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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Amanhã mandam elas!


ABRAM ALAS PARA ELAS

As mulheres estão a preparar o assalto ao poder. Não tarda nada vão ocupar a maioria dos lugares de liderança. Não querem ser iguais aos homens, querem ser melhores. O futuro escreve-se no feminino

Ilustração Helder Oliveira E INFOGRAFIAS OLAVO CRUZ




Quem inventou o paraíso? Há investigadores que garantem que foram as mulheres há mais de dez mil anos. Foi uma Idade de Ouro, um período pacífico da história humana em que a igualdade de género parece ter dominado em todas as frentes. Isso explica que as divindades femininas tenham surgido antes das masculinas e tivessem emergido sociedades matriarcais (onde liderança e poder eram exercidos por mulheres) e matricêntricas (centradas nas 
mulheres).

 

O paraíso perdido pode estar de volta. As mulheres estão cada vez mais bem preparadas para o mundo em que vivemos: são em maior número, têm mais estudos e um cérebro que parece funcionar melhor do que o masculino em sociedades que estão em permanente mutação. Falta pouco, muito pouco. Não para que sejam iguais aos homens, mas para que sejam melhores do que eles.

A igualdade de sexos não é uma aquisição recente da civilização. Já existia quando éramos caçadores-recoletores, quando homens, mulheres e jovens caçavam os grandes mamíferos em grupo, em equipa, num tempo em que não eram especificamente destinadas às mulheres tarefas como a recolha de frutos e vegetais, a confeção de roupas ou mesmo cuidar das crianças. E quando as mulheres não desempenhavam as mesmas atividades aventureiras dos homens, ou seja, quando ficaram para trás, foram as mães da invenção, inventaram a linguagem, os utensílios, os materiais, a agricultura, enfim, os pilares decisivos para o desenvolvimento da cultura humana.

A igualdade foi, assim, uma vantagem evolutiva em termos de sobrevivência, teve um papel central na modelação das sociedades, permitiu a criação de uma rede social mais expandida e comunicativa entre grupos e um leque mais alargado de parceiros para acasalar, evitando a consanguinidade. Mais contactos entre pessoas e grupos trouxeram novas oportunidades para partilhar inovações e descobertas.


Não existe uma relação direta entre desenvolvimento económico e paridade porque os valores culturais em cada país têm uma influência forte no nível de igualdade ou desigualdade entre sexos

Uma boa parte desta visão da história humana é revelada num estudo feito por uma equipa de investigadores do University College London e publicado na revista “Science” do passado 15 de maio, onde se conclui que, na época dos caçadores-recoletores, homens e mulheres tinham a mesma influência no grupo a que pertenciam e a igualdade sexual era a norma prevalecente. Essa igualdade continuou nos primórdios da agricultura, mas as sementes do paraíso não iam durar para sempre. O mesmo estudo salienta que, com a agricultura, o ser humano conseguiu pela primeira vez na História acumular recursos, o que levou à emergência de um desequilíbrio entre sexos: “Os homens começaram a ter várias mulheres e podiam, assim, ter mais crianças do que elas”, explicou na altura ao jornal britânico “The Guardian” o antropólogo Mark Dyble, que liderou esta investigação. “E passou a ser mais compensador para os homens acumular recursos e formar alianças com os parentes masculinos”. Para as mulheres o paraíso transformou-se progressivamente em purgatório e, muitas vezes, num verdadeiro inferno. Hoje ainda há sociedades matriarcais mas são uma raridade, uma curiosidade antropológica.

Revolução silenciosa

Há uma revolução silenciosa em curso nas últimas décadas, no sentido da paridade dos sexos, que pode transformar tudo de forma radical. Mais tarde ou mais cedo, vai provavelmente levar as mulheres a ocuparem a maioria dos lugares de liderança em todos os sectores da sociedade, porque têm estado a preparar-se intensamente para isso e hoje detêm um nível de educação avançada e de competências superior ao dos homens. Ao mesmo tempo, a psicologia feminina tornou-se uma vantagem competitiva potencial, porque está mais adaptada ao mundo em permanente mudança gerado pela globalização.

Ao contrário do que parece, esta revolução discreta e silenciosa não se deve tanto à força dos valores do politicamente correto, mas à mesma razão de fundo que gerou a igualdade de géneros entre os povos caçadores-recoletores na pré-história: a sua vantagem para a sobrevivência e evolução da sociedade. O Relatório de Desigualdade Global de Género 2015, divulgado pelo Fórum Económico Mundial (FEM) em Genebra no passado dia 19 de novembro, analisa quatro áreas fundamentais para entendermos o que se está a passar a nível global: educação, saúde, economia e política. No acesso das mulheres à educação, 95% da disparidade de género já foi eliminada, ou seja, o acesso à educação está apenas a 5% de distância da paridade. Dos 145 países analisados, 25 atingiram a paridade e o maior progresso tem sido feito no ensino universitário, onde as mulheres constituem agora a maioria dos estudantes em 97 países. Mesmo em países muçulmanos como a Arábia Saudita, há mais mulheres do que homens no ensino secundário e no ensino superior.


O FEM chama, no entanto, a atenção para um problema na frente económica e no mercado de trabalho: “Há uma acentuada falta de correlação entre a participação de mais mulheres na educação e a sua capacidade de ganhar a vida, particularmente através de funções qualificadas ou de liderança”. O paradoxo é evidente, porque as mulheres detêm a maioria das funções qualificadas somente em 68 países e apenas em quatro são maioritárias nos cargos de liderança. Resultado: na economia, só 60% da disparidade de género foi eliminada. Por outro lado, “a desigualdade salarial persiste, com as mulheres a ganhar agora o que os homens ganhavam uma década atrás”, constata o relatório do Fórum. “Precisamos de criar um mundo onde as contribuições e ideais das mulheres sejam tão valorizados quanto os dos homens”, afirmou na apresentação do relatório Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do FEM. E Saadia Zahidi, chefe do Desafio Global para a Paridade de Género da organização, destacou que “mais mulheres do que homens estão matriculadas nas universidades em quase 100 países”. Por isso, “as empresas e governos precisam de desenvolver novas políticas para evitar esta perda contínua de talento e passar a alavancá-lo para impulsionar o crescimento e a competitividade”. No acesso à saúde, 96% da diferença entre sexos terminou, sendo a área mais próxima da paridade, que já foi alcançada em 40 países. No campo oposto está a política, onde a situação é francamente desanimadora, apesar das quotas obrigatórias impostas por lei em muitos países, incluindo Portugal: só 23% das diferenças de género desapareceram. A paridade no parlamento acontece apenas em dois países (Ruanda e Bolívia) e em funções ministeriais em quatro (Finlândia, Cabo Verde, Suécia e França). No Índice de Igualdade Global de Género do FEM, que integra educação, saúde, economia e política, os dez melhores resultados são dominados pelos países do norte e centro da Europa. Mas há três países não europeus no Top 10 e dois deles não são ricos: Ruanda (6º) e Filipinas (7º).


Não existe, por isso, uma relação direta entre desenvolvimento económico e paridade, porque os valores culturais dominantes em cada país têm uma influência muito forte no nível de igualdade ou desigualdade entre sexos. E não é só em casos óbvios como a Arábia Saudita ou os pequenos estados do Golfo Pérsico, onde o PIB per capita é elevado, que isso acontece. O próspero, inovador e tecnológico Japão está na humilhante posição 101 do ranking do Fórum, muito atrás da Nicarágua, Namíbia, África do Sul, Moçambique, Cuba, Equador, Costa Rica, Colômbia, Panamá, Botswana, Zimbabwe, Uganda, Tailândia ou Bangladesh. Os países africanos ao sul do Sara são, aliás, a grande surpresa, porque em muitos deles as barreiras culturais à liderança e ao poder das mulheres nos pilares fundamentais da sociedade são menos marcantes. O mesmo se passa em várias nações da América Latina, apesar da alegada tradição do machismo latino. O potencial africano das mulheres é, de facto, impressionante. Segundo o Banco Mundial, cerca de 30% das mulheres no mercado de trabalho global não agrícola são empresárias na chamada economia informal, mas em África este número sobe para 63%.

Portugal: um passo à frente, um passo atrás

A 39ª posição no ranking global do Fórum é ocupada por Portugal, que está à frente de 11 Estados-membros da UE. No entanto, há algumas disparidades assinaláveis quando olhamos para os rankings sectoriais: Portugal está melhor, isto é, mais perto da paridade entre sexos, na participação das mulheres no mercado de trabalho (26º), pior nos gestores e quadros femininos de topo das empresas, organizações e administração pública (45º) e muito pior na disparidade de género nos salários (106º). As mulheres já são maioritárias entre os trabalhadores das áreas técnicas, em todos os níveis de ensino e na esperança de vida, embora vivam mais tempo do que os homens com menos qualidade de vida, autonomia e capacidades.
 

Maria João Valente Rosa, demógrafa, investigadora e professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, afirma ao Expresso que “perante a evolução estatística e a legislação em vigor nos últimos anos em Portugal, a paridade não está a avançar tão depressa como seria desejável”. Na visão da demógrafa, “temos de caminhar de forma mais rápida, porque estamos ainda longe de uma sociedade com igualdade de oportunidades, apesar de alguns avanços nesse sentido”. O conhecimento “é o valor-chave da sociedade que não discrimina sexos, como demonstra o forte investimento na educação das mulheres que tem sido feito, o que significa que estas não são menos aptas do que os homens”. Aliás, o abandono escolar precoce “é muito inferior nas mulheres”. Por isso, a diferença de salários no mercado de trabalho para idênticas qualificações e funções, “que é particularmente evidente nos níveis de topo, não tem qualquer fundamento”.

O futuro poderá, então, ser mais feminino em Portugal? “Sem dúvida, se o mérito começar a prevalecer sobre os direitos adquiridos”, insiste Maria João Valente Rosa. “É preciso dar este salto, porque o mérito ainda não serve para a escolha e avaliação de quem está no mercado de trabalho, mas antes outros valores, como ficar a trabalhar além da hora prevista, uma cultura muito enraizada nas empresas”. Em suma, “valorizam-se mais os processos do que os resultados e quem sai mais cedo, mesmo que tenha resultados iguais a quem sai mais tarde, é penalizado”, o que acontece frequentemente com as mulheres, “porque têm o tempo mais espartilhado entre trabalho e família”. Por isso a investigadora considera que às quatro áreas estudadas pelo Fórum Económico Mundial na diferença entre géneros (educação, saúde, economia e política), deve acrescentar-se uma quinta, a família, porque “na partilha de responsabilidades parentais e na conciliação entre trabalho e família ainda há muito para avançar”. E estas são componentes fundamentais de todas as políticas públicas mais ambiciosas, que já inverteram a queda da taxa de natalidade em vários países do centro e norte da Europa e aproximaram-na de novo do número mágico de 2,1 filhos por mulher, que permite a substituição de gerações.

“É a economia, estúpido”

A famosa frase aplica-se que nem uma luva à tendência para a paridade de género que está a marcar cada vez mais a evolução das sociedades. Com efeito, um estudo do McKinsey Global Institute (EUA) divulgado no início de dezembro conclui que se a participação feminina na economia global fosse idêntica à masculina, o PIB per capita mundial teria um crescimento adicional de 26% nos próximos dez anos, o equivalente à soma das economias chinesa e americana de hoje (as maiores economias do mundo). O estudo descobriu também que a adoção de políticas públicas e medidas do lado das empresas e organizações em dez frentes, incluindo o tempo gasto em trabalho não pago, direitos legais, representação política e violência contra as mulheres, teria um efeito positivo em 75% das mulheres afetadas pela desigualdade de género.

Uma análise a 28 mil gestores de topo conclui que o desempenho das companhias cotadas em bolsa que têm mulheres na administração é 5% superior ao das que só têm homens

O acesso feminino ao mercado de trabalho e aos cargos de topo nas empresas, organizações e administração pública, em condições idênticas às dos homens, é uma vantagem que se está a tornar cada vez mais evidente. Um relatório da consultora financeira americana MSCI divulgado no início de dezembro revela que as empresas que têm uma presença feminina forte nos seus conselhos de administração (três ou mais mulheres) obtêm resultados 36% superiores às empresas que não têm, no retorno do capital investido. E uma análise do Crédit Suisse Research Institute a 28 mil gestores de topo de 3000 grandes empresas mundiais publicada em setembro de 2014, conclui que o desempenho das companhias cotadas em bolsa que têm mulheres na sua administração é 5% superior ao das que só têm homens. Sara Falcão Casaca, investigadora e professora do Departamento de Ciências Sociais do ISEG — Lisbon School of Economics & Management (Universidade de Lisboa), explica ao Expresso que “os argumentos a favor do equilíbrio na representação de mulheres e homens na gestão empresarial pressupõem uma aspiração societal, porque esse equilíbrio contribui para o aprofundamento da democracia, para sociedades mais inclusivas, mais respeitadoras dos direitos fundamentais, socialmente mais justas”. Uma segunda linha de argumentação centra-se nas aspirações individuais: “As mulheres têm direito à valorização do seu capital humano (saber, qualificações, experiência), ao reconhecimento do mesmo, em pé de igualdade com os homens”, como parte integrante da sua realização profissional e pessoal. E, por fim, “são cada vez mais comuns os argumentos económicos”. Hoje é possível sustentar a tese de que “a presença das mulheres em lugares de liderança da vida empresarial e económica está associada a melhores desempenhos produtivos e a um reforço da competitividade”.
 
MAIS EXIGÊNCIA

As razões para estes resultados “não são nada transcendentes, mas bem concretas: as mulheres que ocupam lugares de liderança nas empresas tendem a estar sujeitas a um processo de progressão de carreira mais exigente e seletivo que aquele que cabe aos homens em situação profissional comparável”. Depois, e não por acaso, “essas empresas tendem a seguir uma estratégia de gestão globalmente inovadora, adotando modelos produtivos diferenciadores, princípios de organização do trabalho qualificantes e humanamente adaptados, assim como estratégias de gestão de recursos humanos favoráveis a contextos meritocráticos”.

As mulheres “têm mais ferramentas para lidar com o mundo complexo de hoje”, argumenta por sua vez Amândio da Fonseca, fundador e presidente executivo do grupo Egor, um dos líderes nacionais na área dos recursos humanos, que tem no seu conselho de administração seis mulheres e três homens. “São mais complexas em tudo, a nível intelectual, emocional e biológico” e amadurecem mais cedo, “o que se reflete ao longo da sua vida e da sua carreira profissional”. Depois, adaptam-se muito melhor a qualquer função e “têm dimensões de compreensão do mundo mais abrangentes do que os homens, que são mais focados, que vão mais depressa às questões mas com menos profundidade”. Por isso estão mais preparadas para lidar com o mundo em permanente mudança. Mas há mais. “Na inteligência emocional estão em vantagem relativamente aos homens, que são mais lógicos, virados para as técnicas, os números, os factos, as coisas concretas, menos subtis e afetivos”. As mulheres reagem “de forma mais intuitiva, sensível aos sentimentos e comportamentos das pessoas, madura”, o que pode ser mais favorável na gestão das empresas e organizações. “Mas a componente afetiva é também um ponto fraco, quando a mulher põe a sua vida (filhos, casamento, família) à frente da carreira”. De qualquer maneira, Amândio da Fonseca constata que “há uma preponderância cada vez maior das mulheres nos quadros médios e superiores das empresas, até porque emigram menos do que os homens”. Nas áreas humanísticas, a presença feminina é maioritária e mesmo as profissões predominantemente masculinas, como a gestão, informática ou engenharia, “estão muito ameaçadas”.

Em todo o caso, um dos valores “que mais perplexidade causam é o que se regista nas maiores empresas cotadas em bolsa em Portugal, em que as mulheres representam apenas 9% dos membros dos conselhos de administração e nenhuma ocupa o lugar cimeiro”, salienta Sara Falcão Casaca. “Elas estão preparadas, qualificadas mas persiste na nossa sociedade uma das maiores barreiras à igualdade: os estereótipos de género”. Aos homens continuam a ser associados atributos como a independência, objetividade, orientação para o poder, ambição, competitividade, “características que coincidem com a representação dominante em torno de um bom gestor, de um líder eficaz”. Já às mulheres continuam a ser colados atributos como “a menor objetividade e maior emotividade, uma menor orientação para o poder e para a competitividade, uma menor ambição profissional e uma forte orientação para investir na vida familiar”. Logo, estas conceções estereotipadas alimentam o raciocínio “de que elas estão ‘naturalmente’ menos vocacionadas para as posições estratégicas e de liderança na vida económica, empresarial e das organizações em geral”. E se o número de mulheres em lugares de topo é escasso, a perceção dominante acaba por perpetuar as conceções estereotipadas “que influenciam obviamente todos os atores em jogo, desde quem recruta, nomeia, convida para os lugares até quem concorre ou compete por esses lugares”. Elvira Fortunato, pioneira mundial da eletrónica de papel e uma das mais conhecidas cientistas portuguesas, reconhece que quase metade dos investigadores nacionais são mulheres, mas contrapõe que “nas posições de topo da área científica, em particular na gestão, continuam a dominar os homens”. E mesmo na carreira académica “há muito mais professores catedráticos do que professoras em Portugal e contam-se pelos dedos as reitoras de universidades”.


Tem uma filha de 18 anos e diz que o apoio da mãe foi decisivo para a sua carreira na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, onde dirige o Instituto de Nanoestruturas, Nanomodelação e Nanofabricação (i3N). Agora, tem mais um desafio: foi nomeada em novembro para o grupo de sete peritos de topo da nova Estrutura de Aconselhamento Científico da Comissão Europeia, criada para emitir pareceres independentes sobre política científica, que tem três mulheres e quatro homens. Este equilíbrio de sexos em Bruxelas esteve longe da primeira reunião em Lisboa (em dezembro) do novo Grupo de Reflexão sobre o Futuro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a principal agência de financiamento da ciência feita em Portugal. “Das 30 pessoas que fazem parte deste grupo criado pelo Ministério da Ciência, só oito são mulheres, apesar da paridade de género existente entre os investigadores portugueses”. Num futuro não muito distante será certamente bem diferente.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2253 - 31 de Dezembro de 2015

A RAPARIGA DINAMARQUESA


DERIVA DE IDENTIDADE


O fulgor do trabalho de Eddie Redmayne é apaixonante
 

Texto Jorge Leitão Ramos 

Eddie Redmayne em “A Rapariga Dinamarquesa”
A história segue a de um personagem real, Einar Wegener/Eddie Redmayne, que nas primeiras décadas do século XX, com a cumplicidade de Gerda Gottlieb/Alicia Vikander, com quem casara em 1904, começou a assumir uma identidade feminina (sob o nome de Lili Elbe), antes de, em 1930, se submeter ao que se supõe ser a primeira cirurgia para mudança de sexo. Formaram um peculiar casal de artistas plásticos, ora apresentando-se como marido e mulher, ora como um casal de lésbicas. Lili Elbe morreria em 1931, como consequência de complicações da tentativa de transplante de um útero. Redmayne é o protagonista de “A Rapariga Dinamarquesa”, que o competente Tom Hooper realizou e que há de levar o ator até aos Óscares.

Entendamo-nos: não é a transmutação física de Redmayne o que mais impressiona neste filme, não é o efeito camaleónico o que sobressai. As fotografias promocionais dão bem a medida desse efeito, mas não de uma outra coisa, mais subtil e, essa sim, perturbante: a identidade sexual que subjaz à imagem exterior. No princípio de “A Rapariga Dinamarquesa”, Redmayne, enquanto Einar, é evidentemente um homem, há uma coincidência perfeita entre aparência e realidade. Depois, quando começa a posar para Gerda, vestido de mulher, parece um homem mascarado de mulher. E é desajeitado — mas sentimos a fascinação pela máscara e pelos tecidos, adereços, meias, sapatos, chapéus, uma macieza feminina que lhe entra nos poros. Gestos, movimentos, jeitos, olhares vão-se transformando tão profundamente que Redmayne vestido de homem cada vez mais se parece com uma mulher aprisionada num exterior masculino. Lá para o fim, todavia, quando Einar já se sujeitou à primeira operação e se transformou em Lili, quando o sofrimento do corpo já foi muito e há a sensação de não retorno, de fim à vista, de morte breve, eu vejo, eu juro que vejo génio do ator, uma identidade masculina aprisionada num corpo feminino, tragédia última de alguém a quem não se consente paz.

“A Rapariga Dinamarquesa” tem muitos outros méritos. Mas nunca vi, em cinema, os estremecimentos de género que o labor de Redmayne convoca e que tornam este filme absolutamente singular.
 


A RAPARIGA DINAMARQUESA
De Tom Hooper
Com Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts (Reino Unido/Alemanha/EUA)
Drama biográfico M/14
Jornal Expresso SEMANÁRIO#2253 - 31 de Dezembro de 2015

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Magnífico Porto 11



Com os votos de um

Próspero Ano Novo




Onde antes estava Deus, a direita coloca hoje a “realidade”


A lagartixa e o jacaré


     José Pacheco Pereira


Onde antes estava Deus, a direita coloca hoje a “realidade”

Um dos absurdos mais divulgados pela teorização radical de direita e que teve um recente acolhimento numa frase presidencial, é colocar no lugar de Deus aquilo a que chamam a "realidade". Poucas coisas mais arrogantes passam hoje por ser "pensamento" do que o modo como se faz uma apropriação de algo tão complicado, a "realidade" – se é que ela existe –, para blindar meia dúzia de preceitos de mau economês e pior política, associados a um neo-malthusianismo que deixaria Malthus a corar de vergonha.

A frase de Cavaco Silva poderia ter sido escrita num desses blogues onde se mistura uma espécie de pedantismo de think tank de direita com um enorme revanchismo social e político, e constitui mais um ataque ao Governo actual feito pelo Presidente da República. Diz a frase que "a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa facturas por pagar, mas acaba sempre por ser derrotada pela realidade (…)". A "ideologia económica", na zona euro, "só resiste como modo de vida de comentadores, de analistas políticos, de articulistas que fazem o deleite de alguns ouvintes, de alguns leitores, em tempos de lazer" (…). "Na governação concreta, o que domina é o pragmatismo".

A frase é idêntica, no seu modo de pensar, a outra que o Presidente proferiu há uns anos: "Duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar." Sublinhe-se o "sérias", ou seja, conformes com a "realidade" e que não são os poetas (na sua variante actual os "comentadores, de analistas políticos, de articulistas que fazem o deleite de alguns ouvintes, de alguns leitores, em tempos de lazer"), que, como Platão (que odiava a democracia) não deveriam poder entrar na cidade. Sublinhe-se o "lazer", mais uma variante da fábula preferida da direita radical, a da cigarra e da formiga.



Na verdade, colocar a "realidade" onde antes estava Deus, (ou Deus, Pátria e Família), já é um downgrade. Deus sozinho ficava melhor, o "Deus que está do nosso lado", o "Deus" da guerra justa contra os infiéis, o "Deus" de que emana a Razão Suprema, logo, que é inquestionável, incontornável, de que não há "alternativa"… Ficava melhor se se invocasse que "Deus está do nosso lado" do que dizer que "a realidade está no nosso lado", mas a maneira de pensar é a mesma.

Quando a gente escava um pouco, ou seja, fica radical no bom sentido filosófico, percebe-se que a "realidade" é uma mistura dos "mercados" como Deus ex machina, com a aceitação sem pestanejar do poder da burocracia da Europa mais a maioria conservadora dos partidos do PPE, personificados pelos alemães, com a prisão por dívidas, na sua nova variante da ditadura dos "credores", e uns preceitos de economia que se tem titulado de "neoliberal" – classificação que evito a todo o custo porque me arrepia o uso da palavra liberdade, em qualquer conjugação, muito menos para definir uma espécie de determinismo "inevitável" que é, isso sim, uma ideologia autoritária e antidemocrática.

A "realidade" é a escolha do que lhes serve e o envio para as trevas infernais do radicalismo daquilo que os incomoda e os confronta. Mas não é só isso, é também outra coisa, é a contínua degradação da democracia, através do desprezo pela lei como a Constituição (de facto, as Constituições fazem-se contra a "realidade"), e da perda do poder do voto, a favor de instâncias não controladas, supranacionais, como hoje é a União Europeia, ou dos interesses que vivem nos "mercados". Ou será que é "ideologia" perguntarmo-nos sobre os interesses que estão presentes nos "mercados"? Para eles é, porque os "mercados" são manifestação visível da mão de Deus, ou seja da "realidade".

Há várias coisas que ficam fora da "realidade", mesmo quando muitos economistas da escola do Diabo mostram como são desastrosas para a economia e condicionam mais a vida humana, que é a medida do sucesso da economia em democracia. Mas eles não pensam nos homens em concreto, eles pensam nas empresas em abstracto, ou melhor nos "mercados" anónimos e sem face, e pensam também, e não é pouco, no seu conforto social em particular. O deles e dos seus.

Por exemplo, a "realidade" não contempla a desigualdade, esse perigoso conceito da doutrina social da Igreja e da social-democracia. Falas de desigualdade, és um perigoso comunista. A "realidade" não contempla a pobreza nem o aumento da pobreza, mas falar disso é o que torna a Cáritas uma agressiva organização bolchevique. A "realidade" não contempla a degradação dos serviços públicos mais básicos, na saúde, nas escolas, nos tribunais, cujo custo económico é enorme, com perda de qualidade da mão-de-obra (com a degradação do ensino), com uma justiça desigual e ineficaz, com mortes escusadas por esse eufemismo que transformou "cortes" em "poupanças". Mas dizer isso torna-te aquilo que, no passado, foi Cavaco Silva, um tenebroso keynesiano que usou o dinheiro do Estado para acabar com as barracas.

Não, não é verdade que "duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar", porque senão não havia a diferença que faz a democracia. E o problema destas mistelas ideológicas com a "realidade" é que põem em causa a democracia, são a forma pós-crise actual do autoritarismo.

Revista SÁBADO 30DEZ,2015

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

american girl in italy Assédio ou diversão?


american girl in italy

Assédio ou diversão? A icónica foto de uma mulher sozinha em Florença


"Jinx" tornou-se num símbolo do feminismo contra o assédio. Tudo por causa de uma fotografia que ficou na história. Mas, na verdade, o momento retrata a diversão de uma mulher a viajar sozinha.



Autor, Manuel Louro
Ninalee “Jinx” Allen Craig tornou-se símbolo para as feministas que a viram como vítima de assédio e tornavam os homens ‘criminosos’. Tornou-se também no exemplo de uma geração. De uma geração de mulheres que ansiavam pela liberdade, pela ansiada possibilidade de viajar, passear e visitar o mundo sozinhas. Esta é uma das interpretações. Mas será a visão correta para a foto icónica American Girl in Italy (Rapariga Americana em Itália)? Deve ser mesmo esta foto usada para ilustrar polémicas como as do machismo ou da criminalização do piropo?

A história da foto diz muito sobre o que ela retrata. Em 1951, “Jinx” despediu-se do emprego em Nova Iorque e decidiu fazer o que ainda era visto como algo quase impensável – viajar para a Europa e percorrer o Velho Continente acabado de sair de um conflito que o destruiu. Sozinha. Tinha 23 anos e chegou a Itália, mais concretamente a Florença, onde ficou alojada num hotel que cobrava 1 dólar por noite. E aí conheceu outra mulher – Ruth Orkin. As semelhanças entre as duas pareciam ter sido obra do destino: ambas americanas e ambas a viajarem sozinhas – o que para a década de 50 era algo raro de se encontrar. E, mais importante que tudo, uma era fotógrafa.

Orkin, com 29 anos, tinha acabado de regressar de Israel onde tinha estado a realizar um trabalho para a revista Time. Não deverá ser difícil de imaginar o tema de conversa entre duas mulheres como estas. Como era viajar sozinha? As experiências, os inconvenientes e os momentos de prazer. Daqui nasceu rapidamente uma ideia: registar fotograficamente a viagem de uma mulher sozinha.

O nome dado ao ensaio fotográfico também nasceu naturalmente: American Girl in Italy (Rapariga Americana em Itália). A partir daqui Jinx apanhou boleia de moto, pediu indicações a polícias, sentou-se numa esplanada com um italiano e visitou monumentos. No fundo o que qualquer pessoa faz durante uma viagem. Mas houve uma foto que se destacou e que se tornou icónica. A rapariga americana a passar por um grupo de 15 homens, e todos eles a lançar piropos, a assobiar, ou a olhar de cima abaixo para a mulher que passava naquele momento. E este momento tornou-se num ícone contra o assédio.
American Girl in Italy
A fotografia que ficou para a história. Tornou-se num símbolo conta o assédio, mas a própria protagonista diz que apenas se estava a divertir.
Mas terá sido assim tão desconfortável?
Sobre isso, a própria Allen Craig afirmou:

Não é um símbolo de assédio. É um símbolo de uma mulher a divertir-se incrivelmente! (…) Eu estava a passar por um mar de homens. Eu estava a aproveitar cada minuto.”

Isto contou Jinx à NBC, em 2011, com 83 anos de idade e naquela que foi a primeira vez em que se ouviu a protagonista da imagem na primeira pessoa. Assédio? Não. Apenas uma mulher livre e a divertir-se.

As suspeitas que a fotografia tinha sido montada surgiram ao longo dos anos. Mas Craig desmentiu-o categoricamente: “Não, não, não! Você não tem 15 homens numa fotografia e não a consegue em apenas duas tentativas. Os homens estavam apenas lá… A única coisa que aconteceu foi que Ruth Orkin foi razoável o suficiente para me pedir que voltasse atrás e repetisse (o caminho percorrido) “.

60 anos depois, em 2011, com 83 anos de idade “Jinx” Allen Craig falou da mítica fotografia na qual é a protagonista. Assédio? Nem pensar, disse. (Keith Beaty / Toronto Star)

Mas a protagonista disse mais. Contou que, quando confrontados com a imagem, os homens perguntaram-lhe se “estava com medo. Se precisava de proteção. Se estava chateada”. Mas as mulheres questionavam outras coisas: “Isso não é maravilhoso? Os italianos não são maravilhosos? Eles fazem-te sentir apreciada!”

Ou seja, a icónica fotografia pode ter sido um símbolo do assédio. Mas quis ser apenas a representação da diversão de uma mulher a viajar sozinha. E a divertir-se.

Descubra, algumas das fotos que compõe o “American Girl in Italy”.


No fundo, retratam uma mulher sozinha a conhecer Itália
Onde visita monumentos
Onde se senta numa esplanada com um italiano
Como qualquer pessoa numa cidade estrangeira é necessário pedir indicações
Ou andar a ler nomes de ruas para se orientar
aqui, a felicidade de duas mulheres que experimentam viajar sozinhas num tempo em que isso era raro.

OBSERVADOR 28DEZ,2015

domingo, 27 de dezembro de 2015

Amor Impossível


E não viveram felizes para sempre


Amor Impossível o novo filme de António-Pedro Vasconcelos, tem Soraia Chaves e Victoria Guerra nos principais papéis. Conta uma tragédia romântica e estreia esta quinta-feira, 24


MARKUS ALMEIDA


O novo filme de António-Pe­dro Vasconcelos, que chega às salas de cinema na véspera de Natal, joga com as regras do policial de investigação enquanto explora não uma, mas duas histórias de amor que terminam mal

"E alguma vez acabam bem?", pergunta a certa altu­ra a personagem de Victoria Guerra, que aqui interpreta Cristina, uma jovem estudan­te de Literatura apaixonadís­sima por Tiago, o amor da sua vida (José Mata) com quem namora desde os 14 anos. So­raia Chaves e Ricardo Pereira são os inspectores da Polícia judiciária encarregues de desvendar o mistério do des­aparecimento de Cristina.

Seguindo os cânones dos policiais de investigação, é precisamente com o desapa­recimento da personagem de Victoria Guerra, em Viseu, que o filme começa. Os ins­pectores Madalena e Marco, de Coimbra, chamados à in­vestigação, interrogam Tia­go, que jura que ele e Cristi­na foram assaltados enquan­to namoravam num descam­pado e que os assaltantes a levaram e o deixaram droga­do ao relento. Só que a histó­ria não cola e os inspectores rapidamente percebem que Cristina provavelmente esta­rá morta e que terá sido ele, o namorado, a matá-la.

O realizador português encontrou-se com o GPS num restaurante de Lisboa antes de um jantar de trabalho para definir o seu próximo projecto com o argumentista e seu colaborador habitual, Tiago R. Santos (que regular­mente assina críticas de ci­nema nestas páginas).

O trabalho desta dupla, excepção à regra de um ci­nema português feito por realizadores-argumentistas. começou em 2007 com Call Girl continuou em 2010 com A Bela e o Paparazzo, em 2013 com Os Gatos Não Têm Vertigens e resulta agora em Amor Impossível. António--Pedro Vasconcelos resume o filme como "a tragédia de uma jovem saída da adoles­cência que tem uma visão idealizada do amor".

Também os inspectores in­terpretados por Soraia Cha­ves e Ricardo Pereira estão envolvidos romanticamente. E é a descoberta do diário de Cristina que abre o caminho para as duas histórias de amor se entrelaçarem. Flash­backs do diário mostram--nos momentos de intimida­de na vida do casal, e a for­ma obssessiva com que Cris­tina vive esse amor, que só poderia terminar em tragé­dia. O diário de Cristina faz Madalena questionar relação com o Marco. "É a história paralela dos policias e o efei­to que este caso teve na his­tória dela [Madalena] que me atraiu neste argumento", conta o realizador.

Entretanto chega ao res­taurante o argumentista Tia­go R. Santos, a tempo de ex­plicar, numa frase, o porquê da ideia principal do filme: "Quis falar sobre o que pode levar alguém a matar a na­morada."

Revista SÁBADO |  GPS  |  24DEZ,2015


Amor Impossível
Título original: Amor Impossível
De: António-Pedro Vasconcelos
Com: Victória Guerra, Ricardo Pereira, Soraia Chaves
Género: Drama, Classificação: M/12, Outros dados: POR, 2015, Cores, 125 min.
Depois do súbito desaparecimento de Cristina, Tiago, o seu namorado, crente que se tratou de um rapto, decide pedir ajuda à polícia. Porém, Madalena e Marco, os dois investigadores da PJ responsáveis pelo caso, têm alguma dificuldade em acreditar nessa versão dos acontecimentos e decidem investigar a fundo a vida da rapariga…
Depois do sucesso de “Call Girl” (2007), “A Bela e o Paparazzo” (2010) e, mais recentemente, “Os Gatos Não Têm Vertigens” (2014), “Amor Impossível” é a quarta parceria entre o realizador António-Pedro Vasconcelos, o produtor Tino Navarro e o argumentista Tiago R. Santos. Totalmente rodado na cidade de Viseu, conta com Victoria Guerra, José Mata, Ricardo Pereira e Soraia Chaves nos papéis principais. PÚBLICO


Ir ao Porto

CRÓNICA URBANA
Vários locais, Porto

Ir ao Porto

Patrícia Carvalho (Texto) e Nuno Sousa (Ilustração)

Fazer parte de uma cidade e amá-la não significa conhecê-la por inteiro, à primeira vista. Há que a ir saboreando devagar e deixar que ela vá mudando connosco. E garantirmos, assim, que ela tem sempre algo de novo para nos contar.


Ir ao Porto costumava ser uma aventura, algo que acontecia só em ocasiões especiais. Para ir comprar o par de botas para o Inverno ou uma peça de roupa nova nos Porfírios. Significava acordar muito cedo, com o entusiasmo a saltar de todos os poros e experimentar, sem refilar, o ar gelado que se colava à pele do rosto, no trajecto entre casa e a paragem do autocarro. Devia ir mais ao Porto no Inverno, porque o frio aparece sempre associado a estas viagens, feitas no autocarro que ia enchendo até ficar repleto de pessoas que se acotovelavam entre si, tagarelando sem parar.

Nessa altura, ir ao Porto significava abandonar o transporte na Praça da República e caminhar até à Praça de Carlos Alberto com a minha irmã mais velha a levar-me pela mão, indo ao encontro de outra das minhas irmãs, que trabalhava na Manteigaria Vianeza. A visita rápida, e às vezes brindada com um chocolate Regina, estava colada à pausa num café para o pequeno-almoço. Ir ao Porto era também ir ao café, comer um bolo e beber leite em copos de vidro armados de uma pega metálica, que nos impedia de queimar os dedos. Depois, seguíamos para a Rua de Santa Catarina, o nosso destino final. Porque ir ao Porto era ir às compras. Ir a Santa Catarina. E à confeitaria.

Quando fui para a faculdade, o Porto passou a ser também um local de partida e de chegada. Era dali, bem perto da Torre dos Clérigos, que partia a camioneta da Renex que me levaria, pela A1 fora, durante três horas e meia, até ao Campo das Cebolas, em Lisboa. Nesses anos de idas e regressos, o Porto era um conjunto de ruas que cruzava, rápida, muitas vezes sem que o sol tivesse nascido ainda, carregada com o saco de roupa que teria de dar para uma semana. Ou o local que se espraiava a meus pés, quando a camioneta atravessava uma das suas pontes, no regresso, à sexta-feira, e eu sentia que, finalmente, estava em casa.

Foi preciso um estágio no Jornal de Letras para verdadeiramente começar a olhar o Porto. A culpa foi do meu editor, José Manuel Rodrigues da Silva, a quem a palavra Porto se enrolava, sedutora, nos lábios e deixava um brilho guloso no olhar. Ele amava a minha cidade — os hotéis com quiosques dentro, os alfarrabistas, as ruas estreitas no seu constante sobe e desce, o granito molhado pela chuva. Por causa dele, comecei a levantar os olhos para os edifícios da Baixa. A embrenhar-me pela Rua das Flores, a deixar que a cidade, finalmente, se entranhasse naquilo que sou e a chamá-la minha.

O trabalho ofereceu-me um Porto diferente. Saltitei entre o Largo da Paz, na zona da Boavista, a Rua de Fernandes Tomás, em plena Baixa, a Rua de João de Barros, na encruzilhada de um bairro social e a zona alta da Foz, e a Praça do Coronel Pacheco, ao ladinho da Rua de Cedofeita. A cidade mostrou-me, então, tudo o que vale. Os sítios novos em folha, dos dias das inaugurações, as entranhas de instituições que só conhecia pela fachada, os bairros sociais em que muitos portuenses nunca puseram um pé, as ilhas escondidas por trás de um portão incaracterístico, os seus cemitérios e bibliotecas, os mercados, as ruas que parecem transplantadas de uma qualquer aldeia, os teatros e cafés.

Ir ao Porto, hoje, é chegar a um sítio que sei que nunca conhecerei por inteiro. Porque há sempre uma rua que nunca cruzei, um miradouro que ainda não espreitei, uma esplanada onde ainda não experimentei deixar-me embalar pelo sol, uma mulher velha e de mãos na anca com quem não conversei. Mas é também o conforto de algo que já faz parte de mim, que posso percorrer sem receio de me perder, porque hei-de sempre encontrar-me e, com sorte, encontrar algum novo recanto encantador. Estas crónicas acabam agora (ou fazem só uma pausa, logo se vê), mas o Porto continua aqui. E enquanto houver cidade, não há por que dizer adeus.
 Público 2  |  27/12/2015


E agora os Reis





E agora os Reis


Uma festa que antigamente chegou a rivalizar com o S. João







A celebração do Natal não se esgo­ta com a evocação da data do nascimento de Jesus Cristo, a 25 de dezembro. Começa, verda­deiramente, por assim dizer, com a Anunciação, a que se se­gue a Visitação; passa, claro, pelo nasci­mento do Menino (o Natal, propriamen­te dito) inclui a adoração dos pastores e a homenagem dos Reis - os chamados três Reis Magos ou do Oriente. E era aqui que eu queria chegar.

Houve um tempo em que, no Porto, a Festa dos Reis chegou a pedir meças à do S. João, em termos de popularidade e en­tusiasmo. O dia de S. João era aproveita­do, antigamente, para nele se realizar a mais importante reunião da Câmara, aquela em que se tomavam as mais im­portantes decisões para a cidade. O mes­mo aconteceu com os Reis.

Foi no dia de Reis do ano de 1535, por exemplo, que se inaugurou o mosteiro de S. Bento da Ave-Maria de monjas benedi­tinas. Como é geralmente sabido, o con­vento começou a ser construído, em 1518, por iniciativa do rei D. Manuel I, em ter­renos onde, anteriormente, vicejava o fa­val do bispo.

Dezassete anos depois do início das obras, o novo edifício recebeu as primei­ras inquilinas vindas de pequenos con­ventos nortenhos. Assim, de Santa Maria de Tarouquela vieram 20 religiosas e 4 noviças; de S. Salvador de Tuias, no Mar­co de Canaveses, 8 religiosas e 15 novi­ças; de Sandim, Vila Nova de Gaia, 7 reli­giosas e 4 noviças; e de S. Cristóvão, Rio Tinto, 10 religiosas e 8 noviças.

Consta de crónicas da época que logo a seguir à sua entrada na sua nova casa conventual as monjas se dirigiram para o coro da igreja onde cantaram "horas me­nores cistercienses e loas a lembrar a adoração dos Magos, em Belém de Judá...". O mosteiro viria a ser demolido nos finais do século XIX para possibilitar a construção de uma gare do caminho de ferro: a estação de S. Bento.

Ao lado do palacete que existiu no topo norte da atual Praça da Liberdade, onde a Câmara do Porto funcionou durante um século, entre 1816 e 1916, havia uma ca­pela que fazia parte do edifício chamada a capela dos Três Reis Magos que passou a ser propriedade da Câmara. Nela, e a expensas do Município, se fez, durante anos e anos, "a grande Festa dos Reis".

Quando, nos meados do século XIX, se demoliu a capela da Natividade que es­tava junto da fonte do mesmo nome, na Praça da Liberdade, sensivelmente hoje estão as esplanadas, em frente à cervejaria Sá Reis, a imagem da padroeira deste pe­queno templo foi recolhida no interior da capela dos três reis magos.

Mas a festa aos três reis do Oriente, no Porto, tem tradições muito mais antigas. Há um documento do século XV, no arquivo municipal em que os moradores da Cruz do Souto, aquele sítio onde convergem as ruas Escura, dos Pelames, do Souto e da Bainharia, pedem à Câmara autorização para montar naquele espaço um tablado (um palco) para nele encenarem uma pan­tomina em louvor dos três reis magos.

Este entusiasmo dos portuenses com os festejos aos três reis do Oriente durou até aos nossos dias. Já no século XX, desde os finais dos anos vinte até meados dos anos trinta que os Reis eram celebrados no Por­to por grupos chamados "trupes" que se formavam por ruas," Os Fontinenses", em que se agrupavam os moradores da Fontinha; por ofícios ou profissões, "grupo dos trabalhadores da fábrica de tabaco Lealda­de"; ou por coletividades, caso dos " columbófilos de Campanhã".

Na noite da véspera dos Reis, estas "trupes" percorriam as ruas da cidade dando as boas-festas e cantando ao som dos mais variados instrumentos entoando cantilenas que eram críticas aos costumes da época. As figuras que compunham os agrupamentos representavam aspetos da sociedade portuenses da época, como "a vida cara", "o desemprego", ou as "casas insalubres"; tipos populares das ruas do Porto, como o "zé povo", o "vigarista" ou o "futebolista"; representantes de ofícios, como o "varredor", o "polícia" ou a "lei­teira".

Os grupos começavam invariavelmen­te por uma visita de cortesia ao "Jornal de Notícias" e logo a seguir iam atuar nos lo­cais mais incríveis. Das páginas da edição do dia 28 de dezembro de 1930, respiga­mos isto; "Tivemos ontem a visita do gru­po dos Reis 'Unidos de Santos Pousada' que à noite foram atuar na Adega Ramos, na Corujeira". No mesmo jornal, mas em 31 de dezembro de 1931, informa-se que "Os Atrasadinhos da Sé" iam estar, à noi­te, no Salão Maxime, para disputar, com os " Unidinhos da Vitória", uma taça de prata". Pelos vistos, também havia despi­que.

A Capela dos Três Reis Magos


A capela dos Três Reis Ma­gos, anexa ao edifício onde funcionavam todos os ser­viços da Câmara Municipal do Porto, tinha a fachada voltada para a desapareci­da Rua do Laranjal que era paralela à de D. Pedro. Am­bas foram arrasadas para a construção da moderna Avenida dos Aliados. O pe­queno templo era muito simples e tinha uma fronta­ria muito singela. No inte­rior estava a imagem, a ca­valo, de S. Jorge, que costu­mava figurar na procissão do Corpo de Deus. Após a sua demolição, em 1916, as pedras foram compradas por um ricaço da Pocariça que reconstituiu a capela numa praça daquela terra, mas agora sob a invocação de S. Tomé.


A pedra e altares da capela dos Três Reis Magos foram vendidos por 400$000 rés
Jornal de Notícias, 27 DEZ, 2015

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