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domingo, 28 de junho de 2015

O SENHOR DA CIDADE




O SENHOR DA CIDADE


Culto da imagem chegou a rivalizar com o S. João

 

Na renovada igreja dos Cléri­gos existe uma dependência em que estão expostas ao pú­blico muitas e variadas espé­cies de imagens de Cristo crucificado. São, na sua maioria, provenientes de um colecionador particular que entendeu (e bem) que era ali que deviam estar os crucifi­xos que foi colecionando ao longo de muitos anos.

Entre as imagens daquela variada e valiosa panóplia de Cristos na cruz, há uma que, embora não fazendo parte da referida coleção, tem uma ligação muito próxima à cidade do Porto, por via de uma lendária mas curiosa história em que se conta o caso de uma cura extraor­dinária que emocionou toda cidade do século XVI.

Durante muitos anos, o crucifixo em referência esteve exposto no oratório que se encontrava encostado a uma das paredes da sacristia da igreja dos Cléri­gos. Tinha um nome; Senhor Jesus do Coração da Cidade e viera para ali da igreja do mosteiro de S. Domingos. Foi aqui que, se assim se pode dizer, se en­gendrou a lenda.

Como é geralmente sabido, o mosteiro de S. Domingos foi fundado em 1238, por iniciativa do bispo do Porto D. Pedro Sal­vadores, que doou aos dominicanos um amplo terreno para nele os frades cons­truírem a sua casa e respetiva igreja.

Tendo em conta os limites atuais, po­demos fazer uma ideia da amplitude des­se terreno se dissermos que ficaria, hoje, dentro dos limites compreendidos pelo Largo de S. Domingos, a Rua de Sousa Vi­terbo, uma parte substancial da Praça do Infante D. Henrique e, ainda, parte do lei­to da Rua de Ferreira Borges.

Aliás, o nome do Largo de S. Domingos evoca exatamente a existência, em tem­pos passados, nesse lugar, do célebre mosteiro dominicano de que ainda resta uma das fachadas patente na imponente construção conhecida por Edifício Douro, por lá ter funcionado a extinta Companhia de Seguros Douro.

Pois era a um altar da igreja deste con­vento que pertencia a imagem do Senhor Jesus do Coração da Cidade.

Frei Luís de Sousa, na sua "História de S. Domingos", conta a curiosa história do milagre em que também entra uma alva toalha de linho que normalmente cingia o corpo daquele Cristo crucificado.

Foi assim; em maio de 1574, uma escra­va de um abastado mercador chamado Francisco das Neves, morador em Belomonte, dirigiu-se ao sacristão da igreja do mosteiro de S. Domingos, por indicação de uma freira do mosteiro das Donas do Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, solicitando-lhe que lhe entregasse a toalha que cingia a imagem do Senhor da Cida­de, a fim de ser lavada e perfumada.

A festa ao Senhor Jesus de São Domingos fazia-se no dia 1 de janeiro de cada ano 

Francisco das Neves tinha em casa uma filha, com cerca de nove anos de idade, que cegara quando tinha apenas cinco de vida. Os pais levaram-na aos melhores médicos que, naquele tempo, havia na ci­dade, mas de todos receberam a mesma resposta: "não há nada a fazer". Até que um dia foi a casa do mercador a tal freira do mosteiro de Gaia que mandou a cria­da pedir a toalha ao sacristão de S. Do­mingos.

Quando a toalha chegou a casa do mercador, uma tal Antónia Vieira, sobri­nha da mulher do dono da casa, mandou que se colocasse a toalha, antes de ser lavada, sobre o rosto de jovem cega en­quanto ela dizia a seguinte oração: "Se­nhor, assim como alumiastes o mundo com a luz sagrada das vossas cinco cha­gas, alumiai e dai vista a esta menina para que ela Vos possa ver e depois servir com muita devoção...".

Enquanto era proferida a oração, a toalha foi colocada sobre a cabeça da ra­pariga e com ela lhe cobriram também os olhos. E assim se manteve durante o tempo em que durou a recitação de mais duas orações que duraram cerca de duas horas.

A narrativa termina com a informação de que, quando se retirou a toalha da ca­beça da menina, ela abriu os olhos e via distintamente tudo o que estava à sua volta.

Em sinal de agradecimento pela cura obtida e que desde logo foi considerada como um milagre, os frades cantaram diante da imagem do crucificado um "comovente hino de louvor" e no dia se­guinte, após a celebração de uma missa e a pregação de um sermão, os mesmos religiosos saíram com a imagem de Cris­to crucificado em procissão, em sinal de grande veneração e agradecimento pe­las inúmeras mercês que fez por esta ci­dade.

E daí o nome dado ao crucifixo: o Se­nhor Jesus do Coração da Cidade. E o cul­to que se prestou a esta imagem teve uma tal importância, naquele recuado século XVI que, a cidade, que normalmente ele­gia os seus representantes para Câmara no dia de S. João, chegou a fazê-lo diante do altar onde estava a imagem do Senhor da Cidade, como era geralmente conhe­cido o crucifixo.»


A história do mosteiro das Donas


O convento das Donas é o do Corpus Christi de Vila Nova de Gaia que foi de freiras da Ordem de S. Domingos. Daí a ligação muito próxima que a frei­ra, de que se fala ao lado, tinha com o mosteiro dos Dominicanos do Porto, ao ponto de saber da exis­tência do crucifixo e da alva toalha de linho. O mosteiro das Donas foi fundado em 1345, por D. Maria Mendes Petite, jun­to ao rio Douro, perto da "entrada antiga que vinha para a cidade do Porto ", não muito longe de uma ladeira a que posterior­mente foi dado o nome de Calçada das Freiras. O monumento mais impor­tante deste convento (fo­to mais pequena) é o tú­mulo de Álvaro Anes de Cernache, "num arco de pedraria lavrado à anti­ga...".

JORNAL DE NOTÍCIAS, 28 Junho, 2015

A LAGARTIXA E O JACARÉ, Meu bom Pan


A LAGARTIXA E O JACARÉ

Lá está ele, o homem comum, o homem qualquer, cansado, a dormir em cima de uma mesa: dorminhoco, improdutivo, piegas, preguiçoso, funcionário público, esbanjador, consumista, que vive a crédito, grego! Convinha que acordasses. Precisamos de um remédio forte, de um grito valente ou de uma multidão a cantar o Acordai do Lopes Graça

Meu bom Pan,

Isto não tem conserto.



Os costumes continuam os mes­mos. Também não se esperava que mudassem tão depressa. Mas tam­bém não se esperava que pioras­sem tanto. É da crise. Ataca as ca­beças com violência, destrói massa cinzenta, deixa-nos zombies. Está tudo zombie. Menos eu, mas vou a caminho. No dia em que percebe­res isso, devolve-me as cartas.

Olha lá. esses curandeiros aborí­genes não têm uma mezinha qual­quer para a gente deitar pelo ar como se fosse um antrax benigno, para ver se espevita a alma a estes meus concidadãos? Ou uma reza? Ou um quebranto? Ou fazem des­cer uma santa qualquer, ou um deus do Olimpo para aparecer aos incréus e dizer-lhes que acordem do sono da razão, o tal que engen­dra monstros?

Os nossos monstros, como aque­las aves sinistras de Goya, estão no Governo a "bombar", como diz o homem dos sete chapéus. O pro­blema é que, por cá, é o desgraça­do que dorme é que é apontado como o monstro e não as aves de sorriso tenebroso que andam em cima dele. Lá está ele, o homem comum, o homem qualquer, can­sado, a dormir em cima de uma mesa: dorminhoco, improdutivo, piegas, preguiçoso, funcionário público, esbanjador, consumista, que vive a crédito, grego! Convi­nha que acordasses, senão eles
comem-te a cabeça, visto que o cor­po já esta de banda sobre a mesa. Precisamos de um remédio forte, de um grito valente ou de uma multidão a cantar o Acordai do Lo­pes Graça. Mete lá uma cunha aos feiticeiros da nação aborígene, mas não expliques muita coisa em pormenor, senão eles não acredi­tam e o pó não serve. E pó que não serve já cá temos muito.

Pois está o dormente encostado à mesa. o dorminhoco, o improduti­vo, o piegas, o preguiçoso, o fun­cionário público, o esbanjador, o consumista, o que vive a crédito, o grego, e as nossas gazetas, que o deviam manter acordado, fazem vénias aos monstros que dançam à volta deles. Os monstros atiram-lhes umas distracções e lá vão eles de rojo.

Ao que é a sério ninguém liga. "Não é novidade." Claro que não é, já não é "novidade" há muito que não é "novidade", mas deixou de existir? Existe, mas não é "novida­de". "Novidade" são estas brilhan­tes notícias de subidas de 0,1% numa estatística qualquer.

E então o fact checking é um es­panto. O meu país tornou-se uma das maravilhas do mundo. É um exemplo universal, a caminho de concorrer com Singapura na per­feição económica e social. Os chi­neses, que são um exemplo de só­lida democracia e boas práticas, que o digam.

Não te rias. Bom, acaba lá de te rir, já acabaste? Pois é, tudo está bem, e o que não está bem, não está. Em cima da mesa só os nú­meros fantásticos para impregna­rem por osmose o pobre homem, dormindo o sono da razão. Num artigo, alguém escreveu, chaman­do "palermas" aos que engolem estas coisas, que algumas das esta­tísticas que as agências de comu
nicação divulgam por conta do go­verno são do tipo "porque os no­ruegueses comeram menos peixe, os indianos jogam mais na lotaria". Ora aí está uma boa correlação.

E depois, o "bombar" do Governo entra dentro das cabeças com toda a facilidade. Ainda hoje ouvi um jornalista a dizer, a propósito de um encontro entre o meu primeiro-ministro e o espanhol, ambos irmãos na cor da mesma reacção, que "pretendiam continuar com as reformas a favor dos seus países". Não, não eram eles a dizer, era o texto da redacção. Que bonito! Que dedicado! Só que eu entendi o que eles disseram: ambos têm eleições e querem continuar a go­vernar. Mas é muito mais bonito dizer "que querem continuar a fa­zer reformas a favor dos seus paí­ses", que é o que eles são, grandes reformistas...

O mais espantoso é que estas mentiras do tamanho do teu conti­nente de adopção provocam, quando muito, um encolher de ombros, e passa tudo adiante. Já estamos envenenados e, se calhar, alguém, muito antes de mim, já foi aos teus curandeiros e feiticeiros buscar uma mezinha, uma erva das bruxas para manter a razão a dormir e saírem os monstros to­dos. Vê lá tu se algum feiticeiro de Queensland anda com um Galo de Barcelos do ICEP ou com uma co­menda qualquer...

Por correio separado, mandei-te uma garrafa de schnapps, daque­les que tu gostas e que nós faze­mos bem. Jã que me serves de Muro das Lamentações é justo que animes a tua solidão com aquele beber calmo e duradouro, que se prolonga pela noite fora e que te dá um sono em que nenhum monstro habita. Eu sei que estás a pensar que o mesmo português schnapps tem sido um remédio popular contra a nossa miséria. Mas, apesar de tudo, eu gosto mais desta gente nossa do que dos monstros que se pavoneiam à sua custa. Agora, que estes tempos são maus, isso estão.

Um abraço do teu amigo
25 JUNHO 2015 SÁBADO • www.sabado.pt

sábado, 27 de junho de 2015

CHOCOLATE É PECADO


HÁ HOMEM









 LUÍS PEDRO NUNES


CHOCOLATE É PECADO
Não emagrece nem faz bem. Engorda e dá moca. Aleluia!


GETTY IMAGES

Se gosta de chocolate deve ter reparado. Foi há coisa de uns três meses. Um estudo garantia que o chocolate negro, se comido diariamente em pequenas quantidades (15 gramas), acelerava o metabolismo e ajudava o emagrecimento (ah! ah! ah!). Isto era a manchete de sonho de qualquer gordo, até porque o mecanismo mental é logo este: se 15 gramas aceleram um bocado o metabolismo uns 30 gramas aceleram muito mais... Como gosto de chocolate e de estudos parvos lembro-me bem desse estudo porque teve, obviamente, direito a muitos títulos do género: “O chocolate afinal emagrece”. Há umas semanas, um jornalista decidiu revelar que tinha sido ele a fabricar o tal ‘estudo’, sem rigor científico algum, e apenas interessado em demonstrar como os media engolem, sem discernimento, qualquer coisa no que respeita a dietas. E quando mete chocolate temos muitos fatores a ter em conta: do elemento ‘chocoólico’ da questão (Deus meu, o viciozinho, a explosão de dopamina e outras cenas malucas, o fogo de artifício de químicos gostosos dentro do cérebro...) a todas as questões geopolíticas. E não estou a falar dos coitadinhos dos países de terceiro mundo que produzem o cacau. Normalmente, é mais com chocolate francês vs. italiano vs. suíço, a fingir que se ralam com os miseráveis.

Há dois tipos de pessoas neste mundo. As que são fanáticas por Nutella e as que nem sabem do que se trata. (Tiro chapéu ao fulano da Ferrero: tornaram um banal creme de chocolate e avelã numa coisa que tem uma legião global de fanáticos.) Falo a sério. Para os que não sabem o que é o tal creme de barrar: trata-se de um banal creme de chocolate e avelã. E há maluquinhos que adoram aquilo com tudo. Exagero? Em Lisboa até já abriu uma Nutellaria, no centro, que ao fim de semana tem filas enormes cá fora, e vende churros com o creme. Há dias, Ségolène Royal, ex-candidata francesa à Presidência da República e atual ministra da Ecologia do Governo do socialista Manuel Valls, proferiu o seu primeiro soundbyte global ao acusar a Nutella de ser uma causadora da desflorestação — por ter óleo de palma nos ingredientes. Um tweet audacioso ao enunciar uma marca. De um país vizinho. De um produto que tem consumidores fanáticos. E 24 horas depois estava a pedir desculpas públicas

Mas então vamos lá a ver: o chocolate “faz o quê”? Como é óbvio, engorda. Tem, sempre teve, muitas calorias. Está associado ao prazer, tem o seu lado viciante e leva à culpazinha quando comido desenfreadamente. Faz parte de todo um modo de vida de quem tem desejos por chocolate apenas pelo prazer de o comer. Os tais estudos revelam benefícios marginais relacionados com a ingestão em pequenas quantidades: faz bem ao coração e tal e coisa... e, agora, há a moda dos nutricionistas o incluírem nas dietas, com o consumo de uns quadrinhos de chocolate, com mais 80% de cacau, para “ajudar no emagrecimento”. Mas sem uma dieta controlada e exercício, bem podem comer chocolate amargo...

Só que quanto mais chocolate negro se consumir menos cacau disponível haverá no mundo. Esta moda não é boa. Até já foi avançada uma data para a extinção do chocolate: 2020. Porquê? Porque se diz que será este o momento da rutura do mercado global. São precisos quase três planetas para responder à procura. É o chamado ‘chocoarmagedão’. No fim, o que acabará por acontecer é que o preço do cacau vai subir estupidamente e o chocolate vai ficar a um preço proibitivo.

Há que parar e refletir. O chocolate está do lado negro e pecaminoso da vida. É para desejar, salivar, comer, lambuzar, enjoar, arrepender, lamber. O chocolate não é um remédio. Não serve para fazer bem ao coração ou para limpar artérias, e muito menos para emagrecer. É tão estúpido como dizer que se deve fazer diariamente dez minutos de sexo apenas para perder 200 calorias. É uma perversão inversa e adversa dos valores civilizacionais. Ah, e deixe de dizer que Nutella é chocolate. É como dizer que uma pool party vespertina é uma orgia. Se tivesse espaço explicava as diferenças.


MODERNICES


 

Provar pela primeira vez


A Costa do Marfim é o maior produtor mundial de cacau. A produção está na mão de pequenos produtores que ganham uma ninharia que mal os mantém acima do nível da pobreza. Uma estação de Web TV foi até uma pequena comunidade de cacau dar a provar uma barra de chocolate. Na Costa do Marfim (de onde o cacau não é originário) muitos dos produtores não fazem ideia que utilização é dada aos grãos de cacau. É emocionante ver o pequeno agricultor N'Da Alphonse a provar um pedaço de chocolate e correr para a aldeia para dar a provar uma barra aos anciões para que eles saibam para que serve o cacau. Do custo total de uma barra de chocolate 3% fica para o produtor e 43% são para as margens de venda

A reportagem pode ser procurada no YouTube em “First taste of chocolate in Ivory Coast”

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2226 - 27 de Junho de 2015

A FICÇÃO GREGA

PLUMA CAPRICHOSA






CLARA FERREIRA ALVES  

A FICÇÃO GREGA 
  
Os chefes europeus pretendem ajudar a Grécia, mas na verdade querem recuperar aquilo a que julgam que têm direito, o dinheiro emprestado 

Gatsby acreditava na luz verde, o futuro orgiástico que ano após ano encolhe em frente de nós. Escapou-nos uma vez, mas isso não importa — amanhã correremos mais rápidos, esticaremos os braços mais longe... E uma bela manhã —

E persistimos, barcos contra a corrente, arrastados sem paragem para o passado.”

Esta frase fecha o livro de F. Scott Fitzgerald “O Grande Gatsby”. No tempo do triunfo absoluto do dinheiro, calhou-nos assistir à dança da morte de gregos e europeus, remando incansavelmente para um passado extinto. A literatura podia aclarar as cabeças, mas esta Europa é a de um Sarkozy que chamou Stéphane Camus a Albert Camus e confundiu Roland Barthes com o guarda-redes Fabien Barthez. Os países comportam-se como pessoas e como personagens de ficção. Os países ricos agem como as personagens ricas de um romance de Balzac, “O Pai Goriot” ou “La Peau de Chagrin” (recuso a tradução “A Pele de Onagro”, porque chagrin é também desgosto), ou de Fitzgerald. E os países pobres comportam-se como um Rastignac ou um Raphaël de Valentin. Querem tudo o tempo todo e querem-no agora. Balzac e Fitzgerald são mestres na descrição da civilização do dinheiro, aquela que reduz a discussão e a vida a um confronto materialista entre os que têm e os que nada têm e absorve todas as propostas do espírito humano que escapam a tal tirania. Vivemos, no início do século XXI e do milénio, em tempos parecidos com os do brilhante século XIX parisiense e dos anos entre duas guerras da Jazz Age. Os anos da loucura e do desperdício, do barulho das luzes, da acumulação hedonística de capital e objetos. Aquilo que convencionamos chamar sociedade de consumo. Uma grega da média burguesia lamentava numa reportagem ter renunciado a comprar uma mala Prada anualmente. A mala Prada anual era tão importante como férias, viagens, conforto, comida. Era, simplesmente, parte da felicidade. A pobre mulher, que ainda não verificou os limites da sua destituição, acredita na luz verde. Não é a única. Ouvi o ministro grego da Economia dizer que depois deste “pacote” de ajuda a economia grega iria crescer. Um dos suportes do materialismo dos pobres é a crença na luz verde, uma crença romântica num futuro orgiástico. Neste caso, a Grécia nem pode remar para o passado, porque o único passado a que tem direito é o do tempo da pobreza. Do outro lado do canal, onde brilha a inacessível luz verde, os chefes europeus pretendem ajudar a Grécia, mas na verdade querem recuperar aquilo a que julgam que têm direito, o dinheiro emprestado. A figura do credor/agiota, que encontramos em Dickens e Balzac magistralmente descrita, é uma figura mais do que realista. É real. A Europa rica, com a sua Alemanha/FMI/Tom/Daisy Buchanan, a do poder do dinheiro inabalável, a da violência do tamanho e do título, comporta-se como agiota. E os países pobres, desgraçados e ambiciosos, olhando para lá do que têm direito a terem, comportam-se como Raphaël de Valentin, o herói de “La Peau de Chagrin”. Valentin encontrou uma pele rara que satisfaz todos os seus desejos mas que encolhe de cada vez que um desses desejos é satisfeito. Os países do Sul, durante anos de impensada prosperidade, desejaram o mundo enquanto a pele ia encolhendo. Havia um Rastignac em cada canto, sobretudo nos partidos, usando a política como forma de ascensão social, e havia um Vautrin em cada esquina, o mentor criminoso, o homem que sabe que o maior sucesso é o crime não descoberto. E que por trás de uma fortuna está um crime perfeito. Valentin queria, como Jay Gatsby queria, “viver no excesso”, julgando que basta a estratégia do sucesso e a entrada na alta sociedade (pela porta dos criados) para garantir a pertença. O mundo, um mundo exclusivamente material, torna-se a arena do combate da ambição contra a liberdade. A ambição ganha. A última parte de “La Peau de Chagrin” chama-se ‘Agonia’. Valentin morre exausto por um último desejo consumado, a pele encolhida de vez. Morre como morre Gatsby, vítima do darwinismo social que exclui os fracos que acham que por parecerem ricos são fortes. A pele da Grécia e de Portugal encolheu, a da Itália e da França, que padecem os mesmos vícios, não. Rastignac, de “O Pai Goriot”, reaparece em “La Peau de Chagrin” como mentor de Valentin, sendo um sobrevivente numa sociedade impiedosa.

Nada, nas conversações da dívida grega, fez sentido. A austeridade imposta pela Europa à corrupção oligárquica e ao clientelismo da Grécia adiava a miséria final. Na verdade, a Grécia já saiu da Europa, porque a Europa quer apenas sair da Grécia sem perdas catastróficas e sem sobressaltar os mercados. O futuro orgiástico que nos prometeram é como a pele que encolhe aos nossos olhos, é como a luz verde do outro lado da água — inalcançável. E continuamos a estender os braços, remando sem paragem para o passado.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2226 - 27 de Junho de 2015

A Grécia de joelhos e o mundo de pantanas








 Miguel Sousa Tavares


A Grécia de joelhos e o mundo de pantanas

1 Alexis Tsipras vai engolir o cálice até à última gota. Forçado pelos credores a inventar mais 8000 milhões de euros entre o deve e o haver, ele escolheu o mesmo caminho que Vítor Gaspar escolheu há dois anos: matar a economia com impostos para salvar o Estado. Assim julga poder poupar os mais fracos entre os fracos e defender as suas últimas bandeiras. É caminho garantido para o desastre a prazo e, ironicamente, são os credores que agora põem objecções. Mas como a intenção primeira é humilhar o Governo grego, as objecções não obstam à imposição da subida do IVA nas ilhas (sabendo que a Grécia é um país de ilhas a que o Estado deve solidariedade), e para o escalão máximo na restauração e hotelaria (sabendo que a Grécia já quase só vive do turismo). Por uma ou outra via, o majestático Eurogrupo sabe que a insistência numa política já duas vezes experimentada e com resultados desastrosos só pode desembocar em igual desastre: o castigo, mesmo que hipoteticamente justificado, não é uma política económica. Em breve, a Grécia estará outra vez em ruptura e a precisar de novo resgate. E, aí sim, será definitivamente a hora da verdade: ou a Grécia é abandonada à sua sorte ou a dívida é largamente perdoada, ficando a cargo dos contribuintes europeus a factura a pagar por terem safo a banca alemã, francesa e também portuguesa dos empréstimos concedidos alegremente aos gregos. Para submarinos, aeroportos, Jogos Olímpicos e outros luxos que tais.
 
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

O grande erro do Syriza foi pensar que iria encontrar apoio entre semelhantes. Renzi hesitou mas nunca se conseguiu definir; Rajoy vendeu qualquer veleidade de independência por um acordo feito debaixo da mesa que lhe permitiu receber toneladas de dinheiro sem a humilhação de ser oficialmente resgatado; Hollande foi o que se esperava e que ele próprio tinha anunciado: um “monsieur tout le monde” sem sombra de substância ou de relevância; e, de Portugal, a Grécia recebeu a mais feroz e invejosa oposição do Governo e do Presidente, acima de tudo desejosos de que não se fizesse prova de que a Europa poderia aceitar uma alternativa às políticas impostas pela troika — de que um foi entusiástico mandatário e o outro fiel avalista. E assim a Grécia sucumbiu ao pior da Europa: os holandeses, os finlandeses, os polacos, os neofascistas da Hungria e os alemães da estirpe do sr. Schäuble. E a libelinha emproada da Lagarde.

Mas mais depressa a Grécia acabará com a Europa do que a Europa acabará com a Grécia. A Grécia não é Portugal, como gosta de dizer o Governo, mas os gregos também não são os portugueses: em 150 anos, travaram cinco guerras e venceram-nas todas; correram com os turcos, resistiram aos nazis, e derrotaram, com a ajuda de Churchill, a tentativa de os transformarem em mais um satélite da URSS de Estaline. Um simples olhar ao mapa e à História poderia ter ensinado aos merceeiros europeus a importância geoestratégica decisiva que tanto a Grécia como a Turquia têm para a Europa e para o Ocidente. Mas a Europa preferiu bater com a porta na cara dos turcos e ameaçar os gregos com a expulsão se eles não se renderem e ajoelharem perante os visionários que agora mandam na UE. Ironicamente, à 25ª hora, só Angela Merkel percebeu o que está realmente em jogo.

2 Depois da anunciada brigada móvel da NATO para actuar no Leste da Europa, é a vez de os Estados Unidos também anunciaram um destacamento móvel, com artilharia pesada, para o Báltico e os Balcãs. O argumento é o mesmo e tão simples que até impressiona: a ameaça russa latente. E em que se traduz essa ameaça: os russos aumentaram o número de bases ou de tropas colocadas em países vizinhos, desde 91? Não, quem aumentou foi a NATO, que não pára de se encostar cada vez mais à Rússia. Os russos aumentaram as suas despesas militares? Não, quem aumentou foi a NATO, que tem um orçamento militar dez vezes superior ao da Rússia. Em que consiste então a ameaça? Na simples hipótese de ela poder vir a existir — eis a resposta que dão. Mais a Crimeia e os Donetsk, que são casos particulares e histórias mal contadas. Lembram-se da crise dos mísseis de Cuba, em 63, que esteve à beira de desencadear a terceira guerra mundial? A única diferença para agora é que, por enquanto, não há notícia de armamento nuclear deslocado para o Leste da Europa. Por enquanto, e enquanto os russos acreditarem nisso.

3 Reunidos em Cimeira Ibérica, Rajoy e Passos Coelho, chefes de Governo de dois países que ainda caminham no fio da navalha, não encontraram nada de mais oportuno do que escrever uma carta conjunta a Bruxelas onde fazem a apologia da indústria de armamento como “campo fundamental para o desenvolvimento tecnológico e inovação”. E o nosso PM, que se queixa de que não há dinheiro para nada e é preciso ser intransigente no cumprimento das regras do Pacto Orçamental, roga a Bruxelas que “considere opções para isentar estes investimentos dos limites impostos aos défices nacionais”. A ameaça russa está primeiro!

4 Com a sua primeira encíclica, “Laudato Si”, o Papa Francisco propõe um verdadeiro aggiornamento da “Rerum Novarum”, de Leão XIII. Não são apenas as desigualdades sociais e económicas que ele excomunga, mas também a pilhagem dos recursos naturais do planeta por um sistema económico que se baseia na produção de bens supérfluos para os ricos e na escassez de bens essenciais para os pobres. É a tal “economia que mata” — que mata duas vezes, hoje e para amanhã. O discurso do Papa não encontrará seguidores, nem dentro do mundo da finança que controla toda a riqueza mundial, nem em Davos ou nos fóruns onde os grandes do mundo planeiam a pilhagem e dividem o saque, nem entre os empresários devotos de sacristia, nem dentro da própria estrutura da Igreja Católica. Porque o que ele propõe é uma revolução, de alto a baixo. E ninguém está disposto a aceitar que essa possa ser a vontade de Deus.

Mas mais depressa a Grécia acabará com a Europa do que a Europa acabará com a Grécia

5 Quinze jovens reuniram-se numa casa em Luanda para discutirem o seu país. Foram presos (e, ao que parece, espancados e torturados) pela polícia, sob a acusação de “flagrante delito” do crime de “conspiração para alterar a ordem e a paz pública”. A cleptocracia angolana é um insulto continuado à decência e à inteligência. Quando será que se darão por satisfeitos? Que terão um estremecimento de remorso perante o seu povo e de pudor perante o mundo?

6
Nos dias que passam, nada se cria e nada se perde, tudo se vende. Até o Oceanário de Lisboa — que dá lucro, cumpre a sua função e não incomoda ninguém. A venda da sua exploração ao Grupo Jerónimo Martins vai permitir manter activa a Parque Expo — essa sim, uma empresa que para nada serve, excepto para se manter em funcionamento acumulando prejuízos, catorze anos depois de solenemente garantida a sua extinção.

Foi com prazer que vi parte dos meus impostos ser aplicada na Expo-98 e, designadamente, no Oceanário — um raro momento de orgulho e de qualidade a que não estávamos habituados. Mas, agora que o Governo vai dar o ‘meu’ Oceanário a privados, eu quero de volta a parte correspondente dos meus impostos ali investidos. Acho que é mais do que justo: se pago para coisa pública que depois o Governo vende a privados, parece-me evidente que fui aldrabado. Façam o favor de me dar de volta o que me cabe do negócio do Oceanário — nem que seja uma raiazinha, para eu pôr na banheira e ficar a contemplar em noites de nostalgia.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2226 - 27 de Junho de 2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir na Existência


Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir na Existência


Título original: En duva satt på en gren och funderade på tillvaron

De: Roy Andersson

Com: Holger Andersson, Nils Westblom, Viktor Gyllenberg

Género: Comédia Dramática

Classificação: M/12

Outros dados: NOR/ALE/SUE/FRA, 2014, Cores, 101 min.

Jonathan e Sam são dois vendedores ambulantes, a viver numa casa abandonada, que reflectem sobre a vida, a morte e a inevitabilidade do sofrimento. O filme decorre em vários "sketches" que, segundo o realizador, Roy Andersson, "consistem numa série de histórias quotidianas e fora do normal que retratam a nossa existência em toda a sua grandeza e pequenez, beleza e tragédia, exagero e tristeza – com uma visão panorâmica, como se fossem contadas por um pássaro a reflectir sobre a condição humana”.

Uma comédia negra sobre o peso da existência, que completa a "Trilogia dos Vivos", iniciada em 2000 com o filme Canções do Segundo Andar e continuada em 2007 com Tu Que Vives. Estreado na 71.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, "Um Pombo Pousou num Ramo a Reflectir na Existência" foi galardoado com o Leão de Ouro. PÚBLICO




SER HUMANO É CÓMICO E TRÁGICO

Da Suécia chega um humor frio, formalista, surreal, cruel, de uma absoluta singularidade. Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2014

Texto Jorge Leitão Ramos


Nils Westblomn o “realismo obsessivo” de Roy Andersson

Dois homens vivem de comerciar artigos carnavalescos. Não têm muita variedade na mala de cartão que transportam consigo, só dentes de vampiro, sacos de gargalhadas e máscaras de látex (o ‘Tio-de-um Dente-Só’) — e o ar bisonho que trazem no rosto, de uma quase desesperante melancolia, também não é muito favorável ao negócio. Mas eles insistem, eles querem ajudar as pessoas a divertir-se, proclamam. Sem sucesso algum. Mas, entretanto, conduzem-nos por uma infinidade de espaços e situações, umas banais, outras excêntricas, e revelam-nos um mundo onde o mais horrível é a sombria adjacência entre a trivialidade e o grotesco, a solidão e a multidão, a vanidade da vida e a infalibilidade da morte. Tal como os seus personagens, o sueco Roy Andersson não nos faz rir, em gargalhada, mas faz-nos sorrir, às vezes um riso casquinado, como quem quer afastar uma assombração, um farrapo de medo, às vezes só rimos por dentro. É que aquele mundo absurdo que ele constrói até ao mais ínfimo detalhe, não existe em lado algum, mas é o nosso mundo, reconhecemo-lo, tal como reconhecemos o nosso rosto numa galeria de espelhos deformantes.

Para lá do riso — ou concomitante com ele, já que a profundidade de campo é uma das alavancas deste humor — o espectador tem a grata liberdade de poder ter um olhar largo sobre o ecrã. Andersson constrói cada plano como um quadro, com uma invariável justeza de composição. Falo de volumes, de linhas, de pontos de fuga, de uma geometria que se exibe, como uma glória formal que nos embevece. Então, num certo lugar, está o que podemos considerar o centro da ação. Mas há sempre um pormenor do cenário que nos apela, pessoas lá ao fundo que nos desviam, uma porta que abre para outro espaço onde está alguém ou acontece alguma coisa, uma janela que deixa ver não sabemos bem o quê — e o nosso olhar erra por ali. E essa errância é um prazer, porque vamos descobrindo coisas — como nos quadros detalhistas de Dalí. Não é estulto invocar aqui o pintor surrealista catalão, já que a deformação do mundo que Roy Andersson trabalha bem se pode avizinhar da que o génio de Figueres operava. Com uma essencial diferença: o cinema de Andersson é, figurativamente, de um realismo obsessivo. A respiração surreal é uma coisa que vem de dentro, do nonsense de alguns diálogos, da repetição verbal de lugares-comuns, da incongruência de uma situação. Depois, é extraordinário como, em pleno reino do sarcasmo, o cineasta consegue provocar emoções. É o caso do surpreendente canto no bar, em 1943, quando se trocam shots por beijos, já que os marinheiros dinheiro não têm ou a estranhíssima sequência da máquina com enormes cornetas onde se metem escravos negros — e que depois é posta sobre chamas, a rodar, com eles lá dentro. Em verdade vos digo, há um frémito que perpassa e dura.

De Roy Andersson já estreara, em Portugal, em 2011, “Tu Que Vives” com mitigada receção. Agora, esse filme e “Canções do Segundo Andar” (Prémio do Júri em Cannes, 2000), o primeiro da trilogia que ora se encerra, entram em exibição ao mesmo tempo que “Um Pombo Pousou Num Ramo a Refletir na Existência”. Excelente oportunidade para o público tomar contacto com o universo de um dos mais originais criadores cinematográficos do nosso tempo. Ainda por cima, não esquecer, é para rir!

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2226 - 27 de Junho de 2015

domingo, 21 de junho de 2015

O Pasmatório dos Lóios





O Pasmatório dos Lóios

Onde os políticos apareciam para expandir as suas ideias

 

Em 27 de janeiro de 1842, deu-se no Porto uma revolução lidera­da por Costa Cabral para pro­clamar a Carta Constitucional que havia sido abolida em 1836. António Bernardo da Costa Ca­bral era, então, ministro da Justiça. Chegara de véspera ao Porto, a pretex­to de tratar de assuntos particulares. Mas ainda no dia da chegada assistiu, no Teatro de S. João, a um espetáculo onde, repetidas vezes, se cantou o hino da Carta.

Na manhã do referido dia 27, houve um desusado ajuntamento de políticos locais na então chamada Praça de D. Pedro e no fronteiro Passeio das Car­dosas, também chamado Pasmatório dos Lóios e, ainda, Clube dos Encosta­dos.

A revolta, propriamente dita, ocor­reu no interior do edifício, onde ao tempo funcionava a Câmara Municipal, e consistiu na restauração da Carta Constitucional. E por causa do local onde aconteceu, passou à história como a "Revolta da Praça" ou a "Revol­ta do Pasmatório".

E o que era, afinal, o Pasmatório? -pergunta o leitor curioso e com toda a legitimidade. Vamos à história.

Ao findar o século XV, mais concre­tamente no ano de 1490, os cónegos seculares de S. loão Evangelista, vul­garmente conhecidos pelos frades Lóios, construíram o seu mosteiro, da parte de dentro da cidade, encostado ao muro, no sítio então chamado da Fonte da Arca. Fonte da Arca designava o local onde havia, precisamente, uma fonte que ficava, sensivelmente, no sítio da cabina que foi da antiga Companhia Carris, foi depois da STCP e hoje é um posto de turismo.

O muro era, como facilmente o leitor já constatou, a parte que por ali passava da Muralha Fernandina.

A Fonte da Arca foi mandada fazer pela Câmara no ano de 1682. O melho­ramento tornou-se de tal modo rele­vante para a cidade, que todo o local envolvente se passou a chamar da Fonte da Arca.

Diante da fonte, corria o tal muro da cidade. E junto dele, desde a esquina que ia da Porta de Carros, em frente à Igreja dos Congregados, até ao postigo de Santo Elói, na esquina com o atual Largo dos Lóios, havia dezenas de ven­dedores e vendedeiras de roupa feita e usada que guardavam a mercadoria em caixas de madeira, suspensas de gan­chos de ferro espetados nas frinchas existentes entre as pedras da muralha. Viria a ser este sítio que, muitos anos mais tarde, tomaria a curiosa designa­ção de Pasmatório dos Lóios.

Aconteceu, entretanto, que os vende­dores de roupa feita trocaram o local junto do muro pelo espaço envolvente da Fonte da Arca, criando ai um arrua­mento novo, a que foi dado o nome de Rua de Entre Vendas, ou seja entre lo­jas.

Os frades evangelistas, por seu lado, começaram a construir um novo edifí­cio, mas agora da parte de fora da mu­ralha. Veio a guerra civil entre constitu­cionais e absolutistas. D. Pedro IV entra no Porto à frente dos Bravos do Minde­lo, em 1832. Os frades Lóios fogem e deixam as obras do seu convento a meio.

No antigo edifício das Cardosas funciona agora o Hotel Intercontinental

Com a vitória dos liberais, o mosteiro é vendido ao capitalista Manuel Cardo­so dos Santos, com a condição de ele acabar as obras. O que faz. Mas morre logo a seguir. O imóvel passa para a viúva e filhas, e começa a ser conheci­do como o palácio das Cardosas, em analogia à mulher e filhas do Cardoso.

Dez anos mais tarde, aquando da re­volução de Costa Cabral, ao passeio que se estendia ao longo da fachada do an­tigo edifício do convento dos Lóios já se dava o nome de Pasmatório dos Lóios. Porque era ali que os lojistas, literatos, jornalistas e demais cidadãos pasma­vam com as novas que os políticos lhes contavam. E um dos mais assíduos era José da Silva Passos, que vivia na Viela da Neta, uma velha artéria da cidade que desapareceu quando se construiu a Rua de Sá da Bandeira. Foi, pois, no Pasmatório dos Lóios que Costa Cabral çongeminou a revolução de 1842.
 
Já no dealbar do século XX o antigo Pasmatório dos Lóios era mais conheci­do por Clube dos Encostados. A origem desta pitoresca designação tinha a ver com um hábito daquele tempo protago­nizado por um elevado número de indi­vidualidades que, antes da hora do jan­tar, envergando casaca e chapéu alto, se juntavam no antigo passeio das Car­dosas e por ali ficavam, encostados à parede, horas e horas a conversar.

Em 1908, durante uma visita que fez ao Porto, o rei D. Manuel II assistiu, a cavalo, ao desfilar, na praça, de uma parada militar. A montada do rei esteve exatamente no sitio onde costumavam reunir os do grupo dos encostados, que, a partir daí, passaram a usar o títu­lo real: Real Clube dos Encostados. •


A história do botequim Guichard
 

O Pasmatório dos Lóios não era, na antiga Praça de D. Pedro, hoje Praça da Liber­dade, o único sítio por onde os políticos da época se passeavam procurando conquistar adeptos para as suas causas, com a divulga­ção das suas ideias políti­cas. No lado oposto, junto à Igreja de Santo António dos Congregados, ficava um ou­tro passeio, precisamente o dos Congregados, também dedicado à pasmaceira, mas frequentado quase que ex­clusivamente por intelec­tuais, como poetas, jornalis­tas, escritores públicos e professores. Era à porta do famoso botequim Guichard (na esquina do edifício, na foto em cima) que essa gen­te se reunia, não tanto, como seria de esperar, para uma aberta e salutar troca de ideias, mas principal­mente para alimentar lon­gas e inúteis discussões acerca das vantagens ou desvantagens deste ou da­quele partido.
JORNAL DE NOTÍCIAS, 21 JUN, 2015

sábado, 20 de junho de 2015

A 10.000 metros de altivez








Miguel Sousa Tavares


A 10.000 metros de altivez

1 A bordo de um avião da TAP, a caminho de uma viagem de Estado à Bulgária, o Presidente da República achou a ocasião própria para declarar um “alívio” a venda da companhia aérea.

Como vem sucedendo ultimamente e com uma frequência preocupante, também desta vez Cavaco Silva perdeu uma excelente oportunidade para guardar silêncio ou ponderar melhor o alcance do que disse. Primeiro, por respeito à tripulação daquele avião e a todos os trabalhadores da TAP, que vivem tempos de incerteza e instabilidade que certamente o Presidente não pode dissipar. Depois, por respeito às gerações de portugueses, residentes e emigrados, que andaram ao colo da TAP e com a TAP ao colo, sustentando-a com a sua fidelidade e com o seu dinheiro (500 milhões, por exemplo, no governo do dr. Cavaco Silva) e que a consideravam coisa sua — agora vendida sem lhes dar cavaco.

Ao considerar a venda da TAP um “alívio”, o Presidente ou conhece os termos do contrato ou assina de cruz a decisão do Governo

Ao considerar a venda um “alívio”, o Presidente deixou insinuada uma de duas coisas: ou que conhece os exactos termos do contrato de venda (que ninguém mais, excepto o Governo, conhece) ou que, mesmo desconhecendo-os,
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
assina de cruz a decisão do Governo. Na primeira hipótese, é notável para quem está há dois anos a reclamar consensos e, pelos vistos, não se importa e é solidário com um negócio feito no desconhecimento e contra a vontade do maior partido da oposição e da totalidade dos donos da empresa: os contribuintes. Na segunda hipótese, o apoio entusiástico de Cavaco Silva a um negócio cujos contornos desconhecerá e não poderá avaliar, significaria apenas um passo — mais um — na direcção de apoio incondicional que vem dando ao Governo em funções, a quatro meses das urnas. Lamentável, mas já sem surpresa para ninguém.

Aliás, lá em cima, a 10.000 metros, ponderando sobre as críticas recebidas a este propósito, Sua Excelência declarou-se também absolutamente indiferente a elas, com o “ego satisfeito” que lhe dão as quatro maiorias absolutas recebidas ao longo destas penosas duas décadas em que ocupou o topo do Estado. É assim que ele reflecte sobre os dados referentes ao crescente descrédito com que uma maioria consistente de portugueses analisa o seu desempenho. Mas está de saída, já não lhe importa o que os portugueses pensam sobre ele. A seu tempo, tratará de cuidar para que a historiografia oficial registe apenas o que lhe interessa. E, daqui até ao final do mandato, não é provável que Cavaco Silva tenha de abdicar, em visitas de Estado, de aviões fretados à TAP sob a insígnia “Air Portugal”, que certamente prefere a aviões fretados à EasyJet ou à Balkan Airlines. O que não faltou a Cavaco Silva foram motivos de alívio.

2 Já com os pés bem assentes na terra da Bulgária, Sua Excelência aproveitou também uma pergunta de circunstância para azucrinar os gregos e o seu Governo. Fica-lhe mal, é feio bater em quem está por baixo e melhor teria feito em deixar essa tarefa para o seu Governo, pois que a representação do Estado não se adequa com o envolvimento nas questões dos governos europeus. Aliás, deverá ter acreditado no desonroso acontecimento a que assistiu, quando, noutra visita de Estado à República Checa, tinha Portugal acabado de pedir ajuda externa, ouviu, em silêncio, o anfitrião checo criticar, em termos ofensivos, os portugueses e o seu Governo. O novo-riquismo é sempre uma coisa feia de ver.

3 Felizmente, tenho fundadas razões para crer que as palavras de Cavaco não chegaram à Grécia e ao seu Governo — com coisas bem mais importantes em que pensar por estes dias. Ou, se chegaram, terão produzido o mesmo efeito que as críticas internas produzem em Cavaco Silva, segundo o próprio: nenhum.

Esta quinta-feira à tarde, em Atenas — no que se anunciou como o último dos dias D para a Grécia —, enquanto o Eurogrupo discutia no Luxemburgo o futuro dos gregos na Europa, o céu ficou subitamente cinzento e a chuva começou a cair, augurando más notícias, depois de dias de sol e calor tórrido. Mas, passadas umas duas horas, o sol estava de regresso, as colinas de Atenas e a da Acrópole estavam outra vez nítidas, como estava o mar do Pireu, para lá delas, e o Parténon vigiava do alto da cidade, lembrando que aqui começou a Europa dos valores que são os nossos. No ar, havia de novo um horizonte de ilhas, de ciprestes e de oliveiras, a inteireza do mundo mediterrânico que será para sempre a melhor civilização que o homem conseguiu criar.

O clima refletia a incerteza destes dias, entre a chuva e o sol, a descrença e a esperança. De um povo que, como me contava uma jornalista grega, se habituou a viver há meses com o seu destino suspenso — não já dia a dia, mas hora a hora.

A única certeza é que 84% dos gregos querem continuar na UE e no euro. Mesmo que critiquem os excessos de linguagem e de arrogância, apoiam maioritariamente o Governo do Syriza — não pelo que conseguiu, mas pelo que tentou. Por ter tentado, por ter resgatado o orgulho da Grécia. Sabem que cometeram erros e leviandades e que estão a pagar por eles. Mas também acreditam que a receita dos credores é um caminho de empobrecimento sem saída.

No centro de Atenas há menos trânsito e muito menos turistas do que eu guardava memória. Quer ali quer na periferia, não vi gente parada ou a vaguear sem destino: aparentemente, a vida continua como sempre. Não há sinais evidentes quer de miséria quer de riqueza (o parque automóvel é bem mais pobre do que o nosso e metade dos gregos desloca-se de moto). Os fins de tarde e a célebre vida nocturna da cidade já não são senão um resquício na zona da Plaka. A maior parte das pessoas está em casa, em frente à televisão. À espera que lhes digam se o seu futuro está a Leste ou a Ocidente, como tantas vezes sucedeu na história milenar desta terra. Por muito que os teóricos e os economistas se esforcem por dar lições sobre o que é e o que deve ser a Europa, a história continuará a ser sempre a chave de todos os entendimentos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2225

A MANA VENDEU A TAP

PLUMA CAPRICHOSA








CLARA FERREIRA ALVES
 
A MANA VENDEU A TAP 
Agora é meter mãos ao trabalho, sobra muito negócio a tratar, muita letra pequena, a ver se alguém se chega à frente com a massa da dívida 
Os dois cavalheiros mediram-se mutuamente do alto do seu metro e meio. Mediram-se com açúcar e afeto, depois do embate das Quatro Assoalhadas Advogados com a Abriu Advogados. Caramba, ganhou o melhor. Fonte presente na reunião disse ao jornalista: ele era o brilhozinho nos olhos, ele era a paixão, o entusiasmo, a estrutura, ele era tudo. O Nihilman é tudo menos nihil. É um man, disse a fonte um tudo nada azougada com a recordação da venda da companhia-traço-bandeira. O man já tinha todas as “Histórias de Portugal” em vários volumes, do Oliveira Martins ao Mattoso, do Alexandre Herculano ao Magalhães Godinho, do Rui Ramos ao Fernando Rosas. Mais as enciclopédias em segunda mão, as “Décadas da Ásia” do Barros e as “Crónicas” do Lopes. Leitura de férias, porque gerir uma empresa falida ia dar muito trabalhinho, era preciso reunir com o resto dos brasileiros e ver o que se tirava dali. A companhia tinha sido barata, dada. Aturar trabalhadores, pilotos, perdigotos, enfim, era preciso não entrar numa fria. Havia que partir o bolo em fatias fininhas e distribuir.

Os dois cavalheiros estavam habituados a encontrar-se nestes palcos, das renováveis à compra e venda de estalinhos, serpentinas e foguetes tudo lhes passava pelas mãos, e depois tinham a vantagem suprema do spinning porque um dos cavalheiros, talvez o mais baixinho dos dois, não é certo, tinha um programa de televisão onde anunciava ao Portugal dos Pequenitos as medidas da semana, a agenda ministerial, os recaditos e, de um modo geral, o que se precisasse. Se é para o xôr Dom Fradique… Ainda por cima pagavam-lhe. O outro tinha a reputação de pertencer a um partido que era contra a venda da bandeira aérea mas isso nunca fora obstáculo aos negócios das Quatro Assoalhadas não só porque ele era o homem mais inteligente do partido mas também porque havia quem no partido jurasse que ele era o único homem inteligente do partido. Isto dava-lhe muito campo para fazer o bem e pegar no telefone. Caramba, era assim que a democracia se fizera, com trabalho e muito içar de pulso de homens como ele, homens de grande estatura teórica. Ultimamente, e para o prejudicarem, tinham falado no partido em lançá-lo como candidato a Belém mas não era coisa que lhe interessasse. A ideia de fazer qualquer coisa pelo país que não lhe fosse pessoalmente proveitosa horrorizava-o e além disso tinha inimigos que não viam com bons olhos a alma comercial a servir destino presidencial, tanto mais que andava por aí o vírus da ética. A ética não se come. A ética não alimenta. A ética não é democrática. O outro cavalheiro da Abriu, que se fartava de abrir portas, sabia isso tão bem como ele. Eram os dois do que de melhor o sistema político-partidário do centrão tinha produzido na pátria mas a pátria era mal-agradecida e achava que se fazem omeletas sem ovos. Quem não tem cão caça com gato, era o que era. Estavam numa de aforismos, estas ocasiões negociais davam sempre para a beatitude e a beatitude negocial conduz ao aforismo. Ao provérbio. À anedota. A companhia aérea era um buraco, uma cratera, uma fossa mais funda que o Mindanao, dez mil metros abaixo do nível do mar. Buraco para onde a tinham atirado todos enquanto se passeavam pelo mundo em executiva e primeira a servir o país em missão patriótica. Talvez o negócio do Brasil tivesse contribuído, mas que diabo somos dois povos irmãos e a trapalhice é a mesma, a incompetência igual, a bajulice semelhante. Quem iria notar as diferenças? E o Nihilman injetaria nesta parvoíce não apenas o seu gene americano, o gene do business, como o seu bom aspeto nórdico, o seu olho azul e apaixonado, a sua extensa cultura histórica de Portugal. O homem até sabia o que era o esternocleidomastoideo. Tinha sido um belo combate entre os dois escritórios mas ganhara o socialista, os socialistas são homens para grandes combates. E tinha o melhor candidato. O judeu polaco colombiano brasileiro era portador assintomático de demasiados passaportes. Os portugueses ouvem falar em americanos e ficam aos pulos: temos dono! (Porra, esquecemo-nos do Barraqueiro!). Agora é meter mãos ao trabalho, sobra muito negócio a tratar, muita letra pequena, a ver se alguém se chega à frente com a massa da dívida. O Estado, a ver vamos… O Estado é rico e o contribuinte insanamente generoso. Depois das eleições. Mas todos estavam felizes. O Presidente aliviou-se. O mano da senhora do Governo que entrara na negociação até escreveu no Facebook, nimbado de orgulho: a minha irmã vendeu a TAP. A mana. Que bonito. Portugal é uma família feliz, daquelas que como diz o Tolstoi não têm história e não interessam nada. Pensou nisto o mais inteligente dos dois. O outro nem sabia quem era a Ana Karenina.

Nota: Com um agradecimento ao Pedro Santos Guerreiro e ao seu maravilhoso artigo no Expresso online, no passado dia 14 , “Vitorino bate Marques Mendes na venda da TAP”.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2225

DE FRALDAS EM LISBOA

HÁ HOMEM








LUÍS PEDRO NUNES

 
DE FRALDAS EM LISBOA

antónio pedro ferreira

É o fim do turismo. As abjetas stag parties são apenas um sinal

Ainda não comi o tal do pastel de bacalhau com queijo da serra. É vendido ali para a Rua Augusta, Lisboa, como se fosse algo tradicional português numa casa que finge — mais ou menos — ter sido aberta em 1902 mas que foi inaugurada em maio deste ano. Nada disso é grave.

O tal pastel com queijo tornou-se em poucas semanas o símbolo do que está errado no turismo de Lisboa. Uns dizem que demonstra como sacar uns euros aos estrangeiros num vale tudo — a casa é odiada pelo “mau gosto”, pela profanação da verdade. A próxima receita tradicional deverá ser “tripas com doce de ovos”, há quem avente. Outros louvam o empreendedorismo de quem teve a ideia. É o mercado a funcionar: o estabelecimento está sempre cheio e os estrangeiros adoram morder aquilo e lambuzar-se. Há quem diga que toda a Baixa de Lisboa se está a transformar numa Disneylândia para turistas (low cost) e o Centro, em geral, numa imensa Albufeira/anos 80. Eu que vivo ali confirmo. E acuso: está tudo caladinho porque ninguém quer discutir o modelo turístico num momento de campanha eleitoral. Sim. Há cérebro cool da área de António Costa que teme mexer no assunto. Está mal. Porque se trata de uma responsabilidade que implica Câmara e Governo e os ultrapassa. Lisboa caminha para a tragédia turística. E ninguém se parece dar conta que em menos de um ano o tipo de turismo (oferta/procura) teve uma mudança drástica a rasca. Ah, não faz mal, Lisboa “está na moda”. Ah, desde que dê para “sacar uns euros”. Vai acabar mal, claro.

Há coisa de dois, três meses, comecei a ver nas ruas do centro de Lisboa as primeiras “stag parties” de ingleses. Tratam-se das festas de despedida de solteiro em que o noivo anda vestido de forma ridícula, muitas vezes de fralda. Este é o sinal de alarme de uma cidade. Quando se torna o destino destas palermices deve parar-se e refletir. É como ter chatos. Pode-se ignorar por algum tempo. Mas é sinal que se fez asneira. E vai chegar um momento em que vai ficará insuportável. Garanto.

As cidades que têm o azar de ter na rifa estas “stag parties” (até agora eram essencialmente locais como Riga, Vilnius, Kiev...) desenvolvem toda uma indústria de apoio como limusines com strip, uma multitude subtemas de bebedeiras, variações sobre mamas com champanhe, reenchimento de testosterona matinal com paintball ou sessões de tiro com armas automáticas verdadeiras (AK-47) e, claro, alguma pancadaria na noite para animar. É possível que as agências de viagens especializadas já proporcionem alguns destes serviços por cá. A “Slate”, talvez a melhor revista digital do mundo, esta semana, ao escrever sobre sardinhas e Lisboa, explicava o atual sucesso da cidade no parágrafo inicial, dado que nem temos uma cena noturna assim tão vibrante: “Álcool barato e leis da droga permissivas”. Sim: é este um dos slogans que parece estar a ser ventilado boca a boca, digamos. Não é a “cidade branca” ou a “cidade da luz”. É mesmo cerveja e coca acessíveis. Deve chegar para uma stag boa. Acho.

Sejamos fadistas. Lisboa vendeu-se como uma pega reles nos últimos meses. É pena que haja tanta gente que se cale. Que não coloque em causa se é assim tão bom ter cinco navios de cruzeiros que pagam estacionamento e vomitam milhares de turistas mija-e-foge junto aos tuk tuks terceiro-mundistas para irem à Rua Augusta travestida de “disneypapalvo”. É este tipo de visitante que Barcelona ou Veneza está a expulsar.

É o tal mercado a funcionar? Nem isso. Os serviços de esplanada continuam a ser abaixo de cão, os taxistas cozem no cheiro a bufas velhas dentro dos carros, e os putos da Baixa vendem Knorr em vez de haxe.

Só o bacalhau é mesmo bacalhau e o queijo é mesmo queijo no tradicional pastel de 1902. Mais ano menos ano.


MODERNICES

Barba encerada

Os portuguesíssimos Barba Brada já tinham os seus óleos orgânicos para a barba – um kit de três frasquinhos em que, pela manhã, se escolhe um aroma, deitam-se umas meras gotículas na palma da mão e, assim, hidrata, amacia e perfuma a pilosidade facial, domando-a para poder ser cofiada durante o dia. Agora lançaram a cera para a barba, que permite dar um toque arrumado profundo e até “penteado”, caso tenha já um tamanho de pelo na venta que permita esse tipo de loucuras.

http://www.barbabrada.com

Fechadura temporária
 
Esta “fechadura temporária” parece um produto sem interesse e é vendido na Amazon por pouco mais de 20 euros. Mas o modo como foi apresentado em sites trendy faz-me trazê-lo aqui. É (apenas) uma pecita que permite trancar a porta por dentro. Nada de especial. Contudo, com o ar do casal da publicidade, a parecer que estão em vias de cometer um qualquer ato carnal ilícito, faz acreditar que ter uma coisa dessas pode ter grande utilidade.
 

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2225 - 20 de Junho de 2015

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