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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

SARA PREFERE CORRER

Sara definiu uma meta que espera que a leve até à vida adulta

TEXTO ALEXANDRE COSTA

“SARA PREFERE CORRER” Sara é uma jovem de 20 anos, emocionalmente retraída e absolutamente compenetrada nos seus treinos
Filme canadiano sobre uma rapariga de 20 anos que centra toda a sua vida no objetivo de se tornar numa atleta profissional.

Sara Prefere Correr” é um filme independente canadiano que nos remete para o complicado processo de transição para a vida adulta, através da história de uma rapariga que define como objetivo de vida vencer no mundo do atletismo.

Sara é uma jovem de 20 anos, emocionalmente retraída e absolutamente compenetrada nos seus treinos.

A mãe diz-lhe não ter capacidades financeiras para que ela continue a treinar, mas Sara arranja forma de viabilizar o projeto de se mudar da sua cidade no Quebec para Montreal, a fim de obter a formação adequada para se tornar numa atleta profissional.

Para tal combina partilhar casa com Antoine, um rapaz que conhece do restaurante onde ambos trabalhavam em part-time e que também pretendia estudar em Montreal.

O plano era arranjarem novos trabalhos temporários por lá, que lhe permitissem subsistir. Mas durante a viajem, Antoine propõe-lhe que se casem para terem acesso a uma bolsa para casais estudantes e não terem de trabalhar.

Sara concorda e concretiza com o casamento com o rapaz com quem passa a partilhar casa.

Um objetivo rígido

Antoine é bastante mais atraente e descontraído. Sozinhos numa cidade que lhes é estranha, ele irá gradualmente procurar estabelecer uma relação intima com ela e transformar o casamento de fachada, numa ligação real, mas apesar de ambos se darem bastante bem, ela não se mostra disponível. Nem para ele nem para uma das suas colegas, que também a parece querer conquistar.

Durante uma entrevista para um jornal académico, um colega questiona-a sobre a sua posição em relação às aspirações independentistas do Quebec. Se gostaria de participar nas Olimpíadas? Se sentiria orgulho ao conquistar medalhas pelo Canadá? Responde-lhe que sim, que gostaria de vencer. Mas acrescenta que nunca pensou nisso nesses termos, que apenas pretende superar-se a si própria e obter melhores tempos. Em relação ao resto, parece nem saber o que responder, por lhe surgirem como questões completamente estranhas, desprovidas de sentido

Fechada em relação aos outros e em relação aos seus próprios sentimentos, Sara procura compensar essa falta de ligações, agarrando-se a um objetivo muito concreto, a motivação em torno do qual orienta toda a sua vida. Uma rigidez que a deixará absolutamente vulnerável e à deriva quando um fator que não controla irá colocar em causa a sua carreira no atletismo.



Título “Sara Prefere Correr”
Realização Chloé Robichaud
Atores Sophie Desmarais, Jean-Sébastien Courchesne, Genevieve Boivin-Roussy, Hélène Florent, Micheline Lanctôt, Eve Duranceau
Duração 97 min.
Pontuação dos críticos do Expresso:
Francisco Ferreira–duas estrelas
Vasco Baptista Marques–três estrelas

Jornal Expresso Quinta, 30 de outubro de 2014

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O adeus de um lutador social

URUGUAI

O adeus de um lutador social


FIM DE MANDATO O Presidente cessante, José Mujica, que não podia recandidatar-te. FOTO ANDRES STAPFF/REUTERS
Reformas sociais e diminuição da pobreza são dois triunfos da sua gestão. José ‘Pepe’ Mujica deixa a presidência do Uruguai, mas ficará na memória como o único chefe de Estado que andava de carocha, vivia no campo e doava 90 por cento do seu salário aos desfavorecidos

TEXTO LUCIANA LEIDERFARB

As minhas mãos não são de Presidente, estão meio deformadas”, disse uma vez José Mujica, o ‘homem comum’ que está no fim do seu mandato como Presidente da República Oriental do Uruguai. Impedido por lei de se recandidatar, é talvez um dos pouquíssimos casos no mundo em que alguém chegado ao cargo máximo de poder no seu país abandona o lugar sem que isso represente qualquer mudança de vida.

Antes e depois de ter sido eleito, em 2009, por 53 por cento dos eleitores uruguaios, Mujica vivia na mesma ‘chacra’ – quinta ou pequena casa de campo – nos arredores de Montevideu, conduzia o mesmo Volkswagen carocha azul com décadas de estrada e vestia-se com aquele estilo descontraído, quase ostensivamente humilde, que o afastou da gravata ao longo de todo o mandato. Aos 79 anos, afirmou também o desejo de continuar na política, ele, que já foi deputado e ministro, e que era senador quando a presidência lhe caiu nas mãos. Desde domingo passado, dia da primeira volta das eleições presidenciais no Uruguai, tudo aponta para que volte a desempenhar essa função.

Um “homem comum”... excecional

José Mujica pode ter sido muitas coisas, mas não é certamente um ‘homem comum’. Tal epíteto surge apenas para qualificar a figura não convencional de um político para quem os simbolismos do poder se encontram irremediavelmente invertidos. Deixando o seu país e o mundo de boca aberta, declinou o convite para habitar o palácio presidencial, preferindo ficar na modesta casa de campo que partilha com Lucía Topolansky, sua mulher há 40 anos, também senadora, com quem se casou em 2005. Fez igualmente a opção de não auferir o salário por inteiro, doando 90 por cento dos 10 mil euros que recebia a instituições de caridade e a um fundo destinado a financiar projectos futuros. Como o centro de formação agrícola que pretende erigir no pátio da sua casa, agora que os afazeres presidenciais terminaram.

VOTO José Mujica colocando o seu voto nas urnas, no passado domingo, dia em que os uruguaios escolheram um Presidente, o respetivo vice e senadores. FOTO EPA
Filho de um pequeno agricultor de ascendência basca e de uma filha de imigrantes italianos pobres da Ligúria, José Alberto Mujica Cordano nasceu a 20 de maio de 1935 em Montevideu. Cedo conheceu o quotidiano de uma vida de necessidades, com o pai a perder o seu negócio e a morrer pouco depois, em 1940. Os anos 60 encontram-no a integrar o recém-fundado Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, organização marxista de guerrilha urbana que operou sobretudo nos tempos turbulentos de meados de 1960 e se estendeu pelos anos 70, mesmo após 1973, aquando do golpe de estado de Juan Maria Bordaberry (em 1976 seria substituído pelas Forças Armadas, no que foi o período mais sangrento da ditadura uruguaia).
Nas décadas de 60 e 70, José Mujica foi baleado com seis tiros e preso quatro vezes. Ao todo, passou 13 anos em cativeiro, dois dos quais confinado ao fundo ínfimo de um velho bebedouro para cavalos

Ao longo destes anos, José Mujica foi baleado com seis tiros ao resistir à autoridade num bar em Montevideu, e preso quatro vezes. Ao todo, passou 13 anos em cativeiro, dois dos quais confinado ao fundo ínfimo de um velho bebedouro para cavalos. O próprio Mujica confessou que, na altura, o seu estado mental se deteriorou ao ponto de sofrer alucinações auditivas e paranóia. “Não tenho ressentimentos dessa época, não sou capaz de odiar”, diz hoje. Libertado em 1985, com a restauração da democracia, juntou-se ao Movimento de Participação Popular (MPP). Em 1994 foi eleito deputado e cinco anos mais tarde senador.

Quando venceu as eleições de 2005, Tabaré Vázquez (da Frente Ampla, também candidato nas presidenciais que agora estão a decorrer, onde obteve 46 por cento dos votos e cuja segunda volta está marcada para 30 de novembro) convidou-o para ministro de Agricultura e Pescas, mas mudanças no gabinete ditaram que regressasse ao posto de senador em 2008. Ali se encontrava quando a mesma coligação o elegeu para candidato às presidenciais do ano seguinte, que venceu largamente, tornando-se no primeiro chefe de estado ex-guerrilheiro do seu país.

Um “radical de baixa intensidade”

Face ao passado de esquerda, muitos pensaram que Mujica iria aliar-se aos restantes presidentes latino-americanos com a mesma orientação. Mas Pepe, como é afectuosamente chamado pelos uruguaios, distanciou-se de líderes como Hugo Chávez ou Evo Morales, aproximando-se dos governos centro-esquerdistas do brasileiro Lula e da chilena Michelle Bachelet. E, mesmo sendo ateu assumido, reconheceu a importância da Igreja Católica: “Desconhecer o papel político da Igreja na América Latina é um erro crasso.” Por tudo isto, o anterior diretor do diário espanhol “El País” cunhou o seu estilo de “radicalismo de baixa intensidade”.

O seu tom governativo foi desde logo moderado e pragmático. À BBC, Mujica confessou que mesmo defendendo que uma parte dos recursos seja distribuída aos mais necessitados, “há sempre um limite, não se deve paralisar o capitalismo”. Desde 2005, ano em que a Frente Ampla chegou ao poder, o Uruguai registou um crescimento económico na ordem dos 5,8 por cento anuais. E os níveis de pobreza, grande preocupação de Mujica, desceram de 40 para 13 por cento.

O Presidente que legalizou a marijuana

Durante a sua gestão, Mujica bateu-se por reformas sociais polémicas num país como o Uruguai, um pacato recanto de 3,4 milhões de habitantes, 1 por cento de analfabetismo e 6 por cento de desemprego. A despenalização do aborto é uma delas e transformou o Uruguai no primeiro país da América Latina a dar esse passo. Outra é a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas a legalização da marijuana, em 2013, terá sido das suas apostas mais arrojadas. Após um debate de 13 horas, o Senado acabou por aprovar uma lei que permite ao Estado regular a produção, distribuição e venda de marijuana no país. “O narcotráfico é um modelo de negócio que gera violência, por isso propus a participação do Estado no comércio da marijuana. É uma forma de garantir a paz”, disse o então Presidente. Esta é a única lei surgida no seu mandato que pode vir a ser derrogada se a Frente Ampla perder as eleições.

“A sua força não está na forma como gere o governo, mas na sua compreensão das pessoas”, referiu Sergio Israel no livro “Pepe Mujica. O presidente – Uma investigação não autorizada”. Para Juan Carlos Doyenart, analista político, o maior triunfo de Mujica é ter feito do Uruguai “um país mais crível, mais confiável para se investir”. “Se atendermos ao significado de um líder, dificilmente poderíamos dizer que ele o é. Mas Mujica tornou-se numa referência ética da política no mundo e essa é uma posição que soube aproveitar”, disse o politólogo uruguaio Adolfo Garcé. Este mês, por iniciativa de Mujica, chegaram ao Uruguai 42 refugiados sírios e nos próximos meses são esperados seis presos de Guantánamo, que serão acolhidos na qualidade de refugiados.

“Se represento a maioria devo viver como a maioria - e é assim que vive a maioria dos uruguaios. Não é um sacrifício, faço-o porque quero, porque é assim que sou feliz”, disse José Mujica

A quem viu no seu estilo humilde e despojado uma forma de ganhar eleições, Mujica respondeu: “Se represento a maioria devo viver como a maioria e é assim que vive a maioria dos uruguaios. Não é um sacrifício, faço-o porque quero, porque é assim que sou feliz.” Proposto pelo Drug Peace Institute para o Nobel da Paz deste ano, que não ganhou, o ‘anti-presidente’ volta ao lugar de onde nunca saiu, aos seus dois tractores – dos escassos sinais de riqueza que lhe apontam -, ao campo, à terra. Não sai de cena nem aceita balanços: “Não faço balanços, isso é coisa de merceeiro, e eu sou um lutador social.”

Jornal Expresso Terça, 28 de outubro de 2014

domingo, 26 de outubro de 2014

UMA QUESTÃO DE PORMENOR

CRÓNICA URBANA

VÁRIOS LOCAIS NO PORTO





UMA QUESTÃO DE PORMENOR 

Por muito que o Porto possa ser um casario em cascata a estender-se, colorido, até ao Douro, ele também é feito de pormenores. Como por exemplo os batentes das portas.
Texto de Patrícia Carvalho e Ilustração de Nuno Sousa
Se fecho os olhos e imagino o Porto, é o casario a cair sobre o Douro, visto do lado de Gaia, que vejo primeiro. Pode seguir-se, nesse meu observar de olhos fechados, a Avenida dos Aliados, com os Paços do Concelho ao topo, ou a Torre dos Clérigos, escudada, de um dos lados, pelas casas coloridas da cidade velha. Por isso, a cidade sempre me pareceu mais bem descrita no seu todo do que em pormenores, mas será assim? Se calhar, não; se calhar, o Porto pode ser só uma varanda de ferro, um azulejo azul e branco ou um antigo batente de porta.

É verdade que dificilmente abarcamos a cidade no seu todo, ou melhor, é difícil abarcarmos até mesmo no seu todo aquela rua ou a praça onde passamos todos os dias. Geralmente, olhamos em frente ou para baixo, fazemos sempre o mesmo caminho, esquecemo-nos de olhar em volta e para cima, lá para cima, onde há telhados em cascata, claraboias e painéis coloridos de azulejo. Às vezes, basta atravessar a rua para nos surpreendermos com aquela fachada sob a qual passamos nos últimos anos mas que nunca observáramos à distância.

Pormenores. Os pormenores são importantes e, por muito que o Porto possa ser um casario em cascata a estender-se, colorido, até ao Douro, ele também é feito de pormenores.

A Maria João, que trabalhou comigo noutro jornal e mora no coração do Porto, tem andado, há já algum tempo, a mostrar-me esses pormenores.

Ela criou uma página no Facebook, a que chamou Batem Leve, Levemente (verso “roubado” à Balada da Neve, de Augusto Gil) e onde vai colocando imagens dos batentes com que se cruza nas ruas da cidade. Aparentemente, é uma paixão partilhada, já que vários amigos da Maria João ou simples seguidores da página lhe têm enviado fotografias, que ela vai publicando, destes pequenos utensílios instalados em portas um pouco por todo opaís. Ela diz que desde a primeira fotografia, na Rua de Cedofeita, nunca mais conseguiu deixar de prestar atenção às portas por onde passava, em busca de um batente original. E, este pormenor sem importância, este pequeno pedaço de uma porta grande, de um edifício ainda maior, numa rua qualquer, de uma cidade, passou a ser a estrela do dia.

O Porto passou a ser, também, uma cidade onde se pode bater a uma porta pegando na argola que pende de uma cabeça feminina, ou na mão, mais ou menos adornada, que segura uma esfera. O Porto é a cidade que tem como batentes um passarinho, um leão ou uma grinalda. Também existem algumas figuras estilizadas, que nos convidam a adivinhar o que escondem, cães e simples argolas sem pretensões. E, depois, há aquela relíquia, na Rua do Bonfim, em que, sob um batente simples, alguém colocou uma placa com a indicação: “1.º Andar 2 Pancadas; 2.º Andar 3 Pancadas.”

A verdade é que o Porto também cabe todo nestes batentes — estão lá as casas apalaçadas da burguesia, com os seus batentes mais trabalhados, as habitações degradadas, com os batentes enferrujados em portas com tinta descascada, e estão ali os graffiti desordenados, que rodeiam uma velha mão dourada, onde alguém colou um autocolante, que se junta, assim, a outros autocolantes de propaganda política e de publicidade espalhados pela porta.

Por causa da Maria João também eu comecei olhar com mais atenção as portas de cada prédio, em busca de um batente que nunca tinha visto, em busca dessa cidade pequenina que corre, invisível, sob os nossos olhos. E, olha, Maria João, não sei se já reparaste, mas ali a chegar ao Largo de Alberto Pimentel há um belo leão que não sei se alguém ainda usa para chamar quem está dentro de portas. Mas que está mesmo a pedir para ser fotografado.
 
Público 2 | Domingo 26 Outubro 2014 | 31


O Porto passou a ser, também, uma cidade onde se pode bater a uma porta pegando na argola que pende de uma cabeça feminina, ou na mão que segura uma esfera

S. JOÃO DA FOZ DO DOURO


S. JOÃO DA FOZ DO DOURO

Foi terra de coutada dos monges beneditinos de Santo Tirso

 

Uma das igrejas do Porto onde existe da mais bela talha dourada do século XVIII é a paroquial de S. João da Foz do Douro.

O retábulo da capela-mor, desenhado pelo artista Miguel Francisco da Silva, e executado, entre 1734 e 1735, pelos famo­sos entalhadores da época Manuel da Cos­ta de Andrade e Manuel da Rocha, é do melhor que no género existe entre nós.

Vale a pena visitar este templo, que o respetivo pároco, o cónego Dr. Rui Osó­rio, meu companheiro (enquanto jorna­lista), com zelo e saber transformou num verdadeiro escrínio de arte sacra.

Mas do que eu queria falar aos leitores desta crónica era de um curioso contrato que foi feito entre o frei André Marques de Almeida, da Ordem dos Hospitalários de Leça do Balio; e os monges benediti­nos do Mosteiro de Santo Tirso. Estes fo­ram os construtores da igreja no local onde havia "uns palácios" que aquele lhes doara.

Mas, vamos começar pelo princípio. Em tempos muito remotos, provavelmente a partir do século XIII, deve ter existido, junto à foz do rio Douro uma pequena er­mida para apoio espiritual dos pescadores que ali viviam.

O local exato onde ficaria o pequeno templo ninguém o saberá dizer. Mas sabe-se que essa ermida, provavelmente a primeira igreja matriz da Foz, foi subs­tituída, no século XVI, por uma enorme igreja, a primeira que em Portugal se fez no estilo renascentista. Mandou-a fazer D. Miguel da Silva, bispo de Viseu mas também abade comendatário do mostei­ro beneditino de Santo Tirso. Foi aliás nes­ta qualidade que mandou fazer a igreja, uma vez que a Foz do Douro era couto dos monges de Santo Tirso.

No século XVII, a pirataria trazia em so­bressalto a população da Foz. Mas não só. Os barcos que saíam a barra ou nela pro­curavam entrar eram muitas vezes assal­tados pelos piratas, que roubavam as mer­cadorias e reduziam a escravos os tripu­lantes. A cidade pediu providências à re­gente D. Catarina que governava o reino na menoridade de D. Sebastião.

Vieram altos funcionários ao Porto, para se inteirarem do modo como devia ser protegida a costa. Optou-se pela constru­ção de uma fortaleza, e o local escolhido foi exatamente aquele onde se erguia a imponente igreja renascentista. A enor­me cúpula, em gomos, que se vê do exte­rior da fortaleza de S. João da Foz é o que ficou da capela-mor.

A ATUAL CAPELA-MOR DA IGREJA, ONDE ESTÁ O TÚMULO DE FREI ANDRÉ, É CONSTRUÇÃO DO SÉCULO XVIII 

Claro que os monges beneditinos come­çaram logo a pensar na construção de um novo templo. E o sítio ideal era aquele onde está a igreja paroquial. Havia ali umas casas e terrenos que pertenciam ao balio do Mosteiro de Leça, D. Frei Luís Ál­vares de Távora, o mesmo que com um le­gado de 4000 cruzados ajudou os jesuítas a construírem a Igreja de S. Lourenço, nas Aldas. Se chegou a haver negociações, elas não correram bem. Mas a estrelinha esta­va do lado dos monges.

D. Frei Luís Álvares de Távora tinha uma espécie de secretário. Era o licenciado frei André Marques de Almeida. Fora sempre muito afeiçoado ao amo, digamos assim, que soube recompensar toda aquela dedi­cação. No dia 13 de julho de 1640, D. Frei Luís Álvares de Távora doou a frei André Marques de Almeida as casas que possuía na Foz. E com este já os beneditinos con­seguiram chegar a acordo. Cerca de um mês depois de ter tomado posse dos bens que recebera por doação, frei André cedeu aos monges beneditinos de Santo Tirso as casas que haviam pertencido ao balio, para no seu lugar se construir uma nova igreja paroquial. É a que lá está dedicada a S. João Baptista.

Mas frei André não doou as casas assim sem mais nem menos. Ele próprio se en­carregou de construir a capela-mor, para o que aproveitou a pedra e outros mate­riais resultantes das demolições. Ao cons­truir a capela-mor, frei André colocou al­gumas condições.

Assim, entre o corpo da igreja e a cape­la-mor, seria construído um arco de can­taria que ele "tudo faria à sua custa". Im­punha uma condição: "ressalvar a capela-mor para seu túmulo". E mais: que o seu brasão figurasse no cimo do tal arco de cantaria. E foi ainda mais longe: nomeou a Santa Casa da Misericórdia do Porto como sua mandatária, para que zelasse pelo cumprimento de todas as determi­nações.

Ora, aconteceu que tendo os monges que fazer obras na capela-mor, decidiram que não fazia sentido colocar no arco as ar­mas de frei André e que ficaria ali melhor o símbolo dos beneditinos. Só que a Santa Casa andava atenta, reclamou e as armas de frei André lá voltaram para o arco.

A Igreja de S. João da Foz foi construída entre 1640 e 1649. Este ano é o da morte do doador das casas e terrenos que antes haviam pertencido a frei Luís Álvares de Távora.


A HISTÓRIA DO CASTELO DE S. JOÃO DA FOZ
 
O Castelo de S. João da Foz é uma das mais antigas fortificações que se construíram ao longo da costa para proteção do comércio marítimo. As obras começaram em 1560. Para que o projeto se realizasse, a cidade do Porto assumiu o compromisso de custear uma parte significativa das despesas. Mas nem tudo correu pelo melhor. Em 1601, por exem­plo, quarenta anos depois do começo da em­preitada, o Senado (Câmara) e o Governo não se entendiam. Os mercadores é que continua­vam a ver as suas fazendas em perigo com a pi­rataria ali perto. Para pagamento dos obras, foi lançado um imposto sobre a venda do solo: três réis em cada rasa.  
JORNAL DE NOTÍCIAS 26 OUT, 2014

sábado, 25 de outubro de 2014

AS BEBÉS MUTILADAS DA GUINÉ


EXCISÃO

AS BEBÉS MUTILADAS DA GUINÉ

GRUPO Clube das Meninas Excisadas e não Excisadas em Bafatá

Os fanados tradicionais foram proibidos. Para não terem filhas “sujas” e “prostitutas”, os pais mandam excisar as meninas assim que nascem 


Reportagem de Luís Pedro Nunes (texto) e Alfredo Cunha (fotos), Na Guiné-Bissau*

Ainda há três anos, no Leste da Guiné-Bissau, era costume organizarem-se fanados (excisões) com 600 meninas para serem excisadas com a mesma lâmina, em cerimónias que duravam semanas e que serviam para as iniciar na vida adulta. Hoje, isso não acontece abertamente em nenhum lado do país. Os fanados tradicionais, organizados em grandes festas nas tabancas, desapareceram. Agora só clandestinamente. Mas as meninas continuam a ser excisadas. Só que os pais optam por levá-las à fanateca, a mulher que sempre fez o procedimento, assim que nascem. Sim, leu bem. O que 
se passou?

Peço que não desista de tentar perceber, porque sim, trata-se de uma realidade arrepiante. Há assuntos que ninguém quer saber em detalhe. Não houve aqui ação deliberada em ir buscar algo chocante; nem há “bons” nem “maus”. Aliás, como podem os pais de meninas recém-nascidas sujeitá-las à mutilação clitoriana? Não se está a falar de uma ou duas “situações”, mas de uma prática banal que se está expandir, de “milhares de casos” essencialmente no Leste da Guiné-Bissau. É que se para “nós” a excisão em bebés é um atentado aos Direitos Humanos, aqueles pais estão longe de ser monstros fanáticos religiosos que estão conscientemente a fazer mal às suas meninas. Pelo contrário.

O mais perverso é que a excisão em bebés está a acontecer exatamente para contornar a proibição dos fanados tradicionais — em que além de excisadas, havia todo um ritual que durava dias ou semanas e servia para as ensinar a viver em sociedade, a cozinhar, a tratar dos velhos, a fazer os trabalhos domésticos, cuidar do marido...

as famílias não mandam excisar as meninas por maldade, por crueldade ou porque desejam que as suas filhas sofram. fazem-no porque lhes querem bem

Mas excisar bebés recém-nascidos? Quem já assistiu a este “novo” procedimento e essencialmente às suas consequências em termos de saúde diz que é algo de terrível pois as próprias fanatecas (excisoras) não estão familiarizadas com corpos tão pequenos e frágeis. O objetivo é com a “faca”, uma lâmina curva de cinco centímetros, proceder à remoção do clítoris. Mas estamos a falar de um recém-nascido. Nas meninas de seis e sete anos, já havia questões de saúde que perduravam para a vida adulta e que tinham que ver com o tipo de corte efetuado e que por vezes corria muito mal. É que, além da mutilação do clítoris não era incomum outro tipo de problema de saúde. Desde incontinências de vários tipos, a afeções no próprio sistema reprodutivo e no colo do útero. Para não falar da ausência de prazer (e na existência de dor) no ato sexual. E do risco do VIH. Mas quando passamos a falar num procedimento destes num bebé, então entra-se no campo do desconhecido e do horror. Não se sabe sequer quais as consequências na vida adulta, dado que a prática ainda é demasiado recente. Não há ideia do que irá acontecer, em termos físicos, àqueles bebés mutilados, quando atingirem a 
idade adulta.

É preciso que se perceba que aquelas famílias não o fazem por maldade, crueldade ou porque desejem que as filhas sofram. Mas porque lhes querem bem. Querem que elas venham a casar, que não sejam “sujas” — coisa que temem que aconteça se não forem fanadas. E são fanadas porque é tradição e o imã diz que têm que ser porque está no Alcorão. Tal como os meninos são circuncidados. Mas se antes eram fanadas aos sete anos, como a tradição mandava, porque é que agora são “cortadas” logo aos sete dias? A origem remonta a uma lei de 2012 que proíbe precisamente a mutilação genital feminina na Guiné-Bissau.


NORMALIZAÇÃO a ideia é integrar as não excisadas (foto das meninas sem véu), para evitar que sejam discriminadas, em relação às excisadas

Não parece correto estar a culpar a lei que visa precisamente defender as meninas da excisão. O problema é que devia existir um Estado a protegê-las e que promovesse a Educação ao “desmontar” essa “tradição” alegadamente baseada no Alcorão. Quando para mais foi resultado de um longo processo para ser aprovada na Assembleia Nacional.

uma lei contra a tradição

Foi precisa muita pressão para os políticos guineenses cederem e em 2011 aceitarem criminalizar a mutilação genital feminina. Foi uma batalha de 20 anos para os convencer. Como qualquer político, receavam ir contra a vontade dos eleitores. O fanado é uma prática enraizada numa grande parte da população, nomeadamente no Leste do país, onde a islamização é mais forte, numa mistura que conjuga uma leitura deturpada das alegadas palavras do profeta com práticas animistas, pois subsiste praticamente em países africanos muçulmanos. Sabia-se à partida que não iria ser uma lei que poria fim a uma tradição que, ainda por cima, os imãs mantêm ter base nos textos sagrados do Alcorão. Mas fez-se.

os pais temem que, se as filhas não forem fanadas, não poderão cozinhar para o marido, cuidar dos velhos e, até, matar os filhos durante o parto. nenhum homem quererá casar-se com elas

Contudo, teve uma perversão que não foi possível antecipar quando se legislou de forma razoavelmente dura e que posteriormente até envolveu um ou outro caso de prisão que no fim acabou em nada: as famílias começaram a desistir de todo o cerimonial que envolvia o fanado das meninas aos cinco, seis, sete, oito anos e que durava semanas, dado que as ONG começaram a chamar a polícia às tabancas e a exigir que a lei fosse cumprida. E a autoridade lá começou a aparecer e a impor a lei. Mesmo que contrariada.

Assim, para evitar qualquer tipo de problema, os pais começaram a tratar do assunto logo no momento do nascimento, aos sete dias, quando vão furar as orelhas das bebés. Mas, se condenamos a prática — como não fazê-lo? —, talvez devamos ter algum cuidado em condenar os pais.

Os pais querem tão bem às suas meninas que temem que se não forem fanadas irão contra a palavra do profeta. Mesmo que haja quem conteste com veemência esta leitura do Alcorão. Temem que se as suas meninas não forem fanadas se tornem “sujas”, não poderão cozinhar para um marido, cuidar dos velhos e poderão até matar os filhos durante o parto, resultando que nenhum homem quererá casar com elas. É esta a crença que está fortemente enraizada. E um pai está disposto a ir para a cadeia pelo bem sua filha. A sua mulher é fanada. A sua mãe foi fanada. Como é que pode permitir que a sua filha não o seja? Que será dela se não for fanada?

RELIGIÃO aula de Corão na rua no Sul da Guiné. Uma interpretação “africana” das palavras do Profeta

César Gomes, um guineense de uma ONG que trabalha com Direitos Humanos no Leste do país, junto das tabancas na zona mais “pesada” da Guiné, tem consciência de que não se trata só de uma questão de mudar as mentalidades de um momento para o outro. Enquanto a questão religiosa suportar e apoiar a excisão, enquanto os imãs defenderem a prática, será muito difícil alterar os comportamentos em zonas fortemente islamizadas como é o Leste da Guiné-Bissau. “O fanado em bebés é uma coisa horrível... mesmo horrível... Contudo, os pais acham que se não fizerem, a filha se vai tornar uma prostituta”, diz. “Fazer o corte em bebés é uma prática muito recente”, explica. “Isto só aconteceu desde que há lei e que se conseguiu mandar uma ou duas pessoas para a prisão e levar um caso a julgamento.” Foi o que aconteceu com um guineense que vive em Lisboa e trouxe para a Guiné as duas filhas para serem fanadas. Sabia da existência da lei, mas pensou que nada lhe aconteceria. Organizou a festa e fez o maior alarido. Acabou preso e acusado. Só que o povo não aceitou e se não fosse libertado ameaçava destruir tudo. Houve alguns telefonemas de Bissau e antes que o processo pudesse seguir já o homem estava novamente em Portugal. Mas a verdade é que este e outros casos abafaram a publicitação dos fanados e começou a ter-se medo de fazer as cerimónias públicas. Agora, se existem, são clandestinas.

Imãs já começam a ouvir

Atualmente, César já consegue ir às tabancas do interior e conversar com as pessoas. Há algum tempo ir falar em acabar com o fanado era algo impossível. “Os imãs mais jovens já aceitam sentar-se connosco. Tentamos explicar que a mulher bonita e saudável não é excisada. Mas aqui é um trabalho perigoso.” É que mudar o fanado é mudar todo o sistema tribal que se acentuou nos últimos anos. A Guiné é uma sociedade de muitas etnias e no Leste reinam os fulas e os mandingas com grande influência de Conacri, sempre descrita como uma sociedade mais violenta e radical. “Há muito matrimónio forçado com meninas de 12 e 13 anos, os homens têm sempre vários casamentos e são sempre as mulheres que trabalham. No caso dos fulas, eles não fazem nada e ficam sentados o dia todo. Como é que se chega e altera esta mentalidade? Isto não é só a questão do fanado.”

Como se sabe que esta prática existe em bebés? Um dia os pais terão de ir a um posto médico... A solução é prendê-los? E eles deixarem de levar as filhas bebés para a vacina?

Mas como é que se sabe que esta prática existe em bebés? Não é só uma questão de se ouvir dizer. Acaba por saber-se. Um dia, a bebé terá de ir a um posto médico e descobre-se. Solução: prender os pais nessa altura? Mas então corre-se o risco de os pais deixarem de levar as filhas bebés para serem vacinadas, não?

Mas vai desistir? “Não, isso não. Antes as comunidades viam-nos como inimigos e agora já não. E já não há fanados como antes, com grandes festas de centenas de meninas a ser excisadas com a mesma faca. Isso mudou... Sabe... com boa conversa faz-se o macaco descer da árvore”, 
diz convicto.

No centro do país, uma outra ONG faz um tipo de trabalho diferente para mudar mentalidades e ali o tema já é discutido mais abertamente. Pelo menos é o que parece. Durante as férias de verão, é a própria escola que cede as instalações para o Clube das Meninas Excisadas e Não Excisadas. O objetivo é quebrar barreiras entre as miúdas. Sim, existem barreiras entre os dois “grupos”. Mas desta forma: há que mostrar às meninas que foram fanadas que as não excisadas não são “sujas”e não podem ser ostracizadas e mesmo insultadas (“blufos”). E por outro lado, tentar logo de início incutir em todas que a tradição pode passar sem a “faca”. Desta forma tentam integrar as meninas não excisadas numa “normalidade”. É que além de todos os preconceitos vindos da questão religiosa e sexual, há que ter em conta que as meninas não fanadas não fizeram a “passagem” para o mundo dos adultos que a cerimónia de semanas as deve preparar. E para isso há estas atividades em que reproduzem o que é ensinado no fanado.


FESTA os fanados clandestinos são difíceis de descobrir. na foto de cima, um fanado disfarçado de “casamento”

Há um professor de religião (Alcorão), há uma filha de uma fanateca para falar do ritual (sexualidade), uma professora de croché, uma professora de danças tradicionais. Tudo isto já tinha antes sido tentado numa prática nacional que não pegara a que se tinha chamado “fanado alternativo” e que visava convencer nas tabancas que era possível fazer a cerimónia com as meninas sem as “cortar”. Mas se os imãs dizem que está no Alcorão...

Nas 110 meninas que frequentam o Clube das Meninas Excisadas e Não Excisadas só 23 é que não “foram cortadas”. E essencialmente por questões religiosas. Ou seja, não são muçulmanas. Pauleta Sambo, a grande dinamizadora do Clube, consegue colocar todas as classes a cantar a música que compôs. “Tradição é bonita, maneira de guardar não é difícil, vamos abandonar a excisão e dar voz à nossa razão. Vamos gritar com força porque deixamos a faca.”

Uma das meninas mais ativas a cantar é Fatumata Iafa, de 13 anos, excisada. E diz-nos, perentória: “Devem deixar de fanar porque não é bom para a saúde”. É órfã. Diz que não irá fanar as filhas quando as tiver. Converso com uma das menina (vou falar o quê?). Adulei, de 8 anos. Pequenita, encabulada, está com vergonha. Claro que não quer. “Vai doer.”

“aquilo (a excisão) era uma coisinha de nada”, diz Fátima, que deixou de ser fanateca porque lhe arranjaram outro sustento. agora sensibiliza contra o fanado, “porque faz mal à saúde”

Esta ONG apoiada por uma congénere alemã é localmente gerida por três guineenses. Têm que ter coragem para estar à frente de uma associação destas. Mas se abordar o tema da mutilação genital feminina aí tendem a deixar de conseguir falar do assunto — ou por estar na presença de um homem ou por ser um ângulo que lhes é menos confortável ou natural discutir. É impossível não ver a excisão enquanto forma de retirar o desejo sexual à mulher por parte do homem? Pergunto. Baixam os olhos e respondem: “O problema aqui é mais a tradição e a religião...”

“temos sangue bom”

Fátima Sanha foi fanateca, neta de fanateca, e deixou o ofício porque lhe arranjaram outro sustento e porque no Sul da Guiné-Bissau, garante, a prática está erradicada. Aprendeu a ir de tabanca em tabanca desde menina, e embora agora faça campanha de sensibilizações para acabar com a excisão, lá vai dizendo que aquilo também “não era nada de especial” e as meninas “saltavam e corriam ao fim de dois dias” e que era “uma coisinha de nada” e mostra a pontinha do indicador para explicar o que tirava. Mas pronto. Agora sensibiliza contra o fanado, “porque faz mal à saúde”.
VIDAS filha de fanateca e, ex-fanateca. O problema é sobreviver à proibição da prática
Sabe que lá para cima, os fulas até cortam e cosem as meninas (a chamada infibulação, embora não se saiba de nenhum caso recente) mas ela não, pois é da raça biafada. “Temos sangue bom.” Diz que coava a água de palha fervida, o que cicatrizava rapidamente as meninas. E que o que interessava eram as semanas de acampamento onde as meninas ficavam a aprender as coisas de mulher, como tratar dos velhos. Foi fanateca até há quatro anos. Um regime de microcrédito permitiu-lhe criar um negócio. E a ONG contrata-a para ir pregar que o fanado não é bom. É este o rendimento que permite ter “entregado a faca” numa cerimónia oficial. O Sul, garante, está livre de fanados para meninas. Aqui já não há. Não há mesmo? — desafio-a. Ela olha-me nos olhos e ri-se. É uma mulher gozona. Não há, não. Tudo isto é feito com tradutor. É sempre difícil perceber as nuances. Se está divertida de me ver falar do assunto, se me está a dar a volta.

A ideia que é apenas uma “coisinha de nada” está presente em muita gente. Como se a excisão e a circuncisão se equivalessem. Os meninos para serem homens ainda têm de ser circuncidados e mostrar o que valem no mato. A cerimónia do fanado serve para mostrar que é valente. Lá no Leste, César nas tabancas vai dizendo: “Se o homem fosse fanado como as mulheres, cortavam-lhe metade do seu órgão. Mas o macaco, com esta conversa, não desce da árvore.”


(ESTA REPORTAGEM INSERE-SE NO PROJETO “TRÊS DÉCADAS DE ESPERANÇA”, QUE VISA COMEMORAR OS 30 ANOS DO SERVIÇO HUMANITÁRIO EM PORTUGAL E NO MUNDO DA ASSISTÊNCIA MÉDICA INTERNACIONAL E PODE SER SEGUIDO NO FACEBOOK)



BOLAMA JÁ NÃO RESISTE AO MATO


VERTÍGIO o monumento que mussolini mandou erguer em bolama

A única estrutura intacta de toda a ilha de Bolama é um maciço de betão armado mandado erigir por Mussolini, em 1938, em memória dos aviadores italianos que ali morreram na tentativa de travessia aérea Roma-Rio de Janeiro. Está intacta porque é praticamente indestrutível. Já em relação a tudo o que rodeia este monumento de estética fascista, é preciso algum esforço mental ou alguém a explicar para perceber a grandeza e monumentalidade do que havia ali antes. A ilha de Bolama era a coqueluche do país, onde os soldados coloniais iam descansar. Foi mesmo a capital da Guiné-Bissau, até 1941. Há histórias que já só existem na memória dos homens que viveram esse tempo: ali estava a estátua do presidente americano Ulisses S. Grant. Ali era o Hotel Turismo. Esta é praia de Ofir, onde a nata da colónia ia a banhos. É preciso alguma imaginação para ver ali uma monumental escadaria dupla em arco, com um escudo nacional ao centro, a descer para a praia.

Quando se chega à ilha de Bolama o que mais espanta já não é propriamente a destruição que se terá acentuado desde o golpe de Estado de 1998, quando o Estado começou a desaparecer. É como se o país tivesse entrado em coma e a ilha se tivesse desprendido da existência. Quando se entra na cidade, parece estar desabitada. Agora, depois de os telhados terem caído e as paredes cedido, o mato invade o que resta das ruas. Mas as pessoas continuam lá. Só que o capim é tão alto que nem se veem os buracos na lama que substituiu o empedrado. A casa mais bem tratada é a da AMI. Que continua lá. Mesmo que agora, pela primeira vez desde 1987, não tenha no país médicos expatriados. Um dos motivos nem tem que ver com a Guiné em si, mas com a dificuldade em conseguir médicos portugueses para este tipo de missão prolongada, dado que cá não facilitam o voluntariado e a carreira profissional acaba prejudicada.

É difícil imaginar o que teria sido da Guiné se as ONG também tivessem decidido partir em algum momento dos últimos conturbados anos. Ao longo das décadas, a AMI foi adaptando a sua intervenção a diferentes situações e passou do Boé para Bolama por ser um dos locais mais abandonados e de difícil acesso. Esteve nas guerras e nos golpes e agora vai-se adaptando às diretivas do novo Governo. E que passa por um grande projeto com a UNICEF com a formação de Agentes de Saúde Comunitários (neste caso para toda uma região de Quinara) que irão às casas na deteção de determinadas doenças (infeções respiratórias, diarreia, paludismo, VIH, complicações neonatais e problemas nutricionais junto das crianças). Ou um projeto em parceria com uma associação local que visa a criação de aldeias com uso eficaz de latrinas, o que implica uma metodologia de “choque” para consciencializar as pessoas da necessidade da sua utilização e que passa pela demonstração “criativa” e incute de tal modo nojo nas pessoas ao ver moscas que estiveram em fezes humanas na sua comida que as impele a usar a latrina comunitária.

E Bolama. Sempre Bolama. Não há como deixar a ilha. São projetos de anos, uns que começam outros que terminam, Nunca se pode contabilizar o que não acontece. O surto de cólera que é evitado. Tabancas que recebem a visita de um agente de saúde como Mustafá, na sua moto, que está preparado para detetar as doenças típicas da região. Nos três dias em que lá estivemos, antecipou-se a entrega mensal de medicamentos aos doentes crónicos para que pudéssemos assistir ao processo. Foi assim que junto ao posto médico Wata, Bolama Sul, demos com a mãe de uma menina que parecia morta. Ou que sofria de um qualquer distúrbio psicomotor, pois estava completamente sem reação. A mãe tinha ouvido na véspera que a AMI ia passar ali. Nada se podia fazer a não ser meter mãe e filha na caixa do jipe. Era ‘apenas’ paludismo. Mas que seria fatal se não tratado. O hospital ficava a quase uma hora de viagem em picada má. No dia seguinte, já a menina estava de pé. Sorte o jipe ter passado. Viver pode ser um acaso feliz.




“Mutilação genital feminina é obra do diabo”

Uma conferência islâmica que juntou quase duas dezenas de sábios e especialistas de saúde, realizada sob os auspícios do Conselho Superior para os Assuntos Islâmicos, deu origem ao Livro de Ouro para a Guiné-Bissau e a uma fatwa (decreto religioso) do xeque Yusuf Al-Qaradawi do Qatar, “a maior autoridade contemporânea no mundo islâmico, nomeadamente no espaço árabe e em África”. O decreto considera que “a mutilação genital feminina é obra do diabo”. É com esta fatwa e com o livrinho que se espera convencer os imãs mais irredutíveis. Mas, mesmo assim, alguns rejeitam-no. Não será este livrinho verde que fará a revolução. Eis alguns dos argumentos nele contidos:

Está a excisão no Alcorão?

Não há nada no Alcorão que ordene a excisão da mulher. Pelo contrário. a Sura 95, Versículo 4, diz: “Criámos o ser humano na mais perfeita proporção”

Está na Suna, nos Hadiths?

Todas as passagens segundo os quais o profeta terá dito essas palavras foram classificadas por eruditos islâmicos reconhecidos na História como Hadiths “frágeis” que não podem ser utilizados como prova.

Outros argumentos falsos

“O clítoris e a vulva não crescem até aos joelhos. As mulheres não excisadas não cheiram mal e não atraem insetos. O profeta excisou as suas filhas. As mulheres não excisadas excitam-se com a fricção das roupas. O clítoris fica muito grande, duro e pontiagudo e magoa o homem durante a relação sexual e os bebés durante o parto”.


Os fanados dos rapazes à beira da estrada
 

“Um fanado! Parem o carro!” Na beira da estrada, algures de repente e a interromper o sono encostado ao vidro do carro na viagem, um grupo de meninos perfilados e enrolados em trapos sujos, com ar de pintainhos arrogantes: sim, é um fanado de rapazes, a cerimónia iniciática que os faz entrar na vida adulta. Aparentemente estavam na estrada precisamente à espera que alguém parasse e desse uma contribuição para o arroz. Ali estão eles, já enrijecidos pelo mato. Os tutores perguntam se querem que eles vistam os fatos de guerreiros. Mas vai demorar muito tempo. Estupidamente nesse dia não temos esse tempo. Em cada zona da Guiné-Bissau há costumes diferentes. Mas nos longos dias que vão passar no mato vão suportar algumas provações. E mostrar coragem. Quando voltarem para os pais, já não serão os meninos que partiram. Aliás, quando posam já mostram altivez. Nunca fraquejam quando o Alfredo avança sobre eles com a máquina e olham bem para a objetiva. Os homens ali ao lado estão orgulhosos daquele bando de bichinhos que estão quase a sair da casca. Dias antes, a centenas de quilómetros, numa picada, tínhamos tido um problema numa roda do jipe, à entrada de uma tabanca. O Alfredo Cunha fez-se ao caminho de máquina ao peito. Dez minutos depois, fui dar com ele no meio de uma festa de mulheres aos gritos lá nos fundos da aldeia. Um homem tinha-me dito que aquilo era “um casamento”. Onde estava o noivo? Ora, os fanados são cerimónias só de mulheres. Já no regresso, e longe, foi o nosso motorista, o senhor Alfa, que nos garantiu que sim, era um fanado. Nunca saberemos.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2191, 25 de outubro de 2014

JESSICAGATE — O FINAL CUT







EM MANUTENÇÃO


Por Luís Pedro Nunes



“JESSICAGATE” — O FINAL CUT

As mulheres são más ou a “rede” é uma máquina de criar casos?

CAMPISO ROCHA

Foi o destino que decidiu que o único desfile que veria desta Moda Lisboa seria o da Cia Marítima. Pelo que acompanhei com a devida proximidade todo o “Jessicagate” — o terrível caso em que Jessica Athayde foi acusada de estar a “dar nos hidratos”. Não sabia bem quem era, admito. Mas quando pôs o seu IMC na passarela, a imensa claque pró-Athayde ali presente irrompeu em hurras! O que fez com que ficasse mais autoconfiante e lançasse uma beijoca para os fotógrafos. Cutie. Via-se que não era modelo, exatamente pela atitude descontraída de “eu sou convidada, posso quebrar as regras”. Correu bem. Deu entrevistas, foi fotografada para o social. Mas há um novo ciclo comunicacional que, por vezes, ganha dimensões de minitsunamis cheios de lixo e matéria orgânica e que são imparáveis. Ainda há empresas ou pessoas que garantem conter “crises” ou gerir fluxos de informação nas redes sociais. É mentira. Dou-vos pois o caso da putativa barriguinha da Jessica enquanto paradigma dessa impossibilidade.

Como é que se chega ao momento em que a “La Athayde”, com o seu corpaço lustroso, se tornou o símbolo da defesa das gordas da nação? Há que ter em conta o modo como hoje o star system nacional comunica, e que passa muito por uma profissionalização do digital, seja com uma grande dedicação a um blogue e a um instagram/facebook, que depois as vai posicionar enquanto “marca”, ou através de empresas que contratam para tal e que lhes formatam os conteúdos. Ora, para isso, têm que existir/acontecer/aparecer no espaço público, ou produzir opinião. Há hoje uma série de figuras na TV generalista que também (perdoem-me o termo) alavancaram a sua imagem através do digital. E só tendo uma equipa a trabalhar com elas nesse ramo o conseguem.

Os “ataques da rede à gordura da Jessica” que motivaram a reação não terão passado de uma resposta a um mero comentário num blogue desconhecido (para a maioria), que logo a seguir se desdizia e foi apagado. E sim, Jessica respondeu como se tivesse sido vítima de uma vasta campanha de mulheres maldosas, tendo feito um encosto ao recente e famoso discurso da Ema Watson. Não estou a ser moralista nem a atacar a atriz. É showbiz. Faz parte. E é a sua opinião. Marcou uma posição.

Horas depois havia milhares de pessoas indignadas, a um nível de ódio febril, o chamado “queimem as e-bruxas” contra as autoras das críticas (quem são? onde?). O grau de alucinação era tanto maior quanto já ninguém, sequer, percebia o que tinha acontecido à atriz, nem o que se estava a discutir. Este é o momento do fogo em arbusto seco. Quando um tema “pega” na rede e se torna incontrolável. E acontece que, evidentemente, no meio há gozões, agit-prop, indignados. Que aconteceu à Jessica? Quem é a Jessica?

É aqui que os media tradicionais que já vivem muito à mama das redes (ver este caso) puxam o tema até para as primeiras páginas no dia seguinte. E com um destaque inesperado. “Rede ataca Jessica...” E se bem que alguns artigos até queiram, de alguma forma, contextualizar o assunto com a questão das “mulheres reais”, dos “distúrbios alimentares”, ou porque é que as “mulheres são más umas para as outras”, escapa-lhes o facto de a “rede” em si não atacar ninguém (aparentemente foi um pequeno post). Mas, neste momento, dá-se ainda mais “gás” a uma polémica que nunca o foi. Nunca existiu qualquer polémica. Zero.

E eis que “a modelo Sara Sampaio ataca Jessica”, leio em artigo de papel, escrito de forma deliberadamente maldosa. Porque está explicado cuidadosamente no Facebook da bela e esguia Sara que concorda com todas as palavras de Jessica, mas que alguns dos comentários que leu contra as modelos são ofensivos: chamam-lhes sacos de ossos ou alegam que uma mulher porque é magra não é mulher. Mas lá está de novo: Sara ataca Jessica. É imparável.

Nas redes, todos os dias há episódios destes. Nascem e morrem. O perigoso parece ser quando vêm cá para fora e a banca de jornais serve de combustão. Desgraçado do que for apanhado.

Há quem queira lançar um viral com a Jessica a beber uma bebida adelgaçante. Já é tarde. Quando este texto sair, já mais uns dois ou três casos terríveis/corajosos destes terão acontecido. Eu próprio pensei lançar um disco de tunas académicas. 


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2191, 25 de outubro de 2014

POR FAVOR NÃO DÊ MILHO AOS POMBOS

PLUMA CAPRICHOSA
Por Clara Ferreira Alves

POR FAVOR NÃO DÊ MILHO AOS POMBOS

Não se espera que os chefes de clã das dinastias desapareçam de um dia para o outro. Mas temos, definitivamente, de deixar de dar milho aos pombos
 
O feudalismo é um sistema de senhorio e vassalagem, em que os vassalos têm os deveres e os senhores têm os direitos. Grosso modo. Pensava que o sistema tinha sido abolido e na era do capitalismo democrático liberal éramos todos mais ou menos constitucionalmente iguais. Sendo uns mais iguais do que outros. 


Há uns anos largos, li numa dessas revistas cor-de-rosa que desfolhamos com as mãos suadas do medo do dentista ou do tédio do cabeleireiro, uma entrevista a uma dama da “nossa melhor sociedade”. Era uma mulher antiga, restaurada por cirurgia plástica e alta manutenção, que se fazia retratar ao lado de jarrões chineses e cómodas francesas do século XVIII. O penteado, uma pompadour admirável na arquitetura e na escassez pilosa que deixava entrever espaços vazios e lugares onde nada crescia, ostentava uma cor ruça. A dama era um dos descendentes de uma das dinastias industriais e financeiras que há anos entretêm os portugueses com as suas histórias de riqueza. Benfeitores da humanidade. Na verdade, nós, os beneficiários, não fizemos mais do que dar milho aos pombos. Conhecem os cartazes: POR FAVOR NÃO DÊ MILHO AOS POMBOS. Os pombos, sobrealimentados, tombam por excesso. Não conseguem parar de comer. Não conhecem a saciedade.

A dama falava sobre a dinastia, a excelência da dita, o nome sonante da dita (um nome estrangeiro), a bonança de ter fortuna no tempo das tempestades, que por aqui equivaliam à revolução. Os horrores do exílio enquanto o país era tomado de assalto por barbudos.

Lá para o fim, pergunta-se o que pensa ela, refinadíssima, do mais refinado português da época, do comissário José Durão Barroso. Pelo tom da pergunta, um homem daqueles devia ter nascido parisiense. Elevava a lusitana plebe. Era tão bom que parecia estrangeiro. A dama tinha a melhor opinião, não do Barroso que não conhecia bem ou dos feitos europeus do mesmo. Não, o que a dama conhecia e lembrava era a família dele, uma família decente, remediada, virtuosa e bem comportada, que tinha trabalhado para a dinastia e, parece, trabalhado bem. Uma das pessoas da família tinha sido professora numa das escolas que a família construíra para os operários. Boa gente. Isto é dito com condescendência feudal. O que a dama queria dizer era que a família pequena era propriedade da família grande, como o resto do país. E que a família grande era boa para os seus trabalhadores e os educava. Ou seja, a dama, como todos os pombos sobrealimentados, inchados de milho grátis, não conseguia falar sobre os outros e apenas sobre ela mesma, mas como ela mesma não tinha existência a não ser como herdeira e adereço de jarrões chineses, falava da dinastia. Tudo era um pretexto para realçar os dotes da dita.

Histórias destas, repletas de inanidades, abundam por aí. Perdoai-lhes senhor porque não sabem o que dizem. Embora saibam bem o que fazem, comprar serviços e vassalagens, porque o temor reverencial dos portugueses pelo poder e o dinheiro é atávico, ancestral, fundado na miséria, no isolamento geográfico e no capital genético com pouco cruzamento e pouco cosmopolitismo, apesar do império. A Europa não nos salvou do cobarde compromisso com a iniquidade que faz fraca a forte gente. E de maus reis ainda não estamos fartos. Havia a dama que queria ir “brincar aos pobrezinhos” numa barraquinha da Comporta, experimentando a delícia do chinelo de praia, e há outro senhor de grande porte que queria “pôr o Moedas a funcionar”. Saiu publicado nos jornais. Pôr o Moedas a funcionar. O Moedas era o político feito vassalo de ocasião, que os senhores com a mansão a arder esperavam lesto com a mangueira e o extintor. Por favor ao feudalismo falido. E junte-se a história da distribuição de dinheiros ilícitos do fabuloso negócio dos submarinos pelos chefes de clã da dinastia. Um milhão para o clã A, um milhão para o B, etc., e houve uns milhões que ficaram de fora porque um malandreco de um político teria resolvido dar-lhes uso (alegadamente, tudo alegadamente). O chefe da dinastia queixava-se de “estar rodeado de aldrabões”. Sem dúvida, sem dúvida.

Claro que esta gente tem um problema, participam da moleza genética de muitos casamentos entre clãs e antigas consanguinidades. O genoma não se renova por efeito da democracia. E, como aqueles cães com excesso de pedigree, sofrem de maleitas que nunca atacam os rafeiros. Uma delas é a estupidez do privilégio. A crença na divindade de dinastias plebeias fundadas por comerciantes e vendedores, os tetravós. Acham que o mundo não mudou porque eles não mudaram. Como os Bourbon, não esqueceram nada e não aprenderam nada. Talleyrand topou-os. Não se espera que esta gente desapareça de um dia para o outro. Mas temos, definitivamente, de deixar de dar milho aos pombos.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2191, 25 de outubro de 2014

A herança de Barroso






Miguel Sousa Tavares

A herança de Barroso



ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Diz o povo que o que torto nasce nunca se endireita. Terá sido esse o caso do desempenho de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia: começou muito mal e nunca, verdadeiramente, se recompôs. Desde logo, pela forma como abandonou o governo do país, logo após ter perdido umas eleições (europeias, justamente), e de ter prometido que iria governar daí em diante com mais atenção aos problemas dos portugueses. Afinal, convidado para Bruxelas, nem teve tempo de se despedir: deixou-nos entregues a Santana Lopes e lá se foi para ser um dos grandes do mundo. Diferente fez o seu sucessor de agora, Jean-Claude Juncker, o qual, convidado antes de Barroso, recusou porque, apesar de o Luxemburgo ser um minúsculo país, ele, que era também seu primeiro-ministro, entendeu que devia fidelidade aos eleitores nacionais. Barroso chegou onde chegou porque Juncker tem uma noção diferente dos deveres dos políticos. Depois, na negociação da sua equipa de comissários, teve aquele triste episódio com o comissário italiano, cujo currículo político era absolutamente inaceitável: querendo dar uma de líder, Barroso começou por se mostrar intransigente e fazer finca-pé na sua nomeação, mas, assim que percebeu que o caso era mais sério e que se arriscava a ver toda a equipa chumbada por causa de um nome, esqueceu logo a solidariedade para com o italiano. E a seguir, ele que como primeiro-ministro de Portugal fora, juntamente com Aznar, o mais seguidista dos dirigentes ocidentais para com Bush-filho e a sua guerra aventureira no Iraque, fundada em pretextos falsos e documentos falsificados, tratou logo de emendar o discurso e falar grosso aos americanos enquanto a sua nomeação não estava assegurada. A forma como abandonou o governo português e se apresentou em Bruxelas revelou bem até que ponto estava disponível para oscilar conforme o vento.

Não foi por acaso que Berlim e Paris procuravam um presidente da Comissão que viesse de um país pequeno: procuravam um pau-mandado. É evidente que Barroso percebeu isso, mas viria, infelizmente para a Europa, a aceitar o papel que lhe destinaram. Cheguei a pensar que o pouco tempo que passou a estudar nos Estados Unidos lhe tivesse ensinado que a única forma de os pequenos serem respeitados pelos grandes é terem razões e não terem medo de as defender. Os americanos usam muitas vezes os lambe-botas, mas desprezam-nos: eis uma coisa que os israelitas aprenderam há muito. Mas Barroso não estava lá para isso: estava lá para falar em três línguas (coisa que sempre impressiona muito os franceses, os ingleses ou os espanhóis), para se multiplicar em discursos de entoação sentida e conteúdo vazio, enfim, para ser o mestre de cerimónias da Europa.
É um grande conforto saber que Durão Barroso já não manda ali

Seria injusto dizer que ele foi o principal culpado do estado a que a Europa chegou, após dez anos da sua presidência. A última década europeia revelou uma geração de políticos sem qualquer veleidade de estadistas e sem qualquer pensamento europeu, sendo decisivos para uma descrença geral instalada nos povos em relação à política e à própria ideia de democracia. E se, no meio da mediocridade e das curtas vistas que o rodeavam, não seria de esperar que Barroso se revelasse um inesperado Dellors (porque Peter sempre é Peter), era, paradoxalmente essa circunstância que podia permitir a um presidente europeu oriundo de um pequeno e quase irrelevante país impor-se aos egoísmos nacionais e à crescente incompetência e impotência de Bruxelas. A Europa a quinze que Barroso recebeu foi-se desconstruindo aos poucos, com os sucessivos alargamentos a Leste impostos pela Alemanha e pela Inglaterra — e que hoje temos razões para desconfiar que visavam exactamente diluir a Europa numa amálgama ingovernável. E, enquanto a Inglaterra aproveitou para se colocar de fora de tudo o que eram verdadeiras políticas europeias, a Alemanha aproveitou para preencher o vazio de liderança, tornando o euro e a política económica europeia uma extensão dos seus diktats e dos seus interesses próprios. Sempre com o sorriso trilingue de Barroso a fingir que mandava alguma coisa nessa coisa que insistia em chamar União Europeia.

Há dez anos, era fácil explicar a uma criança o que era o ideal europeu e porque valia a pena defendê-lo. Havia uma ideia comum, da Dinamarca à Grécia, da Irlanda a Portugal, de desenvolvimento económico, justiça social, avanço cientifico, energético e tecnológico, direitos políticos e sociais como em nenhum outro lugar ou tempo, e aquilo que então se discutia e planeava era uma política externa e de defesa comum a toda a Europa. Hoje, aquilo que Barroso reclama como a sua “boa folha de serviços” tem apenas para apresentar algumas das escassas e insuficientes medidas tomadas para enfrentar a crise iniciada nos Estados Unidos em 2008 — e que Bruxelas não antecipou nem precaveu. Em contrapartida, o “glamour do pessimismo” — como lhe chamou, numa daquelas tiradas de efeito para pacóvios, de que tanto gosta — tem um extenso rol de desastres a apresentar. Desde logo, a estagnação e quase deflação e os números vergonhosos do desemprego na Europa — e, em particular, do desemprego jovem, cujo tema não lhe mereceu uma só referência no seu paupérrimo discurso de “good-bye, auf Wiedersehen” perante o parlamento Europeu. A total inexistência de políticas comuns face à emigração, ao mundo árabe, ao Médio Oriente e a África — tuteladas por aquela patética lady inglesa que, obviamente, não foi para lá por outra razão que não a de evitar que a Europa tenha uma política externa comum. Não tem política externa comum não tem política de defesa comum, não tem política energética comum, não tem política económica comum, não tem política financeira comum. De comum, só tem a ditadura orçamental do Schäuble, imposta pela Alemanha aos países do sul, com a nunca desfalecida colaboração de Durão Barroso. A Europa que ele entrega aos cidadãos europeus, dez anos depois, é uma caricatura do que já foi e um cemitério das esperanças que já tivemos todos.

Não espanta ninguém o sopro de alívio com que a partida de Barroso foi sentida em todo o lado e a aragem de renovada — e, porventura, prematura — esperança que o início do mandato de Juncker suscitou. Até mesmo o nosso Passos Coelho, sempre igualmente obediente e disponível para escutar as ordens dos fortes, já ousa, escudado nas palavras de Juncker e nas posições da França e da Itália, anunciar antecipadamente a desobediência ao défice acordado e desafiar o proteccionismo francês à sua indústria nuclear para defender o direito de Portugal exportar energia para a Europa. Não sei se os tempos irão mudar ou não e desconfio que a Europa, tal como a conhecemos no passado, não tenha salvação. Mas é um grande conforto saber que Durão Barroso já não manda ali e que se vai antes entregar ao rentável negócio das palestras dadas pelos outrora grandes do mundo.

PS: Insisto neste ponto: de um país sem política externa digna desse nome, não é de esperar que o seu MNE tenha grande importância ou protagonismo. Mas também não é admissível que a única coisa e esperar dele é que, por favor, não abra a boca e que se finja morto permanentemente. Machete não é, sequer, um ‘case study’: o ‘case study’ é tentar perceber o que o mantém em funções.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2191, 25 de outubro de 2014

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