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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

As escolhas de um congresso















Relvas é demasiado "deles", sabe demasiado "deles", para poder ser posto à margem sem efeitos perversos, em particular para Passos Coelho, que ele ajudou a "fazer". Vai ser uma never ending story, até porque os negócios de Relvas voltam ao espaço público

As escolhas de um congresso
Parece que alguns congres­sistas, puxados pelos ani­madores do costume, me to­maram como o inimigo pú­blico número um do Governo, deixando Seguro para um papel secundário. A tomar à letra esta comparação, é verdade. Depois, nos aplausos e nas vaias, mostraram as suas escolhas. Consideram que eu faço mais "mal" à imagem do PSD no Governo do que Miguel Relvas, que pelos vistos é um must para a imagem pública do PSD. Venha o Diabo com tal comparação, mas tem sen­tido. Se não fosse revelador, e trágico para um partido com a dimensão do PSD, seria ridículo de tão absurdo que é. Revela que o PSD privilegia as cumplicidades inter­nas do aparelho à sua relação com o País. Relvas é demasiado "deles", sabe dema­siado "deles", para poder ser posto à mar­gem sem efeitos perversos, em particular para Passos Coelho, que ele ajudou a "fa­zer". Vai ser uma never ending story, até por­que os negócios de Relvas voltam ao es­paço público. •

Mas porque é que "ele" não foi lá dentro fazer as críticas que faz cá fora?

A resposta é muito simples: porque não podia ir mesmo que quisesse. Esta rábu­la repete-se sempre que há congressos e é, por parte de quem a faz, ou má fé ou ig­norância. Os congressos do PSD não fun­cionam em assembleia de militantes, qualquer um chega lá pede a palavra e tem os minutos definidos. O PSD não é o BE ou o Livre ou qualquer outro partido em que os militantes cabem numa sala. Para se falar tem que se ser delegado ao Congresso ou ter uma qualidade que lhe permita o acesso. Marcelo pode falar, como Marques Mendes ou Santana Lo­pes, sem serem delegados, porque foram líderes do partido. Eu não, só o podia fa­zer se fosse por favor da direcção, o que num partido fortemente igualitário era logo visto, e bem, como um privilégio que coloca quem fala acima do militante co­mum. Seria, no actual contexto, uma ar­madilha e estaria agora a ser criticado por qualquer inexistente "baronato".

Acresce que este não é um problema novo. Já num anterior congresso, coloca­do perante o mesmo dilema, ofereci-me para ir caso tivesse condições para falar sem ser para dizer "bom dia" e acabar o tempo. Foi recusado pela direcção. Vem nos jornais, basta ter memória, coisa que pelos vistos não abunda. Acresce que tudo isto é pouco mais do que espectáculo, e quem quer sangue, touradas com forca­dos e futebol deveria estar no ramo do desporto. •

É fácil enganá-los, porque eles querem ser enganados

As minhas peripécias só revelam a inexis­tência de qualquer análise que não seja pro­cedimental ou anedótica, em detrimento do conteúdo. O que é que lá foi dito de re­levante para a actual situação do País, que discurso traduziu as dúvidas dos militan­tes que antes eram críticos ou que são crí­ticos na televisão (para usar um argumen­to muito de preferência da direcção actual na luta contra os "cata-ventos")? Nada. To­dos se renderam ao actual poder, entre ou­tras coisas porque precisam dele, ou para lhes manter os lugares de nomeação go­vernamental que detêm, ou para terem o apoio do PSD nas suas ambições políticas, ou, como Aguiar Branco, para nunca ser "ex-" de coisa nenhuma.

Depois, basta dizer meia dúzia de frases de índole social, triviais e desligadas do con­texto actual, em particular desligadas da sua relação com a política do Governo, para se passar a ser social-democrata. Os pobres de facto têm costas largas na política, e servem para as lágrimas de circunstância. E logo a seguir, os mesmos interlocutores passam a tecer loas ao mesmo Governo que está a criar o enorme desastre social, como se se pudesse dizer tudo e o seu contrário. Poder pode - e até ver a comunicação social lou­var a sua "preocupação social". É de facto fácil enganá-los, que como eles precisam de novidade, querem ser enganados. •

Mais uma vez...

... as únicas políticas que estão em curso e em preparação, que são reais e não vir­tuais, que não dependem de uma comis­são que vai estudar alguma coisa, ou de uma promessa longínqua, são mais um pacote de austeridade, mas, como se cen­tra nos funcionários públicos, não há pro­blema. Sobre isto mais silêncio, ou o en­colher de ombros. •

Ucrânia

Há muito a dizer sobre a Ucrânia, mas o que aconteceu em Kiev e na parte ociden­tal do país nada tem a ver com o que acon­tece a leste, onde a maioria da população fala russo e sente-se russa. Alguém pensa
que nessa parte da Ucrânia se vai aceitar pacificamente um governo com origem na Praça Maidan? Infelizmente isto só está a começar e temo que as câmaras de televi­são fixadas nas barricadas tenham que ir para outro lado. • 

Maria Helena da Rocha Pereira
A Universidade de Coimbra iniciou uma edição das obras de Maria Helena da Ro­cha Pereira, a decana e figura principal dos nossos estudos clássicos. Pouca gente como ela contribuiu para manter viva a mais ameaçada tradição das humanida­des: o conhecimento das línguas, grego e latim, da literatura clássica tão importan­te para todos os que escrevem português, desde sempre. As suas antologias de uso escolar foram para muitos, mesmo fora do âmbito especializado das "clássicas", o pri­meiro ponto de contacto com Homero, Hesíodo, Safo, Arqufioco, Píndaro e mui­tos outros. Toda a vida, como Jacqueline de Romilly, "viveu com os gregos", embora a sua vida portuguesa tivesse algumas ve­zes bem pouco de grego, e ela saberá, me­lhor do que ninguém, que não é possível a inocência total. Mas conhecer a sua obra é hoje uma forma de resistência face ao desprezo do poder por essa coisa bem pou­co empresarial que é conhecer quem foi Ulisses, e Eneias, e Electra, e, particular­mente, Antígona. •

Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré provérbio popular

SÁBADO 27-02-2014

Um Quente Agosto


Título original: August: Osage County
De:John Wells
Com:Meryl Streep, Dermot Mulroney, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper
Género: Comédia Dramática
Classificação: M/16
Outros dados: EUA, 2013, Cores, 130 min.
Situada em Osage County, no estado de Oklahoma (EUA), durante o mês mais quente do ano, esta é a história dos Weston, uma família disfuncional que se reúne devido ao estranho desaparecimento de Beverly Weston, o patriarca. À medida que os dias passam e eles são forçados a uma convivência imposta pelas circunstâncias, tudo vem ao de cima: as crises, os ciúmes, os ressentimentos e as fragilidades de cada um. Porém, no meio de tantos sentimentos, haverá espaço para reencontrar o amor que, apesar de tudo, ainda teima em uni-los a todos…
Com produção de George Clooney, Jean Doumanian e Grant Heslov, uma comédia negra assinada pelo produtor, argumentista e realizador John Wells (responsável pela série televisiva "E.R. - Serviço de Urgência" e, mais recentemente, pelo filme "Homens de Negócios").
O argumento baseia-se na peça homónima de Tracy Letts que, com esta obra, venceu um Prémio Pulitzer. O elenco é de luxo e conta com Meryl Streep, Sam Shepard, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper, Abigail Breslin, Juliette Lewis e Benedict Cumberbatch, entre outros. "Um Quente Agosto" está nomeado para dois prémios da academia: Melhor Actriz e Melhor Actriz Secundária (Meryl Streep e Julia Roberts, respectivamente). PÚBLICO
 

Nebraska


Título original: Nebraska
De: Alexander Payne
Com: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb
Género: Aventura
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2013, Cores, 115 min.
Apesar do desencanto com a vida e da sua idade avançada, Woody Grant (Bruce Dern) decide fazer uma longa viagem, de Montana ao Nebraska, para reclamar um prémio de um milhão de dólares que julga ter ganho através de uma revista. Apesar do desacordo da esposa (June Squibb) e do resto da família, que o considera demente e pondera colocá-lo num lar de idosos, David (Will Forte), o filho, decide fazer-lhe a vontade e acompanhá-lo nessa jornada, mesmo ciente da inutilidade do projecto. Assim, durante esse percurso, pai e filho acabam por romper as barreiras que os anos se encarregaram de erguer, criando laços que há muito julgavam perdidos.
Em competição pela Palma de Ouro na edição de 2013 do Festival de Cannes - onde Bruce Dern arrecadou o prémio de Melhor Actor -, uma história filmada a preto e branco com assinatura de Alexander Payne ("As Confissões de Schmidt", "Sideways", "Os Descendentes"), segundo um argumento de Bob Nelson. "Nebraska" tem ainda seis nomeações para os Óscares, nas categorias de melhor filme, realizador, argumento original, fotografia, actor e actriz secundária (Bruce Dern e June Squibb, respectivamente). PÚBLICO


Ciclo Interrompido


Título original: The Broken Circle Breakdown
De: Felix Van Groeningen
Com: Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse
Género: Drama
Classificação: M/16
Outros dados: BEL, 2012, Cores, 111 min.
Didier toca banjo numa banda e é aficionado por tudo o que se refere à cultura americana. Élise é dona de uma loja de tatuagens e tem por hábito pintar no seu corpo todas as histórias de amor já vividas. Apesar de tão diferentes, o amor entre ambos nasce no próprio momento em que se encontram pela primeira vez. A sua entrega é apaixonada e a relação entre eles parece imune a qualquer interferência. Os anos passam e desse amor resulta a filha Maybelle, cujo nascimento vem completar a sua felicidade. Porém, aos seis anos de idade, Maybelle é diagnosticada com uma doença grave. A partir desse momento, sentindo-se totalmente incapazes de lidar com o medo da perda, cada um deles se volta para si mesmo e para as suas crenças mais profundas, cavando, a cada dia que passa, um poço quase intransponível…
Uma história dramática e comovente, realizada pelo belga Felix Van Groeningen, que adapta ao grande ecrã a peça homónima de Johan Heldenbergh (que se desdobra no papel de Didier) e Mieke Dobbels. Depois de vários prémios arrecadados em alguns dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo, foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. PÚBLICO



Crítica Ípsilon por: Jorge Mourinha

Um pequeno fenómeno de culto chega aos nossos ecrãs à boleia do Óscar para melhor filme estrangeiro: um melodrama belga ao som da country americana.
Há que admitir que a dimensão “exótica” é o que primeiro chama a atenção no filme de Felix van Groeningen, nomeado este ano para o Óscar de melhor filme estrangeiro depois de se ter tornado num pequeno fenómeno de culto ao longo dos últimos meses.
De facto, quando foi a última vez que um filme belga chegou ao nosso circuito comercial? Só que esse aparente exotismo - um filme belga cujas personagens principais tocam numa banda de música bluegrass - é igualmente uma das motivações principais da sua história. Didier, cantor e músico da tal banda de música bluegrass, tem uma visão idealizada da América que a presidência de Bush, e a doença da sua filha, vão ajudar a desfazer (tudo se passa no imediato pós-11 de Setembro); a mulher, Elise, tatuadora e cantora no grupo, continua a ter uma fé subterrânea a que se agarra nos momentos difíceis. De certo modo, Van Groeningen quer contrapor duas abordagens diferentes, a fé e o racionalismo, através de uma história de amor que procura construir uma ponte entre ambas, contada de modo fragmentado ao som da música tradicional americana, em constante salto temporal ao longo de uma década a partir do primeiro encontro de Didier e Elise, e com o modo como a doença da filha afecta a relação como fulcro narrativo.

O problema central é que esta história de casal às voltas com criança doente já foi feita antes - mais recentemente em Declaração de Guerra, de Valérie Donzelli - e, se lhe tirássemos a dimensão exótica, o pano de fundo musical e a fragmentação da narrativa, Ciclo Interrompido resumir-se-ia a apenas mais um melodrama de luxo. Ainda por cima, algumas das opções de mise en scène, sobretudo em direcção ao final, denunciam em excesso a origem do filme numa peça teatral (co-escrita pelo actor principal, Johan Heldenbergh, e assaz aclamada por terras flamengas). Felizmente, a música, interpretada pelos próprios actores, é uma enorme mais-valia - ou não fosse a country americana música de e sobre vidas difíceis - e Van Groeningen encena certeiramente as canções como momentos centrais para a narrativa, conseguindo aí a pontaria emocional que parece faltar por vezes. E é também pela aposta inteligente na música, pela entrega dos actores (Heldenberg e Veerle Baetens são excelentes) e pela fluidez com que o montador Nico Leunen salta de época em época que Ciclo Interrompido justifica um interesse que transcende o mero exotismo da sua origem,

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

MORREU O GUITARRISTA DE FLAMENCO PACO DE LÚCIA


O guitarrista de flamenco Paco de Lucia morreu aos 66 anos. A notícia é avançada por fontes da autarquia da autarquia de Algeciras, na região espanhola de Cádiz, a cidade natal do artista.
O artista foi vítima de um ataque cardíaco quando se encontrava em Cancún, no México, tendo chegado sem vida a um hospital da cidade.
Um amigo, Victoriano Mera, explicou que De Lúcia estava a brincar com os filhos numa praia de Cancún, cidade onde tinha uma casa, quando se começou a sentir indisposto.
Paco de Lucia é um dos mais conhecidos guitarristas de flamenco, particularmente famoso pelo Concerto de Aranjuez.
José Ignacio Landaluce, alcaide de Algeciras, declarou já que a morte de Paco de Lucía é “uma perda irreparável para o mundo da cultura e para a Andaluzia”.
A autarquia deve decretar o luto oficial.
A família do artista está actualmente a organizar o translado dos restos mortais do guitarrista para a sua terra natal.

Um revolucionário da guitarra

Filho de mãe portuguesa e de pai vendedor ambulante de dia e guitarrista à noite, Paco de Lucia começou a tocar guitarra aos sete anos. Estreou-se na rádio aos 11 e gravou o primeiro disco aos 14.
Francisco Sanchez Gomez nasceu a 21 de Dezembro de 1947 em Algeciras, Andaluzia, Sul de Espanha.
Adoptou o nome artístico Paco de Lucia em homenagem à mãe, Luzia. Era o mais novo de cinco irmãos, também artistas, com quem chegou a gravar e tocar em público.
Aos 20 anos gravou o primeiro disco a solo: “A Fabulosa Guitarra de Paco de Lucia”. De imediato foi considerado, em Espanha, o artista de flamenco mais inovador e influente da sua geração.
A consagração chegou nos anos 1970, com actuações memoráveis no Palau da Musica Catalã, em Barcelona, ou no Teatro Real de Madrid, onde ainda era uma heresia tocar musica popular.
Foi na capital espanhola que encontrou o artista com quem havia de mudar a paisagem do flamenco. Camaron de la Isla, uma das mais notáveis vozes do flamenco. Os dois gravaram mais de dez discos.
Nos anos 1980, criou um sexteto – um grupo que havia de definir a forma aos actuais grupos de flamenco – responsável pela introdução do “cajón”, a caixa de origem peruana que dá forma rítmica ao estilo.
Nessa altura, arriscou o que ainda ninguém mais tinha ousado: uma incursão no jazz, aquilo que em Espanha chamaram de “abastardamento do flamenco”.
Tocou com Chick Corea. Com Al di Meola e John McLaughlin o improviso atingiu novos níveis de virtuosismo.
Paco de Lucia não conhecia fronteiras – e assim ousou também cruzar o flamenco com os blues, a salsa, a bossa nova, o country, a música hindu e a árabe.
Paco de Lucia é considerado um dos melhores guitarrista de sempre. Foi um dos maiores responsáveis por elevar o flamenco à condição que hoje ocupa na world music internacional.
Em 2004, foi Premio Príncipe das Astúrias e ganhou um Grammy para melhor álbum de flamenco.
Num documentário de 2002, o guitarrista Manolo Sanlúcar terá dado uma das melhores definições para Paco de Lucia: “Paco é o melhor símbolo do que significa uma estrela, porque encanta até quem não sabe disto”. Página 1 26-02-2014

Concierto de Aranjuez 


ADEUS, EUROPA








Governantes, econo­mistas e reguladores do actual pensamen­to dominante na Eu­ropa passaram a se­mana reunidos nu­ma coisa pomposa­mente chamada Lisbon Summit, a discutir o nosso futuro próximo. Ausente fisi­camente da cena, o FMI fez, porém, questão de se juntar à tertúlia, através de um relatório enviado de Washing­ton sobre a situação portuguesa. Tudo visto e meditado, o resultado de três di­as de conversa não foi propriamente aquilo que o Governo esperava e que os recentes indicadores conjunturais posi­tivos lhe fariam antecipar.

O Governo esteve lá em força, repisan­do, com um entusiasmo oficialmente contido, os últimos dados referentes ao desemprego, ao crescimento, à balança comercial, e fazendo durar, gozando mesmo, a volúpia de ir adiando a sua magna decisão: saída limpa ou saída as­sistida. Um luxo de quem ainda quer acreditar que, no final, se manterá váli­da a célebre promessa murmurada por Scháuble aos ouvidos de Vítor Gaspar: "Sim, se fizerem tudo como nós manda­mos, no fim podem contar connosco, se houver necessidade disso". Ora, como os portugueses bem sabem, o país pa­gou um preço inimaginável, e que dura­rá décadas a determinar em toda a sua extensão, pelo bom comportamento do Governo perante os mandantes da troi­ka. Nenhum povo, dos países que nos impuseram as condições do resgate, faz uma pequena ideia daquilo que Por­tugal tem pago em nome da teoria da "austeridade expansionista". E ne­nhum estaria disposto a aceitar sequer uma décima parte daquilo que os portu­gueses tiveram de aceitar nestes últi­mos três anos.
Para que isso fosse possível, o Gover­no Passos Coelho/Portas passou estes três anos a garantir duas coisas, em con­trapartida de tudo o que ia fazendo: que no final, e se fizéssemos exactamen­te o que a troika mandava, a Europa, e sobretudo a Alemanha, não deixariam cair o "bom exemplo"; e que, findo o calvário e "reajustada" a economia a ga­lope de cavalo, o país ficaria enfim em condições de nunca mais ter de pedir ajuda de emergência. Compreende-se, pois, como deve ter sido doloroso para o Governo, durante esta Lisbon Sum­mit, ouvir o FMI dizer que as reformas falharam, que os bons indicadores re­centes são apenas provisórios e que na­da de essencial mudou para futuro, e, por outro lado, ouvir a Europa sugerir, para bom entendedor, que não contás­semos mais com ela (paradoxalmente, é o "mau exemplo" da Grécia que terá o privilégio de ser excepção).

Os rumores de que a Europa (isto é, a Alemanha, Holanda, Finlândia e Áustria) queriam empurrar Portugal para a tal "saída à irlandesa" — ou seja, sem qualquer ameaça de custos acrescidos ou imaginados para os seus contribuin­tes, em vésperas de eleições europeias — ficaram amplamente confirmados no encontro promovido por "The Economist" para leitores ingleses, que tam­bém adoram ouvir estas coisas. Por to­dos, o mais descarado foi o belga Peter Praet, economista-chefe do BCE, que, quando colocado perante a pergunta que tanto atormenta os políticos e jor­nalistas portugueses, respondeu que há uma terceira saída possível, que não é nem a limpa nem a assistida: é a da "monitorização reforçada". E o que é isso? É uma variante de 1640 que con­siste em sermos deixados por nossa conta perante os mercados, sem a rede alternativa de taxas de juro garantidas pelo BCE, mas com as mesmas obriga­ções de prosseguir no recto caminho que o BCE, Berlim e Bruxelas defini­ram como o único aceitável. Isto é: não há dinheiro nem apoio, não há solidarie­dade europeia alguma — nem revisão das condições de pagamento da dívida, nem mutualização parcial desta, nem união bancária, nem uniformidade fis­cal. Mas continuamos a ser "monitori­zados" e "reforçadamente", continua­mos a receber ordens de fora e somos largados às feras para, assim mesmo, conseguirmos retomar o crescimento económico em condições de absoluta desigualdade com os potentados econó­micos europeus. E é para isto que um Passos Coelho, que começa a sentir-se enganado e desamparado, quer agora a solidariedade e cumplicidade do Parti­do Socialista. Schãuble mentiu-lhe, Merkel mentiu-lhe, o BCE mentiu-lhe, o FMI mentiu-lhe. Quando esperava a recompensa pelo bom comportamento e pelos indicadores de alívio conjuntu­ral, dão-lhe duas palmadinhas nas cos­tas e mandam-no à vida, dizendo-lhe "já fizemos a nossa parte".

Como é óbvio, o PS não pode aceitar esta proposta desonesta. Pode, e deve, aceitar convergências pontuais em questões onde o interesse do país é con­sensual e se impõe por si. Mas não po­de aceitar ser parte e corresponsável pelas consequências de uma política eu­ropeia do Governo Passos Coelho/Por­tas que se traduz na total subserviência perante os que se apoderaram da UE e todos os dias, em todos os dossiês, se dedicam a destruí-la, ponto por ponto. Quem deu a carne a comer que roa os ossos.

Nunca, como agora, as eleições euro­peias foram tão importantes e o pior que a esquerda, a oposição, poderia fa­zer era ignorar a sua importância e ce­der à tentação de as transformar ape­nas no tradicional escrutínio de médio-prazo do Governo em funções. Parece que andam todos entretidos em joguinhos de mercearia política, tal como adivinhar por quantos é que Passos po­de perder sem pôr em causa a vitória nas legislativas de 2015 ou por quantos é que Seguro tem de ganhar para se manter na liderança do PS — enquanto à volta, a Europa, à qual aderimos, se desmorona à vista de todos, sem ter uma única política clara e comum no interesse geral, seja quanto à Ucrânia ou quanto à crise das dívidas sobera­nas. Esta Europa foi morta às mãos dos alemães e dos seus aliados, perante o sorriso irónico dos ingleses e a patética "grandeur de la France". O euro resul­tou numa aldrabice, em favor dos ricos e contra os pobres, dia a dia tornando o fosso mais intransponível. Até já os suí­ços desafiam de fora a Europa, seguros de que o caminho do nacionalismo e do chauvinismo é o futuro desta UE.

As eleições europeias que aí vêm são, talvez, a última oportunidade para ten­tar evitar o desmoronar do projecto eu­ropeu — a mais brilhante construção política dos tempos modernos. Só a es­querda pode travar essa batalha, só a esquerda pode tentar evitar o espectá­culo feio que vai ser o da desintegração europeia. Se a direita e a extrema-direita conquistarem a maioria em Estras­burgo, entramos nos tempos do salve-se quem puder. A esquerda tem de es­tar preparada para uma e outra alterna­tiva. Para defender a Europa contra os seus carrascos e, em caso de derrota, para começar a pensar numa alternati­va fora da UE. Quanto a nós, o debate sobre a reestruturação da dívida, sobre a saída do euro e da própria UE, tem de começar a ser feito, com inteligência, com sensatez, sem demagogia mas tam­bém sem medo. Para o fazer, a esquer­da tem a responsabilidade histórica, não apenas de encontrar um terreno co­mum de luta que se sobreponha aos egos de cada um, mas também a res­ponsabilidade de falar verdade aos por­tugueses. De lhes dizer quanto custa o Estado e quais são os meios que temos e não temos para o manter; quais as consequências e sacrifícios de abando­nar a Europa e, por uma vez, deixar­mos de sonhar com os tesouros da ín­dia e outros eldorados; e quantos anos ou quantas gerações teremos ainda de penar para finalmente sermos um país independente.

Mas este debate vale a pena. Quanto mais não seja, para que as pessoas sin­tam que há uma alternativa que não consiste apenas em ficar sentado a ver os editores da "Economist" virem cá or­ganizar conferências onde meio Gover­no comparece obedientemente para tentar explicar ao mundo que este PIG já cheira menos mal. Ou para que se acabe de vez esta estratégia de ladai­nha que é a da nossa esquerda, onde se reivindica tudo do Estado, desde os Mirós património nacional até às bolsas de estudo para investigar se os gover­nos fazem mais nomeações políticas do que as oposições, mas onde ninguém se atreve a contar às criancinhas a histó­ria de um país que vive eternamente fa­lido porque todos acham que o Estado é rico. Para que as esquerdas, como dis­se o Mozer sobre o Sporting, "parem de chorar e joguem à bola, pô!". EXPRESSO 22-02-2014

PORTUGAL, JÁ ÉS UM HOMEM!



Se tivéssemos negociado novos empréstimos junto do Fundo Europeu de Estabilização Financeira teríamos poupado muitos milhões de euros nos juros 

O Tesouro foi nova e recentemente ao mercado "testar" a nossa capacidade para sobrevivermos sem ajudas externas no seu processo de financiamento.

O Tiago decidiu mostrar ao pai que é um homem e decidiu sair de casa, fazendo-se à vida na en­trada do novo ano.

O Tesouro foi muito bem-sucedido nas duas emissões de em­préstimos obrigacionistas, uma com vencimento a cinco e outra a dez anos, realizadas em janei­ro e fevereiro.

O Tiago, confiante no seu novo emprego, pediu, e obteve, dois empréstimos ao banco, um para comprar carro e outro para com­prar casa.

O Tesouro conseguiu taxas de juro muito interessantes com custos médios de 4,657% e 5,112% ao ano para os emprésti­mos de cinco e dez anos, respetivamente.

O Tiago ficou feliz com as ta­xas que negociou com o banco.

Mas, se em lugar do mercado, tivéssemos negociado e obtido novos empréstimos junto do Fundo Europeu de Estabiliza­ção Financeira (que nos cobrou até agora uma taxa média de 2,2% ao ano, com um vencimen­to médio de 20,6 anos), mesmo sem ajustar as taxas para os pra­zos mais curtos destas duas emissões, teríamos poupado 137,5 milhões de euros ao ano nos primeiros cinco anos e 66 milhões nos outros dez, nos ju­ros a pagar.

Se o Tiago tivesse pedido ao pai para ser seu fiador, teria poupa­do muito dinheiro em juros, uma vez que a taxa seria mais baixa.

Quando se discutia a TSU das viúvas, afirmou-se que a aplica­ção da medida às pensões de so­brevivência em causa significa­va 100 milhões de euros ao ano. A poupança em juros só nestes dois empréstimos seria bastante superior a isto, sendo equivalen­te à contratação de mais de 3000 professores do ensino se­cundário ano.

O Tiago deixou de ir ao cine­ma, reduziu a compra de carne e peixe e abdicou de sair ao fim de semana.

Só nestes empréstimos o Esta­do pouparia no total mais de 1000 milhões de euros em juros nos próximos dez anos se recor­resse a um programa (caute­lar?) de apoio financeiro nas con­dições descritas.
Mas Portugal mostrou que é capaz e será de novo indepen­dente!

O Tiago mostrou ao pai que tem raça e que é capaz de viver só!

Os investidores que consegui­ram colocar o capital a esta taxa ficaram satisfeitos... (Não era a esquerda que diabolizava a troi­ka!)

"Tiago, assim é que é! Mostre a seu pai que já tem crédito na praça!", afirma o banqueiro a es­fregar as mãos...


O Tiago vive para pagar ju­ros... E nós também...
 
Expresso ECONOMIA, 22-02-2014

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Divine Shape: O Inverno do Porto mudou a minha roupa




Texto de Divine Shape

Comunidade

Divine Shape: O Inverno do Porto mudou a minha roupa

Naquele primeiro inverno mau, podia ter-me posto a milhas desta cidade chuvosa, onde a minha genética transmontana está sempre a morrer de frio. Mas naquela noite decidi que, se queria ser jornalista no Porto, tinha de mudar de roupa. Na verdade, ainda hoje ando à procura do calçado ideal para viver com esta chuva, tanta chuva que nem as galochas me salvam.

Tenho problemas com a chuva desde que vim morar para o Porto. Há invernos piores, claro, e este é um deles. Quando surge um bastante mau, lembro-me dos outros (e não me conforta). O primeiro que me fez mossa, há 14 anos, podia ter-me feito mudar de cidade, mas fez-me mudar de roupa. Era dezembro, houve uma derrocada nas Fontainhas. Eu nem sequer sabia o que isso era, nem onde ficava e aquilo quase que ruía mesmo, fios de eletricidade presos às casas, os bombeiros a cortar o que podiam para o chão não levar as casas, não sei quantos desalojados, lama, chuva, eu de sapatos, calças de tecido e canadiana (na altura chamava-lhe casaco de fazenda). Ficou tudo ensopado: ou escrevia ou segurava no guarda-chuva e, pensando bem, não sei como consegui tirar apontamentos no meio de tanta água.

Depois era preciso verificar se funcionaria o botão da festa de passagem de ano, que já não se sabia se era de milénio ou não, chuva miúdinha a noite toda e eu ainda de sapatos, calças de tecido e casaco de fazenda. Naquela noite percebi que, se queria ser jornalista no Porto, tinha de mudar de roupa. Houve ali algum exagero, mas foi ele que me levou a comprar um dos melhores casacos que já tive, quente e impermeável, bom para o frio e para a chuva, exatamente o que precisava. Era comprido, com carapuço, não acolchoado (maldita moda dos kispos que parecem edredões e falo mal de mim própria, atualmente tenho um: corri as lojas todas, fui à mesma onde comprei o outro e nada, nunca mais encontrei igual). Usei-o tanto, chovesse ou não, que o preto ficou cinzento, como o tempo, até ficar tão gasto que já não se podia usar.
 

A determinação era muita, até comprei uma carteira impermeável – a sério, era mesmo, e tinha tantos bolsinhos, tanto potencial de arrumação que não fui capaz de lhe ficar indiferente, parecia perfeita (como todas as que comprei desde então, e não, nunca são). Aproveitando o embalo, devia também ter investido numas botas, mas aí nem o inverno do Porto me convenceu. Não sei que raio de moda era aquela, minha, de usar sempre sapatos (a esta distância, adivinho que, com outro tipo de calçado, as calças que usava não assentavam bem, achava eu). Primeiro eram uns sapatos de pala rasos, pretos (what else?), tive várias variações. Depois, numa fase mais calças de ganga, passei para um modelo mais “sapatilha”, primeiro uns azuis (que ousadia) , depois uns em tons de rosa, que alternava de acordo com a cor das camisolas. Também tive (ainda tenho) uns vermelhos, também rasos, também no estilo sapatilha, também pouco eficazes em casos de muita chuva, mas pessoas de ideias fixas são difíceis de contrariar.

Naquele primeiro inverno mau, e no outro, naquele em que choveu de outubro a março e a ponte caiu, podia ter-me posto a milhas desta cidade chuvosa, onde a minha genética transmontana está sempre a morrer de frio, porque este é diferente, húmido e gélido, entranha-se na roupa, nos armários, cheira a mofo. Acontece que a chuva não me incomodava. Caramba, tinha um casaco impermeável e quente, giro como nunca mais encontrei nenhum, todos os dias descobria coisas novas, trabalhava de chuva a chuva e depois…. havia aquela luz, a do céu do Porto, com sol, quando se desce a avenida da Boavista em direção ao mar, foi ela que me fez sentir em casa pela primeira vez.

As primeiras botas a sério que comprei no Porto (as primeiras mesmo é melhor esquecer, eram ligeiramente pontiagudas, usava-as com as tais calças de tecido – que raio de mania –, davam-me um ar “senhora” mas passou-me depressa) coincidiram com o início da minha fase “vestidos”. Com “a sério” quero dizer de cano alto e pele (outros tempos), quem usa vestidos no inverno do Porto precisa de proteção nas pernas. Entretanto, o tempo, cronologicamente falando, tornou-me mais exigente. Mudei de estilo, passei a precisar de botas a sério (mas já não de pele a sério) também com calças (já não de tecido, pelo menos não naquele tecido). No ano passado, comprei umas galochas. Nunca me tinha passado pela cabeça, achava-as uma coisa de borracha feita, desconfortável, com tudo para deixar os pés gelados. Mas estava na loja a acompanhar alguém que ia realmente comprar alguma coisa, elas olharam para mim, tão cor-de-rosa, que tive de as experimentar. Foi a primeira vez que gostei de me ver com botas por fora das calças, eram tão giras e leves e rosa, trouxe-as, foram companhia quase diária, distingui-as como uma das melhores compras de sempre.

Este ano já não as acho confortáveis, atrapalham-me a condução, o andar também não é dos melhores, e não tapam a chuva toda, que tem chovido mesmo a sério. Não sei se é deste inverno, se é de mim, fiquei tão mais friorenta e vulnerável à chuva que não sei onde irei parar. Até comprei, logo no verão, umas botas de cano alto de feltro até ao joelho, tão quentes e impermeáveis que me convenceram como nenhumas outras (as mais recentes são sempre as melhores). Acontece (acontece sempre qualquer coisa) que se revelaram menos bonitas e elegantes do que pareciam. Dizem-me que só umas galochas de pescador me podem salvar. Brincam com as minhas cautelas com o tempo (metereologicamente falando) e eu bem gostava de voltar a usar sapatos ou sapatilhas no inverno, porque, agora sim, está na moda e desta eu gosto. Mas se chove, se dizem que vai chover, se parece ameaçar chover, se há alertas de ondas e ventos e chuvas, já não consigo. E, por isso, fico-me em relação às botas como em relação às carteiras: tenho muitas, mas nenhuma serve, as que ainda não comprei são sempre as que me fazem falta, maldita chuva.

Este artigo é publicado no Porto24 no âmbito de uma parceria com o blogue Divine Shape e foi escrito segundo o novo acordo ortográfico. 24-02-2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

RUA 23 DE JULHO



RUA 23 DE JULHO

Data que lembra renhido combate no Cerco do Porto
A rua que ostentou o nome de 23 de Julho tem hoje outra desi­gnação. Chama-se Rua de San­to Ildefonso. Aquela data evoca o combate que, nos referidos dia e mês, do ano de 1832, se travou no sítio da Ponte de Ferreira, em Valongo, entre os soldados do exército constitucional do senhor D. Pe­dro IV e a tropa de D. Miguel, o usurpador.
A referência mais antiga que se conhece ao topónimo Santo Ildefonso é de 1542 e consta de um documento em que se alu­de à existência de umas casas "na Rua de Santo Ildefonso, junto ao hospital das En­trevadas".

O hospital das Entrevadas ficava em Cima de Vila onde fora fundado, sob a pro­teção de Nossa Senhora do Amparo, "nas casas de uma velhíssima albergaria".

As entrevadas deram origem a uma vie­la que começava num campo lavradio, chamado "campo do Pombal", que corres­ponde à atual Praça da Batalha, e que se­guia para Cima de Vila. Trata-se de uma pequena artéria que ainda hoje existe com o nome de Travessa de Cimo de Vila.

O hospital das Entrevadas ainda funcio­nava em 1838 porque, neste ano, a Câma­ra do Porto atribuiu-lhe "meia pena de água" que devia ser retirada do aqueduto" que passa de trás da capela (era a capela de Nossa Senhora da Batalha) junto ao mes­mo hospital...".

Em 1632, a artéria em causa aparece identificada como Rua Direita de Santo Il­defonso. Era por essa altura uma das mais compridas ruas do Porto. Como na época não havia ainda casas numeradas, o que só veio a acontecer a partir do século XIX, as indicações que se davam para a localiza­ção de moradores era bastante curiosa. Por exemplo: "morador em Santo Ildefonso, além de Santo André".

Santo André era o nome que em 1632 se dava à atual Praça dos Poveiros por causa de uma capela que ali havia da invocação daquele santo.

Outra indicação (1661) era esta:"... San­to Ildefonso, a Santo Estêvão". Este san­to tinha também imagem na capela de Santo André. Até se dizia capela de Santo André e Santo Estêvão.

Mais uma referência que data de 1741: "Santo Ildefonso, abaixo do padrão das al­mas". Este padrão era um cruzeiro, por si­nal bem bonito (está no cemitério do Bon­fim) que existia no largo hoje chamado, precisamente, do Padrão.

Ao espaço que fica em frente à fachada principal da igreja dava-se, em 1635, o
nome de Largo de Santo Ildefonso. Esta designação manteve-se até 1839, ano em que aquele espaço foi integrado na Praça da Batalha.

Ildefonso, forma original de Afonso, é nome de um bispo que terá nascido, no ano de 606, em Toledo, originário e uma família de sangue real. No local onde está agora a igreja paro­quial existia já no século XII uma capela de remota origem e da invocação de Santo Il­defonso. A referência à existência do pe­queno templo naquele século assenta num documento em que se alude à sua consagração pelo bispo D. Pedro Pitões que governou a diocese entre 1146 e 1152.

Um documento dos começos do século XV localiza "o pequenino templo fora das portas de Cima de Vila, junto ao lugar do Pinheiro, antes chamado de João de Ramalde".

Em 1727, "a capela de Santo Alyfon" es­tava em ruínas e volvidos três anos tinha mesmo desaparecido tendo-se construí­do no mesmo local o templo que ainda hoje existe.

Enquanto a nova igreja andava em cons­trução, serviu de paroquial a velhinha ca­pela de Nossa Senhora da Batalha que, na­quele tempo, pertencia à Câmara Muni­cipal.

Em tempos recuados, a ermida de "san­to Alifon" ficava num local de caraterísticas tipicamente rurais. Estava rodeada de um amplo souto de carvalhos muito anti­gos. Era sob a copa frondosa de um desses carvalhos que, por alturas da procissão do Corpo de Deus, a custódia com o Santíssi­mo Sacramento era colocada à adoração dos fiéis. Em Miragaia, quando calhava de lá passar a procissão, a custódia era colo­cada à sombra da vela grande de um navio.

O bairro de Santo Ildefonso foi a zona da cidade que mais cresceu e se desenvolveu durante o Cerco do Porto que durou entre 1832 e 1833. Pode parecer ironia o que vai escrever-se a seguir, mas esse desenvolvi­mento social e económico ficou a dever-se a uma epidemia.

A peste veio em navios que, da Inglater­ra e de outros países do Norte da Europa, trouxeram para o Porto víveres, cavalos, munições e mercenários. Mal se soube que a peste já grassava na cidade, os cida­dãos que tiveram possibilidades económi­cas para o fazer subiram até ao cimo da co­lina de Santo Ildefonso onde passaram a residir e montaram os seus negócios. Por­quê Santo Ildefonso ? Porque ficava (e ain­da fica) no cimo de uma colina arejada e, logo, menos propícia à expansão da epide­mia.
 

A HISTÓRIA DA CAPELA DE SANTO ANDRÉ
 

► Dizia-se que Santo Ildefonso ficava "além de Santo André.... Este era o nome que se dava a uma capela que existiu no atual Largo dos Poveiros. Antes da existência da capela, havia um nicho que tinha dono. Pertencia a um tal Estêvão, pedreiro que vivia ali perto. Um dia transformou o nicho em capela co­locando nela uma imagem do seu santo protetor - Santo Estêvão. A capela passou a chamar-se de Santo André e Santo Estêvão. Celebrizou-a um retábulo que havia no in­terior evocativo das Almas do Purgatório. Diz uma velha tradição que em certas noi­tes se abria a porta da capela para as almas saírem em procissão. Mas que voltavam sempre. A capela foi demolida nos meados do século XIX. 
JORNAL DE NOTÍCIAS 23-02-2014

sábado, 22 de fevereiro de 2014

HOMEM? NEUTROIS? PANSEXUAL? DOIS ESPÍRITOS?


em manutenção
HOMEM? NEUTROIS? PANSEXUAL? DOIS ESPÍRITOS?

O Facebook decidiu que há 56 géneros sexuais. A Lista é intrigante

CONTINUO CONVENCIDO de que os homens necessitam de elaborar um novo discurso da masculinidade. A coisa anda meio embre­nhada e hesitante nos receios dos mal-entendidos com palavras rançosas, reflexos de milénios em que os homens levaram a melhor e agora têm medo de abrir a boca sobre o "ser homem". Mas tente-se refletir sobre o assunto e criar um missal que escape à malha feminista e um tipo depara-se com o seguinte anúncio: "O Facebook decidiu que há 56 opções géneros sexuais." Ora, como é sabido, se o FB diz, é porque é verdade. Não estou a falar de posições, pá! Mas de géneros: havia três. O masculino, feminino e outro. O Facebook anunciou que há mais de meia centena.
Tendo acesso a informação privada de mais 1,3 milhões de pessoas, eles lá concluíram que o básico pacote homem/mulher estava desatualizado. E elencaram 56 possibilida­des (só na versão em EUA e nas opções lá escondidas). Resultado? Estou à volta aqui com a Wikipédia a ver se descubro o que significam. O que é um "neutrois"? Vou a um motor de busca gender-wiki que me diz que "é um género não binário". Mas então — questiono-me em termos teóricos —, como é que se distingue de um "agender" que é , leio, "pessoa a quem lhe falta género sexual". Mas, cuidadinho, estas "a-géneras" podem ter qualquer orientação, sendo a maioria "pansexuais" ou "bi" (duas outras classifica­ções listadas). Não é cena de castidade. Há 25 variações de "trans". Que vão de "transpessoa" a "transmasculino" ao nosso conhecido "transexual". Há o género incon­formado (desculpe, tradução livre gender nonconforming, mas deve ser não-conforme), os banais andrógino, o "em mudança de mulher para homem", há o "género fluído" e oito variações de "Cis". Tive que ir ao "Urban Dictionary" porque estava baralha­do. "CisGender" é o "oposto a transgénero". Ou seja, é "a identidade sexual que a socieda­de reconhece como masculina e feminina". A saber: é o homem que é homem e mulher que é mulher na sua triste banalidade (espe­ro não ter ofendido nenhum género). O Facebook abre assim a possibilidade que há dez anos nunca nos passaria pela cabeça. Vejo aqui no fim da lista: "two-spirit". Que raio é um género "dois espíritos"? Googlemos. "Termo adotado na 3ª conferência intertribal dos nativos americanos gay e lésbicas (1990)". Um corpo-dois espíritos (feminino/masculino). Ok, está explicado. Quero aqui dar uma palavrinha de apoio a quem não se sentir representado em ne­nhum destes géneros, pois quero acreditar que isto é só o início. Mesmo assim continua a constar a possibilidade de optar por "ou­tros". O Facebook não rejeita ninguém. Só não deixa publicar fotos com mamilos. É-se logo expulso por uns dias.

REVISTA 22/FEV/14

O PEQUERRUCHO DO PS


pluma caprichosa

O PEQUERRUCHO DO PS

Desde a saída de Sócrates e a entrada de Seguro, um bocado pela porta do cavalo, que andamos às voltas com as questões terríveis do Partido Socialista

O PARTIDO SOCIALISTA está preocupado com as eleições europeias e, mais do que isso, com o cabeça de lista para as elei­ções europeias. António José Seguro está tão preocupado com este cabeça de lista que não consegue (ou conseguia) arran­jar um e os outros estão preocupados com o facto de António José Seguro, estando preocupado, não ter conseguido arranjar o cabeça de lista. Questões graves, questões terríveis, como diria o conselheiro do Eça. O que não preocupa o Partido Socialista é o facto de todos nós, com exceção dos felizes convidados para a mesa do senhor, não termos percebido qual é a lista de preocupações de governo do Partido Socialista e quem são os seus ministros.
Desde a saída de Sócrates e a entrada de Seguro, um bocado pela porta do cavalo, que anda­mos às voltas com as questões terríveis do Partido Socialista. A primeira de todas era a herança de Sócrates. Isto ocupou aquelas cabeças uns tempos. Podia o Partido Socialista conviver com a dita (ou a não ditosa) herança ou devia o novo potentado ignorar o predecessor? Deveria Seguro bramir como um espada­chim enfurecido a absoluta honestidade de Sócrates e avalizar a assinatura no Memorando, ou fingir que nem sabia quem era Sócrates e só o tinha visto uma vez e de relance ao passar por São Ben­to? O Sócrates? Quem? Um tipo magricela e de mau feitio? Não conheço. Seguro escolheu a última resposta e, devidamente instalado, pronunciou-se a favor de uma oposição "civilizada" e sem pressas. Pressa para quê? Passos Coelho governava e cometia os atos odiosos, próprios e encomendados pela troika, enquanto o PS se entretinha em novas questões. A seguir ao problema eminentemente socrático da identidade e da introspeção, o PS embrenhou-se numa putativa tomada de poder por António Costa que acabou num abraço. Ficámos a saber que António Costa tinha "tropas" e ia avançar e depois, afinal de contas, não tinha assim tantas tropas e não ia avançar. Com este tropel de notícias, golpezinhos e contragolpezinhos, o PS demorou semanas a perceber o que significava fazer uma "oposição civilizada". Os seus deputados tinham metido as mãos na massa e pedido o que o inseguro Seguro não queria pedir, a intervenção do Tribunal Constitucional. A fiscalização do Orçamento. A partir daqui, a oposição a Passos Coelho ficou largamente entregue a este tribunal, a umas insurreições de Paulo Portas, aos comentadores e políticos do PSD que detestam Passos Coelho e o seu governo, aos jornalistas e analistas. E ao Marcelo Rebelo de Sousa, antes de se autonomear candidato presidencial. Entretanto, soubemos que Seguro, entretido, tinha não só conseguido num fim de semana fazer as pazes entre Mário Soares e Manuel Alegre como tinha conseguido enfiar a notícia nos jornais desse fim de semana. O povo português, aliviado, respirou fundo. O país ia de sobressalto em sobressalto: privatizações apressadas, tropelias e negociatas de Miguel Relvas, impostos excessivos, reforma do Estado por fazer, cortes aos funcionários públi­cos e pensionistas, aumento brutal do desemprego, emigração. Seguro ia dizen­do que era contra, civilizadamente, e ficámos a saber que Miguel Relvas e ele não eram assim tão amigos como dan­tes. Pormenor importante para a pátria. Pode ser que um dia um novo Seguro faça entre Relvas e o velho Seguro as pazes que este fez entre Alegre e Soares. Entretanto, a oposição era conduzida por Sócrates na televisão (um rapaz magricela que Seguro sabia quem era e até estimava, veio-se a saber depois) e por Mário Soares em todo o lado. Seguro, segurado pelo legionário Assis, ia dizen­do coisas. A última, não menos deslum­brante que as anteriores, tem a ver com as tempestades deste inverno. Seguro vestiu um impermeável, saiu à chuva, levou uns jornalistas para o fotografa­rem junto a uma onda na rebentação, não muito perto, e declarou rotundo que o litoral português precisava de ser defendido. Coisa que Passos Coelho, preocupado em governar, se tinha esque­cido de fazer. Já Assis, sempre tático e oportuno, publicara um artigo a seguir às autárquicas a atestar a competência de Costa, vencedor com maioria absoluta em Lisboa, para ser presidente da Repú­blica. Não estava o povo português preocupado com outra coisa. A defesa do litoral português e as presidenciais estão nos nossos corações. Tal como os Mirós. E, por fim, quando Passos Coelho come­ça a pensar em ganhar as próximas legislativas, e começa a preparar estraté­gias para 2015, soubemos que o último e fortíssimo drama do Partido Socialista é a censura de Assis a Seguro por não ter um cabeça de lista (ele, Assis) para as europeias. Seguro queria Jorge Sam­paio, que não estava nem aí, para cabe­ça de lista.
Este António José Seguro é um pequerru­cho adorável. EXPRESSO Revista 22-02-2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Recuperação económica sem recuperação social






 







Alguém me explica por que razão, se as políticas governamentais são do domínio de um verdadeiro golpe de Estado, o PS deixou a rua ao PCP e ao Que Se Lixe a Troika? Fazer manifestações passou a ser atestado de "irresponsabilidade" ? 
Só se for cá.

Recuperação económica sem recuperação social
 

Quem leia o que escrevo des­de o início da actual crise sabe que, mais que uma vez, chamei a atenção para o fac­to de a linguagem subjacen­te ao discurso do Governo ser ao mesmo tempo uma linguagem do poder, mas tam­bém ser um discurso com poder. Aquilo que se pode considerar serem as "presun­ções de fundo" (o que alguns sociólogos chamam background assumptions) do actual discurso dominante vai muito além dos governantes actuais e daqueles que com eles se identificam ideológica e politica­mente. Se fossem apenas circunscritas aos seus locutores e agentes principais, perma­neceriam muito restritas em termos de in­fluência, o que não é o caso. Bem pelo con­trário, a sua influência estende-se muito além, quer em forma de "narrativa", quer na sua capacidade de comunicação com ati­tudes de outra natureza, como seja a inve­ja socializada, a "explicação" populista, o egoísmo social, a anomia e a impotência individual e colectiva. •

A falência do PS como alternativa

Estas "presunções de fundo" são por isso transversais e não se acantonam apenas à direita do espectro político, mas atra­vessam a esquerda e para a esquerda, como o caso do PS ilustra muito bem. Uma das razões para a pouca ineficácia da "oposição" de Seguro radica na aceitação do mesmo discurso do poder nas suas ca­racterísticas essenciais, explicações, cau­salidade, vocabulário, etc.

Por exemplo, o PS limita-se na reivindi­cação a um discurso essencialmente distri­butivo, ao mesmo tempo que aceita uma austeridade mitigada mas da mesma na­tureza e com os mesmos alvos sociais do Governo. O Governo quer 30 ou 40% de cortes, o PS responde com 10%, mas acei­ta a mesma relação de causa e efeito que explica os cortes, ou seja o seu discurso es­pelha o do Governo. O mesmo se passa com a incorporação no discurso socialista do mesmo tipo de agenda e temas do dis­curso governamental, que assim se toma "nacional", logo dotado de uma racionali­dade acima dos partidos. A armadilha do "consenso", que no fundo se reduz à neces­sidade de desvalorizar qualquer alternati­va eleitoral, visto que "seja qual for o resul­tado a política é a mesma", destina-se a en­redar o PS na política governamental, sem a alterar significativamente. O modo como os apelos ao "consenso" incomodam o ac­tual PS, ficam escondidos atrás das negati­vas muito vocais, mas não iludem que a política "natural" de Seguro seria aceitá-los em pleno e não apenas disfarçadamente. •

Falar de outras coisas
 
Se o PS passasse do discurso distributivo, que é espelhar o discurso do Governo, para falar de desigualdade e partir do "escânda­lo" da desigualdade e do seu agravamento para formular políticas, estaria num terre­no muito diferente e de farto alternativo. Te­ria uma voz própria e não um eco. O pro­blema é que o PS de Seguro no fundo acha que partir daí não é "responsável", não é aceitável para um "partido do arco gover­nativo", e aceita a chantagem que lhe é fei­ta com medo de ser confundido com o PCP e o BE. Acaba por estar nos mesmos salões do Ministério das Finanças e da Assembleia da República, a trocar galhardetes.

E fica entalado. Quando o PS fala de distribuição "mais equitativa", recebe de imediato o argumento de que só se pode distribuir o que se produz e a ênfase do discurso vai para a produção, a economia empresarial, as empresas e o seu "suces­so", que é central no discurso do Gover­no. Os socialistas serão lembrados de um longo historial de argumentos contra o socialismo, useiro e vezeiro em distribuir (mal) uma riqueza inexistente e deixar para os outros a "bancarrota".

É por isso que o discurso da "recupera­ção económica" apanha sempre o PS no incómodo de ter que dizer bem e mal ao mesmo tempo, ou seja, ser confuso e ine­ficaz. Pelo contrário, o PS tem dificuldade de incorporar o discurso económico no discurso da "recuperação social", cuja na­tureza é muito diversa e aponta de facto para políticas alternativas que podiam mo­bilizar eleitorado e começar a dissolver o poder da "narrativa" governamental.

E torna-se inconsequente, porque bra­da contra a "gravidade" das políticas do Governo e depois fica-se pelas conferên­cias de imprensa. Aliás, alguém me expli­ca por que razão, se as políticas governa­mentais são do domínio de um verdadei­ro golpe de Estado, o PS deixou a rua ao PCP e ao Que Se Lixe a Troika? Fazer ma­nifestações passou a ser atestado de "ir­responsabilidade" ? Só se for cá, porque no resto da Europa nenhum partido "de Go­verno" abandona o direito democrático de se manifestar. •

Pensar a partir de outras coisas
 

De facto, o combate da exclusão, da per­petuação institucionalizada da desigual­dade e da desigualdade social, associado à vital necessidade de mecanismos de mo­bilidade social, em que o estado tem um papel fundamental, são as bases de uma politica alternativa em que quem governa mantém uma empatia essencial com o des­tino dos portugueses, mantendo um sen­tido de pertença e de comunidade. Exacta­mente o contrário do que tem acontecido, em que um discurso punitivo do "viver acima das suas posses" legitima uma es­poliação brutal de recursos dos do "meio", dos de "baixo". Mais do que isso - e disso o PS não fala e permite -, o afunilamento e a destruição dos canais que permitiam uma mais justa distribuição dos rendimen­tos, por exemplo, como o pagamento do trabalho. É que se esquece que quando se paga um salário não se está a fazer um acto de caridade que se pode encolher a seu belprazer, mas a retribuir trabalho e esse tra­balho tem valor social e económico.

Estas políticas alternativas não são nem as do PCP, nem as da extrema-esquerda, como a enorme deslocação à direita do espectro político pode levar a crer e al­guns ignorantes papagueiam como acu­sação. São políticas na tradição social-democrata e é talvez por isso que muitos sociais-democratas e alguns democratas cristãos têm sido mais eficazes a comba­ter - a palavra é mesmo essa - o progra­ma de desigualdade social assente numa hierarquia de poder, dinheiro e esta­blishment, do que os socialistas.

O que não se pode admitir é que o dis­curso da "retoma", da "recuperação eco­nómica", seja sempre apresentado como tendo como condição não haver qualquer "recuperação social". É por isso que o Go­verno, ao mesmo tempo que mantém e justifica manter milhões de portugueses, numa perspectiva de depressão social pro­longada para décadas, pode considerar que tem alguma coisa para festejar. •

Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré provérbio popular

SÁBADO 20 FEVEREIRO 2014

A Grande Beleza


Cidade eterna

A Grande Beleza, Itália, Drama, De Paolo Sorrentino Com Toni Servillo Nota 83%

"O velho é melhor do que o novo" afir­ma Jep Gambardefll durante uma conversa com a sua edi­tora. Estão a falar de risoto, de como o que foi feito ontem é melhor do que o que é cozi­nhado hoje, mas é uma frase que atravessa este belo, ele­gante e melancólico filme de Paolo Sorrentino.
A fotografia de Luca Bigazzi capta todo o esplendor de Ro­ma, dos velhos edifícios toca­dos pela primeira luz da ma­nhã às ruas iluminadas pelas artificiais luzes nocturnas, acompanhando as inúmeras caminhadas de Jep, o nosso protagonista em crise existen­cial, o escritor que criou um magnífico (ou superficial, de­pendendo em quem se acredi­ta) primeiro livro e que depois se perdeu nas aparências das classes altas e das festas onde todos cantam e dançam até o sol nascer e todas as rugas se tornarem óbvias.
Celebra os 65 anos na cena inicial e depressa nos diz que, com aquela idade, a única cer­teza é que já não quer fazer o que não lhe apetece. E o pro­blema é que já não lhe apetece o que faz e quando olha para o lado apenas lhe resta, usando também as suas próprias pala­vras, "enfrentar o desespero".
Se a descrição do filme pa­rece deprimente é porque "A Grande Beleza" não oferece soluções fáceis. Interpretado na perfeição por Toni Servillo, Jep é quase um Holden Caulfield (o protagonista de "À Espera no Centeio", de J. D. Sahhger) envelhecido e in­filtrado na sociedade que ata­ca com acidez, onde todos os seus participantes - incluin­do o próprio - são falsos e farsas: os padres que levam freiras a almoçar e pedem champanhe Cristal; os artis­tas com as frases feitas e uma pretensão que esconde ape­nas a falta de talento; todas as pessoas que criam a sua pró­pria narrativa para conseguir lidar com o vazio.
Mas o truque de Sorrenti­no, o que torna esta "A Gran­de Beleza" suportável e, logo, admirável, é - tal como na vida - a convicção de que, se prestarmos atenção, se dei­xarmos que o silêncio nos in­vada até conseguirmos ouvir o nosso próprio coração, ain­da é possível encontrar mo­mentos de sublime beleza.
tentações, 20-02-2014




O colapso de um tu­rista perante a beleza de Roma (com uma espécie de overdose estética) é o primeiro sintoma da febre que vem a se­guir em "A Grande Beleza". O novo - o melhor? - filme de Paolo Sorrentino é muitas coi­sas. Uma delas ? É um dos no­meados para Melhor Filme Es­trangeiro nos Óscares de 2014 -e pode muito bem ganhar esta corrida. Porquê?
É um regresso

Depois de um desvio na estrada (em 2011 com "Este é o Meu Lu­gar", sobre uma ex-estrela do rock que deixa Dublin para regressar a Nova Iorque, à procura do ho­mem que humilhou o seu pai na Segunda Guerra Mundial-inter­pretada por um gadelhudo Sean Penn, sempre talentoso mas nem sempre capaz de levar um filme as costas), Sorrentino regressa ao ni­nho. O ninho deste realizador (que também filmou "As Consequências do Amor",em 20O4, e "Il Divo-A Vida Espectacular de Giu­lio Ardreotti", em 2008) é Roma. A Roma de Federico Fellini - o que de resto faz com que a crítica tenha escrito repetidas vezes que quem gostou de "La Dolce Vita" tem de ver "A Grande Beleza".

... a uma Roma eléctrica...
"A Grande Beleza" parece um filme, mas é uma carta de amor - um amor alimentado a botox, álcool, nudez e mergu­lhos na piscina à meia-noite. Com Sorrentino, não é Roma que faz amor com a câmara, é a câmara que faz amor com Ro­ma. O olhar arquitectónico de Sorrentino é também um olhar apaixonado - e é por isso que este filme será provavelmente o mais bonito do ano. Plastica­mente falando - a crítica garante -é irrepreensfveL
Da cena em que um turista pa­rece ter um ataque cardíaco de­pois de olhar a cidade, o realizador salta para a festa do 65º ani­versário do seu protagonista. Nela, dezenas de pessoas com idade para serem avós fazem aquilo a que a crítica tem chama­do de "praticar o hedonismo" melhor do que os seus filhos.

... com o seu actor-fetiche

Se Sorrentino paga a festa, Toni Servillo serve o ban­quete. O actor (que trabalhou em todos os filmes do realiza­dor com excepção de "L'Amico di Famiglia" e "Este é o Meu Lugar") é, segundo Peter Bradshaw, do "Guardian", "um vampiro elegante", um actor capaz de representar como nenhum outro o arrojo do realizador.
Em "A Grande Beleza", Toni Servillo é um homem mais co­nhecido por conhecer as pes­soas do que por ser jornalista ou sequer por ter escrito um li­vro com bastante sucesso quan­do tinha 20 anos. Vive um casa­mento feliz com a decadência de Roma até ao dia em que um homem lhe conta que a sua mulher (o primeiro amor de Jep) acaba de morrer. tentações, 20-02-2014

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