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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Guilhermina Adelaide, a gatuna pianista


Guilhermina Adelaide, a gatuna pianista

Retrato robô de Guilhermina Adelaide, que ficou conhecido por "A Pianista" ou "A Cepa", concebido a partir de escassa descrição e um retrato antigo  - João Roberto

Roubava o que estava à mão enquanto dava lições de piano. Como nunca foi apanhada, passou a atacar ourivesarias. E começou a dar nas vistas, apesar de se conseguir safar atirando as culpas para o filho. Foi presa várias vezes, mas o pior aconteceu quando se ligou ao Mesquita. Este é o segundo caso da série “Crime à Segunda”, que o Expresso está a publicar sobre criminosas portuguesas
Anabela Natário , João Roberto

Acontecia a mãe bater-lhe, mas José António sabia que era apenas para evitar que chamassem a polícia. Guilhermina Adelaide, mais conhecida por "a pianista", usava o filho menor nos roubos de roupas, tecidos e joias que depois vendia ou empenhava. Presa por diversas vezes, conseguiu livrar-se de ir a julgamento até que arranjou um amante e... foi degredada.

O país andava entusiasmado com os últimos acontecimentos no Parlamento: na sessão de sábado 7 de maio de 1887, um deputado exaltado dera uma bofetada ao ministro da Marinha quando se discutia o incidente com marinheiros bêbedos no Arsenal. A dada altura, Henrique de Macedo, de 44 anos, levantou-se para proferir na cara de Ferreira de Almeida, de 40: "Não tenho medo do senhor, nem aqui nem lá fora". Disse-o por três vezes. Nas duas primeiras, o deputado respondeu-lhe por palavras, à terceira foi com a mão.

Seis horas depois, o autor da bofetada era metido na cadeia por quatro meses. A ordem de prisão foi assinada pelo próprio ministro do governo do Partido Progressista. Perguntará o leitor: e o que é que resultou deste "estranho incidente"? "Um ministro fora do poder e um deputado fora da Câmara: um conselheiro da coroa saído dos conselhos da dita coroa, e um oficial de marinha encarcerado nos ferros de el-rei: dois homens ao mar", lê-se numa crónica na revista literária e artística "Ilustração Portuguesa", de maio de 1887, em que se critica ainda o facto de o deputado estar preso "sem culpa formada e sem intimidação de culpa".

O deputado da oposição, também oficial da marinha, no tempo do rei dom Luís e do "primeiro-ministro" José Luciano de Castro foi detido mais rapidamente do que Guilhermina Adelaide, cuja prisão o matutino "O Século" apenas noticiaria dois dias depois. Há muito que esta professora de piano, bem vestida, elegante e simpática roubava casas e lojas lisboetas. Todavia, até à véspera do dia da bofetada, conseguira passar despercebida.


Era "uma industriosa", como titularam os jornais, mas foi um sinete de ágata com incrustações de prata dourada, no valor de cinco libras, que a tramou. Nos primeiros dias desse mesmo mês de maio, o senhor Coimbra, que possuía um bazar na rua do Alecrim, em Lisboa, fez queixa à polícia de que lhe desaparecera um desses objetos com que se imprimia no lacre brasões ou iniciais para autenticar ou garantir a inviolabilidade de cartas, encomendas e afins.

O cabo Loureiro, encarregado de investigar o furto, percorreu os caminhos habituais dos ladrões e encontrou o sinete no ourives Abranches, que lhe explicou tê-lo acabado de comprar (por menos de metade do valor) a uma mulher que prometera voltar para lhe vender uma medalha e outros objetos, os quais disse estarem empenhados e serem de uma senhora muito nobre, como conta o "Diário Ilustrado".

Guilhermina voltou à ourivesaria no dia seguinte, conforme previsto, mas o negócio saiu-lhe mal. Abranches chamou o cabo e a professora de piano e bordados foi detida. E levada para o Governo Civil, onde a apalpadeira - era tempo sem mulheres-polícia - lhe descobriu "uma cautela do Montepio Geral" referente a um alfinete de ouro com brilhantes que empenhara depois de o surripiar.

Palavra passa palavra, e outros comerciantes começaram a perceber como é que estavam a ser roubados, em especial os ourives da rua Larga de S. Roque (atual rua da Misericórdia) e da Praça de Dom Pedro V (Jardim do Príncipe Real), as maiores vítimas da pianista. Guilhermina Adelaide, acompanhada do filho de dez anos, entrava numa loja, fosse de ouro e prata ou de fazendas, dizia querer ver determinada coisa, depois ia pedindo mais; no ínterim, enquanto o caixeiro ia e vinha, o rapaz guardava no bolso o que a mãe lhe indicava.

Guilhermina Adelaide ia dizendo ao lojista ter sido "encarregada da escolha por uma pessoa de alta posição", para justificar no final porque não comprava nada, após lhe exporem tanta mercadoria no balcão - alegava que andava só a ver para informar eventuais compradores. A maior parte dos comerciantes, ludibriados sem no imediato se aperceberem, apenas a considerava uma "freguesa maçadora".

Se o comerciante ou o caixeiro, como se denominava o empregado de balcão, desconfiava do miúdo ou dava pelo furto, "a mulher ralhava com o filho, chegando mesmo a bater-lhe, mostrando-se muito indignada, pedia desculpa, e retirava-se em paz. Quando não davam pela maroteira punha-se a andar tendo feito um bom negócio", lê-se no "Diário Ilustrado" de 7 de maio de 1887.

PRESA, SOLTA, PRESA, SOLTA... SEMPRE LADRA

Do Governo Civil, Guilhermina Adelaide, de 27 anos, foi transferida para o Aljube e a criança para o antigo convento das Mónicas, transformado em casa de correção de rapazes, já que não apareceu ninguém para pagar a fiança. Dez dias volvidos, a professora estava cá fora, retomando a sua vida normal, ou seja, o crime. Cinco meses depois, a 6 de setembro, mais ou menos quando o esbofeteado ex-ministro da Marinha resolveu desafiar para um duelo o deputado Ferreira de Almeida, é presa de novo, suspeita de "uma fornada de crimes".

Desta vez, a segunda, a professora esteve no Aljube sete dias. Ao que parece, tinha uma certa ligação com um advogado cheio de arte que conseguia desfazer o processo antes de o escrivão o organizar a tempo de não ultrapassar os oito dias de prisão preventiva. "Seja como for, a verdade é que a criminosa tão depressa era presa pela polícia como liberta pela justiça... por falta de provas", conta Ferraz de Macedo na revista "Galeria de Criminosos Célebres em Portugal: história da criminologia contemporânea", começada a publicar em 1896.

No início do ano de 1888, a 3 de janeiro, Guilhermina voltou a ser detida, por furto de um corpo de vestido e de um chapéu da casa de duas modistas na baixa de Lisboa, numa área que parece ser das suas preferidas, especialmente depois de se tornar demasiado conhecida dos comerciantes do Bairro Alto. Desta feita, teve azar e ficou 13 meses no Aljube, local no bairro de Alfama que desde a era dos árabes na Península Ibérica tem servido de prisão, "muito embora o tempo lhe tenha atribuído características diferentes", como explica Eliana Catarina Gonçalves de Oliveira na sua dissertação de mestrado em História Contemporânea.

"No período medieval foi prisão para os delinquentes em matéria eclesiástica, vertente que se prolongou até à implantação do liberalismo no século XIX, altura em que se extinguiu o foro eclesiástico e todos os cidadãos passaram a ter uma justiça comum. Entre os finais do século XIX e inícios do século XX, o edifício do Aljube serviu de prisão de mulheres", resume a autora da tese "Aljube, uma história política".

Na época de Guilhermina Adelaide, o edifício situado um pouco mais acima da prisão para homens no Limoeiro, de quem vai da baixa para o castelo de S. Jorge, serve de estabelecimento prisional para criminosas comuns. "Até à data do seu encerramento em 1965 - adianta Eliana de Oliveira - o Estado Novo usava o Aljube como cadeia para encarcerar os presos políticos na fase instrutória dos processos." Por isso é, desde 2015, o museu da "Resistência e Liberdade", com o qual se pretende, como afirma a direção, "assegurar que o nosso futuro não seja amputado do nosso passado".
 


O edifício do Aljube, em 2001, antes de ser transformado em museu. Nesta altura, assemelhava-se ainda à cadeia onde esteve presa Guilhermina Adelaide  - Ana Baião


Francisco Ferraz de Macedo, que nasceu para ser alfaiate como o pai mas acabou por se formar em farmácia e em medicina, conheceu Guilhermina Adelaide: "Quem a visse por então, aí nos anos 1887 ou 1888, alta, delgada, fisionomia atraente, vestida com elegância e até com luxo; quem a ouvisse falar com aquela facilidade e largueza de expressão de quem sabe muito bem o que dizer, não julgaria estar diante de uma mulher padecendo de todos os vícios até à escala do crime".

"Esta mulher tinha recebido uma educação aprimorada, no sentido que estas duas palavras em conjunto possam ter, tratando-se de maiores ou menores habilitações literárias realçadas pelas prendas com que é de uso dotar as meninas nascidas num certo meio de abastança", afirma o investigador, conhecido pela sua coleção de mais de mil crânios e mais de cem esqueletos humanos.

"A pianista" ou "A Cepa", como a polícia e os jornais a tratavam, era uma mulher inteligente, com alguma cultura, falava línguas, sabia bordar e tocar o instrumento que, à época, qualquer menina de família devia saber aprender. Terá sido no domicílio das suas alunas que começou a roubar, ganhando o à-vontade de quem não é apanhado. E não o foi, durante uns anos. Os donos das casas davam pela falta de objetos ou de roupas, mas nunca desconfiavam da professora de piano cheia de maneiras e "excelente aparência".

Ferraz de Macedo também conheceu o marido da pianista - aliás, é por causa de respeitar esse "honesto comerciante de província" que não divulga os apelidos da criminosa. No entanto, os jornais não os poupam: Guilhermina Adelaide Couto Melo Araújo e Cepa, de nome completo, casou cedo, aos 17 anos, provavelmente (assim acontecia) por conveniência da família ou porque já estava grávida. Se José António tinha dez anos quando Guilhermina deu entrada nas Mónicas, significa que nasceu no ano do casamento, isto é, em 1877.

O marido, cujo nome se evaporou no tempo, quando soube não quis acreditar. Casou apaixonado pelo "anjo de candura" que a rapariga parecia ser e viveu feliz os primeiros anos de matrimónio. Quando se foi apercebendo de que vivia no engano, deixou-se sugar pelo desgosto e pela própria mulher. Perdeu tudo - “a honra, os meios de ganhar a vida e até a razão!” -, e, segundo constou, passou a viver da caridade de alguém amigo.

"Felizmente para esse infeliz, a idiotia primeiro e depois a morte privaram-no de assistir ao desenrolar de todo o pungitivo drama de que foi protagonista sua mulher", escreveu Ferraz de Macedo, homem de ciência e de teorias avançadas no campo da criminologia, estudioso de diversos casos do século XIX.

A famigerada Cepa e o Mesquita

Ao invés de a afastar do crime, as estadas na prisão levaram Guilhermina Adelaide a refinar o talento com as convivas do Aljube e a envolver-se, nos períodos de soltura, com gente marginal. Ainda não era viúva quando se apaixonou por um ladrão especialista em arrombamentos, conhecido por Mesquita.

Quando saiu da cadeia, ao fim de mais de um ano, Guilhermina resistiu apenas um mês e pouco em liberdade. Numa loja da mesma rua onde roubara o chapéu à mademoiselle Clément, "empalmou um corte de fazenda para calças de homem". Se calhar roubou para vestir o Mesquita, mas perdera a destreza para entalar o roubo no vestido ou escondê-lo debaixo da capa, como dantes era perita.

O falhanço valeu-lhe mais quatro meses atrás das grades. Foi solta a 16 de agosto de 1889. Neste ano, irá aguentar-se em liberdade, não contará para a estatística das prisões, não será uma das 11.940 pessoas presas, menos 422 do que no ano anterior, numa Lisboa com cerca de 300 mil habitantes.

Já não é tão fácil roubar como dantes. Os comerciantes atravessam um período de crise provocado pelas dificuldades financeiras que afetam o reino, o que os torna mais sensíveis à gatunagem disfarçada. O poder de compra diminuiu, associado ao aumento de impostos e ao corte nos ordenados; o crime amenta, assim como a experiência das vítimas. Há mais queixas de furtos.

A vida também se complica para Guilhermina. Já se tornou demasiado conhecida dos possíveis alvos e da polícia, mas tem de sobreviver. Então, viúva e sem a tutela do filho, foi morar com o seu namorado Mesquita. Aguentou dez meses "tocando piano pelos cafés refilões sem que a polícia tivesse conhecimento de alguma nova partida da ladra", elucida Ferraz de Macedo. De facto, não se ouve falar dela durante esse tempo: ou conseguia fazer a coisa bem feita ou dedicou-se mesmo ao trabalho.

Em Outubro de 1890, porém, tudo voltou ao mesmo mas para pior. O casal mudou-se para um quarto andar do nº 17 da rua da Padaria, que liga a rua dos Bacalhoeiros ao largo de Santo António da Sé, e reparou que a mulher a quem subalugaram o quarto possuía papéis que valiam dinheiro, e uma boa quantia.

A arrendadora era, de facto, inquilina desse quarto andar, mas recebia outros "hóspedes". Ora, quando deu por falta das três inscrições de dívida pública, desconfiou que o ladrão fosse um deles e não esperou para fazer queixa à polícia. As chamadas inscrições valiam 300 mil-réis, o vencimento anual dos contadores dos tribunais administrativos, uma espécie de auditores de contas.


A notícia da prisão de Guilhermina Adelaide, no "Diário Ilustrado" de 7 de maio de 1887
Hemeroteca Municipal de Lisboa

O comissário da primeira divisão, ao saber que entre os hóspedes se encontravam "a famigerada Cepa e o Mesquita", mandou logo dois polícias "deter os dois figurões", noticiou o "Diário Ilustrado", acrescentando: "O Mesquita, porém, que é fadista de marca, pegou numa garrafa e deu com ela na cabeça do 107, ferindo-o gravemente na testa. Um burburinho diabólico, que acabou pela prisão da Cepa e do Mesquita".

Já no comissariado, Guilhermina negou o roubo, como sempre fizera quando era apanhada. O seu companheiro também se disse inocente, mas no dia 22 de outubro de 1890 ela dava entrada no Aljube e ele no Limoeiro, atualmente o Centro de Estudos Judiciários. Os dois são condenados, sem apelo nem agravo, ao degredo em África. A pianista foi deportada para Angola no dia 6 de maio de 1892, morrerá poucos anos depois.

Como diz o criminologista desse tempo, Ferraz de Macedo, "os gatunos têm um lado de semelhança com os toureiros: por mais hábeis, por mais cautos e peritos que sejam, lá vem um dia em que são colhidos".
Expresso, 31.08.2015

domingo, 30 de agosto de 2015

A estalagem das Congostas






A estalagem das Congostas


Era grande e boa e tinha o número de camas que a lei impunha


Não sabemos, ao certo, desde quando as estalagens começaram a funcionar no velho burgo por­tucalense. A referência mais anti­ga à existência de estalagens no Porto é de maio de 1368. Consta de um documento que o meirinho-mor de Entre Douro e Minho enviou aos juízes da cidade informando-os de que não deviam consentir que os fidalgos, por muito pode­rosos que fossem, se aposentassem nas ca­sas particulares do burgo, mas que, se tives­sem mesmo necessidade de ai ficar, que o fizessem na "casa da estalagem", da cidade, embora somente pelo tempo estritamente necessário.

Ora, a "casa de estalagem" que, naquele tempo, el-rei possuía no Porto ficava "no sítio a que chamam as Congostas" - que, tendo em conta a topografia amai, podemos localizar como tendo sido na parte baixa da Rua de Mouzinho da Silveira. Um troço do Porto an­tigo que desapareceu de todo quando se construiu a Praça do Infante D. Henrique.

A carta, chamemos-lhe assim, que o mei­rinho-mor de Entre Douro e Minho escreveu aos juízes da cidade trouxe à memória aque­le costume antigo, que vinha do tempo de D. Afonso IV, de os burgueses do Porto não que­rerem que os fidalgos residissem na cidade.

Tratava-se, acima de tudo, de um privilé­gio de ordem moral, pois os portuenses con­sideravam os ricos e poderosos como pes­soas ociosas, elementos de perturbação e causadores de enormes "vergonças". Mas, para além disso, os fidalgos quando calhava de estarem no burgo, pretendiam adquirir os artigos de que necessitavam pelo menor pre­ço, prejudicando a cidade na sua economia.

Nos tempos idos, quando, por exemplo, o rei chegava ao Porto, "os seus", isto é aque­les que o acompanhavam, não podiam apo-sentar-se nas casas da Rua das Eiras (a atual Rua Chã); nem nas da Rua dos Mercadores. Estava-lhes vedado, também, tomarem por pousada as casas onde vivessem "viúvas honradas", nem moradas em que estives­sem mulheres casadas cujos maridos "an­dassem por outras terras nos seus tratos de negócios".

Os fidalgos, proibidos de se instalar nas casas dos cristãos, passaram a ocupar, nas suas deslocações ao Porto, as moradias dos judeus, entretanto instalados nanova judia­ria do Olival.

Em 1390, estando a corte em Estremoz, recebeu D. João I um protesto dos judeus do Porto, por causa do que consideravam um abuso por parte da fidalguia, que à força ocu­pava as suas residências na nova judiaria. O monarca levou o protesto a sério e expediu uma ordem no sentido de que, "fosse quem fosse, ficava proibido de pousar nas casas da nova judiaria".

Logo no ano seguinte, o mesmo D. João I, a solicitação dos procuradores do concelho do Porto, mandou que nesta cidade, e à custa dela, se criassem "boas e grandes" estalagens, "em que pudessem pousar todo los grandes e honrados e outros de qualquer estado e con­dição que fossem", e que nelas devia haver "boas casas; e câmaras; e alpendres; e currais; e mantimentos para os viajantes e cevada e palha para as bestas".
 

Antes de haver estalagens no Porto, os viajantes instalavam-se nas casas particulares 

Ainda em 1391, estando "os homens bons do Porto" (entenda-se juízes e vereadores da cidade) reunidos "no sobrado da vereação" (naquela velha casa da Rua de S. Sebastião agora transformada em posto de apoio aos tu­ristas), resolveram, para acabar com os gran­des prejuízos e danos que eram provocados pelos fidalgos durante as suas permanências na cidade, e no cumprimento do que já havia sido determinado pelo rei D. João I, criar nes­ta cidade várias estalagens. E logo ali delibe­raram também que os lugares mais apropria­dos para a instalação das novas estalagens eram os seguintes: "primeiramente, nas Con­gostas, duas estalagens grandes e boas; uma no Souto, também grande e boa; outra nas ca­sas que foram de Esteves Ferreira (?), mais ou­tra na Rua Chã nas casas que foram de Jeró­nimo da Devesa; ainda outra, e boa, na porta de Cima de Vila; em Miragaia outra estalagem que seja grande e boa; e uma outra ainda em Vila Nova, do outro lado do rio".

Ao cumprirem esta sua deliberação, os chamados" homens bons do Porto" estavam apenas a procurar defender a sua honra, os privilégios dos cidadãos do burgo e a avulta­da fazenda, ou seja, os bens, a riqueza dos mercadores da cidade, que já era por aquele tempo bem avultada.

Sabemos disso por causa do episódio que foi protagonizado por Domingos Peres, um riquíssimo mercador portuense do tempo de D. Fernando. Num determinado momento das lutas que este monarca manteve com os castelhanos, Domingues Peres foi feito prisio­neiro e para salvar a vida teve que pagar o avultado resgate de 10 000 francos em ouro, uma enorme fortuna para a época.

Conta Fernão Lopes, numa das suas pre­ciosas crónicas, que logo na semana a seguir à do seu resgate, Domingues Peres viu cha­gar da Flandres uma sua nau que só em fre­tes e mercadorias lhe proporcionou lucros muito superiores ao valor do resgate que ha­via pago aos castelhanos.

A história da estalagem de Miragaia
 
A criação de uma estala­gem, "grande boa", em Mi­ragaia (foto mais pequena) justificava-se plenamente. Este bairro, ao tempo da fundação da estalagem, fi­cava da parte de fora do muro (Muralha Fernandina) da cidade, mas estava em pleno crescimento econó-. mico e demográfico. Nas inquirições de 1258, cons­tava que em Miragaia havia já setenta casas e que em cada dia se faziam mais. Aproximadamente cerca de um século e meio depois, Miragaia progredira a olhos vistos, de modo a justificar plenamente a criação de uma estalagem para utili­dade de quantos ali se des­locavam em negócio ou para acompanhar a cons­trução naval, que se desen­volvia nos estaleiros que funcionavam no chamado areal de Miragaia, onde, no século XIX, se construiu o enorme e granítico edifício da Alfândega que hoje aco­lhe o Museu dos Transpor­tes e Comunicações.

JORNAL DE NOTÍCIAS, 30AGO,2015

sábado, 29 de agosto de 2015

O Muro Europeu


O muro europeu





Perseguidos, roubados ou humilhados. Todos os dias, milhares de migrantes concentram-se na fronteira entre a Sérvia e a Hungria para tentar chegar á Alemanha, Áustria ou Suécia. Nem o muro ali erguido é capaz de os parar.


"SE UM MAR NÃO TRAVA O DESESPERO, É UM MURO QUE VAI PARAR?"

A vedação que a Hungria está a construir na fronteira é apenas mais um dos obstáculos para milhares de pessoas que todos os dias tentam entrar na Europa. Correm atrás do sonho de uma vida melhor e estão dispostas a tudo




Texto e fotos João Santos Duarte na Hungria

Qaiser senta-se no chão empedrado, encostado a uma parede. Há apenas três meses estava à secretária no escritório de um banco. Tinha um bom salário e o despertador acordava-o todos os dias às 7 da manhã. Mas a noite passada foi uma voz brusca que o acordou, quando tentava descansar à beira de uma estrada, ele e mais vinte outros na mesma situação, a milhares de quilómetros de distância daquele despertador. E das explosões que, por vezes, o arrancavam ao sono antes da hora.

“Eu não quero morrer”, diz Qaiser Mehmood, um paquistanês de apenas 25 anos. “Imagina: vais ao centro comercial e, de repente, acontece uma explosão. No minuto seguinte estamos a agarrar nos corpos dilacerados dos nossos amigos, com as nossas próprias mãos. Vocês sabem o que isso é? Lá ninguém sabe o que vai acontecer se sair de casa para ir apenas a uma loja, se vai regressar ou não... Foi por isso que viemos embora. Gostarias de abandonar o teu país, a tua casa?”

Qaiser estudou três anos em Inglaterra antes de trabalhar num banco na cidade paquistanesa de Gujrat, alvo constante de ataques por parte de grupos radicais ligados aos talibãs. É o único do grupo que sabe falar inglês. A poucos metros, dois ou três outros paquistaneses aproveitam para lavar o rosto e fazer a barba numa espécie de lavatório improvisado na praça em frente à estação de comboios da cidade de Szeged. Foi uma longa viagem desde a agora distante Gujrat até ao sul da Hungria. Mais de seis mil quilómetros, para se ter uma ideia. Chegaram a andar 18 horas por dia, por vezes sem comer ou beber durante três ou quatro dias seguidos. Esperavam agora por um comboio. Mas a viagem deles está ainda longe de chegar ao fim.


PAQUISTANESES Grupo despede-se dos voluntários que prestam auxílio aos refugiados em Szeged antes de seguir viagem para Budapeste

Na sua cabeça ainda ecoa aquela voz que o acordou a noite passada quando tentava descansar à beira da estrada. Era numa língua que ele não conhecia, mais uma que soava estranha. Quando aquele polícia húngaro os encontrou, ele e os restantes tinham acabado de sair da “selva”. É a expressão que quase todos usam para descrever uma zona de reserva natural que se estende numa vasta área na fronteira entre a Sérvia e a Hungria, o caminho que vários grupos de migrantes utilizam para tentar entrar no país sem serem detetados. É mais uma das rotas que levam à Europa milhares de pessoas todos os dias, por terra e por mar. Uma fenómeno que, há poucas semanas, a chanceler alemã Angela Merkel considerou a questão mais importante com que a União Europeia se debate, aparentemente sem encontrar uma solução.

“Selva” é a expressão que usam para descrever uma reserva natural na fronteira entre a Sérvia e a Hungria

Mesmo munidos de telemóveis com GPS, Qaiser e os amigos andaram horas perdidos às voltas no meio da floresta que separa os dois países. Até que foram dar àquela estrada. E àquele polícia que os encontrou a dormir, e depois aos outros polícias que os vieram prender e levar para um centro de detenção temporário a poucos quilómetros dali, para serem identificados. O caminho acabou numa espécie de prisão.

Ayham também passou pela “selva”. Vinha com um grupo de 12 pessoas, mas quando a noite caiu e a escuridão tomou conta do caminho, separou-se da família, que acabou por ficar para trás. Está agora sentado sozinho num banco à entrada da estação, à espera que os outros possam chegar para continuar viagem. Este estudante de línguas tem 24 anos e vem da Síria, da cidade de Raqqa. Foge dos constantes ataques por parte do autodenominado Estado Islâmico. Tem medo de falar. Assusta-se quando vê uma máquina fotográfica por perto. Não quer ser identificado, diz temer pela vida daqueles que deixou no seu país.

De repente há uma agitação na praça. O grupo de paquistaneses que estava sentado no chão levanta-se e agarra nas mochilas. Outras famílias sírias seguem-nos. O próximo comboio para Budapeste parte dentro de minutos. Qaiser despede-se com um aperto de mão e parece surpreendido ao ouvir “Boa-sorte!” Devolve um olhar meio espantado, e antes de passar a porta de entrada da estação, ainda tem tempo de dizer: “Sabes uma coisa, foste o primeiro a dizer-me isso em toda a viagem. Todos os outros só me disseram uma coisa até aqui: volta para tua casa.”
Budapeste Mulher afegã passa a noite com o filho à porta da estação de comboios de Nyugati

Há meses que o cenário se repete diariamente, e com cada vez maior frequência, diante da estação de comboios em Szeged. Os autocarros vão chegando a várias horas do dia. Deles saem grupos de pessoas vindas, na sua maioria, de países tão distantes como o Afeganistão, o Paquistão, a Síria ou o Iraque. Só este ano mais de 100 mil pessoas já deram entrada no país, a pé, através da Sérvia e da chamada rota dos Balcãs. Mas não são apenas jovens na casa dos 20 anos, como o grupo de Qaiser que acaba de entrar no comboio. São famílias inteiras, com mulheres, crianças pequenas e bebés, que passaram as últimas horas num centro de identificação antes de terem sido postas naqueles autocarros e chegarem à porta da estação.

“Assim que são presos ao tentar atravessar a fronteira são levados para o centro de trânsito de Roszke, a 14 quilómetros da cidade de Szeged”, explica Varonyi Tamas, subchefe da Polícia de Fronteira do Condado de Czongrad. “Ficam com uma pulseira com um número para os podermos identificar, e a bagagem também.” Aí podem passar entre algumas algumas horas a um ou dois dias, no máximo, enquanto são identificados e registados. O Expresso pediu autorização para visitar o centro, mas as autoridades húngaras não permitem a entrada de jornalistas, nem neste nem nos outros centros de acolhimento para requerentes de asilo que existem no país. Apenas organizações como a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) ou a Cruz Vermelha têm acesso às instalações. “Temos cerca de 20 pessoas a trabalhar em Roszke, oito das quais de forma permanente”, confirma Alice Szél, responsável pelo departamento de migrações da Cruz Vermelha da Hungria. “Damos apoio psicossocial, em especial para os grupos mais vulneráveis, como mulheres e crianças, e também cuidados médicos, quando necessário. Os nossos voluntários levam jogos e brinquedos para as crianças, que muitas vezes estão numa situação psicológica difícil depois de uma longa viagem.”

Depois de registados e de darem entrada com um pedido de asilo, os migrantes recebem papéis que lhes permitem viajar de forma gratuita nos comboios da Hungria durante 48 horas, com o objetivo de chegarem a um de três centros que existem no país. Mas os dados mostram que metade das pessoas deixa a Hungria nesses dois dias, e 80% já estão fora do país nos dez dias seguintes a terem entrado. A Hungria é apenas um ponto de passagem na União Europeia, em busca de destinos como a Alemanha, a Áustria ou a Suécia. A porta de entrada no sonho de uma vida diferente.

Mal a porta do autocarro se abre, grupos de pessoas dirigem-se de imediato para uma pequena casa de madeira situada numa zona lateral da praça em frente à estação de comboios. Aí recebem comida, água, roupas ou mesmo pequenos cuidados médicos, em caso de necessidade. A pequena casa de madeira está ali desde o final de junho, altura em que o movimento MigSzol — que significa Solidariedade Migrante — começou a ganhar forma. De início começou por ser um pequeno grupo de amigos e ativistas que dava ajuda aos migrantes dentro da estação. Dias depois foram expulsos pelos responsáveis da companhia de comboios, mas não baixaram os braços. Pediram apoio à câmara municipal e assim se construiu a casa de madeira, aberta 24 horas por dia, onde guardam os bens que são doados: comida, água, roupas, brinquedos, etc. E no centro da praça improvisaram pequenos lavatórios onde as pessoas podem fazer os cuidados de higiene básicos após uma longa viagem, seja barbear-se ou lavar os dentes. De um núcleo inicial de apenas algumas pessoas, o MigSzol já contou, até hoje, com a colaboração de cerca de duas centenas de voluntários. “Por dia damos ajuda a 400 a 500 pessoas em média, mas em alguns dias esse número já chegou às 1500”, avança Mark Kékési, um dos coordenadores do movimento.

A Hungria é apenas um ponto de passagem na União Europeia, em busca de destinos como a Alemanha, a Áustria ou a Suécia

Leila sabe bem o que é viver longe de casa, num país estranho e numa cultura diferente da sua. É iraniana e veio estudar Medicina para a Hungria há seis anos. Está na praça, a ajudar uma mulher síria que traz ferimentos numa das mãos. “Se são feridas pequenas procuro ajudar, mas se vejo que o caso é mais grave envio-os de imediato para o hospital, não corro qualquer tipo de risco.” Garante que se sente integrada na sociedade húngara, tida como uma das mais xenófobas da Europa, mas admite que há situações complicadas pelas quais tem de passar no quotidiano. Por exemplo, numa simples ida ao supermercado. “Como levo o hijab (o lenço árabe que lhe esconde o cabelo), sinto que o segurança vem sempre atrás de mim nos corredores, está sempre nas minhas costas, alguns metros atrás, desconfiado. E isso não é uma situação confortável...”

Além dos cuidados médicos, Leila dá outra ajuda muito importante desde que começou a fazer voluntariado com o MigSzol. Não é raro vê-la cercada por grupos de migrantes, confusos com os papéis que as autoridades lhes deram para poderem circular pelo país, e que estão escritos apenas em húngaro. Leila fala persa, mas também percebe pashtun, e algumas frases em árabe. Por isso procura ajudar no que consegue. “Para eles é muito importante ouvir uma língua familiar. Mesmo que não possa fazer mais nada, pelo menos transmito boas emoções e sentimentos. Eles sentem que há alguém, neste país tão distante, que fala a língua deles. Podem partilhar os seus problemas, e as dificuldades que tiveram ao longo da viagem.” E os relatos de dificuldades abundam entre quem conseguiu chegar aqui.
 

A morte sempre à espreita 

De repente, e quando menos esperavam, têm uma arma apontada em frente aos olhos. Tinham entrado no carro há poucos minutos quando o homem sentado no lugar do pendura fez a ameaça. Nada indicava que algo do género pudesse vir a acontecer. Assim que atravessou a fronteira para a Hungria, o grupo de quatro sírios tinha encontrado os dois homens à beira da estrada com comida e água. Ofereceram-se para os ajudar e para lhes dar boleia até à estação de comboios mais próxima. Poucos quilómetros depois param o carro, apontam-lhes a arma e exigem-lhes tudo o que têm. No minuto seguinte, atiram-nos para fora da viatura e deixam-nos no meio do nada, para serem mais tarde encontrados pela polícia de fronteira. Acabaram por ficar sem mais de 3 mil euros em dinheiro.
Vedação Secção da linha de segurança que a Hungria está a construir na fronteira com a Sérvia

A história é contada por um grupo de sírios que agora aguarda pelo comboio em frente à estação de Szeged, e é apenas uma entre muitas. “Fomos batidos por ladrões em todos os lados, até chegarmos à Hungria”, assegura por sua vez Ranet, um afegão de apenas 18 anos. “Roubaram-nos tudo: o dinheiro, os telemóveis...Para alguns de nós foi uma sorte termos sobrevivido.” Além da ação de grupos organizados, durante a longa viagem têm ainda de enfrentar a brutalidade das forças policiais, com países como a Macedónia e a Bulgária à cabeça. “A polícia da Bulgária é a mais violenta”, assegura Salamudeen, um outro afegão. “Prenderam-me e bateram-me, tiraram-me a água, o dinheiro e a comida que trazia comigo. Bateram-me a mim e a todos os outros”, garante.

Os migrantes são alvos fáceis e, em geral, grupos criminosos e polícias corruptos sabem que é elevada a probabilidade de estas pessoas levarem consigo quantidades generosas de dinheiro para poderem chegar à Europa. Muitas vezes as poupanças de toda uma vida. Uma viagem organizada por redes de imigração clandestina pode custar entre seis a dez mil euros para quem vem de países como o Afeganistão ou o Paquistão. Com a garantia de que, em cada país por onde passarem, haverá sempre um contacto da rede que os ajudará a encontrar o caminho. Mesmo quem não vem com a ajuda de redes organizadas acaba por desembolsar somas consideráveis. É o caso de Qaiser, o jovem paquistanês que há apenas três meses trabalhava num banco em Gujrat, e que gastou cerca de três mil euros até chegar à Europa. Uma parte considerável foi para financiar a extorsão de autoridades policiais, que lhe exigiram somas significativas para poder seguir em frente.
Quotidiano Refugiado sírio faz a barba em lavatórios improvisados em frente à estação de comboios em Szeged;

Em breve, aqueles que, como Qaiser, Ayhan, Salamudeen ou Ranet, queiram entrar na Hungria vindos da Sérvia vão deparar-se com uma nova dificuldade. Uma vedação de quatro metros de altura com rolos de arame farpado no topo, construída a todo o vapor pelo exército húngaro na totalidade da extensão de 175 quilómetros da fronteira que separa os dois países. O ‘muro’, solução avançada pelo Governo do primeiro-ministro Viktor Orbán, é uma obra polémica e já sofreu duras críticas por parte da comunidade internacional. E a poucos quilómetros da linha de fronteira, há um homem que reivindica ter sido o pai da ideia.
“A polícia da Bulgária é a mais violenta”, assegura um afegão. “Bateram-me,tiraram-me a água, o dinheiro e a comida”

“Luís Figo! Cristiano Ronaldo!”, apressa-se a gritar o grupo de quatro húngaros sentados na esplanada do pequeno café, cada um com uma Soproni na mão (uma marca de cerveja local) e outras garrafas verdes já vazias em cima da mesa, assim que se apercebem da estranha presença de um português nas imediações. Ásotthalom é uma pequena cidade de cerca de quatro mil habitantes do condado de Czongrad, a apenas uns três quilómetros da fronteira com a Sérvia. A pacatez das ruas povoadas por pequenas casinhas de piso térreo raramente era quebrada pela agitação mediática provocada pela visita de jornalistas estrangeiros.

Em dezembro de 2013, para surpresa de muitos no país, os habitantes de Ásotthalom elegeram Lázló Toroczkai para presidente da Câmara, com mais de 70% dos votos. Toroczkai, de apenas 37 anos, é um dos fundadores e líder de um dos movimentos de jovens de extrema-direita mais conhecidos da Hungria, e tem um longo historial atrás de si. Já foi expulso de países como a vizinha Sérvia, a Eslováquia e a Roménia, por envolvimento em atividades neonazis.

“Sim, isto foi ideia minha”, declara Toroczkai, sem falsas modéstias. “Comecei a falar de um muro como solução para o problema da imigração ilegal nos meios de comunicação social no outono do ano passado. Esta barreira não é a solução perfeita, mas é necessária”, afirma. Por estar próxima da fronteira e não muito longe da cidade sérvia de Subotica, último ponto de paragem dos migrantes na Sérvia, Ásotthalom é a cidade por onde passam mais grupos de pessoas que tentam entrar na Hungria.
Quotidiano Família afegã aguarda nas escadarias de acesso à estação de Keleti,

Nos argumentos de Toroczkai habita uma ideia que é muitas vezes alimentada pela própria retórica oficial do Governo de Orbán: a de que existe uma ligação direta entre imigração e terrorismo. “Pode ser que existam terroristas entre eles. Se um terrorista do Estado Islâmico quiser vir fazer um ataque bombista na Europa Ocidental não vai chegar de avião nos aeroportos, vem por esta fronteira, porque é muito fácil e está desprotegida. Na maior parte das vezes não sabemos ao certo quem são porque destroem os documentos ainda antes de entrarem na Hungria.”

A quase 200 quilómetros dali, numa sala do edifício do Ministério da Justiça situado mesmo ao lado do Parlamento na praça Kossuth Lajos, em Budapeste, o porta-voz do Governo pega no mesmo argumento. “Eles queimam os documentos porque sabem que, quando não têm papéis, vão ser protegidos até a sua identidade ser estabelecida. Isso pode demorar meses”, garante Zoltán Kovács. E responde desta forma às criticas internacionais: “Dissemos desde o início que esta não ia ser a solução para o problema, mas um meio necessário para ajudar a conter este fenómeno. Há precedentes na Bulgária, na Grécia ou em Espanha, e com alguns resultados. Parar este fluxo ilegal, ou tentar regulá-lo, é importante não apenas para a Hungria, que protege as suas próprias fronteiras, mas também para proteger as fronteiras da Europa. A União Europeia não está preparada para este nível de migração intercontinental maciça. São necessárias medidas duras”, acrescenta Kovács.

“Se um mar não travou estas pessoas que estão desesperadas, é um muro que as vai parar?”, questiona, por sua vez, Babar Baloch. O porta-voz do departamento para a Europa Central da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) alerta que se está a confundir erradamente uma “crise de migração” com uma “crise de refugiados”. “A esmagadora maioria destas pessoas vem de zonas de conflito, estão verdadeiramente desesperadas. Há pessoas cujas vidas estão em perigo, que estão em busca de segurança, compaixão e humanidade. Há algo de muito errado com o sistema se não conseguimos ajudar alguém que foge de um conflito e do terror diário.” Mark Kékési, coordenador do MigSzol, também não poupa nas criticas. “Eu era uma criança no tempo da Guerra Fria. Todos nos lembramos bem o que significava a Cortina de Ferro. Em 2015 construir outra cortina entre as nações, que nunca parará as pessoas de entrar, envia uma mensagem terrível ao mundo.”
 

O desespero não tem idade 

Ahmed leva a mão ao bolso e estende-a em seguida. “Vês, isto é tudo o que tenho”, garante. Na palma da mão estão cinco ou seis moedas, florins húngaros. “Todo o dinheiro que tenho para comer está aqui.” Ahmed está desesperado. Não sabe se há de ir para o campo de acolhimento de Debrecen, para o qual foi encaminhado pelas autoridades, ou se há de tentar de alguma forma prosseguir viagem para outro país. A poucos metros estão a mulher e o filho pequeno, de três anos. Um outro que vem a caminho. “Precisamos de dinheiro para comer. Eu tenho fome, mas se for necessário consigo aguentar cinco ou seis dias sem comer. Mas a minha mulher não. Ela está grávida de cinco meses.”

É final de tarde em Budapeste. Grupos de homens, mulheres, crianças, mães que embalam os bebés ao colo, famílias inteiras preenchem as escadas de acesso à entrada da estação de comboios de Nyugati e as arcadas circundantes. Vieram no comboio que chegou de Szeged, no sul, e aguardam a oportunidade de seguir viagem. Muitos dos que chegam ao final do dia acabam por passar a noite à porta da estação, sem outra alternativa.

“O dinheiro que o Governo vai gastar com a vedação seria suficiente para fazer funcionar o sistema de asilo na Hungria durante 10 anos”, diz Gábor Gyulai

Entre eles está Shahab. Tem apenas 13 anos, e veio com um grupo de amigos. Os mais velhos têm 17 anos. Os pais ficaram em Cabul. Shahab tem como destino a Alemanha, onde já tem familiares. A solução encontrada pelo grupo para a última parte da viagem foi ir de táxi, uma forma rápida de chegar ao destino, mas bastante mais cara. “Pagámos 600 euros cada um”, confessa o rapaz. “E tens esse dinheiro todo contigo?” “Tenho. Os meus pais deram-me o dinheiro para tentar chegar à Europa.”


Quotidiano Budapeste; Voluntários da Migration Aid mascarados surpreendem crianças em Budapeste

Além de ser significativa a percentagem de crianças, não é raro ver-se grupos de menores desacompanhados entre os migrantes. O ACNUR estima que entre o total de pessoas que este ano deu entrada no país estejam mais de 11 mil crianças, e dessas quatro mil são menores que chegaram sem qualquer acompanhamento por parte de adultos.

Shahab e os restantes vão aguardando à porta da estação por alguns amigos que ficaram para trás e que só deverão chegar no último comboio da noite. Só depois tentarão sair do país. Tanto aqui como em Keleti, a outra estação principal de Budapeste, há dezenas de pessoas a passar a noite. “Algumas estão apenas em trânsito. Mas outras viram o centro de acolhimento, perceberam que não tinham condições para ficar e voltaram para trás”, afirma Babar Baloch, o porta-voz do ACNUR. Isso acontece porque os centros estão sobrelotados. No de Debrecen, o maior no país, estão neste momento 1800 pessoas, para uma capacidade inicial de 800.

“O dinheiro que o Governo vai gastar com a vedação seria suficiente para fazer funcionar o sistema de asilo na Hungria durante dez anos”, adverte Gábor Gyulai, o coordenador do programa de refugiados do Comité Helsínquia da Hungria, a única organização que presta apoio jurídico a requerentes de asilo, de forma gratuita. Mas a barreira que está a ser erguida no sul do país não é apenas física, e tem continuidade noutros domínios, avisam as organizações não-governamentais.

As recentes alterações à lei do asilo são um exemplo disso. Entre outras medidas, permitem às autoridades recusar automaticamente pedidos de asilo de pessoas que tenham dado entrada no país vindas da Sérvia, por considerarem que este é um país seguro que já as poderia ter acolhido. Além disso, o procedimento é acelerado, com uma decisão num máximo de 15 dias, e com possibilidades de recurso muito limitadas. “São tudo formas de limitar o acesso à proteção, num país que já estava entre os Estados europeus que menos pedidos de asilo aprova”, acusa Gábor.

Além da vedação na fronteira e das alterações legislativas, há ainda a campanha mediática lançada pelo Governo húngaro desde o início do ano, com cartazes na rua que ostentam mensagens como “Se vieres para a Hungria não podes roubar o trabalho dos húngaros”. Cartazes que geraram uma resposta por parte da sociedade civil, com uma verdadeira contra campanha com mensagens satíricas, entre elas “Pedimos desculpa pelo nosso primeiro-ministro” ou “Venham para a Hungria, nós já estamos a trabalhar em Londres de qualquer forma”.

Nos últimos meses multiplicaram-se também os grupos de solidariedade para com os migrantes, muitos deles organizados de forma espontânea através das redes sociais. À porta das estações de comboio há heróis silenciosos que lutam todos os dias para ajudar pessoas que estão desesperadas. Ou mesmo, em certos dias, super-heróis. Passa já das 11 da noite quando, do nada, o Batman e o Super-Homem surgem à entrada da estação de Nyugati. Mas desta vez não vêm combater vilões. Vêm acompanhados pela Pantera Cor-de-Rosa, o Scooby-Doo e outros amigos. Trazem consigo doces e bolas de sabão. Foi a forma que os voluntários da organização Migration Aid encontraram para trazer alguma alegria às muitas crianças que vão ter de passar a noite no local. Não tarda até que as bolas de sabão encham o átrio da estação. E, ainda que por alguns minutos, os sorrisos das crianças substituem a amargura de uma viagem que ninguém sabe, ainda, como irá chegar ao fim.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2235 | 29AGO2015

O VERÃO JÁ SE ACABOU



FRACO CONSOLO

PEDRO MEXIA


O VERÃO JÁ SE ACABOU

“Agosto”, de Jorge Silva Melo, é uma grande adaptação cinematográfica de Pavese, tão boa como as de Antonioni e dos Straub


Publicado em 1942, o romance “A Praia”, de Cesare Pavese, descreve umas férias de Verão passadas na costa da Ligúria, com banhos, bailes, encontros, futilidades. A conversa é incessante, mas infrutífera. É uma conversa que não comunica e isso é que nos cativa.

Este Verão, fizeram-me chegar uma cópia de “Agosto” (1988), que não via há anos, grande adaptação cinematográfica de Pavese, tão boa como as de Antonioni e dos Straub. Jorge Silva Melo manteve intactos os subentendidos de “A Praia”, e mostrou-se igual a Pavese, exacto, contido, céptico. A dimensão paisagística é talvez menos intensa do que no romance, mas o cineasta faz questão de manter as personagens dessincronizadas com a natureza. E transpõe intacta a ideia de reencontro, de regresso, de “uma conversa onde o passado reequaciona a vida de hoje”, como explicou, “um deambular ácido por um presente, lugar onde tudo o que já se viveu se foi afastando”.

“Agosto” é sobre a mudança, sobre a mudança já consumada mas ainda não interiorizada. É sobre a familiaridade inquieta, a indecisão, a reticência, o constrangimento, a assombração. E sobre afectos esquivos, amigos competitivos, intermitentes, desconfiados. Dário, um engenheiro temperamental, tem uma masculinidade afirmativa, de latagão, faz lembrar o Patrick Bauchau de “A Coleccionadora” de Rohmer. O seu amigo Carlos não se parece com ele. Pacato professor de música, fuma cachimbo, lê o famoso ensaio sobre “a alma romântica e o sonho”, tem um ar blasé, assume-se como um misantropo. O actor que o interpreta, um dos ‘modelos’ de Bresson, é atraente, sisudo e opaco. Carlos parece sempre incomodado por estar naquela casa de praia com o amigo, anuncia que se vai deitar mais cedo, que se vai embora, tudo nele é ócio e tédio, até os “ah, sim?” e os “até amanhã”. Os dois amigos, que cresceram juntos, não se falavam há uns anos, não porque se tivessem zangado, mas porque tinham mais que fazer, o emprego, o casamento, sabe-se lá. Há agora entre eles um clima desconfortável, olhares e silêncios sombrios, um male bonding que perdeu a naturalidade. As conversas mais anódinas parecem ponderosas, com acusações e remoques. E eles dizem um ao outro coisas como “não tens jeito para conversas íntimas” ou “vês em mim coisas demais”.

O mundo deles exclui as mulheres, vistas como um ‘outro’ incognoscível. Dário prefere ir à praia de manhã, com a maré cheia, porque a maré cheia traz as alforrecas, e as mulheres, diz ele, têm medo de alforrecas e ficam em casa. Mais do que causar ciúmes entre os amigos, Alda, a vistosa mulher de Dário, permanece exterior à amizade deles. Quando Alda aparece pela primeira vez, uma mulheraça de olhos claros e dentes vorazes, diz a Carlos, lânguida: “Você não esperava que eu fosse assim.” É uma tentativa canhestra de desafiar Carlos a desejá-la ou a disputá-la. Ele manifesta-lhe um desinteresse olímpico. Então Alda chama-lhes misóginos, ao marido e ao amigo, porque os não-ditos deles envenenam amizades, férias, casamentos, infidelidades até. Alda parece sempre receosa, e num passeio de barco reclina-se como uma Ofélia morta, à beira das águas. Saberemos depois que está grávida, e isso separa ainda mais Dário e Carlos, separa-os um do outro e separa-os a ambos dela.

Há alguém que vê estas peripécias de fora, embora queira estar dentro: Alberto, ex-aluno de Carlos, interpretado por Pedro Hestnes, o mais inesquecível actor triste do cinema português. Alberto é um miúdo que se julga crescido. Caloteiro, gigolo, ladrãozeco, tímido e insolente, aparece no meio das pessoas, vindo do nada, dá os seus palpites e desaparece, deixando bilhetinhos. Está obcecado com Alda, e presume que sabe “o que toda a gente faz na praia”. De facto, não sabe. Está a leste. Quando manda um postal à rapariga, é um postal com São Sebastião, imagine-se, que ícone tão equívoco. Dos bailaricos campestres que frequenta, Alberto só traz a melancolia, não o ânimo da juventude. Gosta de intrigas. Julga mas não quer ser julgado. Recusa que tenham pena dele, embora mereça a nossa pena. Como o Berti do romance de Pavese, acha que “é preciso compreender a vida”, “compreendê-la enquanto se é jovem”, mas não compreende nada.

Jorge Silva Melo, com a sua nostalgia zangada, situou a adaptação na Arrábida, nos penúltimos dias da época colonial portuguesa, os tempos da sua juventude. Existe um mundo exterior às personagens, os diálogos mencionam “a baía de Luanda” e os “abacaxis de Lourenço Marques”, “amigos no mato”, fugas, exilados em terras francesas. Mas é como se fosse um ruído de fundo, numa telefonia, mais distante ainda do que a guerra em Pavese. Em “Agosto” os sons contam muito. A dobragem é invulgarmente feliz. E canta-se, trauteia-se, assobia-se, há música de câmara, ié-iés, cançonetas italianas e francesas. Uma delas diz: “Quand vient la fin de l’été sur la plage/ Il faut alors se quitter.” É difícil não ficarmos com esses temas na cabeça, sobretudo o inconsolável “Tu vais-te embora/ Eu vou-me embora/ O Verão já se acabou”. A “amargura” rima com “ternura”. E eleva-se o “vento da separação”, um vento que sopra, inclemente, nas esplanadas brancas sobre o mar esmeralda, nas rochas íngremes, nas árvores da serra, na amizade que ainda não quer admitir que, tal como o Verão, acabou.

Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia

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