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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

GERMANO SILVA: “Por trás de cada fachada do Porto há uma história desconhecida ou insólita”


GERMANO SILVA:
“Por trás de cada fachada do Porto há uma história desconhecida ou insólita”

LIVRO Germano Silva acaba de lançar “Porto Desconhecido & Insólito”

Há um amor de perdição entre duas mulheres no século XIX, um imperador caloteiro, a imagem da santa com a cabeça cortada por ser demasiado sensual, e muitas outras histórias no novo livro de Germano Silva dedicado a mostrar um Porto nunca imaginado

ENTREVISTA VALDEMAR CRUZ FOTOS LUCÍLIA MONTEIRO

Está-lhe na natureza. Se começa a falar sobre o Porto, haverá a certeza de este ex-jornalista e cronista da cidade fazer jorrar uma infinidade de histórias de uma cidade que julgávamos conhecer e, afinal, se revela tão estranha e insólita.

Com tantos livros publicados sobre o Porto, esta é uma forma de ir à procura do que é menos óbvio?

Exatamente. Andamos nas ruas e muitas vezes olhamos para a fachada de uma casa, de uma igreja, e não imaginamos que por trás dessa fachada há uma história que é, ou desconhecida, ou até insólita. Há uns anos, estava eu ainda no jornalismo, tive de ir falar com um advogado com escritório à entrada da avenida dos Aliados, do lado direito para quem sobe. Cheguei e ele não estava. O empregado, enquanto eu esperava, levou-me a espreitar por uma janela, nas traseiras. Via-se a viela dos Congregados. Ainda havia ali restos de casas da antiga rua de D. Pedro. Disse-me ele, então, que se contava que havia por ali uma casa onde teriam aparecido umas libras em ouro. Aquilo intrigou-me. Andei a investigar e descobri que vivera ali um fulano que andara no cerco do Porto. Era um militar que tinha vivido naquele local aí pelos anos de 1850. A casa era alugada. Um dia, a empregada estava a preparar o almoço e tinha uma peça de carne ou de peixe em cima da mesa. Descuidou-se e um gato passou, pegou na peça e fugiu. Meteu-se numa espécie de saguão. Ter-se-á ouvido alguma coisa que cai e tilinta.O homem fica intrigado e vai espreitar. Descobre um pote com umas libras de ouro. Não muitas. Era normal durante o cerco do Porto as pessoas esconderem os valores, porque não sabiam o que ia acontecer. A partir daí convenço-me que o Porto está cheio destas pequenas histórias.

Miragaia, zona da antiga judiaria

Na altura já escrevia no "JN" as crónicas "À descoberta do Porto". Nessa altura utilizou esta história?

Isto terá sido por volta de 1995 e não cheguei a contar a história. Guardei-a nos meus apontamentos. Começaram a aparecer outras curiosidades.

Por exemplo?

Há casos como o da rua das Flores, de que toda a gente falava e que começou por se chamar rua de Santa Catarina das Flores. Chegou a ter à entrada uma imagem da santa. Muita gente se perguntava onde estaria a imagem. Ninguém sabia. Ora, está dentro da papelaria Araújo & Sobrinho.

Que já não é papelaria...

Sim, agora é um hotel, mas tem ainda uma parte de papelaria para elites, com esferográficas de luxo. Ao ser construído, aquele prédio sai do alinhamento normal que vinha da rua das Flores. O Araújo, que foi vereador da Câmara, conseguiu aquilo e com isso desaparece o prédio onde estava o nicho com a imagem de Santa Catarina. Mas ele manteve-a no interior da loja. Um dia fui à papelaria e vi a imagem que me pareceu ser a da santa. Perguntei a um especialista e confirmou-me que se tratava de uma imagem do século XV ou XVI. São estas histórias que as pessoas não veem e que eu vou contando.

No meio desses encontros aparecem muitos casos insólitos?

Sim, um deles é o da Confraria da Nossa Senhora da Vitória. Há um incêndio que devora todo o altar e a própria imagem da padroeira desaparece. Os homens da confraria encomendam uma imagem nova para colocar lá o Soares dos Reis, o grande escultor da época. Faz uma imagem tendo como modelo uma rapariga de Gaia, a Mariquinhas Castanheira, que já servira de modelo a outros artistas. Era uma rapariga com um corpo muito bem feito e um rosto perfeito. O escultor fez uma imagem muito bonita, mas os homens da confraria nunca gostaram da cara dela. Não a viam com cara de santa, angelical, pintadinha, corada. Um dia tiraram a imagem, a pretexto de que precisava de ser limpa, e mandaram-na para um santeiro da Maia. Ele cortou-lhe a cabeça e fez uma outra como eles entendiam que devia ser a da santa. O padre da altura teve o bom senso de guardar a cabeça original e, por isso, continua guardada. Um dia fiz a experiência com um entendido em arte sacra e perguntei-lhe, frente à imagem, se havia algo de anormal. Ele disse logo que era a cabeça da santa. Chamou a atenção para quase não haver diferença de tamanho entre a cabeça do menino e a da santa. Só que o comum das pessoas olha, e não repara.

Ruínas da fonte mais antiga da cidade, na Alfândega

É comum as pessoas olharem e não verem?

Sim, sim. Passa-se na rua de S. Miguel e vê-se as fachadas daquelas casas, que são fachadas normais, algumas do século XVIII e XIX. Já não são as antigas casas da judiaria. Não se imagina que dentro há uma arquitetura totalmente diferente. Há ali uma com uma escadaria toda trabalhada em granito encaracolado. Isto numa casa que hoje está subalugada. É este Porto que não vemos, mas que está aí, e que faz parte da própria cidade, que me interessa retratar.

É a situação da Casa do Cais, onde foi lançado o livro?

Exato. É uma casa construída no século XVIII propositadamente para servir de armazém do vinho da Real Companhia que ia para o Brasil. A casa ainda hoje reúne todas aquelas condições. É feita em abóbadas enormes de tijolo da época, que cria frescura no ambiente. É comprida. Como está situada à beira-rio, junto ao Mosteiro de Monchique, o proprietário ordenou que não fizessem um telhado. Construíram uma placa, porque servia também de miradouro dadas as vistas fabulosas sobre o Douro. Continua a ser propriedade privada, mas hoje está o Museu do Vinho do Porto no rés do chão. Ao lado tem a casa dos fidalgos, com brasão. É um sítio excelente para fazer exposições, mas não está aproveitado.

Uma questão que este livro suscita é a seguinte: temos a certeza que conhecemos o Porto?

Eu próprio ainda não conheço o Porto. Há muita coisa que não conhecemos. Há muito por descobrir. A igreja de S. Francisco é muito visitada. As pessoas olham, vêm as imagens, mas raramente reparam que há lá uma imagem de um santo preto. É o S. Benedito. Era franciscano, mas não era padre porque nos séculos XIV/XV os negros não podiam ser ordenados padres. Era um serviçal, que recebeu ordens. Como era negro, o hábito dele na imagem está dourado para o realçar mais. Aquele santo era o patrono dos escravos. No Porto havia muitos escravos. Esses escravos criaram uma confraria, a de Nossa Senhora do Rosário e faziam uma festa interessantíssima. Participavam mulatos da Índia, negros de África, os marroquinos, todos com os seus trajes e os seus instrumentos. Especialmente nos séculos XVI, XVII e XVIII houve uma grande festa feita por aquela confraria. E, no entanto, o santo está ali e passa despercebido. Também há lá uma imagem de São Francisco. É uma imagem tosca, sem nada de especial, mas era das mais veneradas. As moças metiam lá as cartas dos namorados. Chamam-lhe o santo alcoviteiro porque servia de ligação com as raparigas.

S. Benedito, o santo negro na Igreja de S. Francisco

Ainda hoje continua a descobrir novas histórias?

Muitas. Há dias estava no Arquivo Distrital porque, num alfarrabista, me apareceu uma lista das freiras que na altura estavam no Mosteiro de Monchique. Depois foram indo para Santa Clara. A esse propósito quis saber mais qualquer coisa e fui ver os fundos do mosteiro. Encontrei uma coisa muito interessante. Uma queixa da madre superiora às autoridades da época contra um barqueiro que vinha para junto do mosteiro cantar madrigais às freiras. Na altura o mosteiro ficava mais junto ao rio. Mas analisando os documentos vê-se a resposta do barqueiro à polícia. Segundo ele, a Madre Superiora o que tinha era ciúmes, porque ele já teria cantado para ela, até já teria estado na cela dela e agora não quereria que ele cantasse às outras. Como um jornalista é um contador de histórias, são estas as histórias que conto nesses passeios que faço por aí com grupos.

Isso implica uma grande disponibilidade para calcorrear a cidade e também interesse em ir aos arquivos e passar lá o tempo necessário...

Há uma outra fonte que me tem ajudado muito: os jornais da época. Encontro muitos jornais do século XIX, por exemplo nos alfarrabistas. Compro-os e encontram-se coisas interessantíssimas, sobretudo nos anúncios. Hoje temos o SMS. na altura, os namorados mandavam mensagens através dos anúncios dos jornais. Encontra-se uma rede de comunicação.

Zona da Ribeira

É nessas deambulações que encontra histórias mirabolantes, como a do imperador caloteiro?
 
Essa história tem agora sido muito comentada. Há um imperador, o filho de D. Pedro II, do Brasil, que vem ao Porto. Estava uma grande exposição industrial no antigo palácio de Cristal e ele vem cá. Dá ordens ao cônsul do Brasil na cidade para encontrar um sítio onde se alojar, perto da exposição. No edifício da esquina da rua do Rosário com a de D. Manuel II, onde esteve o Cineclube do Porto, havia um hotel, de uma senhora da alta sociedade, muito bonita, muito elegante. O cônsul foi lá, ela aceitou e esmerou-se. O hotel ficou por conta do Imperador. Decorou os aposentos, gastou muito dinheiro. No final ela apresentou a conta. O Imperador achou aquilo muito caro e deu ordens para não pagarem e assim se foram embora. Ela pôs uma ação em tribunal e ganhou. A sentença está na íntegra no “Comércio do Porto”. Com aquela base que lhe dava razão, mete-se num barco e vai ao Brasil disposta a fazer escândalo. Há lá um português rico que, para evitar o escândalo, chama-a, paga-lhe a despesa e ainda o bilhete de regresso.

Nessa visita, o imperador teve outros contactos com a sociedade portuense?

Teve outras peripécias, porque queria estar com Camilo Castelo Branco. Só que nessa altura o Camilo andava em conflito com os Braganças, a cujo ramo o Imperador pertencia. Andava até a escrever “A Infanta Capelista”, que denegria os Braganças. Por isso inventa justificações para não ir ter com o imperador. Alega razões de saúde. Só que o imperador decide ir ele próprio visitar o Camilo. Na sequência da visita, Camilo mandou desfazer o livro que já estava a ser impresso. Hoje é um romance raríssimo, porque só há uns três ou quatro exemplares. Isto porque, apesar de Camilo ter dado ordem à tipografia para parar e deitar tudo fora, na tipografia aproveitaram para vender o papel a um merceeiro da rua 31 de janeiro, que com aquilo embrulhava sabão e outras coisas. Um dia, uma empregada de um admirador de Camilo chega a casa com um daqueles embrulhos. Ele olha para o papel, fica sobressaltado, e pergunta-lhe onde tinha arranjado aquilo. O homem vai à mercearia e salva o que pode, ao ponto de ter conseguido reconstituir dois ou três exemplares. Há por aí umas edições em “fac simile” ou falsificadas.

Na fachada da igreja de S. Francisco

Qual é, para si, a história mais surpreendente ou mais insólita narrada neste livro?

É a história do amor entre duas raparigas. No século XIX há uma rapariga que teve uma vida muito agitada. Ficou sem pai muito cedo. Era muito bonita. Dava nas vistas. Chamava-se Henriqueta. Era pobre, vivia sem recursos. Resolveu tirar partido do corpo. Atraía comerciantes ricos a casa, em Cimo de Vila. Enquanto eles se preparavam, roubava-lhes os relógios, correntes de ouro, dinheiro, e a seguir punha-os na rua sem que nada tivesse acontecido entre os dois. Eles não se queixavam porque tinham vergonha. Ela foi ganhando dinheiro e um dia apareceu na vida dela uma rapariga, Teresa de Jesus, por quem se apaixonou. Viviam as duas juntas. A Teresa tuberculizou e morreu pouco depois. Ela sentiu muito aquela morte. Foi ao cemitério do Prado do Repouso, que tinha sido inaugurado há pouco tempo, e comprou um talhão para fazer um jazigo. Comprou um pedaço de mármore na Alfândega e mandou esculpir uma imagem de S. Francisco de Assis. É uma imagem muito bonita. Naquela época os funerais eram à noite. Em dada altura do funeral, quando já estavam no cemitério, pediu aos circunstantes que a deixassem despedir-se da amiga na intimidade. Ao ficar sozinha corta a cabeça da amiga e leva-a consigo. Até que um dia, por qualquer razão, passa lá em casa um fiscal da Câmara e vê a cabeça numa redoma. Vai de imediato à esquadra fazer queixa. O caso vai a tribunal, mas ela foi absolvida por terem considerado que se trataria de um excesso de amor e não estava relacionada com nenhum crime. A história podia ter acabado ali, mas não. Isto foi em meados do século XIX e ainda hoje quem passa no cemitério vê que todos os dias há quem vá ao jazigo colocar flores novas, terços nas mãos de S. Francisco, velas, lamparinas. De tal ordem que a administração do cemitério já pediu para não colocarem velas, porque estraga a imagem de S. Francisco. Há ali um culto qualquer e esta é uma das muitas histórias de que se faz o Porto.


Jornal Expresso Segunda - 30 de Novembro de 2015

domingo, 29 de novembro de 2015

Rua de Miraflor/Espaço Mira, Porto

CRÓNICA URBANA 
Rua de Miraflor/Espaço Mira, Porto

Ponto de partida, ponto de chegada  
Patrícia Carvalho (Texto) e Nuno Sousa

Era um lugar esquecido da cidade até Manuela e João instalarem ali o espaço Mira. E, de repente, Miraflor voltou a fazer parte do léxico da cidade, com os seus armazéns abandonados a encher-se de cultura, em vez de carvão e cereais.
 
É dia de inauguração e há um pequeno grupo de pessoas na Rua de Miraflor a ocupar a via, sem preocupações, porque, se vier algum carro, há-de vir devagar (a estreiteza deixada pelos carros estacionados não dá para mais) e será visto com bastante antecedência. Há cerca de dois anos que é assim. A rua nas imediações da estação de Campanhã, caída no esquecimento depois do encerramento de armazéns e fábricas, tornou-se o ponto de passagem obrigatório desde que ali abriu o Espaço Mira.

Aquela fora sempre, de alguma maneira, a rua de Manuela e João, mesmo que não o soubessem. Ele morava numa rua paralela e tinha os telhados dos armazéns por companhia. Ela teve familiares cujos dias de trabalho passavam por ali. Em Miraflor, que foi, originalmente, Miraflores, mas que ao longo dos séculos perdeu o plural, havia a vida agitada de uma freguesia profundamente industrializada. Os 11 armazéns que Manuela e João encontraram vazios enchiam-se de carvão ou cereais. Há moradores que ainda se recordam de ali funcionar uma fábrica de tecidos. Algumas fachadas escondem as construções típicas do operariado portuense do século XIX, as “ilhas” do Porto.

Depois, as fábricas fecharam. Os armazéns esvaziaram-se. Campanhã já não aparecia como terra de trabalho, oportunidades e expansão, mas como a freguesia mais oriental da cidade, a mais pobre, a com bairros sociais maiores e mais problemáticos.



E a Rua de Miraflor, tão à vista de todos e ao mesmo tempo tão escondida, na sua estreiteza tímida ofuscada pela largueza da estação ferroviária, caiu no esquecimento.

E, durante esse tempo, desde o tempo em que os últimos armazéns se esvaziaram e iniciaram a sua lenta derrocada, nos anos 1980, Manuela e João iam crescendo ali ao pé, apaixonando-se pela fotografia e um pelo outro. E, quando chegou o dia de decidirem onde ganharia raízes o projecto com que sonhavam há anos — o de ter uma galeria que não fosse bem uma galeria, antes um espaço aberto à cultura, sob a forma preferencial da fotografia —, alguém lhes falou dos abandonados armazéns da Rua de Miraflor e eles perceberam que era altura de voltar a casa. O seu ponto de chegada era, afinal, o que fora o ponto de partida de ambos.

Os amigos acharam que estavam doidos. Campanhã, a mal-amada, a esquecida, o território dos grandes espaços vazios, fora da Baixa onde todos agora querem estar, só podia dar errado. Mas eles insistiram. Compraram dois armazéns, montaram uma exposição e, de repente, apareceu gente. E apareceu também uma reportagem no PÚBLICO. E, então, o projecto de Manuela e João tornou-se público e alguém achou que eles deviam saber alguma coisa para investirem ali. E, em poucas semanas, os 11 armazéns vazios que ocupam grande parte de um dos lados da rua foram vendidos. A gente das artes, a gente que quer levar para ali mais projectos. A gente que achou que, se calhar, Campanhã podia fazer sentido.

Manuela Monteiro já contou esta história várias vezes, a última das quais perante uma plateia cheia durante a Semana da Reabilitação do Porto. Foi a intervenção mais aplaudida da manhã, enquanto ela contava como os moradores de Miraflor sentiam cada vez mais o espaço como seu e se orgulhavam de ouvir o nome da rua falado por um bom motivo, não por causa do abandono, da pobreza ou da degradação.

Em tarde de inauguração, o espaço Mira e o Mira Fórum enchem-se de pessoas que vão ver uma exposição e ouvir um jornalista e um fotógrafo falarem do livro que acabaram de lançar. Mas podia ser dia de uma palestra, de outra exposição qualquer, de um concerto ou um workshop. Desta vez, a D. Benilde, que é vizinha dos armazéns, não irrompeu por ali dentro, levando uma saca de limões ou uma penca a Manuela. Mas isso já aconteceu, garante, e ela quer que aconteça sempre que a D. Benilde quiser. Porque o Mira e a Rua de Miraflor dão-se bem e os principais responsáveis pela nova vida da rua querem que todos se continuem a dar muito bem. Até porque, por ali, ainda está tudo a começar e o ponto de chegada pode ser ainda mais. Miraflor corre o risco de se tornar uma estrela.
PÚBLICO 2  |  29NOV,2015

O Hotel de Francfort



O Hotel de Francfort


Um conde viveu nele hospedado durante quarenta anos




O leitor é capaz de imaginar, à luz dos nossos dias, a existência de um cemitério para cães, ao fundo da Avenida dos Aliados, no sítio onde, mais coisa, menos coisa, se ergue o monumento intitulado "A Juventu­de ", mais conhecido como "Menina Nua"? Mas existiu mesmo. Foi criado pela Câmara do Porto, em 1849.

É por demais evidente que a topografia do local, há 166 anos, era muito diferente da que hoje conhecemos. A Avenida dos Alia­dos, por exemplo, ainda nem sequer existia. Onde hoje está essa ampla artéria, conside­rada a "sala de visitas" da nossa cidade, ha­via duas ruas, relativamente curtas, mas muito concorridas: a de D. Pedro, que antes se chamara Rua do Bispo, por pertencerem à Mitra os terrenos em que foi aberta; e a do Laranjal, que tomou este nome devido a uma quinta que existiu ali por perto. Com o advento da República, a Rua de D. Pedro pas­sou a designar-se de Elias Garcia, um ilustre paladino dos ideais republicanos.

Aquelas duas artérias corriam, se assim se pode dizer, paralelas e faziam gaveto sen­sivelmente no local onde hoje se encontra a "Menina Nua".

Pois foi junto a esse gaveto, do lado poen­te, que a Câmara criou o tal cemitério para cães. Que não teve uma longa vida. Com efeito, aí por 1851, um tal Luís Domingos da Silva Araújo, capitalista, como eram classi­ficados os homens de dinheiro daquele tempo, comprou o terreno à Câmara e nele mandou construir um edifício onde, pouco depois, se instalou o Hotel de Francfort, que, nos finais do século XIX, começos do se­guinte, era o mais importante hotel do Por­to. Para conseguir esta categoria, muito con­tribuiu a sua privilegiada situação: ficava a dois passos, digamos assim, da estação cen­tral do caminho de ferro, a Estação de S. Bento onde o primeiro comboio chegou a 7 de novembro de 1896.

O edifício mandado fazer por Luís Do­mingos da Silva Araújo, não primava pela elegância arquitetónica. Tinha rés do chão e quatro andares e apresentava o feitio de um ferro de brunir. Nos baixos do prédio funcionava uma livraria e tipografia de Pau­lo Podestá. No seu género, era a mais impor­tante organização da cidade. Ao lado, ficava a célebre cervejaria Schereck e o não me­nos célebre café Chaves.

No hotel, hospedavam-se, sobretudo, as celebridades do teatro daqueles tempos, no­meadamente as cantoras líricas que vinham atuar no Teatro de S. João! Mas o hóspede mais famoso do Francfort foi, sem dúvida, o brasileiro de torna-viagem Manuel Joaquim Alves Machado, feito visconde de Alves Ma­chado, pelo rei D. Luís, em 1879; e conde, por D. Carlos, em 1896. Depois de muitos anos no Bra­sil, onde granjeou enorme fortuna, Alves Ma­chado regressou a Portugal em 1873 e fixou-se no Porto, hospedando-se no Hotel de Francfort onde ficou durante 40 anos.

Quando o conde Alves Machado morreu, em 1915, com 93 anos de idade, o hotel já pas­sava por grandes dificuldades. Os políticos da República haviam-se mudado para o Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina. Com algumas exceções, entenda-se. António José de Almeida, por exemplo, manteve-se fiel a este hotel, onde se hospedava sempre que vi­nha ao Porto.

Num dos quartos do Hotel de Francfort, morreu o dr. Teixeira de Sousa, que foi chefe do partido Regenerador e era presidente do Con­selho quando foi derrubada a monarquia. Se­gundo as notícias da época, foi o último cadá­ver a sair do hotel.

À data da morte do conde Alves Machado, o hotel era gerido pelo francês François Babel, um homem muito inteligente e com uma vas­ta cultura, que tudo tentou para retomar os dias de sucesso do hotel. Por exemplo, inovou ser­viços: lê-se num anúncio que no Francfort se estabeleceram "jantares de reclame, às quintas-feiras, bem servidos e relativamente bara­tos". Entretanto, François Babel faleceu. E o ho­tel continuava em decadência. Neste interim, surge o plano de obras da cidade em que está prevista a construção da futura Avenida dos Aliados. Foi a machadada final no Hotel de Francfort. Na véspera do encerramento defini­tivo, a gerência ainda teve que tomar uma de­cisão drástica. Nada que não tivesse aconteci­do anteriormente, até mesmo no período áu­reo do hotel: foi a penhora das malas de uma conhecida atriz da época, quando ela procura­va deixar o Francfort sem liquidar a conta.

O mais famoso hotel do Porto foi palco de várias tragédias, inclusivamente de suicídios. O mais falado foi o da jovem Clementina Sar­mento, noiva de Urbino Emílio, filho do conhe­cido médico Urbino de Freitas, autor do céle­bre "Crime da Rua das Flores". Urbino Emílio apaixonou-se pela Clementina, com quem queria casar, mas a mãe dele contrariou esse casamento e o rapaz suicidou-se. Clementina veio do seu Alentejo até ao Porto, e hospedou-se no Francfort, onde também se suicidou. O seu corpo repousa ao lado do do Emílio, no ja­zigo da família Freitas Fortuna, no cemitério da Lapa, identificado apenas pelas letras "CS".

História do café Chaves



O café Chaves foi inaugura­do nos baixos do edifício do Hotel de Francfort, no dia 10 de março de 1900. E en­cerrou as portas na véspera de Natal de 1917. Durante o período em que funcionou, foi o centro de cavaqueira de jornalistas, poetas, gen­te do teatro, mas, sobretu­do, de republicanos, que, desde a malograda revolta de 31 de Janeiro de 1891, mantinham acesa a espe­rança na chegada da Repú­blica, que veio encontrar o velho café no seu apogeu. Com a demolição do prédio do hotel, o café Chaves também se mudou, pas­sando a funcionar num ele­gante chalé (foto em cima), que existia na Cordoaria, mesmo em frente ao edifí­cio onde ainda funciona­vam o Tribunal da Relação e a cadeia. Mas poucos anos aqui esteve. Um novo plano urbanístico para a Cordoa­ria implicou a demolição do chalé e o "Chaves" desapa­receu irremediavelmente.
A primeira sede do Jornal de Notícias funcionou na Rua de D. Pedro, que depois se chamou de Elias Garcia

Jornal de Notícias, 29NOV,2015

Hotel Francfort, na esquina das ruas de Elias Garcia (de D. Pedro, no tempo da monarquia) e do Laranjal, prestes a ser demolido para dar espaço à construção da avenida dos Aliados, c.1917.




Erguido no início da segunda metade do séc. XIX, no local onde anteriormente se localizava o cemitério dos cães da cidade, o hotel Francfort tornou-se o local de estadia por excelência de muitos notáveis forasteiros que visitavam a cidade. No seu rés do chão estabeleceu-se a Tipografia Internacional, a cervejaria Schreck e o café Chaves frequentado por Leonardo Coimbra, Diogo de Macedo, Armando Basto e uma geração de artistas e poetas boémios, muitos vitimados pela tuberculose. O hotel vivia já um período de decadência quando foi expropriado pela Câmara e demolido.

Veja mais imagens da "sala de visitas" da cidade: http://goo.gl/6axXHT

Porto Desaparecido

#portodesaparecido#porto#aliados
["Photographia Portuense", Flickr; texto: "O Tripeiro" via "A Porta Nobre"]

— em Porto.

Manuel Joaquim Alves Machado

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Conde de Alves Machado



Manuel Joaquim Alves Machado, (Cabriz, Ribeira de Pena 4 de Fevereiro 1822 — Porto, 4 de Abril de 1915), Conde de Alves Machado.

Vida

Nasceu em 1822, na Quinta de Barbeita, junto a Cabriz, freguesia de Cerva, concelho de Ribeira de Pena filho de lavradores, Bernardo José Alves Machado, e de sua mulher Maria Rosa da Costa Machado.

Emigrou para o Brasil aos 12 anos de idade, empregando-se em várias casas comerciais, e chegando, à força de trabalho honrado e perseverante, a conseguir uma muito avultada fortuna e a ocupar uma situação de grande evidência entre a colónia portuguesa no Brasil, que protegia enormemente.

A sua firma, dedicada, entre outras actividades, ao comércio do café, estava estabelecida na Rua do Hospício, nº 26 Rio de Janeiro.

Em 1873, depois de uma longa viagem pela Europa, fixou residência no Porto, no Hotel Francfort, onde viveu cerca de 40 anos.

Pertenceu à Junta Distrital do Porto.

Filiou-se no partido Regenerador, sendo grande amigo do Conselheiro António Maria Fontes Pereira de Melo.

Publicou: O Senador Zacarias de Góis e Vasconcelos, Julgado pela Imprensa do Seu País por Ocasião do Seu Falecimento, Porto, 1879.

Foi agraciado com o título de Visconde em 1879, por D. Luís e elevado a Conde em 1896, por D. Carlos.

O Conde de Alves Machado foi sempre de enorme generosidade para com a família real portuguesa. Conta o Sexto Marquês de Lavradio nas suas memórias que os partidos políticos, sobretudos os republicanos, estavam sempre prontos a criticar as despesas que a Casa Real fizesse e especialmente as feitas com viagens, sem no entanto atender à vantagem destas. Havia no entanto monárquicos amigos da Família Real que não queriam que Sua Majestade, o Rei D. Carlos, pudesse sentir faltas de dinheiro. Assim, por ocasião da visita de El Rei D. Carlos a Londres, o Conde de Alves Machado ordenou aos seus banqueiros em Londres que pusessem à disposição de S.M. ₤10,000 de que S.M. se poderia utilizar quando e como quisesse e, se S.M. precisasse de maior quantia, os mesmos banqueiros tinham ordem de lha entregar.

Com D. Manuel II já no exilio, Alves Machado, continuou sempre a dar mostras da sua generosidade. Em 1913 D. Manuel escreve-lhe da Alemanha agradecendo-lhe mais uma ajuda financeira, desta feita de ₤500.

Também a família Imperial Brasileira foi objecto da sua generosidade. Em 1889 ao desembarcar em Lisboa, no início do seu exílio, dom Pedro II recusou o palácio que lhe foi oferecido pelo sobrinho-rei, preferindo hospedar-se no Hotel Bragança, como um cidadão comum. Como não tinha dinheiro para pagar a conta quem lhe valeu foi o Conde de Alves Machado. Nesse mesmo ano 1889, por ocasião da morte da Imperatriz do Brasil esposa do Imperador Dom Pedro II, em virtude das dificuldades financeiras que a famlia imperial sofria no exílio, no Porto, foi o Conde de Alves Machado quem financiou o funeral, concedendo ao Imperador um avultado empréstimo de 20 Contos de Reis. Mais tarde, D. Pedro, em França, voltou a precisar de dinheiro e recorreu à família Rothschild, mas como os Rothschild lhe exigiram garantias prestadas pelos herdeiros de D. Pedro no Brasil, D. Pedro voltou a pedir ao Conde de Alves Machado um segundo "empréstimo", também de 20 Contos de Reis.

Também O Correio da Manhã de 24/5/1896 na 1ª e 2ª pp tem uma notícia cujo título chama a atenção,”O Imperador do Brasil e o Senhor Conde de Alves Machado” onde se regista e enaltece a generosidade deste último para com a Família Imperial. Segundo a mesma notícia Alves Machado escreveu ao Visconde de Ouro Preto dizendo-lhe o seguinte: «ponho a disposição S Majestade todos os meus haveres, todos ilimitadamente... e que nos funerais da Imperatriz não se olhe a despesas».

Filantropo, altruísta, ocupou diversos cargos em associações de beneficência, estando sempre disponível para ajudar os que dele precisavam.

Construiu a sua casa na Praça de Republica, 25. Também era proprietário do Palacete sito na Rua do Salitre 66, que vendeu em 1899 ao Conselheiro Joaquim José Cerqueira e que mais tarde veio a ser a sede da Fundação Oriente.

A sua filha, Maria Celestina Alves Machado, casou com o escritor e artista José Júlio Gonçalves Coelho

sábado, 28 de novembro de 2015

MEU CARO JOÃO SOARES


PLUMA CAPRICHOSA





CLARA FERREIRA ALVES

MEU CARO JOÃO SOARES


Toda a gente diz defender o património, e quando se diz isto imaginam-se capelas e igrejas a cair, muros derrubados, fortalezas perdidas. Nunca, ninguém, se lembra do património literário

Ao contrário das correntes sociais (li isto algures), não recebo o seu nome para ministro da Cultura com maus olhos. Sei o trabalho que fez na Câmara Municipal e sei que foi um ótimo vereador da Cultura. Conhecendo o seu trabalho e inclinações, venho por este meio trazer um empenho. Bem sei que ainda mal se sentou na cadeira e será cedo para empenhos. Antes que seja inundado com pedidos e convites, com projetos e ideias, com... enfim... empenhos, apresento o meu. É para alguns amigos e para outros que nunca conheci. É para essa coisa vaga e desaparecida que dá pelo nome de Literatura. E que foi abandonada, nos últimos anos, a outra coisa menos vaga que se chama mercado. Passo ao assunto.

Toda a gente em Portugal diz defender o património, e quando se diz isto imaginam-se capelas e igrejas a cair, muros derrubados, fortalezas perdidas. Nunca, ninguém, se lembra do património literário. E como os escritores raramente se põem na fila dos empenhos, e são os mais silenciosos dos “agentes culturais”, sobretudo os escritores mortos, venho por este meio recordar que temos um património literário. E uma porção de grandes escritores mortos ou enterrados vivos no esquecimento. Esqueça os “jovens”, os jovens defendem-se bem, têm prémios que ganham antes de saberem distinguir um adjetivo de um substantivo, têm a atenção das editoras que procuram o sabor do mês. Têm o Facebook. Pense nos velhos.

Comecemos por esse velho intelectual chamado Jorge de Sena. Um conselho: dê atenção ao espólio, o que se passa, o que há para salvaguardar. Há gente competente que sabe disto. Passo a Mário Cesariny de Vasconcelos. Convinha dar-lhe ao menos uma lápide funerária em homenagem em vez da tumba comum ou sonhos de mausoléu. Convinha, tanto neste caso como no outro, que existisse orçamento para uma coisa chamada Imprensa Nacional a funcionar como editora de referência dos clássicos portugueses. Uma editora que se ocupe de publicar ou republicar a obra completa de nomes como Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira, Cesariny, Natália Correia, Alexandre O’Neill, Augusto Abelaira, Al Berto, etc., etc. E o Sena. E muitos, muitos mais. Deixei de fora o José Cardoso Pires, a Sophia, o Herberto, o Vergílio Ferreira e a Agustina Bessa Luís que foram (re)tomados pelas editoras no mercado. Honra lhes seja feita. O pior é que sem uma ação concertada de divulgação e promoção nada se sabe e as obras reeditadas e os escritores correm o risco de ser ignorados pelos leitores. Dou sugestões. Um site deste património (custa dinheiro) que o unifique com sentido crítico e de escolha e o torne disponível com contribuições de outros escritores que escrevam sobre os mestres. Usar as correntes sociais. Usar a rádio e a televisão públicas. Peço-lhe que dê atenção a um projeto chamado Voz, feito por um dos atuais administradores da RTP quando ainda não o era, e que ajudei a patrocinar quando estive na Casa Fernando Pessoa. O Voz tornou a poesia um fragmento de beleza e de humor, totalmente acessível ao grande público e partilhável. Ainda não havia internet como fenómeno totalitário de comunicação e a televisão pública deu àquilo uma atenção mínima, para variar. Reponha a poesia e a prosa no metro, no autocarro, no elétrico, ponha-a a esvoaçar por aí, não custa muito dinheiro, e os seus colegas dos Transportes poderão ser sensíveis a um verso camoniano, à Lisboa de Cesário, ao Douro de Agustina ou aos pobres de Raul Brandão, incluídos na dieta suburbana. Entre Lisboa e o Senhor Roubado pode ser que alguém preste atenção a uma quadra de soneto. Pode ser que a palavra escrita volte a ocupar o lugar donde foi escorraçada pela “mensagem” rápida. Pode ser que a palavra escrita pelos mestres volte a instalar-se nas nossas cabeças e nos nossos corações e nos obrigue a levantar os olhos do telemóvel. Que nos desperte do sono da estupidez. Pode ser.

Fale com os colegas da Educação. Eu sei que a ciência se tornou o chuchu e concordo. Mas a literatura é parte substantiva e estruturante (adoro esta palavra) da nossa identidade, da nossa memória, da nossa História. Não deixem o Camilo ser atirado para o lixo. Os programas obrigatórios não fazem nada pela literatura, ajudam a destruí-la. Dizem os miúdos: “Lá tenho que ler a chatice de ‘Os Maias’”. Passem a Literatura para os cursos superiores, transversal a todos os cursos, uma opção dos alunos, e tornem-na uma disciplina atraente, elegante, com um programa atraente. Um plus curricular. Convidem os escritores a falar regularmente nas universidades, inaugurem um programa de leituras e, por favor, subtraiam a Literatura, o poder extraordinário da frase, ao cientismo académico. Não deixem um parágrafo do Mário de Carvalho ser atropelado pelo estruturalismo. Como dizia o João Ubaldo Ribeiro, os escritores trabalham por “preço simbólico”. Gente mais barata não há. Ideias não faltarão. Pense nisso.

Atentamente,

Clara Ferreira Alves


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2248 - 28 de Novembro de 2015

NÃO SE NOTA, MAS SOU MODERNO

HÁ HOMEM




LUÍS PEDRO NUNES


NÃO SE NOTA, MAS SOU MODERNO



GETTY IMAGES

Última análise do ano sobre cenas de gajos

I — Tenho roupas tão modernas (na gaveta)...
 
Uma das coisas interessantes de ir aos sites de moda de rua, como os “Sartorialist” e afins, é que momentaneamente nos permitem ficar inspirados de ‘alma fashion’ e de ter ideias tolas como: “Eh pá, mas eu tenho este tipo de roupa, até podia variar um pouco e ir para o trabalho sem peúgas... Isto era capaz de me ficar bem.” Falso. Ir ao baú, subitamente, buscar qualquer calcita colorida apertada, que nunca usou, para um matinal extreme make over é capaz de não ser boa ideia. Aqueles matulões que aparecem nas fotos do blogue têm muita pinta e, de facto, dava jeito ficar assim. Acontece que uma análise “mais fina” (como se diz agora) permite constatar que são quase sempre os mesmos tipos em todas as ruas do mundo. Ou seja: há a ideia que o autuer anda a fotografar gente em Milão, Paris ou Nova Iorque, mas há um grupo de 20 carcaças que são o núcleo duro. Profissionais de rua, digamos. Mas serve este introito para demonstrar um ponto específico. Por muita roupa que um homem tenha — e alguns devem ter — eles só usam uma parte muito pequena do seu acervo. Não sou eu que digo. É um estudo. E o que seria de nós sem os ditos?

Não vou citar a fonte porque é inútil. Mas as conclusões fazem sentido (do ponto de vista de conversa de café). Assim, os homens, enfim, de classe média, minimamente apresentáveis, apenas vestem uns 15 por cento da roupa que possuem. É possível que esta percentagem seja mais aplicável aos ingleses que aos portugueses, mas fiquem comigo, senhores leitores. A explicação é simples: os homens são incapazes de ir às compras sozinhos e acabam influenciados pelas namoradas. Até é possível que no momento da compra acreditem que vão usar “aquilo”. Mas a verdade é que nunca tal acontecerá. Bem sei que há qualquer coisa de “e qual é a novidade?”, nisto que foi escrito aqui. Longe de querer armar-me em “guru da moda” é tempo de reconhecer que os homens gostam de usar por norma a mesma roupa. Podem chamar-lhe “farda”. Como defesa pode-se dizer que é um “estilo pessoal”. Como os grandes vultos da moda que usam sempre a mesma t-shirt. A questão é que, se quer ir comprar trapos para si no Natal, assuma que vai apenas adquirir mais variações sobre o que já veste. É a natureza. Sim, outra vez a mesmas calças e as mesmas camisas. E vá sozinho, homem. Se vai com a namorada gasta uma pipa de massa e faz compras ao gosto dela, e lá ficam as roupinhas a atafulhar as gavetas a dar comida às traças. Fica o alerta.

II — Ajudo a minha companheira.
Ela até pode desmentir, mas...


Sabe aquelas entrevistas vox pop na TV em que perguntam ao homens se ajudam nas tarefas domésticas? A acreditar no que dizem publicamente, e até com risco de serem desmentidos pela parceira que está ao lado, fazem exatamente metade da lida doméstica. Lava a loiça? Quase todos os dias. E ajuda a sua estimada esposa? Aquela santinha quase não se mexe, embora seja uma fada do lar. Isto não é algo exclusivo de cá. Aliás, parece ser uma treta generalizada. Tão generalizada que suscitou a curiosidade para estudos feito por psicólogos: porque diabo mentem os homens sobre a quantidade de tarefas que fazem em casa, quando sabem que podem ser facilmente desmentidos? A pergunta está mal colocada, dizem. A questão é que os homens estão realmente convencidos de que estão a ajudar mais do que na realidade estão. Ou seja: sobrevalorizam — e de que forma — o pouco que fazem. Lavar e arrumar a loiça é — tendo em conta anos de inação total — um esforço muito maior “do que para alguém que já está habituado a fazer essas coisas”. Não estou a brincar. Por exemplo: se os investigadores perguntarem a um casal a percentagem do número de vezes que o homem lava a loiça, eles podem responder 80% e elas dizem 60%, mas o resultado não pode ser 140%. E também não pode ser só a necessidade de eles “fazerem bonito prà fotografia”, alegam. Este tipo de mecanismo mental sucede noutro tipo de ação coletiva. Por exemplo, em atividades de grupo há sempre a sensação de que “eu é que estou a fazer o trabalho todo”.

Então o que se passa? O problema não está na quantidade de trabalho que fazemos (nós homens, em casa), mas sim na incapacidade de imaginar a quantidade que os outros fazem. Nesse sentido não só acabamos a desvalorizar o trabalho dos outros, mas, claro, a hipersobrevalorizar cada vez que levantamos a bunda do sofá.

E sim, basicamente as mulheres continuam a fazer grande parte do trabalho doméstico em casa, sendo que levar o lixo à rua equivale a tudo o resto. Aqui, na Grã-Bretanha ou nos EUA.

Conclusão

O homem de 2015 compra roupas modernas se estiver acompanhado pela namorada. O homem de 2015 está convencido que faz quase todas as tarefas domésticas. Pelo que se leu no texto é tudo treta.


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2248 - 28 de Novembro de 2015

SOBRE O PODER ILEGÍTIMO EM DEMOCRACIA


SOBRE O PODER ILEGÍTIMO EM DEMOCRACIA

Este poder ilegítimo tem-se aproveitado da crise que ele próprio provocou para se impor e CONSOLIDAR

texto ALFREDO BARROSO


1 A convergência entre partidos de esquerda é indispensável. Mas convém não ignorar que os caminhos a percorrer estão cheios de obstáculos, são perigosos e envolvem riscos. O exemplo do que sucedeu à Grécia e ao Syriza é um sério aviso à navegação. Os ‘donos’ da União Europeia, sobretudo a Alemanha, não toleram atos de rebeldia que ponham em causa o seu poder. Quem infringir as regras por eles impostas será severamente punido.

Um dos fenómenos mais significativos que afetam as sociedades democráticas é, precisamente, a usurpação do poder democrático legítimo pelo poder ilegítimo exercido por empresas transnacionais, mercados financeiros, agências de notação, lóbis, grupos de pressão e eurocratas, em suma: uma elite tecnocrática de gestores, banqueiros, economistas e advogados de negócios que definem e condicionam as políticas, controlam e influenciam os políticos e dominam as instituições europeias (sobretudo a Comissão Europeia) e internacionais (como o FMI). Paradoxalmente, este poder ilegítimo tem-se aproveitado da crise que ele próprio provocou para se impor e consolidar.

Não, isto não é uma teoria da conspiração posta em prática por poderes ocultos. Abundam os factos que demonstram a crescente influência desse poder ilegítimo, sobretudo desde a contrarrevolução neoliberal protagonizada na década de 80 por Margaret Thatcher no Reino Unido e por Ronald Reagan nos EUA. Basta, aliás, citar uma declaração feita pelo banqueiro norte-americano David Rockfeller, em 1991, acerca da falta de transparência do grupo de Bildeberg, para perceber que esse poder ilegítimo — e razoavelmente oculto — existe de facto e não é mero produto de uma imaginação doentia. Disse ele: “Teria sido impossível desenvolvermos os nossos planos para o mundo se tivéssemos estado sujeitos a exposição pública durante todos estes anos. Mas o mundo é agora mais sofisticado e está mais preparado para se submeter a um governo mundial. A soberania supranacional de uma elite intelectual e de banqueiros mundiais é seguramente preferível à autodeterminação nacional praticada nos séculos passados.”

2 Ora, a legitimidade é indissociável da democracia, e as suas instituições e poderes representativos não podem ser usurpados, designadamente por empresas cujo único objetivo é o lucro, e pelos seus diversos agentes e representantes, que se arrogam o direito de exercer poderes reservados aos eleitos. Trata-se de uma forma sorrateira e sub-reptícia de poder ilegítimo, que é difícil de identificar com rigor e nem sequer tem nome.

A ensaísta e ativista Susan George chama-lhe ‘corporativocracia’, qualificando assim essa forma de poder ilegítimo que não decorre de decisões oficiais e explícitas e que se vai instalando impercetivelmente, por vezes sem ser considerada sequer como opressão ou usurpação por parte daqueles que, de boa ou má vontade, a ela se vão submetendo.

Os eleitores são soberanos só por um dia: o das eleições

Por isso, importa esclarecer os cidadãos-eleitores, explicando com rigor as condições que definem um poder democrático legítimo. A saber: eleições livres e justas dos representantes do povo; governo constitucional; Estado de direito; igualdade perante a lei; separação dos poderes executivo, legislativo e judicial; existência de mecanismos de controlo e contrapoderes; separação entre Igrejas e Estado; direitos, liberdades e garantias individuais e coletivos, nomeadamente liberdade de expressão, liberdade de opinião, liberdade de imprensa e liberdade de culto.

3 Como afirmou o sociólogo Pierre Rosanvallon, em entrevista ao semanário francês “L’Obs”: “O nossos regimes podem continuar a dizer que são democráticos, mas a verdade é que já não somos governados democraticamente. É este o grande hiato que alimenta o desencanto e angústia contemporâneos.”

Hoje, os cidadãos-eleitores são soberanos só por um dia: o das eleições. Passado o momento do voto e a sedução das promessas eleitorais, os cidadãos-eleitores constatam que o poder político se vai afastando deles e que o interesse geral passa a vogar ao sabor dos protestos e pressões corporativas, sobretudo da plutocracia, isto é, do poder da riqueza e do dinheiro.

O divórcio dramático entre momento eleitoral e momento governamental não para de acentuar-se. E é essa distância abissal que separa a linguagem de campanha eleitoral da linguagem governamental que produz efeitos devastadores no eleitorado, contribuindo para desvalorizar a atividade política e encorajar a abstenção. A velha questão do défice de representação democrática continua a ser de grande atualidade, mas não pode continuar a escamotear a questão do mau governo, que se tornou crucial quando constatamos que o poder executivo vai conseguindo impor-se a todos os outros, sobretudo ao poder legislativo.

4 A Europa é palco de uma grande ofensiva contra o modelo social europeu, com o objetivo de derrogar tudo o que foi conquistado pelos trabalhadores desde há 60 ou 70 anos.

Os neoliberais odeiam o Estado-providência porque, dizem eles, consiste em taxar os ricos e as grandes empresas — ou seja, os que, segundo eles, pretensamente criaram toda a riqueza — para redistribuir parte dela por pessoas que não a merecem.

Pobres, desempregados e assalariados não são considerados parceiros na criação de valor — são parasitas. Segundo o dogma neoliberal, só o capital, com exclusão do trabalho e da natureza, é criador de valor e, portanto, de postos de trabalho. Só os acionistas e quadros dirigentes são criadores de valor. Por isso, é natural que sejam eles as partes mais interessadas na tomada de decisões políticas.

O fanatismo dos neoliberais é tal que, apesar do balanço assustador das suas políticas, insistem em aplicar as suas teorias. Tal como numa religião, os grandes sacerdotes do neoliberalismo oficiam em Bruxelas, os seus missionários reúnem-se em Davos, os seus teólogos e pregadores estão infiltrados na imprensa e em think tanks, e os seus mais sectários seguidores em ministérios e conselhos de administração.

É contra esta ‘tropa fandanga’ e os partidos políticos controlados por ela que as esquerdas têm de se bater, e é por isso mesmo que têm de convergir — não apenas em Portugal mas em toda a Europa, a começar pela do Sul. É um combate desigual e difícil. Exige capacidade de esclarecimento e persuasão dos cidadãos-eleitores. Mas também clara vontade de aceder ao poder e exercê-lo pela via democrática, com programas políticos claros, corajosos e eficazes.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2248 - 28 de Novembro de 2015

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