre um ativo reduzido, dado que as suas rubricas se compensavam, bem como apresentassem também um passivo sem significado.”


De acordo com o Ministério Público, a principal fonte de dinheiro para alimentar a ES Enterprises era a Zyrcan Harthan Corporation, uma offshore que funcionou como um fundo (o Zyrcan) que absorvia ganhos obtidos com a venda de aplicações financeiras aos clientes do BES, incluindo a emissão de papel comercial.


Até 2013 o Zyrcan desviou 165 milhões de euros para o ‘saco azul’ do GES. A 27 de agosto do ano passado, o Expresso revelou, no âmbito dos “Panama Papers”, como uma conta associada a esse fundo foi aberta misteriosamente sete meses depois do colapso do BES e do GES, já em março de 2015, num banco no Panamá, o Credicorp Bank, naquilo que, com os dados agora revelados pela acusação da ‘Operação Marquês’, se parece cada vez mais como um desvio de ativos, de forma a evitar os arrestos promovidos pelas autoridades portuguesas e suíças.


Contabilidade secreta


Os ficheiros ‘extracontabilísticos’ da ES Enterprises, como são descritos pelos procuradores, foram apreendidos na Suíça, no antigo gabinete de Schneider. E são reveladores. “Os pagamentos destinados aos arguidos Zeinal Bava e Henrique Granadeiro foram designados por ‘PT’, enquanto os pagamentos destinados ao arguido José Sócrates foram englobados na designação ‘Pinsong’”, lê-se no despacho do MP.


A Pinsong era uma companhia offshore das Ilhas Virgens Britânicas que o GES adquiriu em 2007. Era detida a 100% pela ES Enterprises. “A constituição da sociedade Pinsong foi determinada pelo arguido Ricardo Salgado com o intuito de separar da ES Enterprises os pagamentos efetuados ao arguido José Sócrates a troco de atuação contrária aos seus deveres públicos profissionais no âmbito do Grupo Portugal Telecom”, diz a acusação da ‘Operação Marquês’. “Para que os pagamentos que se propunha realizar ao poder político, na pessoa do arguido José Sócrates, que à data exercia o cargo de primeiro-ministro de Portugal, nunca viessem a ser revelados, o arguido Ricardo Salgado, com a colaboração do arguido Hélder Bataglia e o conhecimento e acordo do primeiro, montou uma estrutura societária e contabilística totalmente fictícia, amparada em contratos cujo objeto não correspondia à realidade”.

“Os pagamentos destinados ao arguido José Sócrates foram englobados na designação ‘Pinsong’”, diz a acusação


A existência, a finalidade e os contornos originais da Pinsong foram revelados pelo Expresso em julho de 2016, no âmbito dos “Panama Papers”, sendo que o MP afirma agora que foi pago um total de 22 milhões de euros associados a essa offshore entre 2007 e 2009, mais do que os 17 milhões de euros referidos há quase um ano e meio pelo jornal.


A diferença é simples de explicar: nos “Panama Papers” foram encontrados dois contratos fictícios feitos entre a Pinsong e a Markwell, uma offshore controlada por Hélder Bataglia, o antigo homem-forte do GES em África, que justificavam o pagamento de 22 milhões de euros à Markwell relacionados com um trabalho de consultoria para a concessão de poços de petróleo em Angola. Nos contratos, que o Expresso revelou como tendo sido forjados e pré-datados, havia 5 milhões de euros, do bolo total de 22 milhões, que só deveriam ser pagos caso as concessões de petróleo fossem atribuídas — o que nunca aconteceu. Ainda assim, esses cinco milhões foram efetivamente pagos, de acordo com o Ministério Público, que teve entretanto acesso às contas bancárias da ES Enterprises na Suíça.


Os procuradores afirmam que dos 22 milhões de euros pagos debaixo do chapéu da Pinsong, 15 milhões foram para Sócrates e outros 7 milhões ficaram para Hélder Bataglia, que acabou acusado de branqueamento de capitais e falsificação de documentos mas não do crime de corrupção.


“Os pagamentos qualificados como ‘Pinsong’ exigiam que fossem assumidas todas as cautelas no sentido de manter o seu secretismo e de, no caso de virem a ser revelados, poderem ser justificados com o desenvolvimento de atividade comercial lícita”, explica o despacho de acusação.

O MP DIZ QUE EM 2006 E 2007, ATRAVÉS DO PRIMO, SÓCRATES LEVANTOU €2 MILHÕES DA LOJA DO ZÉ DAS MEDALHAS


Num depoimento em janeiro de 2017, Bataglia assumiu perante os procuradores que Salgado lhe pediu o favor de fazer chegar dinheiro a Carlos Santos Silva, amigo próximo e alegado testa de ferro de Sócrates. O plano passou por usar contas de Bataglia na UBS, na Suíça, tituladas por offshores. Na versão que contou ao MP, Bataglia ficou de entregar a Santos Silva um total de 12 milhões de euros — não mais do que isso. O resto tinha que ver com outras coisas. Esses 12 milhões foram depois transferidos por Bataglia para uma offshore de um dos donos do Grupo Lena, Joaquim Barroca, cujo número de conta na UBS foi dado ao homem-forte do GES em África por Carlos Santos Silva.


Quando foi interrogado, Salgado negou que este esquema tenha alguma vez existido, mas o depoimento de Bataglia bate certo com o que Joaquim Barroca disse ao MP ainda em 2015. Barroca acusou Santos Silva de ter usado a sua conta na Suíça sem ele saber para quê.


O BESA e o primo


No meio desta teia complexa de transferências dissimuladas, Bataglia parece estar a proteger alguém: José Paulo Bernardo Pinto de Sousa, um amigo de infância e tio de uma das suas filhas que, por coincidência, é primo direito de Sócrates e uma das pessoas mais próximas do antigo primeiro-ministro.


José Paulo Pinto de Sousa, que vive em Angola e não chegou a ser interrogado mas está acusado de branqueamento de capitais, chegou no caso Freeport a ser referido numa gravação clandestina como sendo o primo de Sócrates que receberia os subornos pagos ao então ministro do Ambiente a troco da aprovação ambiental em 2002 do complexo comercial em Alcochete. Essas suspeitas foram mais tarde arquivadas.


Mas José Paulo voltou. Para o MP, houve uma primeira fase, entre 2006 em 2007, em que Sócrates recebeu seis milhões de euros de subornos vindos originalmente do GES e que acabaram depositados em contas de José Paulo Pinto de Sousa. Esse dinheiro saiu do Banco Espírito Santo Angola (BESA) e circulou por contas do BESA no Banco Santander em Portugal e por contas offshore de Bataglia e de Pedro Ferreira Neto, antigo colega de administração de Bataglia na Escom, o braço do GES em África, antes de ir parar às contas do primo de Sócrates. Os seis milhões estão alegadamente relacionados com o lançamento da oferta pública de aquisição (OPA) da Sonae sobre a Portugal Telecom, em fevereiro de 2006, contrária aos interesses de Salgado e do GES.


A equipa da ‘Operação Marquês’ acredita que há indícios para provar como José Paulo estava a ser usado como testa de ferro do primo na altura. E como dois milhões de euros que foram levantados em dinheiro vivo pelo “gordo” em 2006 e 2007 na loja que um cambista conhecido como Zé da Medalhas explorava como um banco secreto na baixa de Lisboa eram já de Sócrates. Mas que, assim que souberam que estavam a ser investigados por causa do Freeport, desistiram do esquema.


As dez figuras do processo

Velhos conhecidos e novos protagonistas fazem parte do maior caso que a Justiça já montou em Portugal. E está só no início




JOSÉ SÓCRATES, o acusado feroz


Só agora foi acusado e já deu todos os sinais de que vai dar muita luta durante o julgamento. Nega todas as acusações (corrupção, branqueamento, fraude fiscal e falsificação), considera-se vítima de um processo político, acusa o partido (PS) de não o apoiar como devia e teve o momento alto neste caso quando se recusou sair da prisão e ir para casa em prisão domiciliária com pulseira eletrónica. O ato de coragem, ou a bravata, valeram-lhe mais três meses na cadeia de Évora e um polícia à porta quando foi para casa sem pulseira. A tese que defenderá durante todo o julgamento é a de que tinha “dificuldades financeiras” e que por isso recorreu à ajuda do amigo pródigo, Carlos Santos Silva. A “sua verdade”, como notou o atual primeiro-ministro, António Costa.



RICARDO SALGADO, o corruptor disto tudo


A acreditar na acusação, Ricardo Salgado corrompeu o ex-primeiro-ministro José Sócrates e os dois principais gestores do maior grupo económico do país, a PT, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro. O antigo presidente do BES 
(também é arguido no processo que investiga a derrocada do grupo) terá aceitado pagar mais de 70 milhões a estes acusados para conseguir decisões favoráveis para o grupo que presidia. Nega tudo, diz que está a ser usado como “boia de salvação do processo” e confessou-se “em choque” quando foi confrontado com a confissão de Hélder Bataglia que admitiu ter deixado usar uma das suas contas para fazer chegar 
12 milhões a Santos Silva, 
isto é, nas perspetiva da acusação, a José Sócrates.




CARLOS ALEXANDRE, o juiz só

Juiz de instrução do processo, decidiu mandar José Sócrates para prisão preventiva e sufragou a maior parte das posições do Ministério Público, caindo de imediato na mira da defesa do ex-primeiro-ministro que o acusa de falta de imparcialidade. Com alguma surpresa, aceitou dar entrevistas à SIC e ao Expresso em que expôs problemas financeiros, o receio de ser afastado e a falta de amigos pródigos, o que foi interpretado pelos advogados de Sócrates como uma indireta ao seu cliente. Houve um incidente de recusa que foi negado e vai seguir-se outro para evitar que faça a fase de instrução. Na verdade, pode ser afastado do caso por uma questão de sorte, ou azar, depende da perspetiva: se houver instrução o nome do juiz será sorteado. Alexandre pode continuar ou ser substituído por Ivo Rosa.





CARLOS SANTOS SILVA, o amigo especial


Empresário de sucesso da zona da Covilhã, era um total desconhecido do país até ser detido, horas antes de José Sócrates. Na versão do ex-primeiro-ministro, Santos Silva é o seu “melhor amigo há mais de 40 anos” e ajudou-o numa “altura de dificuldades financeiras” com empréstimos que já pagou e pretende continuar a pagar. Para o MP, é o testa de ferro de Sócrates que aceitou receber nas contas bancárias dinheiro que se destinava ao amigo e autor de um plano para o corromper assim que chegasse ao poder. O objetivo era conseguir obras e trabalhos para o Grupo Lena, com que trabalhava e com o qual se terá aliado. É o acusado com maior número de crimes: 33.



HÉLDER BATAGLIA, o arrependido

Um self-made man que liderou a entrada do Grupo Espírito Santo (GES) em Angola no início dos anos 90, tornando-se presidente da Escom. Passou a ser o homem-forte de Ricardo Salgado para África. Indiciado na ‘Operação Marquês’ pelo facto de muitas transferências bancárias passarem pelas suas offshores e pelo seu envolvimento enquanto acionista do resort de luxo Vale do Lobo, acabou por protagonizar o depoimento mais surpreendente do processo, ao denunciar Ricardo Salgado, dizendo que o banqueiro lhe pediu para fazer chegar de forma camuflada 12 milhões de euros a Carlos Santos Silva, alegado testa de ferro de Sócrates. Acusado de branqueamento, livrou-se do crime de corrupção, ao contrário de dois sócios de Vale do Lobo.




JOÃO ARAÚJO, o irónico


Deu o tom inicial para um estilo muito próprio quando apareceu no Campus de Justiça no dia seguinte à prisão de Sócrates a dizer que era “o advogado estagiário” que iria defender o ex-primeiro-ministro. Pediu para não ser filmado ao pé do Smart que conduzia porque é “gordo” e seria “ridículo”, mas apesar do humor autodepreciativo e de alguns momentos menos felizes a lidar com a pressão mediática (tratou os jornalistas por ‘canzoada’ e mandou uma repórter tomar banho), não tem dado tréguas ao Ministério Público e ao juiz Carlos Alexandre apresentando recursos e contestando cada decisão desfavorável ao seu cliente. Tem perdido quase todas as batalhas (afastamento de Carlos Alexandre, fim do prazo para terminar 
a investigação) mas sabe 
que o interessa é como 
acaba a guerra.






ARMANDO VARA, o facilitador


Único ex-ministro socialista do processo (além de Sócrates) é acusado de ter facilitado um empréstimo ao Grupo Vale do Lobo quando era administrador da Caixa, cargo que terá conseguido graças à influência do amigo e ex-colega de Governo, 
José Sócrates. De acordo 
com o Ministério Público, cobrou dois milhões pelo 
favor. Um para ele, outro 
para Sócrates. De acordo 
com a acusação usou contas suas e da filha, Bárbara Vara, também acusada, para fugir ao fisco. Chegou a estar em prisão domiciliária e já foi condenado a cinco anos de prisão no caso ‘Face Oculta’, um dos primeiros processos a envolver figuras da política e do mundo empresarial. Aguarda a decisão de um recurso para o Constitucional e só por isso não foi ainda preso.






ZEINAL BAVA/HENRIQUE GRANADEIRO, os anjos caídos


Durante anos mantiveram uma reputação à prova de bala e foram os rostos do aparente sucesso da Portugal Telecom. Antigo administrador do grupo Impresa, de que o Expresso faz parte, Granadeiro ficou à frente da operadora em 2006 quando a Sonae lançou uma OPA considerada hostil pelo GES de Ricardo Salgado, acumulando durante algum tempo como chairman e CEO. Zeinal Bava substituiu-o como presidente executivo e em 2011 chegou a ser eleito o melhor CEO da Europa no sector das telecomunicações. Depois de o Ministério Público descobrir que, nos bastidores, receberam dezenas de milhões do ‘saco azul’ do GES alegadamente a troco de favorecerem os interesses de Salgado, foram constituídos arguidos por corrupção passiva na ‘Operação Marquês’.





JOANA MARQUES VIDAL, a irritada


A procuradora-geral da República apanhou com o processo logo no início do mandato — chegou a desmentir a notícia da “Sábado” que em julho de 2014 dava Sócrates como implicado no processo ‘Monte Branco’ — e perdeu várias vezes a paciência com o tempo que a investigação demorou e a estratégia montada por Rosário Teixeira. Sugeriu que o procurador fosse afastado da titularidade do processo, mas o diretor do DCIAP, Amadeu Guerra, não acatou o conselho. Depois dos vários adiamentos já deu a cara pela acusação dizendo que o Ministério Público “não inventa processos” e que às vezes só com “megaprocessos” se pode chegar à verdade. O caso vai marcar a sua passagem pelo lugar mais alto da hierarquia do Ministério Público.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2346 - 14 de Outubro de 2017

domingo, 15 de outubro de 2017

Enigma toponímico





Enigma toponímico


Como se deve dizer e escrever: Rua da Alfândega Nova ou Rua Nova da Alfândega?



Adoro decifrar mistérios acerca da ori­gem e da grafia dos nomes de certas ruas desta nossa cidade. Mas não ape­nas nomes. Por exemplo; devemos di­zer Senhora de Vandoma ou Senhora da Vandoma ? E a rua que liga a Praça do Infante à Rua de Monchique é a Rua Nova da Alfândega ou a Rua da Alfândega Nova ?

No primeiro caso, a frase aparece, por vezes, nas duas versões; Senhora de Vandoma e Se­nhora da Vandoma. Aceitamos a primeira, por ser a que, entre os entendidos na matéria, reú­ne maior consenso e, também, por ser a que é mais utilizada em escritos e na linguagem cor­rente. Quanto à segunda, vamos refletir sobre o assunto.

A artéria em questão foi aberta entre os anos de 1869 e 1871, para que fosse possível estabe­lecer uma ligação rápida e cómoda com o edi­fício da Alfândega nova que andava em cons­trução, no vasto areal de Miragaia, pelo menos desde 1860.

A construção da Rua Nova da Alfândega, chamemos-lhe assim, obrigou à demolição de mais de 200 prédios e ao desaparecimento de um dos mais típicos recantos do Porto mas também dos mais imundos.

Um dos primeiros edifícios a ser demolido foi a Porta Nobre ou Nova que ficava, sensivel­mente, ao fundo das escadas do Caminho Novo (ver caixa ao lado). Também levaram sumiço típicas como a Rua da Ourivesaria, que ante­riormente se chamou de S. Nicolau, dada a sua proximidade com a igreja que tem este santo como patrono; a velhíssima Rua dos Ba­nhos que às vezes aparece identificada com o nome de Rua das Boas Mulheres do Mester. Desapareceu igualmente a Travessa dos Ba­nhos. Rua e travessa que já aparecem men­cionadas em escrituras de 1473. Mas deviam ser bem mais antigas porque, em 1331, a Câ­mara assumiu, perante a população ribeiri­nha, a obrigação de construir um balneário que, supõe-se, foi quem acabou por dar o nome à rua.

Também levaram sumiço as ruas da Munhota, de Almeia e do Forno Velho. Este to­pónimo manteve-se, no entanto, na designa­ção de uma calçada, com início ao fundo da antiga Rua da Ferraria de Baixo, hoje de" O Comércio do Porto".

A razia não ficou por aí. Em 1505, a Câma­ra doou aos tanoeiros "um terreiro junto ao Postigo de João Pais que vai para o muro (mu­ralha ) junto à (rua da) Ourivesaria para nele eles estabelecerem suas oficinas..." Ficaria tudo à entrada da Rua da Reboleira para quem nela entra pelo lado da Rua Nova da Alfânde­ga. Um documento do Cabido de 1566 alude a umas casas "sitas nos banhos, debaixo do Coberto dos Tanoeiros...". julga-se que aque­le Postigo de João Pais terá sido a primeira ar­téria do burgo a receber o nome de uma pes­soa.

O sitio da Fonte da Rata, na tanoaria; e uma rua da Rondela, "cerca da Rua dos Banhos", foram igualmente vítimas do voraz camartelo municipal. O mesmo aconteceu com a Rua da Revolta. Uma artéria houve que não tendo desaparecido mudou de nome. Refiro-me à antiga Rua do Reguinho. É agora a Rua de S. Francisco.

Bom, é tempo de voltarmos ao tal enigma toponímico. Não há dúvida acerca da nomen­clatura atual; Rua Nova da Alfândega, lê-se na respetiva placa. Mas nem sempre foi assim. Pinho Leal, no seu "Portugal antigo e moder­no" (1875) ao escrever acerca de Miragaia, referindo-se à nova artéria, que ainda andava em construção, dá à entrada o título de "Rua Nova da Alfândega". Mas no texto refere" Rua da Nova Alfândega". O que não deixa de ser curioso.

Outro grande historiador da cidade, Artur de Magalhães Basto, num artigo que publicou, nos idos de 40 do século XX, nas páginas de "O Primeiro de Janeiro", intitulado "Uma des­crição topográfica do bairro da Sé no século XVII", faz também uma desenvolvida refe­rência ao bairro de Miragaia em que fala das "demolições que se fizeram para a abertura da Rua da Nova Alfândega". Há aqui uma cer­ta concordância.

Vejamos agora a parte oficial. Em 1875, a Câmara colocou à venda terrenos de que era proprietária e que haviam resultado das de­molições que foi necessário fazer para a cons­trução da rua. Nos anúncios que mandou pu­blicar, a edilidade deixou explicito que se tra­tava de "terrenos que resultaram das expro­priações efetuadas para a abertura da Rua da Nova Alfândega". Outra vez. E em 1903, já no século XX, portanto, uma planta da cidade de­senhada e publicada nesse ano assinala a nova artéria como Rua da Alfândega Nova. Di­ferente, como estão a ver.

Conclusão; numa primeira fase, a rua deve ter sido crismada de Rua da Nova Alfândega. E com legitimidade. Ela foi aberta, afinal, para estabelecer uma ligação rápida e cómoda en­tre a Praça do Infante e o edifício da nova Al­fândega que andava a ser construído no areal ou praia de Miragaia. Posteriormente, passa­ram a denominá-la Rua Nova da Alfândega. O que até nem está mal. A rua é, ou era, nova e foi aberta para ligar com o edifício da Alfân­dega . Logo, Rua Nova da Alfândega.

A história da Porta Nobre



Quando se construiu (1336/1376) a Muralha Fernandina, cuja obras co­meçaram no reinado de D. Afonso IV e terminaram no tempo do seu neto, o rei D. Fernando, daí o "Fernandi­na", em Miragaia, ao fundo do lanço que atualmente desce ao longo das escadas do caminho Novo, abriu-se um postigo, a que foi dado o nome de Postigo da Praia, porque dava acesso direto ao areal ou praia de Mira­gaia. Anos mais tarde, o rei D. Manuel I mandou substi­tuir o postigo por uma porta que ficou conhecida pela Porta Nova ou Nobre, por­que era por ela que entra­vam na cidade os reis, prín­cipes, bispos e outras altas figuras da corte e da Igreja. Sobre a entrada foi afixado um brasão com as armas de D. Fernando, hoje nos jar­dins do Museu Nacional de Soares dos Reis. Essa porta tinha anexa um fortim, de que ainda há pouco anos se viam vestígios (foto) dota­do de militares e armamen­to.

Foi na antiga Rua do Reguinho que nasceu o escritor Júlio Dinis

JORNAL DE NOTÍCIAS, 15OUT, 2017

Rio, Santana e Sócrates: do tudo ao nada


  Miguel Sousa Tavares

Rio, Santana e Sócrates: do tudo ao nada


Rui Rio. Para ser franco, não sei bem quem seja e seguramente não lhe recordo uma única ideia ou pensamento que me tenha chamado a atenção. Sei, claro, que foi presidente da Câmara do Porto, muito elogiado pela imprensa e intelectualidade lisboeta por se ter atrevido a enfrentar o FC Porto e Pinto da Costa. Porém, só o fez depois de ser eleito e não antes — mostrando logo aí o que viria a revelar-se uma característica muito sua: o gosto pelos combates ganhos à partida, a aversão pelos outros. Nessa guerra, sem que se tenha percebido porquê, Rio resolveu levantar toda a espécie de problemas à obra do Estádio do Dragão, que estava já praticamente concluída e onde iria ter lugar a abertura do Euro-2004. Oficialmente, foi Rio que ganhou a guerra, ao obrigar o FC Porto a pagar 1 milhão de euros a favor de uma inventada Associação de Comerciantes da Baixa, como compensação pela construção de um centro comercial junto ao Estádio e a uns 10 quilómetros da Baixa. Na prática, porém, eu acho que foi o FC Porto que ganhou a guerra: nesse ano, viria a ser campeão da Europa e no ano seguinte campeão do mundo, e o Estádio do Dragão é, consensualmente, um dos mais bonitos do mundo e um ex-líbris da cidade. Ou seja: fez infinitamente mais pelo Porto do que o seu presidente. Quanto a Rui Rio, é o que é e que nem os seus eternos promotores sabem dizer ao certo o que seja. Sei — porque assisti ao vivo a uma palestra dele sobre o assunto — que tem problemas por resolver, não com alguns jornais ou jornalistas, mas com a imprensa em geral e, por arrasto, com a liberdade de imprensa. Diz-se também que terá algumas ideias brilhantes, fruto de profunda reflexão sobre os problemas nacionais, mas, ao certo, ninguém é capaz de enunciar uma dessas ideias. Dizem que é um homem bom da província que aspira à redenção da vida pública, uma esperança, uma reserva nacional, até mesmo, imagine-se, eventual candidato a Presidente da República, não fosse um candidato mais forte ter-se-lhe interposto à frente e ele, fiel ao seu estilo, ter batido em retirada. Faz-me lembrar irresistivelmente o Pacheco da “Correspondência de Fradique Mendes” — também ele, vindo da província para tomar o poder em São Bento, precedido de uma fama e de uma aura de inteligência, brilhantismo e moralidade assente em coisa alguma que alguém pudesse enunciar ao certo. Como escreveu Eça, “Pacheco, no entanto, já não falava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornando mais vasta”. Eis a primeira proposta do PSD ao país.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO


Quanto a Santana Lopes, a outra proposta, esse, o país inteiro conhece-o, até bem demais — com ele é como se fossemos todos família. A imprensa adora-o, porque ele é um incansável fabricante de emoções, animações e trapalhadas — o “menino guerreiro”. Tem sobre Rio essa vantagem: a ele não assustam as guerras perdidas (enfim, não todas...), e não há festa nem festança a que não compareça, convidado ou não. Infelizmente, tem, em relação a Rio, a imensa desvantagem daquele trágico e breve governo de 2002, que Durão Barroso deixou cinicamente de herança ao país quando se pirou para Bruxelas e que Santana chefiou como se chefia um clube de amigos. Mais do que uma amnésia colectiva, seria necessário que o país entrasse num processo de suicídio colectivo (como parece estar a acontecer com o PSD) para que voltássemos a passar por tão deliciosa experiência. Não obstante, eu prefiro sempre aqueles a quem falta em razão o que lhes sobra em coração: afinal de contas, eles são o sal da vida. E a Pedro Santana Lopes aplica-se como uma luva os versos do fado de Amália: “Coração independente/ coração que eu não comando/ vives perdido entre a gente... pára, deixa de bater/ se não sabes onde vais/ porque teimas em correr?”. Eu não te acompanho mais.


José Sócrates. Então, após mais de quatro anos de investigação, nove meses de prisão preventiva do principal arguido, vinte e não sei quantos investigadores encarregados do processo e dezenas de milhões de euros gastos aos contribuintes (tanto ou quase tanto como o MP acusa Sócrates de ter recebido indevidamente), a equipa Amadeu Guerra/Rosário Teixeira & Associados conseguiu finalmente produzir uma acusação contra o antigo PM. Não entrando em considerações sobre o mérito da acusação (não se lêem 4000 páginas, mais as que a defesa vier a produzir num dia...), deixem-me apenas constatar alguns factos que julgo de razoável seriedade intelectual ter como pacíficos:


a) manifestar o meu espanto por haver quem, sem se desmanchar, fale em “rapidez processual”, pelo facto de o MP ter antecipado em um mês o prazo de conclusão do inquérito, anteriormente prorrogado sete vezes;


b) constatar que, como seria de prever e esperar, esses quatro anos — que foram não apenas de inquérito, mas também de linchamento popular, propiciado por sistemáticas e cirúrgicas fugas de informação — produziram o efeito útil pretendido: a condenação prévia dos arguidos, à revelia de qualquer presunção de inocência (bem patente, aliás, na entrevista do juiz de instrução, Carlos Alexandre, à SIC). A grande questão, obviamente apenas teórica, é esta: mesmo que porventura não convencido da culpabilidade de Sócrates, haverá algum juiz em Portugal que tivesse a coragem de o absolver, sabendo que com isso consumaria também o desprestígio final e definitivo do MP?;

Conseguiu-se aquilo que em todos os discursos dos responsáveis pela Justiça aparece enunciado como os dois males maiores a evitar: a morosidade dos julgamentos e os megaprocessos que a proporcionam


c) verificar que o MP acha que é pela quantidade e não pela qualidade que a acusação terá vencimento. Não fôssemos nós pensar que tudo foi concluído de forma leviana, eis que o MP nos bombardeia com os seus dados: mais de 200 testemunhas ouvidas, milhares de horas de gravação de centenas de escutados, 500 contas bancárias escrutinadas, aqui e no estrangeiro, e centenas de buscas efectuadas. Um dilúvio investigatório, em que só faltou contabilizar as fugas de informação, como sempre inexplicavelmente saídas para a imprensa e desde o primeiro minuto em que José Sócrates foi preso à saída de um avião. Tudo isto resultando em 28 arguidos, 164 crimes e, afinal, 34 e não 24 milhões encaixados por Sócrates a título de corrupção. E traduzido numa acusação que entrará para o “Guinness” com as suas 4000 páginas. Tolstoi precisou de 900 páginas para escrever o melhor romance que alguma vez foi escrito. Não sei se, como diz a defesa de Sócrates, também aqui estamos perante um romance. Mas sei que uma acusação que precisa de 4000 páginas para convencer o juiz de instrução e o tribunal, não é uma peça processual, é um caso agudo de incontinência verbal. Na esteira, aliás, da funesta tradição jurisprudencial que é a nossa, esta acusação não tenta ser clara, concisa, factual e inteligível por todos — com razão ou sem ela. Pretende, sim, esmagar, lançar a confusão, reduzir a apreciação dos factos a um número absolutamente restrito de quem saiba, possa e tenha paciência para ler e reflectir atentamente sobre estas 4000 páginas, mais aquelas que a defesa apresentar;


d) o julgamento vai seguramente demorar uma eternidade, anos a fio e, atrevo-me a apostar que, no final, só os já convencidos se sentirão esclarecidos num ou noutro sentido. Conseguiu-se aquilo que em todos os discursos dos responsáveis pela justiça aparece enunciado como os dois males maiores a evitar: a morosidade dos julgamentos e os megaprocessos que a proporcionam. É extraordinário que não tenha havido ninguém, acima de Rosário Teixeira na estrutura do MP, que lhe tenha imposto que se cingisse ao essencial e àquilo que parecesse aos investigadores mais fácil de acusar e provar em tribunal. Em vez disso, permitiu-se que a acusação andasse de negócio em negócio, de empresa em empresa (sempre bem informado, o “Correio da Manhã” chegou a titular que todos os negócios, públicos ou privados, durante o governo Sócrates, estavam sob suspeita), até que finalmente, à 25ª hora e graças ao testemunho negociado com Hélder Bataglia em circunstâncias que não honram a investigação, fosse possível juntar no mesmo saco dois alvos preferenciais: Sócrates e Ricardo Salgado. Mesmo assim, também lá está Vale do Lobo, o grupo Lena, e a PT, além do BES: a fazer fé no MP, tivemos um PM que estava literalmente à disposição para ser comprado por qualquer empresa, empresário ou negócio;


e) fosse por vaidade ou já por simples desnorte (mas para grande deleite da imprensa), caiu-se assim no “julgamento do regime”, com um saco de gatos de arguidos de que só escaparam alguns privilegiados e que, fatalmente, vai tornar o julgamento ainda mais arrastado e confuso. Exemplo extremo: suponhamos que, como sustenta o MP, Salgado comprou, de facto, os serviços de Granadeiro e Zeinal Bava para que eles defendessem os interesses do accionista BES dentro da PT. O que tem José Sócrates que ver com isso? Porque vai tudo junto a julgamento?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Jornal Expresso SEMANÁRIO#2346 - 14 de Outubro de 2017

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