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domingo, 29 de setembro de 2013

CARLOS ALBERTO




CARLOS ALBERTO

Onde se fazia a feira dos moços e das moças

O título da crónica é suscetível de induzir o leitor em erro. Assim à primeira leitura parece que vou falar do malogrado rei Car­los Alberto, da Sardenha, que se exilou no Porto, em 1849, depois de ter perdido a cé­lebre batalha de Novara, quando lutava pela unificação da Itália. Mas não. A mi­nha intenção é ocupar-me da praça que to­mou o nome desse desventurado monar­ca. Trata-se, efetivamente, de um dos mais belos espaços da cidade e onde sub­siste um dos mais harmoniosos conjun­tos de prédios típicos do século XIX.
 
Ao folhear o Almanaque do Porto para 1881, fico surpreendido com a quantida­de de hotéis que funcionavam naquela praça. Cito apenas meia dúzia: Hotel Boa Esperança; Hotel de Carlos Alberto; Hos­pedaria do Peixe, onde o monarca se hos­pedou logo após a sua chegada ao Porto; Hotel Leão D'Ouro; Hotel da Viúva de Bento José Pereira; Hotel Lusitânia. Isto sem falar dos cafés, casas de pasto, restau­rantes, de entre os quais o mais célebre era o "Caldos de Galinha", da senhora Andre­sa.
Continuando a investigar sobre o inte­ressantíssimo historial da praça, com­preendo e aceito que por ali tenham pro­liferado, durante todo o século XIX e co­meços do século XX, tão abundantes esta­belecimentos de hotelaria e restauração, como agora, modernamente, se diz. É que a Praça de Carlos Alberto foi, em tempos remotos, um importantíssimo eixo rodo­viário onde entroncavam velhos cami­nhos que, saindo da medieval porta do Olival, da muralha fernandina, na Cor­doaria, conduziam às estradas que se diri­giam para Braga, Barcelos e Vila do Conde, povoações de grande importância já na época medieva. A importância do sítio como centro irra­diador de vias de comunicação mantéve-se até praticamente aos nossos dias. No século XIX, por exemplo, mais concreta­mente no ano de 1873, é criada na cidade a Companhia

Carris de Ferro do Porto e, logo no ano seguinte, inaugura-se a pri­meira linha que, por acaso, vai passar a li­gar a Praça de Carlos Alberto a Cadouços, na Foz do Douro. A companhia dava o si­nal da partida dos carros por meio do sil­vo de um apito soprado por um funcioná­rio. Mas este não foi o único meio de trans­porte moderno (para a época, entenda-se!) a ter começo e fim na Praça de Carlos Alberto. Entre 1883 e 1885, funcionou entre Carlos Alberto e S. Mamede de In­festa uma carreira de transporte público com a utilização carros Ripert puxados por cavalos normandos. Ripert era o nome do cidadão francês criador do carro.
E foi outro francês, Henrique Latourette, estabelecido no Porto, na Trindade, com uma oficina de carruagens, o criador da linha. A partida de Carlos Alberto era feita junto à porta da célebre tabacaria Ha­vanesa, célebre pelas tertúlias que nela se realizavam. Naturalmente que o pormenor de na Praça de Carlos Alberto haver, pelo me­nos, dois pontos de partida e de chegada de meios de transportes públicos devia contribuir para que por ali se desenrolas­se, diariamente, um desusado movimen­to de pessoas a justificar a existência de estruturas de apoio como hotéis, cafés e restaurantes. Não é para admirar, portan­to, que em meados do século XIX existis­sem tantos cafés, restaurantes e hotéis na Praça de Carlos Alberto. O nome primitivo desta praça foi rua dos Ferradores por os deste oficio terem ali as suas oficinas. O que se justifica. Em tem­pos antigos, as longas viagens faziam-se a cavalo. Era normal, por isso, que à saída das povoações estivessem aqueles arte­sãos a fim de prepararem os animais para penosas jornadas ao longo de pedregosos caminhos. Hoje, à entrada das autoestradas, temos postos de abastecimento de combustíveis. É do ano de 1638 a mais remota referên­cia que se conhece à Rua dos Ferradores. Dez anos mais tarde, num documento da Santa Casa da Misericórdia do Porto, descrevem-se umas casas que ficam "na Rua do Outeiro dos Ferradores" no caminho "que vai para Cedofeita, junto à cancela que vai para o Carregal. Anos mais tarde, o Largo dos Ferradores aparece mencionado com o nome de "pra­ça da feira das caixas". A origem desta de­signação tem a ver com a existência na ampla praça de muitas oficinas de carpin­teiros onde se faziam umas caixas de ma­deira, muito procuradas por quantos emi­gravam para o Brasil. Era nessa espécie de arcas que os emigrantes metiam os pou­cos trastes que conseguiam levar na via­gem. Esta atividade, ligada à confeção de caixas de madeira e outras peças, como mesas, bancos e armários, viria a transfe-rir-se, posteriormente, para os Lavadou­ros e, já nos nossos dias, para a Rua da Pi­caria, onde ainda se mantém, mas já em vias de extinção.
JORNAL DE NOTÍCIAS 29 SET, 2013

sábado, 28 de setembro de 2013

O GORILA QUE HA EM NÓS É UM IDIOTA


em manutenção
O GORILA QUE HA EM NÓS É UM IDIOTA 
Essa coisa do "líder da matilha" pode estar a ser levada longe demais 
"BOM, ACHO QUE TEMOS AQUI machos alfa a mais na sala." A expressão tem-se instalado aos poucos. Mas não é possível que haja tantos "alfas" por aí. Decidido a investigar como é que podia uma socie­dade produzir tanto macho dominador, fiquei de quatro. Há toda uma indústria feita para criar "macho alfa", verdadei­ros e falsos. E "fêmeas alfa também". O que é uma variação única da nossa espécie.
Primeiro, há que perceber se isso existe e o que é.Se não é uma imbecilidade estar a falar de "macho alfa" numa sociedade digital. Bom, coloque-se um grupo de homens com ambição a líderes, num espaço confinado, e uma especialista em primatas dirá que eles começam a comportar-se como um grupo de gorilas em que um acabará como macho dominante, assumindo o controlo do território, e os outros a aceitar e a demonstrar essa submissão. E que basta entrar uma mulher bonita na sala para a dinâmica dessa liderança se alterar e ser posta em causa. É o "macaco que há em nós", que Desmond Morris nos
alertou há décadas com o seu "Macaco Nu".
Não fará muito mal em abraçarmos o macaco que há em nós. Não fará mal inventar uma macaca igualitária e domi­nadora (como no caso das fêmeas alfa, "quem é que eles pensam que são"?). O problema é se, de facto, isto é mais que um fait-divers biossociológico, e toda a nossa sociedade está ainda sustentada nas relações gorilescas agora mais que nunca enaltecidas e glamorizadas. Nem falo do "síndrome do macho alfa", que algumas organizações temem quan­do descobrem que a maioria dos seus colaboradores estão convencidos que são machos dominadores e que vão mandar no universo. É que isso também acarreta riscos e potenciais catástrofes, quando há tanto macacão a bater no peito dentro de uma só empresa. Pior. Que esta desculpa evolucionista gorilista esteja hoje na base do modelo de sociedade que estamos a criar é muito perigoso. Neste modelo o desemprego é apenas culpa do próprio; a obesidade é fraqueza moral; a empatia é algo que se deve ter para com os fracos: isto é atitu­de de grupo de primatas! Estamos a esquecer que evoluímos e não somos — precisamente — macacos pelados. Há dias, ouvi na TV um professor ou um pai a dizer que os miúdos que nascem em janeiro têm mais sucesso. Porquê? Machismo Alfista. Vão entrar mais tarde, ser maiores em termos físicos, ter o cérebro mais desenvolvido que os cole­gas e eventualmente dominar as turmas. Nos EUA os pais chegam a matricular os filhos um ano mais tarde. Talvez seja hora de pôr estes gorilas na ordem.

Revista 27 SET, 2013

DA LALOFOBIA, SÍNDROMA DE TOURETTE, INCORREÇÃO FACTUAL E OUTRAS COISAS


cartas abertas
DA LALOFOBIA, SÍNDROMA DE TOURETTE, INCORREÇÃO FACTUAL E OUTRAS COISAS  
///COMENDADOR ///MARQUES ///DE CORREIA

Onde o nosso Comendador explica ao Bloco de Esquerda por que razão mentir não é o contrário de faltar à verdade

ALGUNS DEPUTADOS DO BLOCO DE ESQUERDA, querendo confundir o povo, vieram afirmar que o facto de o ministro Rui Machete, em carta dirigida a um deputa­do e agora colíder daquele partido, ter emitido possuir ações da SLN — afirman­do, até, que as não tinha — é equivalente, para não dizer igual, ao mesmo ministro Rui Machete ter mentido ao Parlamento. Depressa o ministro, que para mais é diplomata por via de ser o responsável dos Negócios Estrangeiros, colocou as coisas no seu lugar. Repudiou que tivesse mentido, embora humildemente admitisse ter cometido — e cita-se para que não haja dúvidas — "uma incorreção factual". Acontece que toda a gente, salvo a de má-fé ou desconhecedora da etimologia básica, sabe que uma coisa é mentir outra é incorrigir factualmente. As coisas não são sequer compará­veis. Por exemplo, se me perguntarem se eu sou alto e louro e eu disser que sim, minto. Se me perguntarem se sou parecido com o Robert Redford quando ele era novo e eu disser que sim, incorro na incorreção factual — porque é um facto que nunca fui parecido com ele, embora no meu imaginário eu possa ter sido parecido com ele. E depois — como diria qualquer psiquiatra (e tantos deles estão constantemente ao serviço da Comunicação Social nos programas da TV) — o que é ser parecido? Mas vamos à origem das palavras. A palavra mentir, que Machete — e bem! — repudia, vem do latim mentire e, muito estranhamente, significa não dizer a verdade. Mas atenção! Também significa­va fingir, enganar-se ou imaginar (no sentido poético do termo). Deixaremos para depois à questão do "não dizer a verdade" e, posto isto, pergunto: alguém acha que Machete se enganou, fingiu ou imaginou no sentido
poético, o que escreveu na carta? A resposta é não! Resta a hipótese remota de ele não ter dito a verdade. Mas o próprio assegura-nos que o que aconteceu foi não uma mentira — portanto não uma negação da verdade, mas uma — e cito para que não haja dúvidas — "incorreção factual". Ora isto é diferente porquê? Volto a socorrer-me do Dicionário Etimológico do José Pedro Machado, que para mim é mais do que uma Bíblia: incorreção também vem do latim. O prefixo 'in', como sabem, implica negação e a pala­vra original seria corrigere, que significa emendar, melhorar, reformar ou alterar. Ou seja, Machete deixa claro que a nega­ção ou omissão das suas ações da SLN poderia ter sido melhorada, alterada, reformada, mas não foi, pelo que lhe coloca o prefixo 'in'.
Uma coisa é mentir, outra é não melho­rar uma frase, não a emendar. Eis o que o BE tem de perceber. Ao contrá­rio do que aquele partido de esquerda considera "riqueza semântica" do Gover­no, a verdade ou a correção factual, como preferirem, são coisas substancial­mente diferentes.
Aliás, o Bloco deveria saber que um mitómano e um mentiroso são catego­rias diversas;
Como um cleptómano e um ladrão; como um lalófobo e um tatebitates; como um paciente do síndrome de Tourette e um grande ordinário;
O Dr. Rui Machete perten­ce e sempre pertenceu à categoria das pessoas que não mente, não rouba, não é tatebitates e não diz palavrões.
O Dr. Machete, quando muito, pode ter incorreções factuais, lalofobia, cleptomania, síndrome de Tourette e outras coisas que o dinheiro possibilita! Quem disser o contrário é um inverdadeiro (ou um incorrigível factual ou outra coisa qualquer, porque mentiroso jamais chamarei a alguém!).

revista 27/set/13

A ALEMANHA DOS ALEMÃES


pluma caprichosa

A ALEMANHA DOS ALEMÃES

Os estados ricos alemães também estão cansados de transferir dinheiro para os estados pobres alemães

OS PORTUGUESES não se interessam pelas eleições alemãs ou pela política alemã. A Alemanha é uma metáfora da austerida­de. Tal como não se interessaram pela criação da União Europeia, quando a construção da Europa da livre circulação e do mercado comum era vista como um meio de enriquecimento. O sucesso da nossa política europeia dependia dos fundos. Quem sacasse mais fundos era um vencedor. Os políticos portugueses nunca fizeram a pedagogia da Europa, convertendo os deputados europeus em apparatchiks ou as sinecuras de Estrasburgo em prémios de bom comportamento.
Nunca tivemos, nem histórica nem politicamente, uma ideia da Europa e muito menos uma ideia da Alemanha. A mesma Alemanha que, depois do 25 de abril, doou dinheiro e apoios a Portugal para a construção democrática (o Parti­do Socialista foi fundado na Alemanha, em Bad Munstereifel, e o PS histórico muito deve à Fundação Friedrich Ebert). No dia das eleições alemãs, chegou a Portugal uma amiga alemã. Não lhe perguntei em quem tinha votado e não discutimos política. Veio fazer o roteiro da Viagem a Portugal de José Saramago. Disse que está bem estabelecida na Alemanha (regressou depois de viver anos em Lisboa) tem uma casa confortá­vel e um bom emprego. Tem saudades, aqui aprendeu a falar português. Como uma das características dela é a frugalidade, não me espantou quando a ouvi dizer, para caracterizar o conforto da vida que leva, que tinha finalmente adquirido uma boa máquina de café expresso. Não disse televisão HD, nem carro, nem roupa, nem férias exóticas, nem luxos. Uma máquina de café. Daque­las que qualquer centro comercial ou supermercado português vende em perpétua promoção. Estamos a falar de uma pessoa educada, culta, da classe média alemã. Não é rica e não é pobre. Detesta, ou melhor, não lhe ocorre, gastar dinheiro e muito menos desperdiçá-lo. Suponho que ficaria aterrada, ela e os outros alemães, se olhassem para as promessas eleitorais do dr. Seara em Lisboa e do dr. Menezes no Porto, com as manias da grandeza e o despesismo. O dr. Menezes mata porcos, promete cultura a rodos. O dr. Seara promete brigadas diárias de limpeza, manuais escolares, um túnel e residên­cias sociais. Dinheiro não falta a estes dois lunáticos. Um deles, endividou a câmara de Gaia como se não houvesse amanhã.
Muita da má despesa pública é despe­sa autárquica, descontrolada, corrupta e corruptora, partidária. Nesta campa­nha percebeu-se como o país político não aprendeu com a austeridade e não percebe o que significa poupar em vez de cortar nos que não se podem defen­der, os mais velhos e vulneráveis. Portugal foi e é despesista Este despesis­mo irrita os alemães. Outro amigo ale­mão, quando vem a Portugal (onde tem uma casa), fica embasbacado com os carros dos portugueses. Os caríssimos carros alemães dos portugueses, e não falo apenas da elite. Num dos primeiros rounds de negociações com a troika, os portugueses chegaram em Audi 8, Merce­des S e BMW 7 e os 'troikistas' chegaram de táxi. Os 'troikistas' repararam. Nas câmaras, a frota automóvel é vasta e luxuosa e, antigamente, todo o bicho careta tinha carro e motorista à disposi­ção, nem que dirigisse um departamento para colar selos. Em 2013, os carros de luxo, com a Jaguar à cabeça, aumenta­ram as vendas em Portugal. Isto diz tudo sobre a nossa elite e o nosso novo-riquismo. E sobre a nossa desigualdade. A Alemanha, diz o meu amigo alemão, que é economista e um social-democrata, também tem pobres. A frase veio a seguir a uma crítica minha à política europeia da senhora Merkel, em que me excedi e acusei a Alemanha de estar a destruir a Europa, como no passado. Ele ficou muito zangado e explicou que se os ricos portugueses pagassem impostos e os menos ricos aprendessem as vanta­gens da frugalidade e respeitassem o dinheiro, se os políticos aplicassem os fundos europeus com parcimónia e inteligência, Portugal talvez não precisas­se de ser resgatado, cito pelas "poupan­ças alemãs". E rematou que os estados ricos alemães, como a Baviera, também estão cansados de transferir dinheiro para os estados pobres alemães, e sobre­tudo de pagar o défice crónico da cidade de Berlim. "Muitos alemães têm dois ou três empregos e todos pagam impostos." Estas generalizações, mesmo verdadeiras, não ignoram as insuficiências da política europeia e os erros de Portugal e da Alemanha. A nossa ignorância do ethos alemão e a incorrigível tentação despesis­ta eleitoralista não contribuirão para um entendimento em pé de igualdade. Prefe­rimos a subserviência ao esmoler. Quem está à espera que a política alemã mude, pode tirar o cavalo da chuva. A opinião pública alemã odeia a palavra resgate, e vamos ver nas próximas eleições euro­peias os partidos antieuropeus aumenta­rem o poder e os votos.
REVISTA 27 SET, 2013

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Campanhã
Uma quase-aldeia encravada entre gigantes de betão

Uma aldeia não tem o IC29 a passar por cima das cabeças. Outro gigante, a VCI, também anda por perto. Uma aldeia não fica a poucos quilómetros de um gigantesco centro comercial e de um gigantesco estádio. Numa aldeia não moram quase 33 mil pessoas. Campanhã está condenada a ser um “sub-Porto”? E o que pode fazer o sucessor de Rio na Câmara do Porto?
Pedro Rios » e Marília Freitas

Falcão não pára de se mexer perante a presença de estranhos. Preso por um cordel, move-se numa área curta, à frente de um velho portão em madeira vermelha. Atrás do portão, há mato selvagem, de onde, de vez em quando, saem ratos, cobras e outros bichos. À frente, há uma casa sem gente, feita em ruínas, engolida pelo silvado, e uma com gente – um jovem casal, ela de 25 anos, ele de 26.
Não dá a cara, nem o nome (chamemos-lhe Maria). Mas mostra onde vive há dois anos: num beco próximo da Rua de Azevedo, na freguesia de Campanhã, no Porto oriental, onde se avistam gatos vadios. Paga 190 euros por mês. “Para o estado da casa”, o valor é alto, diz.
Mas foi o tecto que encontrou “de vago” em Campanhã, onde vive há dez anos e onde quer fi car.
A casa de Maria tem dois quartos, mas o do filho, que frequenta a escola do Lagarteiro, ali perto, não tem luz eléctrica. A cozinha é exígua e estava junta à casa de banho, ainda mais pequena – agora, há um pedaço de cimento a separá-las. De Inverno, a água acumulase à entrada da habitação. Não há saneamento básico – não são caso único nesta freguesia, a mais pobre do Porto.
“Para fazer umas obras mais ou menos é preciso ter dinheiro. E neste momento não há”, conta Maria, desempregada.
O marido não trabalha – tem duas pernas amputadas abaixo do joelho. Vivem do Rendimento Social de Inserção.
Maria gosta da calma de Campanhã. Parece uma aldeia? “Não é bem uma aldeia. Uma aldeia é mais pacata. Mas sim, é calmo. Aqui nesta zona não tenho nada: não tenho pão, supermercado, nada”.
Uma aldeia não tem o IC29 a passar por cima das cabeças. Outro gigante de betão, a VCI, que circunda o Porto, também anda por perto. Uma aldeia não fica a poucos quilómetros de um gigantesco centro comercial e de um gigantesco estádio. Numa aldeia não moram quase 33 mil pessoas (no Porto, só as freguesias de Paranhos e Ramalde têm mais).
“Uns para os outros”
Na Rua do Alto da Bela, Vitorino Ferreira encontrou uma forma de passar a velhice. A esposa convida-nos a entrar para ver as suas criações: esculturas que são engenhos mecânicos, peças com conchas, cacos, relógios de automóvel, moedas e que giram e se iluminam quando ligadas à electricidade. “Na freguesia, nunca ligaram aos artistas”, queixa-se Vitorino.
“A minha mulher anda atrás de mim, pensa que ando com outras mulheres, mas não ando. É convívio, ali num cafezito. Joga-se uma ‘suequinha’…”, conta Idorindo Ribeiro, 69 anos, que encontramos numa ponte que atravessa o poluído e mal cheiroso Rio Tinto.
As “suequinhas” são uma das especialidades dos clientes do Grupo Desporti
vo e Recreativo Os Zangados de Campanhã. Fica na Rua do Alto da Bela. É uma artéria estreita por onde quase não passam carros. Aqui ainda há fiado, ainda se cedem “duas ou três cervejas para levar para casa”.
“Temos que ser uns para os outros”, diz Jorge Alves, desempregado de 42 anos, que mora na rua e ocupa parte do tempo a tomar conta do espaço d’Os Zangados.
Em 2014, o grupo celebra 80 anos, mas esta “colectividade de rua”, que ostenta vários troféus, está hoje reduzida a um café. “Já tivemos futebol de salão, havia damas, cartas… A juventude começa a fugir daqui porque não tem nada.”
O pai de Maria Arantes já presidiu aos Zangados, em tempos em que o IVA não entrava nas dores de cabeça de uma colectividade. Maria, 58 anos, vive ali ao lado, com a fi lha, Patrícia, e o marido.
A casa está numa espécie de ilha, que Patrícia, 25 anos, define como um “bairrinho”. Lá não falta nada. “Não trocava para ir para outro sítio”, diz Maria, com 166 euros de reforma. Jorge também “não trocava”, mas não se conforma. Muitas casas da rua não têm saneamento.
“Aqui na cidade! Não estamos numa aldeia.”
Esqueletos
Patrícia também gosta da freguesia onde vive desde os 14 anos. Mas não a conhecia totalmente até participar nos inquéritos para os Censos de 2011. Esse trabalho levou-a a zonas de Campanhã onde há “pessoas que nem casa de banho” têm. Viu coisas que não esquece: “Faziam num balde e mandavam para o quintal, tomavam banho numa bacia.” Há ruas sem iluminação pública. Há poucos cafés, mercearias, serviços. Fábricas abandonadas, como a da Tripa, a Companhia Portuguesa de Cobre, e outros esqueletos urbanos.
Para Jorge Ricardo Pinto, autor de “O Porto Oriental no Final do Século XIX” (2007), mais do que qualquer mega-estrutura, o próximo presidente da Câmara do Porto deve “olhar para Campanhã com a mesma atenção que olha para outras freguesias”.
A política deve fornecer, “no mínimo, as condições básicas”, da luz nas ruas ao saneamento, diz o especialista em geografi a urbana. No século XIX, Campanha era “ultraperiférica”. No século XXI, “há áreas”, como Pêgo Negro e Azevedo, que “continuam a ser ultraperiféricas”. “O cenário é quase uma aldeia e, no entanto, é Porto.”
Razões? O “íman” do mar (Campanhã é a freguesia do Porto que está mais longe do Atlântico), a falta de investimento das autarquias, o “processo de desindustrialização” que afectou uma zona que beneficia de uma estação ferroviária por onde se escoavam produtos.
Habituado a tudo isto, aos 63 anos, Alfredo Pinheiro goza a reforma na calma quase rural de Campanhã. Vive perto de um lavadouro desactivado. Diz que a freguesia já teve outros tempos. Mas, apesar dos problemas, apesar do consumo e tráfico de droga, “aqui respira-se”. No terreno da habitação, há uma presa de água límpida (muito mais límpida do que a do vizinho Rio Tinto) e uma eira desactivada, vestígio de um tempo em que a agricultura ocupava boa parte dos moradores de Campanhã.
“A minha distracção, durante o dia, é levantarme de manhã e levá-la [à esposa] ao trabalho. Venho [para casa] e vou até ao café jogar cartas”, conta Alfredo.
Uma freguesia de bairros
Nesta freguesia, concentra-se uma parte importantete dos bairros sociais da cidade. Quase 30% dos fogos de habitação social do município estavam fixados em Campanhã (números de 2006, citados pelo Diagnóstico Social do Porto).
A situação é reconhecida pela Câmara do Porto. “Preocupante é o ciclo vicioso que muitas vezes se instala nestas áreas que poderemos designar de privação múltipla. Aqueles que começam a usufruir de melhores rendimentos saem e apenas permanecem (ou chegam de outras áreas) os segmentos da população de mais débeis recursos”, refere o relatório sobre as condições sócio-demográficas e equipamentos da zona, produzido no âmbito do Plano de Pormenor do Parque Oriental.
“A tendência resultante é a da própria área passar a gerar a exclusão social oferecendo serviços educativos e sociais pouco diversificados e sem qualidade, poucos e maus empregos e, em situações limite, estigmatizando mesmo os seus residentes”, acrescenta o texto.
Sérgio Ferreira, 61 anos, vive num desses bairros, o agrupamento habitacional do Falcão – um bairro com vista para outro, o do Cerco. Vive lá há 12 anos. O bairro, relativamente novo, tem paredes grafitadas. “Os serviços camarários nada fazem”, queixa-se. À noite, “ninguém consegue aguentar” o cheiro da vizinha ETAR.
Quando entra nas notícias, o bairro do Cerco vem, quase sempre, associado a exclusão social, crime e droga. Este Verão, dez famílias retiradas das suas casas no bairro do Nicolau, nas Fontainhas, no Porto, por falta de condições de segurança, queixaram-se do destino que lhes deram: o bairro do Cerco.
A concentração de bairros sociais, onde moram muitas pessoas sem sentimento de pertença, cria situações de “guetização”, diz Jorge Ricardo Pinto.
O Porto e o sub-Porto
Foi no Cerco que o filho de Fernanda Cardoso, 53 anos, empregada na escola primária do Falcão, estudou. “Hoje é engenheiro informático”, diz, com orgulho. Fernanda admite que a freguesia perdeu vida, mesmo que, diz, a Câmara do Porto tenha apostado na requalificação dos bairros. “Tínhamos mais peixarias, farmácia, retrosarias, casas de tecido. Num bocadinho de 900 metros não faltava rigorosamente nada. Hoje em dia, a maior parte [destes negócios] encontra-se fechada.”
Faltam também autocarros.
“Campanhã é uma freguesia enfiada numa grande cidade, numa bonita cidade, mas que não passa de um lugar em que ninguém desenvolve. É algo que está votado ao abandono. Toda a gente promete e ninguém cumpre. É uma espécie de aldeia”, afirma Sérgio Ferreira.
Uma aldeia ou um “sub-Porto”, diz Jorge Ricardo Pinto, uma “cidade mais esquecida”. No fundo, “as traseiras da própria cidade”.
Sérgio Ferreira diz o mesmo: há duas cidades. “Rio manteve o Porto rico e o Porto pobre. Da Ponte D. Luís [para a zona oriental] é uma parte da cidade que não existe, onde ninguém quer investir – e a câmara muito menos”, lamenta. “Por aqui não passam os senhores capitalistas desta cidade. [Para eles] Campanhã deve ser uma coisa que existe no terceiro mundo e não aqui.”


Reportagem multimédia para ler, ver e ouvir no site da Renascença

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A tempestade perfeita


Opinião JOSÉ PACHECO PEREIRA Professor

 

O dia 23 de Setembro será lembrado como o dia em que a consciência de que tão cedo "não se vai aos mercados" se ancorou firmemente no conjunto dos portugueses. Funciona como a primeira vez que o défice negociado com a troika não foi cumprido

A tempestade perfeita


Aproxima-se a tempestade perfeita. Vai haver elei­ções e uma das vítimas pode ser Passos Coelho, ou, em alternativa, ou em complemento, António José Seguro. Nenhum vai querer sair e vão-se agarrar ainda mais ao poder que tem. Só por si isso, esse agarrar como as lapas ao rochedo, é um factor de agrava­mento da crise. Quer num caso quer nou­tro, é o País do "fazer o que tem que ser feito" - despedimentos, cortes de salá­rios e reformas, perda de direitos para os trabalhadores, porque é só isso que "tem que ser feito" - que está a caminhar para um grande sarilho.
O dia 23 de Setembro será lembrado como o dia em que a consciência de que tão cedo "não se vai aos mercados" se ancorou firmemente no conjunto dos portugueses. Funciona como a primeira vez que o défi­ce negociado com a troika não foi cumpri­do. Foi a constatação de uma perda de le­gitimidade: todos os sacrifícios foram pe­didos, quase todos e mais alguns foram feitos, mas aquilo em nome do que eram pedidos os sacrifícios não foi conseguido. Agora entra-se na fase de encontrar des­culpas e, pior ainda, bodes expiatórios.
O falhanço foi de uma política e de uma governação, mas foi agravado por pessoas concretas. Não é preciso ir muito longe para perceber o papel central da "crise Por­tas" em tudo isto, definindo um antes e um depois. Os "mercados" começaram a vacilar aí, porque perceberam que a carne era fraca e o espírito não era forte. A coli­gação governamental é hoje um mau ajun­tamento de dois grupos, cada um a tentar salvar a pele, com um dos chefes de gru­po apontado pela imprensa internacional e pelos "mercados" como responsável pela versão mais recente da crise: Paulo Portas. Portas tirou a crise como a pasta de dentes de dentro da bisnaga, e, como sabe quem conhece a entropia, ela não volta lá para dentro outra vez. Foi pena o Presidente da República não ter compreendido que, cri­se por crise, era melhor pagar o custo das eleições antecipadas.
Parte dos sarilhos actuais, na óptica do Governo e dos seus próximos, continua a ser da responsabilidade de Portas, que continua a fazer asneiras. Para que fique registado, quem andou afazer as "nego­ciações políticas" por Washington, Bru­xelas e Berlim foi Portas com Maria Luís Albuquerque, e quem suscitou formal­mente, formalmente insisto, numa inter­venção parlamentar, a questão dos 4,5% foi Portas. Quando Draghi ralha é mais para ele do que para Passos, que precisa­va dos 4,5% para alívio eleitoral, e para encobrir a incapacidade de chegar aos 4%, mas que continua fiel ao "ajustamento" puro e duro de Gaspar. Não adianta vir cul­par os 5% de Seguro, que ninguém toma a sério, e que são apenas um filho bastar­do dos 4,5% de Portas e das proclamações populistas de Marco António contra a troika (seguindo aqui também Portas). Este ar­ranca e recua atinge na jugular aquilo que sobrava do "Portugal não é a Grécia".
É por isso que à pergunta "não há di­nheiro, qual das palavras é que não per­cebeu?", que é uma pergunta sensata, convém acrescentar outras duas. Uma: este Governo é incompetente, qual das palavras é que não percebeu? A outra, que deve ser repetida todos os dias: esta política falhou, que palavras desta frase é que não percebeu? •

Mexia em Beijing... 
... deu uma entrevista aos jornalistas que a EDP convidou para o acompanhar,
em que elaborou a tese do Tribunal Consti­tucional como "responsável" pelo se­gundo resgate e por toda uma série de malfeitorias que impedem o País de "ir para a frente" e a obra patriótica do Go­verno de ter resultados. A criação de um bode expiatório está na ordem do dia. Ou melhor, de vários.
Mexia, que é um gestor político, é a úl­tima pessoa que tem autoridade para nos dar lições de "austeridade". Em Janeiro de 2005, estava o governo Santana Lopes já em gestão, e Mexia, que era ministro das Obras Públicas, fez uma fabulosa confe­rência de imprensa em período eleitoral, anunciando "duas travessias do Tejo". Uma, mais explicada, a "construção de uma terceira travessia rodoviária do rio Tejo, que deverá ligar Algés à Trafaria, na Mar­gem Sul, num valor entre 550 e 750 mi­lhões de euros". A outra era apenas suge­rida. Na mesma conferência falou do TGV Lisboa-Porto, que o governo dizia ir fazer mais barato. Quando lhe perguntaram onde, quando e como se faziam essas "tra­vessias", Mexia mostrou que não fazia ideia se eram pontes se túneis, se era uma pon­te e um túnel, mas eram para fazer. Estava-se a quatro semanas de eleições. Para um ministro "técnico" não está mal.
Hoje, Mexia, como alguns outros de­fensores do Governo, e muitos inocentes úteis, absorveram as simples explicações de que não adianta haver leis, nem regras, nem procedimentos, no fundo o que é a essência da democracia, se a "realidade" impõe tomar as medidas do Governo. Não se trata de mandamentos trovejados por Deus a Moisés no alto da montanha, mas intenções, leis, propostas que vêm de ho­mens, aliás bem pouco habilitados para as funções que ocupam.
A teoria de Mexia é que, se entendem que devem violar a Constituição, façam favor de a violar, não tem importância nenhuma. Nunca suscitam sequer a pos­sibilidade de que seria possível obter os mesmos resultados com medidas que fossem mais justas e, acima de tudo, le­gais e constitucionais. O Governo diz que "é preciso fazer o que se tem que fazer" e o que "se tem que fazer" é o que o Go­verno diz que "se tem que fazer". Parece um círculo vicioso, e é.
O que os une, Mexia, o Governo e os seus amigos, é que os alvos são sempre os outros, as vítimas são sempre os mais fracos, os que não têm defesa, os que não têm sequer o direito a ter direitos, os que não têm advogados da alta, os que não têm contratos blindados, os que são lixo para a "realidade". Os que não são Me­xia, que quer certamente o seu contrato com os chineses protegido por mil cláu­sulas de salvaguarda, que quer seguran­ça nos seus depósitos bancários, que quer as suas casas protegidas dos vânda­los e da expropriação, que quer menos impostos, que quer ordem nas ruas, por aí adiante. •


Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré provérbio popular  
SÁBADO 26 SETEMBRO 2013

domingo, 22 de setembro de 2013

A árvore da forca



A árvore da forca
Um álamo que durou mais de trezentos e setenta anos
Nos idos anos oitenta do século XX, no Jardim da Cordoaria, morreu (de pé, como morrem todas as árvores) um velho ála­mo (ulmus campestris) ou negrilho, que passou à história com o triste epíteto de "árvore da forca" - apesar de nela nunca ter sido enforcado quem quer que fosse. É muito curiosa a história dessa árvore que, em 27 de setembro de 1939, já com a provecta idade de mais de trezentos anos, foi declarada "imóvel de interesse público". 
Em 1583, no reinado de Filipe I, come­çou a ser construído, no sítio da antiga ju­diaria do Olival, um amplo edifício desti­nado a albergar o Tribunal da Relação, criado, no Porto, por aquele monarca. Como é do conhecimento geral, este edi­fício ruiu, passados anos, e outro foi cons­truído, em 1796, no mesmo local do an­terior, já no tempo de D. Maria I, mas du­rante a regência do filho, o futuro rei D. João VI. Este edifício durou até aos nos­sos dias. Deixou de funcionar quando o Tribunal da Relação passou para o Palácio da Justiça, construído no outro lado do jardim; e a cadeia de Custoias substituiu a que funcionava no casarão ainda hoje conhecido pela "Relação" e onde funcio­na atualmente o Centro Nacional de Fo­tografia. Até ao século XVII, o vasto campo do Olival era utilizado quase que exclusi­vamente por militares, que ali faziam exercícios e organizavam paradas.
Em 1611, no senado municipal, que era composto, à data, por Álvaro Ferreira Pe­reira, Diogo Leite de Azevedo, Manuel Tavares Pereira, Afonso Correia e pelo procurador dos mesteres, Baptista da Costa, foi recebida uma carta de Filipe II em que o monarca ordenava que "se ar­borizasse o campo do Olival, para se fa­zer ali uma alameda "de muito ornato e comum beneficio da cidade".
O intendente militar é que não gostou de conhecer o teor da carta. A concretizar-se a pretensão régia, acabavam os exercícios e as paradas. Protestou o in­tendente junto do senado, que reuniu para apreciação do caso. No final da reu­nião, ficou decidido oficiar a Filipe II a informar que havia inconvenientes na concretização do plano da alameda.
O monarca voltou a enviar nova carta em 13 de Junho de 1612 e com ordens terminantes: que se fizesse a alameda com o produto de um imposto denomi­nado da "imposição do vinho". E a obra fez-se. Arrancaram-se algumas oliveiras já muito velhas que por lá havia e que davam o nome ao sítio e fez-se uma grande plantação de álamos dos quais um chegou até aos nossos dias.
Um mês depois de feita a plantação, ou seja em 11 de Julho de 1612, nova car­ta de Filipe II ordenava que se nomeas­sem, para a nova alameda, dois guardas com o vencimento de 15$000 réis anuais cada um e que se proibisse a en­trada no recinto, tanto de dia como de noite, sem autorização dos mesmos guardas.
Durante o cerco do Porto, a maior par­te das árvores plantadas na alameda do Olival, no tempo de Filipe II, foi abati­da à machadada. O exército de D. Pedro IV, cercado na cidade pelas tropas de D. Miguel I, precisava de madeira para apa­relhar em peças de artilharia. E a popu­lação carecia de lenha, que era então o melhor e mais utilizado dos combustí­veis.
A "árvore da forca" foi poupada à razia. Escreveu-se nas gazetas da época que te­ria sido o provedor da Santa Casa da Mi­sericórdia de então, Francisco Faustino da Costa, que interferira junto de D. Pe­dro IV para que o célebre álamo não fosse abatido.
Ora, se nunca se enforcou quem quer que fosse no velhinho álamo, porque lhe chamavam a "árvore da forca"? - pergun­ta o leitor e com toda a legitimidade.
Eu não tenho uma explicação muito plausível. Parece, no entanto, que esse triste epíteto era comum aos álamos.
O Dr. José Pereira da Graça, num inte­ressante livro que escreveu sobre o "Pa­lácio da Justiça e as suas sugestões his­tóricas, bíblicas e mitológicas", e a que deu o sugestivo titulo de "Témis - a deu­sa da justiça", escreveu isto: "é costume em alguns países atribuírem-se aos ála­mos macabras alianças com a morte, a ponto de se tornarem seus vassalos". E acrescenta que aquela ideia "está refletida num poema admirável de Goethe: "O rei dos álamos". Enfim, é uma expli­cação que dá para refletir.
Segundo a opinião de pessoas que co­nhecem bem as árvores e as estudam ao pormenor, um álamo, como o da Cor­doaria, um "ulmus campestris", pode atingir uma longevidade até aos 335 anos. O da Cordoaria, tendo em conta o ano em que foi plantado, superou em muito essa longevidade. Durou mais de trezentos e setenta anos. •
JORNAL DE NOTÍCIAS 22 SET. 2013

ESSES CÃES DE ATENAS



pluma caprichosa

ESSES CÃES DE ATENAS

Um dia poderei dizer que assisti, no meu tempo de vida, a uma execução. Um país a ser assassinado
 

DEMETRI SOFIANOPOULOS, um realizador grego, teve a ideia de filmar a catástrofe grega através da autobiografia de um cão, Bruno. Bruno é um cão abandonado pelos donos, falidos, que como centenas de cães vagueia pela cidade de Atenas. Bruno vai aos restaurantes onde costuma­va ir com os donos, quase todos fechados, à procura do passado. Demetri segue-o, filmando o que ele vê e dando-lhe voz. Bruno não anda em matilha e tem dificul­dade em arranjar um canto onde passar a noite, porque os cantos abrigados estão ocupados por sem-abrigo. Estes cães, com a coleira de cabedal puído e um pelo ferido por maus-tratos, são espelho de uma humanidade. Os cães de raça são a classe média reduzida a passar fome, recorrer a organizações humanitárias, dormir na rua, suplicar um emprego que não existe. Os cães rafeiros são os pobres, a estender pernas escalavradas nas esquinas, nas soleiras das portas, e que desistiram de pedir esmola porque não há esmolas. Demetri Sofianopoulos vai filmando a violência. A violência íntima, a anestesia induzida pela miséria que se segue à raiva e à impotência, a violência que conduz ao suicídio e que tem na árvore do suicida­do da Praça Sintagma, com as coroas de flores secas e os bonecos de peluche, os cartazes desfeitos pela chuva, o seu monumento. E a violência social, as manifestações, as batalhas campais, as cacetadas e bastonadas, o gás lacrimogé­neo, os olhos ardidos, os carros incendia­dos, as cabeças ensanguentadas. Vai filmando o ruído. E o vazio, o silêncio, as pedras desertas, as casas por acabar, os lugares encerrados. O silêncio no olhar de Bruno arrepia. A Al-Jazeera passou esta semana o documentário que o jornalista da Croá­cia Tomislav Zaja filmou sobre Demetri a filmar o documentário. Chama-se "Deme­tri e Bruno". O filme de Zaja é cru, sem adjetivos. Mostra coisas que eu vi nas duas semanas que passei em Atenas, em 2011. E que escrevi. E que continuam lá. Mostra a condenação de um país à morte e a condenação de pessoas à morte social, cívica, intelectual, moral. À indignidade. Um país que é a matriz da cultura europeia.
Sobre a crise grega já muito se escreveu e muitos disparates foram ditos. Há quem ache que as pessoas têm de ser punidas pela má cabeça e corrupção política e moral dos seus dirigentes. Há quem ache que os desgraçados gregos têm o que merecem. Recorde-se que, durante anos, as contas gregas foram deliberadamente falsificadas para escon­der o défice, com a colaboração das autoridades europeias (que olharam para o lado), de entidades financeiras como a Goldman Sachs (que cobrou milhões), do FMI, da Alemanha (que lucrou e promo­veu negócios pagando luvas, através de grandes empresas como a Siemens, condenada no tribunal), dos bancos, dos milionários gregos e dos partidos e clientelas, sobretudo o conservador Nova Democracia, no poder. Afinal, a direita é tão perdulária como a esquerda. Nova Democracia é o partido do gover­no, o PASOK quase desapareceu, e o Syriza continua a fazer sombra, sendo provável que ganhasse eleições agora. A Grécia, apesar de as receitas do turismo terem aumentado e das piedades do ministro Stournaras, das Finanças, não está melhor nem está a caminho da solvência ou da recuperação. Está mais pacificada porque está exausta. Se existe um país onde se demonstra que a austeri­dade é incompatível com o crescimento é este. O resto são balelas. A Grécia deveria sair do euro. Ou a Europa deve­ria perdoar o resto da dívida e os juros e injetar dinheiro na economia, o que Tsipras voltou a repetir, fazendo eco das palavras de economistas sérios como Yanis Varoufakis. Tudo o que se tem feito com a Grécia é um criminoso adiamento. Os jovens fogem, os velhos medem o caixão.
A originalidade grega é a de ter reduzi­do à indigência e à destituição uma categoria social que, em condições normais, estaria protegida pelo Estado social e pela economia. A classe média. Professores, empresários, jornalistas, académicos, escritores, músicos, médi­cos, enfermeiros, bancários, artistas, chefes, agricultores, cientistas, funcioná­rios públicos e privados, reformados, etc, viram-se privados do mundo que conheciam. Os que não podem emigrar e os que não conseguem morrer estão num limbo donde ninguém, repito, ninguém os quer retirar. Uma rede underground de médicos compassivos trata doentes terminais que foram chutados para fora do sistema. Esta gente somos nós. Não são os "po­bres" do costume. Uma diretora da ópera de Atenas come uma vez por dia. Não se consegue imaginar, a não ser quando se veem as mãos brancas com veias salien­tes a tocarem um pedaço fúnebre de Chopin num piano morto, o que isto seja. Um dia poderei dizer que assisti, no meu tempo de vida, a uma execução. Um país a ser assassinado.

REVISTA 21/SET/13

V.EXAS DESCULPEM A EXPRESSÃO, MAS ESTOU À RASCA POR CAUSA DA CNE

cartas abertas
V.EXAS DESCULPEM A EXPRESSÃO, MAS ESTOU À RASCA POR CAUSA DA CNE  

///COMENDADOR ///MARQUES ///DE CORREIA 
Onde o nosso Comendador se vê em palpos de aranha para cumprir a Lei, o que sempre fez como cidadão exemplar

NÃO SEI SE OS MEUS AMIGOS já ouviram falar do cidadão exemplar. Já? É que dá-se o caso de o cidadão exemplar ser eu. Sei que podem ficar surpreendidos, mas quem queriam que fosse? O Mário Soares? O Cavaco? O Sampaio? Um empresário? Um sindicalista? Nem digo mais, para não estragar o dia a quem me lê. Porém, lá no fundo das vossas men­tes, já vejo instalar-se aquela pergunta própria dos falhados: por que razão o cidadão exemplar não há de ser um cidadão anónimo? Pobres cabeças! Se ele fosse anónimo, como poderia ser simultaneamente exem­plar? Já viram alguém, que ninguém sabe quem é, dar o exemplo (exceto o Super-Homem, que só quem lê aqueles livros horríveis sabe que é o Clark Kent). Agora que provei ser eu o cidadão exemplar (e tenho ainda o certificado da Direção Geral das Contri­buições e Impostos a declarar que nada devo às Finanças), passo a expor o caso que me deixa (e volto a pedir perdão a V.Exas pela palavra) à rasca com a CNE. É o seguinte: Há dias, inadvertidamente, convidei o candidato a uma Câmara Municipal (cujo nome não cito para não interferir indevida e abusivamente na campanha eleitoral) para jantar em minha casa. Como nesse dia encontrei na rua, por acaso, o presi­dente da minha Junta de Freguesia, convidei-o também.
O convívio foi interessante e diversifica­do, até porque o presidente da Câmara é de uma zona deprimida e rural do Norte e o presidente da Junta de uma freguesia urbana onde a classe média é predomi­nante, no Sul.
Falou-se disto e daquilo, os autarcas trocaram cartões de visita, mas só no final é que me revelaram a tremenda notícia: não só ambos se recandidatam ao cargo como tanto um como o outro apoiavam inteira e entusiasticamente a posição da Comissão Nacional de Elei­ções sobre a absoluta igualdade no tratamento das candidaturas. Como cidadão exemplar, fui ler o que postula a CNE. E, sem dúvida, lá está: "A Comissão Nacional de Eleições (CNE) reafirma que, nos termos da lei, em períodos eleitorais e referendários, é a entidade competente pela fiscalização do cumprimento do princípio da igualdade de tratamento jornalístico (...) às diferen­tes candidaturas."
Como cidadão exemplar, escrevi imedia­tamente à CNE a expor o meu caso: escrevendo em jornais e tendo a ideia de descrever o encontro, no jantar de mi­nha casa, entre o presidente da Câmara da zona rural deprimida e o presidente da Junta da zona urbana florescente, estarei, porventura, a descriminar todas as restantes candidaturas?
Ainda não tive resposta, mas, a avaliar pelo que me dizem os colegas jornalistas e os advogados conhecidos, não tenho hipótese. Vou ter de convidar o pessoal todo para jantar lá em casa, de modo a não tratar nenhum de forma diferencia­da Foi por isso que tentei saber quantas candidaturas existem, uma vez que espero que baste um convite a um ele­mento de cada candidatura.
Ia tendo um baque: são 12.149! O meu drama é arranjar uma mesa onde caibam todos e comida para tanta gente, que é muito mais do que naque­la feijoada que se fez na inauguração da Ponte Vasco da Gama! Claro que já me ocorreu que a mesa pode ser a do Orçamento. Muitos já estão, até, habituados a comer nela — apesar de neste momento estar em muito mau estado. A outra hipótese, mais modesta, é convidar 10 deles por dia. E, então, lá para 2017, nas próximas autárquicas, devo ter o assunto arrumado. Mas cumpro a lei!

revista 21/set/13

JÁ PODE COMPRAR UNS SIX PACK


em manutenção  
JÁ PODE COMPRAR UNS SIX PACK   
A cirurgia coloca-lhe belos abdominais. A partir de cinco mil euros 
O GENERAL ROMANO encolhia a barrigui­nha e os escravos apertavam-lhe a coiraça musculada ao desespero até aquela carapaça abdominal fazer dele uma reminiscência da perfeição física dos deuses. Há milhares de anos que se teoriza sobre esta coisa da importância de ter ou não uma pança ou um abdó­men serrado. Mas nesse tempo havia que apertar aquela lorica musculata que podia ser de cabedal duro ou de bronze, mas certamente mostrava uns abdominais impecavelmente cortados. 
Faça-se uma busca no Google com dois termos: 'abdominais' e 'obsessão'. Vive­mos no planeta six pack? A expressão six pack vem — pois está claro — dos "filmes USA" e da alusão aos conjuntos de seis latas de cerveja. Abdominais six pack tornaram-se um ideal-base masculino com uns pozinhos "estética gay" mas que agora é uma imposição a qualquer hetero bem sucedido: e esses ab's definidos? 
Uma breve conversa jornalística com um detentor desses six-pack e fica-se a saber que é o equivalente a tomar conta de cinco cães e trigémeos em simultâneo. Qualquer descuido e um dos gémeos foge às cavalitas de um rottweiler. O grau de manutenção e cuidado de uns abdominais é uma coisa parva: é todo o santo dia e para a vida em todo o momento. Não se permite qualquer descuido.
Era óbvio que a cirurgia estética tinha que chegar aqui. Até porque muitos tipos fazem 500 abdominais por dia a seguir à risca a "escola Brad Pitt" ou "300 de Esparta" e não conseguem cavar aqueles montículos: ou por ques­tões genéticas ou porque deviam ter começado a definir a musculatura na adolescência. E deve ser tramado. Todo o santo dia a fazer crunchs e pranchas, elásticos e pilares e nada de torso à Cristiano Ronaldo. É uma injustiça! Qual quê! Vivemos tempos extraordiná­rios. Chama-se modulação atlética — um procedimento cirúrgico que comple­menta a lipoaspiração — que desenha o six pack por dentro. Exato. A lorica muscu­lata romana é desenhada e cozida pelo bom doutor através do buraquinho que já sugou a gordurinha que o ginásio não conseguiu tirar. Mais: até desenha o quase impossível V do oblíquo transver­so. Aquele que passa por cima da anca e entra nos confins. Mas quem faz isto? "pessoas que não se sentem bem e que não conseguem no ginásio por mais que tentem", diz Francisco Campos, cirur­gião plástico, que realiza este procedi­mento em Portugal. E a meio da conversa deixa cair: "Ah, se soubesse quantos abdominais da TV eu já fiz." Anda tudo a ver se a nádega da outra é falsa, mas afinal há muito Adónis do ecrã que se exibe de camisa aberta à conta da cânula cirúrgica. Mais um passo na igualdade, é o que vos digo.
MODERNICES 
AS ESCOLHAS DA SEMANA
"Ovo de Colombo". É assim que Fran­cisco Campos descreve esta "modulação atlética", dado que recusa o termo "lipoescultura ". Só há duas pessoas no mundo a fazê-lo, pelo que garante ter pacientes do mundo inteiro a chegar-lhe às clínicas de Lisboa e Porto para miracu­losamente ficarem com o six pack abdominal. Mas para quê? "Isto é uma técnica absolutamente extraordinária e com resultados extraordinários. Quanto a quem a faz é simples: a necessidade da cirurgia estética parte sempre de uma disfunção. As pessoas não se reconhe­cem, não se sentem bem. Agora é preciso é não estar à espera de mila­gres. Tudo o que é ficção vai dar mau resultados." Esta modulação atlética é uma técnica recentíssima, que permite modular músculos abdominais da região torácica e dos membros, com resultados bem visíveis mas em principio só deve ser aplicada a quem já pratica desporto. Esta cirurgia tem de ser efetuada sob anestesia geral e é aconselhado um dia de internamento.
Preços: a partir dos cinco mil euros franciscocampos.pt
 REVISTA 21 SET, 2013

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