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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Anabela Moreira: “Este filme foi a maior loucura que todas nós, atrizes, fizemos por um realizador

Relacionado“Fátima”, de João Canijo: “Não é possível representar uma peregrinação sem a fazer”

Entrevista



Anabela Moreira:

“Este filme foi a maior loucura que todas nós, atrizes, fizemos por um realizador"

Anabela Moreira numa cena do filme Foto d.r.

O filme “Fátima”, do realizador português João Canijo, chega esta quinta-feira às salas de cinema. O Expresso entrevistou uma das protagonistas, a atriz Anabela Moreira

Entrevista Bernardo Mendonça
 
Para o filme “Fátima”, que estreia esta quinta-feira, fizeste mesmo a pé um dos percursos dos peregrinos até ao santuário. Quantos quilómetros andaste ao todo?
Olha, não te sei dizer. No cartaz diz 400 km. Mas foram mais de 400...

O cartaz engana para menos? Retirou quilómetros ao que realmente fizeram?

Não é questão de enganar. Tem a ver com a questão da publicidade. 11 mulheres, 400 quilómetros. Na verdade acho que nunca ninguém saberá quantos quilómetros fizemos, porque andámos em alguns caminhos alternativos, e às vezes no percurso os marcos diziam que tínhamos andado X km e o conta quilómetros dizia que tínhamos andado Y, no Google maps dizia que o percurso era de W. Era tudo muito confuso. Não sei. Sei que foram muitos. Eu fiz o percurso maior de Bragança a Fátima. Era para ser feito em 10 dias, acabou por ser feito em 9 dias e acabou por ser a maior loucura que eu fiz na minha vida.

Foi duro...

Foi muito duro. Não fui só eu. Fui eu com a Vera [Barreto]. Houve outros grupos, como o da Teresa Tavares com a Iris Macedo. Estas vieram do Norte. Outras vieram de outros locais. Acho que foi a maior loucura que todas nós fizemos por um realizador. Porque às tantas estava em causa a nossa saúde. As pessoas se calhar têm de ver o filme para perceberem o que é uma peregrinação a Fátima. O percurso Bragança – Fátima é o maior em Portugal. Eu pensava que se viéssemos do Algarve seria um percurso maior, mas não é. A maior peregrinação é a que sai de Bragança. Tanto que, quando chegámos ao Santuário, há 3 anos, na altura em que fizemos o percurso verdadeiro, há uma altura na missa em que alguém nos congratula, faz uma festa, porque o nosso grupo, o grupo do maior percurso, tinha chegado bem ao Santuário. Claro que não estávamos bem.

Fez-me muita confusão. Vão-se celebrar 100 anos desde que começaram a caminhar pessoas até ao Santuário

Não estavam bem? Normalmente as pessoas, e são muitas que todos os anos fazem esta peregrinação a Fátima, fazem este percurso por uma questão de fé. É uma experiência de fé. E convosco? E contigo? Que experiência foi esta?

Eu tenho um bocadinho de medo de falar dessa experiência, porque cada pessoa vive essa experiência de maneira diferente. Eu só posso falar de mim. Fez-me muita confusão. Vão-se celebrar 100 anos desde que começaram a caminhar pessoas até ao Santuário. Pois é uma loucura. Eu estava a vir de Bragança, mas a Teresa Tavares e a Irís estavam a vir de Vila Flor. Eu estava a ir por um percurso em que fazia mais quilómetros - íamos sabendo coisas umas das outras através da produção do filme – e eu sabia que em determinado dia elas estavam a fazer um atalho lindíssimo, que a Teresa Tavares diz que foi o percurso mais bonito que fez na sua peregrinação, onde passou por um ribeiro. Imaginando que pouparam uma hora. Ninguém imagina o sofrimento que é. Não está nada organizado nos caminhos de Fátima. É uma coisa absolutamente selvagem. E isto chocou-me. A determinada altura vais encontrando pessoas pelo caminho e alguém te diz ‘por aqui poupa-se uma hora’ ou ‘por aqui poupa-se 5 minutos’, o que seja e...

Mas não há roteiros? Vivemos numa era com os smartphones e Google Maps, que ajudam no caminho...

Existe uma coisa que é a rota do peregrino que fez um percurso, mas duvido que tenham batido o terreno todo para saberem todos os percursos alternativos e pequenos que passam dentro de campos. Aquilo é praticamente feito todo por estrada, por zonas perigosas. Há ali uma zona onde todos os anos há acidentes e eu fiquei a saber que há grupos que fazem um percurso alternativo, por dentro, no meio do campo. E nós estávamos a fazer o percurso na estrada, ao lado de camiões, sem bermas, sem nada. É um choque. E vou por ali porquê? Porque vou com um determinado grupo, com um determinado organizador, e não encontras ao longo do percurso nenhum sinal....Sou a favor que se estabeleçam os caminhos para Fátima de uma maneira mais inteligente. Com graus de dificuldade, e o percurso bem explicado. Tudo isto está por ser feito ainda. Na altura houve uma pequena revolta no grupo porque apareceu um senhor que já fazia o percurso há 30 anos e falava de atalhos, o José Júlio...Quando acabei essa peregrinação verdadeira, eu só dizia: ‘vou criar o caminho do José Júlio’.

Porque todo esse percurso a pé que o elenco fez anos antes até Fátima foi apenas para laboratório. Nada disso foi filmado ou aproveitado para o filme...

Não. Isto foi dois anos antes do filme.

Uau. Só para sofrerem...

(risos) Só para o João poder saber o que era uma peregrinação e para nós todas também sabermos o que era. Porque só quem vive este percurso tão gigante, tão louco, só quem o conhece, é que pode falar dele com propriedade. Até podes observar de fora, mas nunca vais entender.

A tua representação desta tua personagem, a Céu, seria outra se não tivesses feito este percurso dois anos antes?

Ah! Sim. Eu imaginaria que fosse isso que estavas a dizer, um ato de fé. É um ato de fé, não estou a dizer que não seja, mas do que eu consegui perceber...(pausa) Uma coisa é estares num momento de aflição da tua vida porque tens uma doença ou alguém que tu conheces tem um problema e tu virares-te lá para cima, porque achas que Deus ou Nossa Senhora estão tão distantes de ti que para pedires uma coisa tens que fazer uma promessa destas.
Gravei com uma pequena câmara esses percursos diários que fiz na realidade. Antes das filmagens arrancarem. E se os ouvir, e tive de os ouvir algumas vezes, eu estou louca. Completamente louca

São normalmente momentos de desespero que levam a maioria das pessoas a fazê-lo...

Eu depois descobri que algumas pessoas não chegam a fazer promessas, fazem porque gostam da superação, mas também há pessoas que gostam de fazer queda livre.

Não é o teu caso...

Não. Mas eu percebi rapidamente que, pelo menos para mim, daquilo a que assisti, uma coisa é o teu ato de fé quando tu fazes a promessa, outra coisa é cumprir a promessa. E, do que eu vivi, acho que esse caminho não é santo nem santificado. São pessoas a cumprir uma determinada coisa. E como pessoas que estão no limite do sofrimento, surgem uma série de aspetos teus que desconhecias. Eu cheguei ao limitar da loucura. Conheci os meus pontos mais positivos e partes da minha pessoa que eu desconhecia que existiam porque o sofrimento é muito.

Como por exemplo? O que te surpreendeu em ti, que aconteceu, por causa do sofrimento?

Eu gravei com uma pequena câmara esses percursos diários que fiz na realidade. Antes das filmagens arrancarem. E se os ouvir, e tive de os ouvir algumas vezes, eu estou louca. Completamente louca.

Porquê? Com pensamentos delirantes?

Não chego a ter pensamentos delirantes, mas aquilo que eu percebia que as pessoas estavam a dizer ou estavam a querer fazer era um bocadinho delirante, paranoico. Porque chegas a um ponto...tenho partes desse diário [gravado] em que estou praticamente só a dizer asneiras, porque a raiva é tanta... Nem é raiva. Nem sei explicar. Ninguém está preparado para andar 50 ou 60 quilómetros nos primeiros dias da tua ida a Fátima. E pensas assim: “São 430 quilómetros. Tens dias para o fazer. O que é que se está a passar aqui?”
Anabela Moreira, em primeiro plano, noutra cena do filme

Com este filme, já pagaste todos os teus pecados, para trás e para a frente, não?

Eu já tenho um saldo muito positivo. Um crédito enorme, para depois poder cobrar uma série de coisas para o futuro.

És uma mulher de fé?

Tenho fé em muita coisa. Não sou religiosa. E nesta fase da minha vida nem cristã, mas tenho fé.

Em quê?

Não te sei explicar. Seria fácil dizer que sou agnóstica. Não sei. Desenvolvi o meu próprio sistema de crença. Acredito que de facto não somos só o corpo, acredito que de facto isto não acaba aqui. E acredito sem colocar em questão. Não tenho medo da morte. Tenho medo de perder as pessoas que eu amo e de não ter feito tudo o que podia por elas. E tenho medo que elas morram sem estarem felizes. E acho que isso angustia-me um bocadinho. Mas eu tenho plena certeza, e isto é uma loucura, mas fiquei com essa certeza quando morreu a minha avó, que as pessoas não acabam quando morrem. Agora explica-me isto...não sei.

E gostas do resultado do filme “Fátima”, que teve este processo doloroso?

O filme “Fátima” poderia ter sido muita coisa porque é uma obra muito complexa e o João filmou muitas, muitas, muitas horas. Eu gosto muito da versão longa, não gosto tanto da versão curta.

Que é a que vai ser apresentada no cinema...

Sim. Acho que é um bocadinho precipitada. Mas quando digo que é precipitada, são opiniões minhas que não interferem com a qualidade do filme. Mas é um filme sobre uma peregrinação e não pode ser um filme rápido, onde as coisas sejam precipitadas. Quer dizer, aquilo foram 9 dias e o João escolheu apresentá-lo com a lógica da cronologia. E não se pode passar de forma leviana por esses 9 dias de sofrimento.

Com o realizador João Canijo consegues mais espaço para criar, não é?
O João Canijo cria para aquelas pessoas. Ele não cria no vazio, às vezes acontece. Por exemplo no filme “Sangue do Meu Sangue” começámos por ser três atrizes, depois foi preciso um rapaz para fazer de meu sobrinho e filho da Rita - [Blanco] fomos encontrar esse rapaz; depois foi preciso um namorado f- omos à procura desse ator. Ele antes de começar a escrever para as pessoas ele pensa nas pessoas. Não é que ele misture, porque é tudo uma coisa só, mas ele acaba por vir buscar o ator logo de início, nós atores fazemos parte desse ato de criação. Estamos ali a criar com ele. E, portanto, é um processo único e diferente de todos os outros, pelo menos daqueles que eu tenho experimentado. Essa confiança que ele me trouxe, de confiar em mim até o ponto em que verbalizo o que estou a sentir com a minha personagem, foi o que me fez pensar que poderia ser giro eu encenar-me a mim própria, a dirigir-me a mim própria. E permitir-me ir a uns sítios que se correrem mal, são projetos meus, fui eu que arrisquei, não tem problema nenhum. (pausa) Nós, atores, somos muito inseguros.

É mais fácil chegar à personagem quando percebes o contexto distante do teu...

Eu descobri neste último processo de trabalho, com o filme Fátima, que às vezes o distanciamento também é muito importante. Ou seja, esta coisa de às vezes imergires de uma tal situação tem de ser doseada. Por isso não posso dizer que tenha um método. Houve alturas do filme “Fátima”, como tinha mesmo ido a pé, como tinha mesmo feito aquele percurso, às tantas estava demasiado ligada ao realismo da questão. E dei por mim a querer reproduzir coisas que tinham acontecido e percebi a meio do processo e depois de ver o filme que não, que tinha que ajustar algumas coisas, tem de haver também esse distanciamento.

Por outro lado, costumas transformar-te fisicamente nos papéis que tens feito no cinema. Neste caso, no filme “Fátima” também te transformaste bastante. Estás quase irreconhecível.

Meu Deus! Eu quando fiz o “Mal Nascida” por uma série de razões decidi engordar 25 quilos. Não foi uma decisão fácil, mas eu sei porque é que a fiz. A fisicalidade que eu ganhei com o excesso de peso facilitou-me inclusive a deixar vir cá para fora uma série de sentimentos mais rudes. Foi um percurso que decidi fazer e que foi essencial para aquela personagem. Até porque eu tinha uma cena de sexo com o meu irmão. E queria ser tudo menos sensual, sentia que a Lúcia era um bicho, uma mulher que se tinha abandonado completamente e que estava desfigurada.

Isso é raro entre as atrizes. Muitas querem estar belas frente à câmara.

Isto é um caso de psicanálise. A primeira vez em que fiquei mesmo aflita numa personagem foi numa em que tinha que ficar linda, nos “Filhos do Rock”, eu era a Maria, a boa da história. Nem eu sabia que eu era assim. Eu chegava de manhã e tapava a cara para não me verem, achava-me feia. Tem a ver com coisas profundas da minha vida. Sinto-me muito melhor a fazer mulheres absolutamente banais. Que não tenham sex-appeal, do que a fazer mulher sensuais.

Foste ao limite mesmo fisicamente no filme “Fátima”.

Eu agora quando fiz este filme “Fátima” não queria nem emagrecer, nem engordar. Mas pensei, a minha personagem é uma mulher de Trás-os-Montes e como estou entre várias atrizes magrinhas e bonitas, vou comendo e vendo no que dá.

Deste-te aos prazeres da gastronomia...

Dei-me aos prazeres da gastronomia de Vinhais, neste caso numa aldeia maravilhosa chamada “Rio de Fornos”, onde eu trabalhava para dois patrões maravilhosos, o Tóino e a Fátima. E eu todos os dias ia tratar dos animais de manhã e eles davam-me de seguida o pequeno almoço. E o pequeno almoço era feito de presunto de porco bísaro que eles passavam por vinho tinto e punham na lareira. E digo-te uma coisa, aquele pedaço de pecado não fica atrás de nenhuma iguaria que eu já comi até hoje.

E só em Lisboa me apercebi que tinha ficado completamente deformada. Tudo bem foi uma coisa que eu quis fazer, não foi pensado, deixei-me ir no processo. Mas neste momento estou a lutar para perder peso e os quilos que ainda ficaram desse filme.

Quantos quilos engordaste?
Entrei num ginásio maravilhoso e durante 2 ou 3 meses não me quis pesar. Emagreci bastante e quando me decidi pesar ainda estava com 70 quilos, com mais 10 ou 15 quilos a mais. Portanto não sei quantos quilos ganhei para o filme. Muitos. Mas vou procurar ajuda para perder o resto. Não posso ser eu sozinha. E eu adoro comer, adoro viajar, adoro música e sou uma apaixonada pela vida por estas coisinhas do momento.

Esses pequenos instantes de felicidade...

Sim, são instantes mas a vida é só isso, não é? O que é a felicidade. A vida é a soma desses bocadinhos. E sem isso resta alguma coisa. Mas grande parte da minha felicidade é usufruir das coisas sem medos.


Jornal Expresso Quarta - 26 de Abril de 2017

“Fátima”, de João Canijo: “Não é possível representar uma peregrinação sem a fazer”

Entrevista a Anabela Moreira: “Este filme foi a maior loucura que todas nós, atrizes, fizemos por um realizador"

Cinema
“Fátima”, de João Canijo: “Não é possível representar uma peregrinação sem a fazer”


O novo filme de João Canijo acompanha 11 mulheres que vão em peregrinação a pé de Bragança até Fátima. Eurico de Barros falou com o realizador sobre esta sua nova experiência de realismo radical.


Eurico de Barros

De Vinhais, em Bragança, até Fátima são mais de 400 quilómetros. É a mais longa peregrinação a pé de Portugal até ao santuário. Foi de lá que vieram as 11 atrizes de “Fátima”, o novo filme de João Canijo (estreia-se na quinta-feira) sobre outras tantas mulheres que, levadas pela fé, caminham durante nove dias de suas casas até Fátima, apoiadas pela carrinha e pela caravana onde pernoitam, fazem as refeições e tratam as feridas feitas na estrada. Canijo, que gosta de preparar os seus filmes com o mesmo rigor e a mesma minúcia que põe na encenação da realidade, instalou primeiro as atrizes (quase todas “habitués” das suas realizações — Rita Blanco, Anabela Moreira, Vera Barreto, Ana Bustorff, Teresa Madruga, Cleia Almeida, Sara Norte, Márcia Breia, Alexandra Rosa, Teresa Tavares e Íris Macedo) em Vinhais, no pino do Inverno, para viverem e trabalharem como outras tantas mulheres transmontanas que vão fazer uma peregrinação a pé a Fátima em Maio de 2016.

Foi também em Vinhais que elas fizeram um laboratório para trabalharem as suas personagens. E depois, vieram a pé até Fátima. Não uma, mas duas vezes, como conta o realizador: “Fizeram uma peregrinação real, todas elas, sendo que algumas a fizeram em toda a sua extensão. Desde Bragança. E depois fizemos uma peregrinação falsa, mais ‘soft’. De preparação para o filme. Falsa porque embora as condições fossem as reais, ou seja, elas andavam e dormiam e comiam nas condições que se vê no filme, com aquela caravana e com aquela carrinha, iam todas juntas, não iam num grupo de peregrinos reais. Iam só elas e não andavam tanto como andariam na realidade. Mas foi também bastante intensa do ponto de vista da relação entre elas. Nesse aspeto, foi mais árdua.” E depois, vieram as nove semanas de filmagens “on the road”, que foram “a destilação” dessas duas peregrinações.

Veja o “trailer” de “Fátima”

João Canijo não é crente e nunca tinha ido em romaria até Fátima. Para preparar o filme, fez ele próprio uma peregrinação . “E foi por a ter feito que percebi que elas tinham obrigatoriamente que fazer a delas. Senão nunca conseguiam representar e interpretar uma peregrinação sem a fazer, saber o que é”, explica. A peregrinação do realizador foi mais suave. “Foram só dois dias e fiz quarenta e tal quilómetros num dia e trinta e tal no outro. Foi em 2011, quando julgava que o filme ia ser feito”. Só que depois veio a crise.
O filme teve o dinheiro do apoio em 2011, mas durante a crise ficou bloqueado. Por outro lado, também por causa da crise, deu-se a feliz coincidência da estreia ir agora coincidir com o centenário das aparições e com a vinda do Papa. Mas foi absoluta coincidência. O filme devia ter saído há dois anos.”

O autor de “Sangue do meu Sangue” nunca pretendeu fazer um filme explicativo, analítico ou crítico do fenómeno de Fátima. Nada do espírito de “Fátima Story” ou de “As Horas de Maria” por aqui. Esta narrativa de uma peregrinação inteiramente feminina radica “na ideia de filmar as relações de grupo, num grupo de mulheres em situação de tensão extrema. Pensei em várias coisas e de repente veio-me a epifania: evidentemente, é uma peregrinação a Fátima a pé. Depois disso apareceu outra coisa tão importante como essa: a relação com a necessidade de fé. E isso tornou-se tão importante quanto as relações entre as mulheres, até porque são paradoxais.”

E aqui entram em cena o esforço sobre-humano, o cansaço físico e a erosão psicológica, as alianças e as fricções entre as personagens, que vão levar inclusivamente à dissidência de uma das personagens, Céu, interpretada por Anabela Moreira. Nesta peregrinação, diz Canijo, “tirando o ritual de rezar o terço e de alguns cânticos, fala-se muito pouco de religião”. E tricas, zangas, confrontos e ruturas, é o que há mais. “Uma peregrinação feita em nome da fé agudiza os conflitos, porque tornam-se deslocados, condenáveis. E dissonantes.” Até as personagens de Márcia Breia e Sara Norte, avó e neta, que não são particularmente crentes e têm a seu cargo a carrinha e a caravana de apoio, se veem envolvidas nas querelas.


O realizador, João Canijo

O realizador defende que a peregrinação a pé a Fátima é algo caracteristicamente português, que não pode ser comparado com qualquer outra peregrinação, como a que se faz a Santiago de Compostela, por exemplo. Onde esta “tem como principal componente o encontro consigo próprio e a meditação sobre a fé”, a que se faz a Fátima tem a ver “fundamentalmente com o sacrifício. E isso dá um grande conforto em relação à necessidade de fé.” E há alturas em “Fátima” em que o comportamento das 11 mulheres parece mais o de pessoas que estão envolvidas numa prova de desporto “sui generis” – a caminhada radical – quer querem ganhar a todo o custo e ainda estabelecer um recorde, do que o de gente que vai a um santuário religioso levada por um impulso místico, para ali ter uma experiência espiritual ao mesmo tempo pessoal e coletiva.

Veja uma reportagem sobre uma peregrinação a pé a Fátima


O filme tem um argumento “completo, onde está tudo, só que é como um mote para a improvisação, como no jazz. No filme é praticamente tudo improvisado, embora elas respeitem tudo o que tinha que se passar e quando em cada cena”, continua João Canijo. Representação e realidade misturam-se em “Fátima”, um filme que o realizador quis deliberadamente que “gerasse essa confusão”. Logo, alguns dos conflitos (e não só) a que estamos a assistir aconteceram mesmo, não são encenados.

Essa foi a ideia inicial de juntar um grupo de mulheres que estivessem que ficar juntas 24 horas sobre 24 horas. Quando eu lhes apresentei o filme, elas reagiram todas bem. Depois, as reações durante a peregrinação é que foram díspares… E as soluções encontradas para as resolver também foram.”

“Fátima” tem versões para cinema (uma mais longa, com 200 minutos, e outra mais curta, com cerca de 150) e para televisão (cinco episódios, com quase uma hora cada, para passarem na RTP em cinco dias seguidos, de segunda a sexta-feira). “Começámos a montar a fita em Junho e acabámos no fim de Setembro. Tínhamos muitas horas e fomos depurando. Ainda chegámos a fazer uma projeção de quatro horas e 10 minutos. Cortámos e fizemos uma de três horas e 48 minutos, e a seguir chegámos à versão final da versão longa, e depois cortámos radicalmente para a versão curta, o que foi difícil, mas teve que ser”, explica Canijo. A versão longa para cinema tem mais cenas cómicas e de acampamento. “Foi nestas que eu consegui fazer exactamente aquilo que queria. A andar, acho que não tem mais. A versão curta tem, penso eu, menos densidade que a longa. Porque os conflitos, que são os mesmos que existem na curta, são mais densos já que existem antecedentes. E tem outras cenas sem conflito, o que também lhes dá mais densidade.”

Dir-se-ia que depois de “Fátima”, os limites da contiguidade da encenação da realidade com a realidade propriamente dita não poderiam ser levados mais longe, mas João Canijo não está de acordo, e vai continuar a esticar a corda: “O próximo filme vai ser uma encenação do real em termos da veracidade das personagens. Isso vai ser levado mais longe do que neste. Elas são como são e elas são o que são. E depois há um desafio que, mais do que isso, é uma necessidade minha. Quero fazer um filme como fiz o ‘É o Amor’, praticamente sem equipa. E vai ser só com mulheres também.” Até lá, ficamos com “Fátima”. Que poderia ter como subtítulo: “2016: Uma Odisseia na Estrada”.

“Fátima” estreia-se na quinta-feira, dia 27 de abril
OBSERVADOR  25/4/2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

Porque é que as claques não são proibidas?

A LAGARTIXA E O JACARÉ
Porque é que as claques não são proibidas?





José Pacheco Pereira



As claques continuam a ter guarida nas instalações desportivas dos clubes, a ter direito a participar com lugar próprio nas bancadas e a fazer lucros mais que obscuros com os negócios de produtos de marca dos clubes.
 

Em Portugal vai-se para a cadeia por incitamento à violência. Em Portugal vai-se para a cadeia por organização de malfeitores. Em Portugal vai-se para a cadeia pela organização de redes ilegais de droga, tráfico de armas e outros crimes associados. Com uma excepção: se tal for feito pelas claques de futebol, diante dos nossos olhos, com a permissão de muita gente respeitável, da polícia, de autarcas e de governantes de todos os grandes partidos.

O pequeno escândalo, fugaz, televisivo, que dura uma semana, dos cânticos de adeptos organizados em duas claques de futebol, uma do Porto, outra do Benfica, é insignificante face ao espectáculo de hordas militarizadas contidas por grandes efectivos policiais de choque, passeados pela cidade, como gado bravo, dos transportes, cuidadosamente vigiados à distância, até aos estádios, onde sistematicamente provocam distúrbios, agridem pessoas, atiram petardos e engenhos pirotécnicos, que são por lei proibidos nos estádios, e, de um modo geral, manifestam a sua bestialidade protegida pelo número.

Parece que os cânticos surpreenderam algumas almas sensíveis. Num, os adeptos do Porto desejavam ao Benfica o destino de um clube brasileiro cuja equipa morreu num acidente de avião; noutro os adeptos do Benfica cantavam a exaltação que é matar um Lagarto, fazendo-o "arder", coisa que aconteceu na realidade num jogo de futebol. As direcções dos clubes respectivos publicaram uns comunicados no Twitter e no Facebook demarcando-se com falinhas mansas do que acontecera, e "condenando" os abusos, que tiveram a pouca sorte de terem sido televisionados. Condenam "todos os extremismos", mas estes cânticos são "extremismos" de quê, de que coisa não "extrema" são eles o excesso? Porque passaram de chamar F.D.P. aos filhos das mães dos adeptos do outro clube, que pelos vistos não é um "extremismo", para lhes desejar a morte?
Na verdade, cânticos desse teor são de há muito comuns nas claques, e parece que ninguém os ouve. Mas, como sempre, não houve consequências nenhumas e as claques continuam a ter guarida nas instalações desportivas dos clubes, a ter direito a participar com lugar próprio nas bancadas e a fazer lucros mais que obscuros com os negócios de produtos de marca dos clubes.
Revista SÁBADO, 23-04-2017

domingo, 23 de abril de 2017

A forca do concelho




A forca do concelho

Antes de estar em Mijavelhas, esteve em Cima de Vila e Quebrantões 


O assunto é tétrico mas não deixa de constituir uma página da história do Porto, logo do interesse de quantos se dedicam a vasculhar papéis amarelecidos, na ânsia louvável de tentarem saber um pouco mais acerca desta cidade.  
A mais antiga referência à existência de uma forca no Porto é do ano de 1391. Na ata da sessão camarária do dia 22 de abril daque­le ano, consta que na Rua de Cima de Vila, junto à porta da muralha, estava o cadafalso de madeira "em arruinado estado, prestes a desabar e donde continuamente se furtavam de lá tábuas e pregaria".

Na mesma ata, os edis sugerem uma solu­ção: "para que nem todo desapareça, sém lu­cro para a cidade, a Câmara devia mandar vender a madeira e pregadura a quem mais desse".

Pelos vistos, não devem ter aparecido compradores interessados, porque a 22 de novembro de 1393, dois anos depois, a mes­ma Câmara deliberou oferecer "a madeira e pregaria do cadaffais de Cima de Vila a João Inglês, homem de João de Sinfães, alcaide".

No século XVI, a forca aparece localizada no monte de Quebrantões, em Vila Nova de Gaia, onde em 1538 se começou a construir o mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho da Serra, que agora serve de quar­tel. Antes do mosteiro, houve naquele sítio uma pequena ermida da invocação de S. Ni­colau, que foi demolida para a construção do mosteiro. Era no cume daquele monte, tam­bém chamado da Meijoeira e no adro da re­ferida ermida que "estava a forca onde, do Porto, iam a enforcar os malfeitores".

A fazer fé num compromisso da Santa Casa da Misericórdia do Porto, datado de 1646, neste ano a forca estaria na Ribeira. O documento refere-se "ao modo como devem ser acompanhados os padecentes".

Como é geralmente sabido, competia à Santa Casa da Misericórdia acompanhar até ao local do suplício os condenados a morre­rem na forca e a dar sepultura aos seus cadá­veres. Ora, nas instruções acerca do modo como se deviam acompanhar os padecentes, diz-se o seguinte: "em chegando à Praça da Ribeira, estará o capelão da Misericórdia de­vidamente paramentado para dizer missa no altar de Nossa Senhora que fica sobre a por­ta da cidade".

Aquele altar era, de certeza, o que estava no interior da capela da Senhora do Ó, que fi­cava sobre a Porta da Ribeira, da Muralha Fer­nandina, mandada demolir em 1774, por or­dem do corregedor da cidade, João de Alma­da e Melo.

Claro que a forca não estava na capela nem nas suas imediações. Era de ferro e situava-se, segundo revela o historiador Henrique de Sousa Reis, nos seus precisos "Manuscritos" fora da Porta da Ribeira, firmada no cais. Foi parcialmente destruída pela violenta cheia de 1823.

Agora, um esclarecimento: esta forca era a "da Relação", conforme consta do li­vro das atas da Vereação Municipal do ano de 1709. A outra, a do concelho, em que se executavam os ladrões, estava, algures, onde é hoje o Campo de 24 de Agosto, "si­tio a que chamam Mijavelhas". Mas tam­bém esta acabou por ir parar à Ribeira.

No ano de 1714, a Santa Casa da Miseri­córdia do Porto escreveu à Câmara Muni­cipal propondo-lhe a mudança de sítio da forca. Alegaram "o provedor e demais ir­mãos que o sítio de Mijavelhas ficava tão distante que se não atrevem os irmãos a acompanhar os padecentes".

E disseram mais: "o inconveniente pode ser evitado se a Câmara mandar colocar a dita forca em sítio que fique mais próximo aos muros desta cidade, como é o caso da Ribeira, por parecer ser mais convenien­te ao Senado". E assim se fez. A forca do concelho foi montada na Ribeira, sobre o muro da cidade, junto ao pelourinho. Sen­sivelmente naquela parte do muro onde estão as "Alminhas da Ponte".

E traçou-se o itinerário que os conde­nados a morrerem na forca cumpririam desde a saída da Cadeia da Relação até ao sítio onde estava a forca. Seguiriam pela Ferraria de Cima, parte alta da Rua dos Cal­deireiros; pela parte baixa desta artéria; Rua das Flores; Largo de S. Domingos; Rua de S. João; e Cima do Muro da Ribeira, onde estava a forca.

Mas a forca não ficou muito tempo na Ribeira. Uma dama influente, que vivia perto do local onde estava o cadafalso, de­sagradada com o espetáculo que lhe ha­viam colocado à porta, protestou e, em 1822, a forca mudou novamente de sítio, desta feita para a parte sul do campo da Cordoaria, em frente ao edifício da Cadeia da Relação, não muito longe da entrada da antiga Rua do Calvário, hoje Rua do Dr. Barbosa de Castro.

Temos estado a falar da forca onde ex­piavam os seus crimes os ladrões e assas­sinos. Os presos políticos, esses eram en­forcados em locais muito concorridos pelo povo. Pretendia-se que os cidadãos tiras­sem dos enforcamentos dos políticos as respetivas ilações.


História da forca de Mijavelhas
 

Onde ficava, afinal, a forca dita de Mijavelhas? To­mando como segura a in­formação de que o sítio, popularmente conhecido por Mijavelhas era o espa­ço onde agora está o Cam­po de 24 de Agosto, e ten­do em conta que a forca era a de Mijavelhas, pode admitir se que era neste local que ela estava. Mas há quem defenda que o seu lugar era no cimo do monte onde se construiu a primitiva igreja. Até se diz que a igreja é do Senhor do Bom Fim e da Boa Morte... Quando o car­deal D. Américo Ferreira dos Santos Silva, em 20 de agosto de 1882, ben­zeu a nova igreja paro­quial, os cronistas disse­ram que o templo ficava no "histórico sitio do monte da forca de Mijave­lhas". O leitor tire a con­clusão que lhe parecer ser a mais plausível.

No século XIX, a forca era amovível: montava-se em qualquer sitio
 
JORNAL DE NOTÍCIAS, 23 ABRIL, 2016

sábado, 22 de abril de 2017

INFIDELIDADE - DESEJO, VONTADE E CULPA


INFIDELIDADE


DESEJO, VONTADE E CULPA


Trair é um verbo que se conjuga desde sempre. Envolve três sujeitos: traidor, traído e amante. E qualquer um de nós pode ser qualquer um deles

texto Carolina Reis

ilustrações alez gozblau




A vida cabia toda numa mesa. Numa pequena mesa de cozinha. Em cima dela, os brinquedos da filha mais nova, o computador e o telemóvel, sempre com o ecrã virado para baixo. Cada objeto é o símbolo das três vidas de João: a familiar, a profissional e a secreta. Aquela que nunca julgou ter. A que o fazia revelar um eu diferente. A que lhe provocava um conjunto de sensações avassaladoras. Desejo. Vontade. Culpa. Todas as vezes que o telemóvel vibrava, os três sentimentos atingiam-no de rompante. Era a hipótese de consumar um desejo carnal que lhe fazia o coração disparar. As mãos suavam. Rejuvenescia com aquele segredo vivido a dois. João tinha muita vontade. Cada vez mais vontade. O desejo alimentava o secretismo que, por sua vez, alimentava o desejo. Um ciclo vicioso.
O frisson da hipótese de um beijo prevaleceu sobre o medo de colocar em risco todas as certezas da vida. “Só pensava que podia ser bom e que se não experimentasse ia ser das coisas de que me arrependeria no leito da morte. Era estranho porque tinha tudo para ser um homem feliz”, recorda com alguns remorsos. Passaram sete anos desde o dia em que com uma mensagem no Facebook iniciou uma relação extraconjugal. Ainda se atrapalha a explicar o porquê daquela traição que durou quatro anos.

“Acho que a questão não é porque traímos. É antes porque colocamos a bitola de uma boa relação na ausência total e absoluta de interesse por outra pessoa. É isso que dizemos muitas vezes, se estamos atraídos por alguém é porque as nossas relações não estão a funcionar. No entanto, se olharmos para os estudos e se virmos que entre 30% a 60% dos casais traem ou são traídos, vemos que estamos a pôr uma expectativa ilusória nas nossas relações”, afirma Luana Cunha Ferreira, psicóloga, terapeuta familiar e professora na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.

Mas como se define infidelidade? É uma noite de sexo ocasional sob o efeito do álcool? Um encontro com uma prostituta? Uma troca de mensagens picantes com alguém que se conheceu online? Uma relação física com um colega de trabalho que se mantém durante uns meses? Uma paixão platónica?

Primeiro — enquanto João e a amante se limitavam a trocar mensagens —, era como se não fosse uma coisa real. Não era a traição que a literatura e o cinema diabolizaram. “Era só um flirt. A possibilidade de algo acontecer era o mais excitante. Para mim, não era ainda uma traição.” Isso só aconteceu no dia em que consumou os desejos, em menos de meia hora de sexo, dentro do carro dele, num parque de estacionamento vazio. Nem a hormona da vasopressina, que se associa à lealdade e surge na fase da pós-paixão, o segurou.


“A nossa natureza não é monogâmica. Somos educados para isso”, defende a sexóloga Vânia Beliz


“Cada casal é um planeta. Há pessoas que consideram traição só quando se envolvem com outra pessoa; outras consideram traição só o ver pornografia, individualmente, e aqui não há nada de físico e também não há nada emocional. Mesmo assim há muitos casais que dizem que isto é traição porque ela ou ele foram buscar prazer a outra fonte. Já para outros casais isto é ridículo porque só conta quando se envolvem emocional ou fisicamente com outro. Há pessoas para quem o flirt não é traição, desde que a conversa mantenha um certo nível”, sublinha Luana Cunha Ferreira.

Cada casal é um planeta e, por isso, cada casal define as fronteiras da sua fidelidade. E define se a traição — ou a traição que conta para colocar em risco a relação — é física (consumada com sexo); emocional (em que há uma ligação afetiva com a terceira pessoa); física e emocional; digital (feita à distância através das redes sociais); ou se até o pensar em outra pessoa conta. Cada indivíduo pode definir até que ponto deixa a alquimia do desejo mexer consigo.

João pensava, a princípio, que ia mexer pouco consigo. Sentia-se como se estivesse a fazer um intervalo na vida, a voltar aos tempos sem preocupações. Ia descobrindo coisas novas em si, talvez algumas já ele tivesse vivido. Não tinha ainda percebido que a raiz dos primeiros olhares cúmplices que trocou com a amante há muito fora plantada e alimentada. O divórcio nunca foi coisa que lhe passasse pela cabeça. Era com a mulher que tinha filhos, dividia as contas. Era ela a melhor amiga, a primeira pessoa com quem desabafava dos problemas. Ela era a cola que o unia ao seu mundo. “A fidelidade é um contrato social. Entre outras cláusulas está estabelecido que o sexo seja só entre aquelas duas pessoas. Só que a nossa natureza não é monogâmica. Somos educados para isso como somos educados para a heterossexualidade”, defende a sexóloga Vânia Beliz.

Atualmente, somos mais monogâmicos em cada relação que temos, do que monogâmicos toda a vida. É o fruto da evolução da sociedade. “A ideia de exclusividade que vigorou até ao século XX está a ser posta em causa. Mas noutras culturas não existia como existiu na nossa”, frisa Pedro Frazão, psicólogo e terapeuta familiar.

No fundo, João confessa que a ideia de só dormir com uma pessoa até ao resto da vida pertencia a um universo mais distante. Sabe bem que o affair abalou o casamento. Mas as maiores reflexões só vieram no fim. Na altura em que se voltou a sentar em frente à mesa da cozinha e a colocar lá em cima todas as vidas. Viu e reviu as mensagens. Voltou a muitos momentos que tiveram a dois. Disse, para si próprio, que aquilo significava nada. Por nenhum desejo deste mundo, valeria a pena perder o valor emocional de uma relação de 15 anos. Apagou o número da amante e nunca mais falou com ela. Ficaram para trás quatro anos de uma relação que nasceu com uma mensagem de Facebook: “Ficas a matar com essa roupa.” Frase feita de engate que ela gostou de ouvir. Nunca tinham tido uma conversa a dois, mas trabalhavam juntos há um par de anos. Ela sabia como era a vida dele, mas respondeu. Um smile. E ele quis saber o significado do smile. A sete secretárias de distância, a conversa disparou rápido para a parte sexual. “Nunca me vou esquecer, da alegria, da juventude que foi dar o primeiro passo”, recorda. Naqueles segundos em que escreveu e carregou no botão enviar não ficou preocupado que a mensagem pudesse ser considerada assédio. E também não lhe passou pela cabeça que ela não gostasse.

Do Facebook passaram para o e-mail do pessoal. Uns meses a revelarem fantasias. Ela a sentir-se desejada. Ele a sentir-se mais novo. A andar atrás no tempo, aos dias em que não tinha preocupações. Naquelas conversas não era o homem que dormia poucas horas por causa da filha bebé, nem era o homem que atravessava Lisboa a correr para ir buscar o filho mais velho à creche. Nem estava preocupado com a concorrência no trabalho. Nem com os prazos. E João gostava dessa pessoa. Os problemas só vinham quando se via ao espelho. Quem estava refletido no vidro: o pai de família ou aquela pessoa que fantasiava em chegar ao pé da amante, no meio de toda a gente, tirar-lhe as cuecas e fazer sexo ali. Desculpou-se sempre da mesma forma: havia qualquer coisa que faltava no casamento.

A origem da culpa

A culpa não morre solteira e problema está sempre no outro. “Muitas vezes, quase sempre, é sinónimo de que algo não está bem. Agora, não tem de ser na relação. Pode ser algo na própria pessoa. Dificilmente é algo com o meu parceiro, as pessoas põem muito a culpa no parceiro mas é mais uma coisa connosco, uma pesquisa por nós. Nós queremos muito libertarmos nos daquilo que queremos ser naquela relação. Mais do que a relação propriamente dita. Nós não queremos é ser a pessoa que somos naquela relação. E cai alguém na sopa e experienciamo-nos como éramos antes desta relação”, explica Luana Cunha Ferreira. Faz parte do ser humano colocar o ónus na outra pessoa. É o amante que é extraordinário e, por isso, se cai por ele. É o parceiro que é um idiota e, por isso, é que nos afastamos dele. É relação que já está rotineira, já morreu e para isso é que se procura uma alternativa. E, no entanto, a decisão de trair é individual. Não é o casal que decide trair. É o traidor que atravessa a linha e vai à procura de outro.

Ao consultório de Luana Cunha Ferreira chegam casais felizes e infelizes, com vidas sexuais razoáveis e até muito boas. Trair não é — ao contrário do que se costuma dizer — um sinónimo de vida conjugal infeliz. “Recebo os três [traidor, traído e amante], individualmente ou em casal, e são pessoas iguaizinhas a nós. Isto pode acontecer a qualquer um. Claro que cada um de nós tem limites diferentes, ao nível da moralidade, ao nível da forma como nos apaixonamos ou desapaixonamos por outras pessoas; com o nível do desejo. Mas isto pode acontecer a muita, muita gente”, frisa.

Miguel e Marta procuraram a terapia. Aparentemente, tinham tudo para resultar. Ela é o protótipo da mulher bonita, nove anos mais nova do que ele, e até com mais vontade de ter relações sexuais. Os amigos sempre o acharam um homem de sorte. Ele também. O nascimento da segunda filha desequilibrou a casa. Marta andava mais ocupada com as crianças, com menos paciência para ele, deprimida por não conseguir amamentar. Ele focou-se no surf, hobby a que começou a dar mais valor do que à profissão. Um dia, conheceu uma pessoa durante uma viagem trabalho e descobriu uma data de coisas que não sabia sobre si. Afinal, também era capaz de pensar em estar com outra pessoa. Na realidade, até queria. Muito.

Quando regressou a casa, entre as fraldas e biberões de uma parentalidade que ele não desejara, e uma relação em que se sentia encurralado, decidiu que o escape talvez estivesse ali, naquela mulher, que não era tão bonita como a sua, mas parecia tão mais disponível. Sentado na sala, já a noite ia avançada, colocou também ele a vida em cima da mesa. Estavam lá, os livros de colorir da filha mais velha, o papel e caneta onde escrevia um poema para ser lido no batizado da filha mais nova e o computador. A televisão, sem som, fazia companhia. E ele mandou o primeiro e-mail. Tudo muito claro e carnal. Não havia frases de engate, nem mensagens subliminares deixadas no ar, muito menos sugestões do que aquela relação poderia um dia, eventualmente, vir a ser.


“O traidor tem sentimentos que, durante muito tempo, foram negligenciados. E tem um sentimento de culpa que não é um sentimento vulgar. É uma culpa muito pesada, muito paralisante, quase física”, afirma a terapeuta Luana Cunha Ferreira


Todas as noites, era como se Miguel saísse do seu eu e entrasse num outro que afinal também era o dele. “O nascimento da segunda bebé foi difícil, porque já era difícil criar a mais velha e foi a Marta que se fartou de insistir para termos um segundo filho. Mas eu sentia um peso enorme e que não era a melhor altura.”

A mulher cedo percebeu que se passava alguma coisa, mas não o quê. Uma noite, em que por motivos diferentes nenhum dormia, sentou-se e quis falar com ele. Miguel não lhe revelou o que sentia. “Achei que o pior seria sempre contar.” Ela só descobriu quando, desconfiada, lhe acedeu à conta de e-mail. Um rol de mensagens sexuais, sem sugestões de que tivesse existido qualquer encontro, escondidas numa pasta com o nome X, davam-lhe uma versão diferente do marido. Era uma realidade que nunca pensou encontrar, mas também ela já tinha despertado a atenção para um homem mais velho que conheceu no Twitter. Só não percebia como é que isto acontecia se até era ela quem tinha vontade de ter sexo mais vezes. Discutiram violentamente nessa noite. Mas Marta decidiu que se nada tinha sido consumado era como se tudo tivesse sido um equívoco. “Até achei que fosse um alerta, que qualquer coisa boa pudesse surgir dali.” Era uma espécie de alerta.

A relação sobreviveu mais dois anos, com terapia, e com mais baixos que altos. Terminou, definitivamente, quando Marta teve relações sexuais, ocasionalmente, com outro homem. Nenhum dos dois estava disposto a continuar depois daquilo. O fim de um casamento que parecia perfeito chocou a família e os amigos, mas não os próprios. O desejo por outras pessoas foi apenas um sinal. Havia algo (muitos algos) que não estavam bem naquela relação. “Eram muitas questões, não vale a pena mexer sobre elas. Mas também tenho a certeza que cada um de nós acha que o problema está no outro. Eu — só agora — admito que, talvez, houvesse também um sinal de que algo não estava bem comigo.” Miguel ainda pensou em contar. Está convicto que a teria magoado menos. “Depende para que serve o contar. Se resulta de uma reflexão ou se é uma atitude que se refere ao próprio. É alguém que se coloca na posição do outro [o traído]? Ou alguém que tem medo de perder a outra pessoa?”, diz Pedro Frazão.

Talvez sabendo, a ex-mulher de Miguel não falasse hoje dele com tanta raiva. Marta define a guarda partilhada como complicada e, agora numa união de facto, aponta o dedo ao ex-marido. Afinal, ela considera que lhe deu tudo o que ele poderia desejar. Antes de assinarem os papéis, ainda fizeram uma maratona de um mês de relações sexuais, na esperança vã de que mais sexo lhes trouxesse a reconciliação. “O sexo é uma coisa muito primária, muito instintiva. É diferente de amar. O sexo não é o mais importante de uma relação. é muito importante, mas o mais importante é um conjunto de fatores que têm de ser tidos em conta, como planos de vida e objetivos”, defende a sexóloga Vânia Beliz.

Depois da crise, a bonança

Nem a falta de sexo é a razão do problema. Muito menos a solução. É duro, mas é possível que se consiga obter algo bom de uma traição. Depois do choque da descoberta, entra-se numa fase parecida com o luto em que o choro e os gritos também são necessários. “Ainda estou para ver — e falo pela minha experiência clínica — uma traição que melhore essa relação. Pelo menos a nível imediato. Se calhar, não estavam a trabalhar na relação, ela/ele desinteressou-se, ela/ele envolveu-se com um terceiro, alguém descobriu ou contaram. Houve uma grande crise, grande, grande, e com terapia ou sem terapia, descobriram tantas coisas nessa crise que depois ultrapassaram e tornaram-se um casal melhor. Isso aí estou farta de ver. Agora, simplesmente ir ali buscar uma traição, buscar um terceiro, colocar o terceiro na relação, e isto vai melhorar a minha díade. Isso pode acontecer, mas na minha prática clínica não é muito comum, mas vejo muitos casais que acharam que era assim e fizeram com esse propósito ou aparentemente com esse propósito. E correu mal”, frisa Luana Cunha Ferreira.

Miguel foi um pouco com esse objetivo. Achou que uma relação extraconjugal platónica fosse uma solução. Magoou a ex-mulher, a amante e magoou-se a si próprio. É raro alguém sair incólume. “Só as pessoas que têm capacidade de compartimentar. A vida dupla gera muita ambiguidade. E mesmo quem consegue compartimentar a vida, também não consegue viver assim de forma tão compartimentada. Ninguém aguenta assim tanta ambiguidade. Acaba por ter de ser necessário decidir”, sustenta Pedro Frazão.

João escolheu a mulher. Miguel foi empurrado a escolher o divórcio, mas hoje, olhando para trás, teria tirado de cima da mesa da sala o computador. Ou teria chamado Marta ainda com o computador aberto em cima da mesa. O desfecho do casamento, provavelmente, seria o mesmo, mas não teria havido tanta mágoa e sofrimento. E tanta culpa. “O traidor tem sentimentos que, durante muito tempo, foram negligenciados. E tem um sentimento de culpa que não é um sentimento vulgar. É uma culpa muito pesada, muito paralisante, quase física”, afirma Luana Cunha Ferreira. É como se fosse o peso no corpo das ações.

É por isso que na terapia de casal deixou de existir uma barreira que distingue inocentes de culpados. “Já não temos aquela abordagem antiga, do perdão, em que o traidor tem que assumir as responsabilidades todas e pedir desculpa. E coitadinha da ‘vítima’, tem de ser acolhida em tudo e mais alguma coisa. Claro que tem de ser acolhida, mas temos que endereçar os sentimentos do traidor porque senão estamos a pôr uma espécie de penso rápido. E ou vai repetir, ou não vai conseguir lidar com estas emoções todas. É um sofrimento partilhado”, continua a especialista.


“A vida dupla gera muita ambiguidade. Mesmo quem consegue compartimentar a vida, não consegue viver sempre assim”, diz o psicólogo Pedro Frazão

O mesmo acontece na Justiça. A Lei do Divórcio de 2008 veio trazer alterações ao direito de família, mas a mais significativa é o fim da culpa nos divórcios litigiosos. Uma figura que desapareceu do atual quadro legal. “Até aí, havia a culpa de um dos membros do casal, quando o divórcio não era por mútuo acordo, que violava os deveres conjugais. Só o podia requerer quem fosse o inocente. Esta figura foi abolida. Hoje, há o divórcio por acordo e sem consentimento, que substitui o litigioso mas sem a culpa”, explica Rui Alves Pereira, advogado especialista em direito de família. Os deveres conjugais, no entanto, continuam a existir: respeito, fidelidade, coabitação, cooperação, assistência. A diferença é que já ninguém pode apontar o dedo ao traidor, obrigá-lo a fazer um tipo de separação, e dizer-lhe que era ele o único responsável pelo fim. “Isto não significa que a traição não seja a principal causa dos divórcios. É quase sempre uma terceira pessoa que aparece na vida”, sublinha.

Essa terceira pessoa, tão diabolizada pela sociedade e, muitas vezes, pelo próprio traidor, não sai isenta da equação. É causa e consequência de um comportamento, de uma situação. “Quantas vezes não conhecemos pessoas assim. Pessoas que ficam à espera de ver se as coisas avançam ou não. Na esperança de ter uma relação afetiva e, às vezes, até acabam por ser enganadas pelos traidores, que até vivem razoavelmente bem com essa situação. Depende da maneira como todos encaramos isto. De como vemos os afetos e a sexualidade”, frisa Pedro Frazão.

Ana esteve nessa posição — que descreve como um limbo — três anos. Foi a outra. Apaixonou-se por um colega que sabia que era casado. Envolveram-se. Nunca se sentaram para conversar sobre o que faziam. Meias palavras deixavam cair a realidade. “Essa semana não posso porque vou de férias. O meu filho está doente, tenho de ir para casa. Não posso ficar a dormir.” Primeiro ela não o quis pressionar. Depois teve medo de o afastar. “Vivia em função dele. Só saía com grupos de amigas. Faço as contas à quantidade de rapazes que me apareceram à frente e aos quais não liguei. Estava demasiado apaixonada.” Um dia, tal como João, ele colocou a vida em cima da mesa e optou. Nunca mais ligou a Ana. Agora, que já lhe investigou a vida, percebeu que teve outras relações antes dela. É um dos tais compartimentados, que separa muito bem todas as faces da vida. “Para essas pessoas está tudo bem, vivem bem assim. É um estilo de vida, não é um problema”, diz Luana Cunha Ferreira.

Quando se divorciou, Miguel chegou a sair com a rapariga com quem trocou mensagens. Fora das redes sociais a relação não pegou. João diz que não hesitou na hora de optar. Mas houve um momento em que, de repente, “estava a gostar de duas pessoas”. Dividido entre uma relação de amizade e amor e a paixão que o libertava de tudo. Por breves momentos, numa contradição com tudo o que exprimia e o cérebro lhe dizia, colocou de novo a vida toda em cima da mesa. Continuar o casamento, a relação que tinha construído ao longo de tantos anos, ao pé de quem tinha projetado a vida, com quem dividia as contas, as responsabilidades. Ou escolher a terceira pessoa, por quem sentia um carinho especial. Recomeçar com aquela que, agora, era quem o fazia mais feliz. “Perguntei-me se era possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo.”

Há dois meses, num texto sobre o amor, aqui na E, o psicanalista Coimbra de Matos foi perentório: “Embora seja cultural, o ser humano é bastante exclusivo. Somos predominantemente monogâmicos, mesmo que seja uma monogamia serial, temos um parceiro de cada vez. É difícil gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. O que é possível é ter relações parciais.” Numa entrevista, um mês mais tarde repetia: “O amor é bastante exclusivo. Embora isso seja também uma coisa cultural. O homem é fundamentalmente monogâmico. E a mulher mais que o homem. Há um problema que também tenho estudado, a relação tem de ser criativa. Se vão sempre jantar ao mesmo restaurante, se vão sempre ao cinema, com os mesmos amigos, a relação torna-se monótona, chata. Tem de haver inovação, temos necessidade de coisas novas. A monotonia mata.”

Até aqui, traição era um verbo que se conjugava no masculino. Com a biologia e o machismo a darem carta branca aos homens. “É verdade que pomos a mão no meio das pernas de um homem e ele fica excitado. É biológico. Mas isto não quer dizer que ele esteja sempre com vontade. Durante a ditadura, que não foi assim há tanto tempo, era aceite que os homens pagassem para ter sexo”, frisa Vânia Beliz.

A duplicidade de critérios é tão antiga quanto o adultério. Os casos que chegam aos consultórios de terapia familiar dizem que a realidade está a mudar. Eles continuam a trair, elas estão a trair mais, ou a admitir mais que estão a trair. Mas não se está a trair menos. Mesmo que o casamento seja mais fácil de terminar e que a sociedade se esteja a adaptar às famílias recompostas (os meus, os teus e os nossos).

É perigoso, mas quase se pode dizer que trair faz parte de amar. Porque só trai quem, um dia, já amou. E é só quando se coloca a vida em cima da mesa — se pesam e juntam todas as componentes da vida — que se descobre quem se ama mais. Ou que tipo de vida se ama mais.


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2321 - 22 de Abril de 2017

CONDENADOS À ESCRAVATURA E AUSTERIDADE

PLUMA CAPRICHOSA


    CLARA FERREIRA ALVES



CONDENADOS À ESCRAVATURA E AUSTERIDADE


Apesar do êxito do estado social, a Europa vive agora nas contradições geradas por esse êxito, das quais o enfado é a primeira de todas

Não pertenço ao género de pessoas que acorda mal disposta com o estado do mundo. O sofrimento dos sírios ou dos iraquianos ou o espetáculo diário da estupidez humana fazem parte da nossa vida e creio que só os observadores e relatores profissionais daquele sofrimento se sentem, a passos, deprimidos e tristes. O ‘Brexit’ ou a eleição de Trump iniciaram uma nova consciência dos perigos que correm os direitos que julgamos adquiridos. A democracia, a paz, a civilidade, a estabilidade, a justiça social, a diplomacia, a transparência, o equilíbrio de sistemas, a educação, o altruísmo. A primeira coisa que a escola, a casa e a autoridade dos pais nos ensinavam era simples. A educação era o único meio de autoaperfeiçoamento e de uma vida justa e próspera, a frugalidade material era uma virtude que impedia o excesso, a escola era um privilégio e não uma imposição, o trabalho era superior conforme o curso era superior, sem desprezo dos trabalhadores manuais. Ao lado da educação corria um sistema paralelo, reforçado ou não por valores religiosos ou ideológicos ou filosóficos, que impunha uma moral de comportamento não muito diferente do mandamento que diz não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Desde esse tempo em que a ascensão, social, intelectual, profissional, artística ou outra era suportada pelo sacrifício e o estudo antes da diversão e do prazer, até à anomia em que vivemos, os jovens adultos ganharam muitas vantagens dentro da União Europeia. A viagem, a troca, o acesso a pessoas e bens, as bolsas de estudo e investigação, a informação rápida e atualizada, as novas tecnologias, a liberdade de costumes, etc. In illo tempore, ouvi dizer a um professor catedrático de Coimbra, um homem orgulhoso da superioridade do seu sexo, que na faculdade de Direito não havia doutoramentos em Direito Penal para mulheres. Da frase não existia recurso.

Apesar do êxito do Estado social, a sociedade europeia vive agora nas contradições geradas por esse êxito, das quais o enfado é a primeira de todas. O enfado de uma existência protegida para a qual os mais novos não contribuíram e para o qual não os deixarão contribuir. Às expectativas geradas por uma educação assente nos direitos adquiridos e na gratuitidade da educação e da saúde, bem como no egotismo do filho como o recipiente de toda a generosidade do Estado e dos pais, que transforma a educação obrigatória num dever insuportável e que alargou extraordinariamente o campo dos comportamentos consentidos (neles se incluindo o consumo desnaturado de álcool como uma compensação pela “seca” de ter de aturar “Os Maias” ou as equações), juntaram-se diversos fatores de destruição da coesão de uma sociedade. A desestruturação da família tradicional, substituída pela família moderna constituída por todos os cônjuges e parceiros estáveis ou instáveis e posteriores aos divórcios. A entrada das mulheres a tempo inteiro no mercado de trabalho numa sociedade patriarcal em que a mãe é ao mesmo tempo o elemento financeiramente mais vulnerável e o eixo central da vida doméstica, a primeira guardadora do filho em caso de litígio. O apagamento da moral ou da religião exceto como liturgia e cerimónia de que a indústria dos casamentos é o expoente. A pobreza superveniente à diminuição dos salários e à desigualdade salarial de que Portugal é campeão e que demarca um sistema de castas mais impenetrável do que o sistema inglês. A diluição da vida pública e da vida política num caldo de corrupção ascensional sem punição. A desresponsabilização como expediente e motivação. E o estilo de vida da baixa classe média que vê no consumo da televisão e da visita semanal ao hipermercado uma forma de entretenimento. Fatores que determinam a tal anomia contemporânea. Um grupo de jovens destrói um hotel porque fica irritado com a promessa não cumprida de um bar aberto às dez da manhã. Existe uma grande probabilidade de este grupo de jovens vir a integrar as legiões de baixos assalariados, de desempregados ou de emigrantes para países onde os cursos superiores, pagos nas universidades públicas pelos nossos impostos ou nas privadas pelos sacrifícios dos pais, servem para servir cafés e refeições aos balcões. Por exemplo, de um Pret A Manger em Londres.

Segundo o “Financial Times”, políticos conservadores estão interessados em criar um visto de dois anos, não renovável, para os jovens “não qualificados” da União Europeia que emigrem e se empreguem na indústria da hospitalidade, da assistência social ou da construção civil. Salários baixos e escassas regalias por um prazo exclusivo de dois anos. E candidatos não faltam. Portugueses e espanhóis “qualificados” na fila da frente. Segundo o chefe dos recursos humanos da cadeia Pret, os ingleses não querem estes empregos porque não os consideram de prestígio ou de futuro.

É também isto que Portugal exporta. Uma exportação que não passa de uma derrota do que consideramos a maior conquista do 25 de Abril, o Estado social. Sem criação de riqueza, estamos condenados à escravatura e à austeridade.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2321 - 22 de Abril de 2017

A ILHA DOS CÃES

CULTURAS CINEMA


FEITIÇOS AFRICANOS

Ângelo Torres, quase monstro, quase bicho

É uma história angolana, que atravessa décadas, desde a mais selvática ambiência colonial até à terra de todas as prosperidades ganhas de qualquer forma, não importa à custa de quem — até à atualidade. Adaptado do romance “Os Senhores do Areal”, do escritor luso-angolano Henrique Abranches, “A Ilha dos Cães” transpõe a ação da Baía dos Tigres para uma ilha imaginária. Nessa ilha — que o realizador Jorge António foi encontrar em São Tomé — já houve trabalho escravo, presos políticos num forte de onde se não sai vivo, e há agora empreendimentos imobiliários a querer fazer desaparecer os pescadores do sítio.

Ao mesmo tempo — e surpreendentemente? — é um filme de género, um filme ancorado no fantástico, onde os cães que habitam a ilha do título são uma espécie de criaturas de um outro mundo, de uma outra lógica, aparições fantasmáticas e terríveis sempre que há uma vingança a cumprir, uma justiça a pôr em ordem — e, no filme, ‘vingança’ e ‘justiça’ são irmãs siamesas. É, ainda, e muito pouco portuguesmente, um filme que tem engenho de série B, mas não chico-espertices de ‘quem não tem cão caça com gato’. Porque cão, ele tem. O que não tem são fábricas de efeitos especiais ou orçamento para contratar lá fora e, portanto, figurar os ataques dos cães com o realismo que, hoje, o digital tornou possível. E, assim, ele faz o mesmo que São Jacques Tourneur fazia tão bem nas suas sonatas de medo — como “A Pantera” (1942) ou “A Noite do Demónio” (1957) —, onde havia sombras nas paredes, evocações, pânicos por saber o que ali estava e se via muito pouco, quase nada.
 
A sugestão do inominado em vez de dar corpo e dimensão ao medo é uma velha e boa estratégia de cinema — e maldito seja quem considere que a única razão para isso é não poder mostrar. Sejamos, todavia, comedidos: Jorge António não faz o mesmo que Tourneur, faz à maneira de Tourneur — e só a espaços. Mas não deixa de ser muito curioso verificar os caminhos que “A Ilha dos Cães” percorre, longe dos usos e costumes quer do cinema português de autor quer do outro. Até porque pede a alguns dos seus atores registos que podiam resvalar para coisas pouco adequadas, seja o quase monstro, quase bicho que Ângelo Torres demanda (e é muito bom e difícil o que ele faz), seja a mulher total, africana erótica e matriarca, a que Ciomara Morais dá corpo (tão felizmente longe dos “Morangos com Açúcar” onde emergiu). Até porque não tem grandes meios de produção — é pequeno o estaleiro, curta a roça, mas filma bem a Natureza prodigiosa de São Tomé, tal como o deserto angolano.
Jorge Leitão Ramos
 A ILHA DOS CÃES  ☆☆☆
De Jorge António

Com Ângelo Torres, Miguel Hurst, Nicolau Breyner (Portugal/Angola)

Fantástico M/16

Trailer


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2321 - 22 de Abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Às vezes, conseguimos ver as palavras à nossa frente mas não sabemos como agarrá-las

Os homens sobreviveram a contar histórias uns aos outros

   Pedro Candeias


Às vezes, conseguimos ver as palavras à nossa frente mas não sabemos como agarrá-las


Perguntei-lhe se estava tudo bem, como tinha corrido a Páscoa.
- Ela está a desaprender a andar.
 Disse-me que eu já sabia como eram as coisas, que a doença é assim mesmo, olha, é a vida, não se pode fazer nada a não ser esperar. A demência apanhou-a aos bocados e ela apercebeu-se disso. A cabeça já não anda a funcionar como dantes, era o que nós ouvíamos dela.
Começou por se esquecer dos lugares aonde tinha de ir e depois dos lugares onde estava; hoje, não sabe muitas vezes em que tempo está e troca os nossos nomes e as nossas caras e substitui-os por outros, e é capaz de estar a dobrar e a desdobrar o mesmo cobertor durante horas. Porque acha que está desarrumado. 
Deve ser assim porque toda a vida dela foi passada a arrumar as trouxas dos outros. E a lavá-las. E a passá-las a ferro. E a levar o lixo cá fora num contentor verde que arrastava da porta da entrada até ao passeio com um sorriso na cara. Fê-lo todos os dias, menos aos domingos em que ia lá a casa e nos trazia os Twix ou nos cozinhava arroz de tomate com bifes de peru panados. Ia de Benfica e regressava a Benfica sozinha, de autocarro e a pé, até deixar de o conseguir fazer. 
Um dia, vinha da missa, trocou os passos, partiu a perna e eu vi-a da nossa janela do quinto andar a estatelar-se no alcatrão. 
Foi o início para ela e uma repetição para nós, que já tínhamos visto isto acontecer com a outra avó. É o mesmo processo degenerativo que leva uma mulher inteligente, esperta, ativa e independente - ambas criaram os filhos sem alguém por perto - a perder-se perante os nossos olhos. 
Quando está connosco, esforçamo-nos para manter uma aparentemente normalidade, uma rotina qualquer que nos agarre, mas a impotência e a frustração e a culpa e a tristeza tornam-se comuns enquanto se assiste ao progressivo declínio de alguém que tem o mesmo sangue que nós. E, por partilharmos o código genético, há outro sentimento mais egoísta que nos corre nas veias: o medo de ficarmos iguais quando a hora chegar.


“But the thing, the thing is that, John, the thing is that the type of Alzheimer’s I have is very rare. It’s passed on genetically.” Quando Alice Howland revela à família o que tem, ninguém sabe o que dizer. Ali está ela, uma linguista, orgulhosa do seu discurso articulado, inteligência, presença, que entretanto se esqueceu da palavra “léxico” ou de como se escreve “outubro”.

Alice (Julianne Moore) tem 50 anos e não é suposto sofrer-se de Alzheimer com esta idade. “Sometimes I can see the words hanging in front of me and I can’t reach them”, dirá à filha Lydia (Kristen Stewart) quando os Howland vão tentando perceber como se consegue viver assim, com dias bons e dias muito maus.



O “Still Alice”, de 2014, é um retrato duro, cru e tocante de como o Alzheimer ou a demência alteram as dinâmicas familiares, a começar pela pessoa que adoece e que sabe pelo que está a passar - e que não há forma daquilo passar. Inventam-se truques, ganham-se vícios, jogam-se jogos de palavras ao telemóvel, obcecadamente, para tentar perceber se há melhorias, se há algo que se possa fazer para reverter a erosão. Não há.

Resta-nos gostar.

Jornal Expresso Quinta - 20 de Abril de 2017

 O Meu Nome É Alice
Título original:Still Alice
Género:Drama
Classificação:M/12
Outros dados:EUA, 2014, Cores, 101 min.
Aos 50 anos, Alice Howland é uma mulher realizada: tem um casamento feliz, os filhos crescidos e uma carreira prestigiante como professora universitária. Tudo lhe corre de feição até ao momento em que começa a esquecer palavras e a baralhar-se nas coisas mais simples do dia-a-dia. Depois de fazer alguns exames, recebe o terrível diagnóstico: encontra-se num primeiro estádio de Alzheimer, um tipo de demência que provoca uma deterioração progressiva e irreversível da memória, atenção, concentração, linguagem e pensamento. Consciente do que o futuro lhe reserva, Alice está determinada a viver um dia de cada vez e a superar cada contrariedade com a tranquilidade possível. Deste modo, vai vivendo cada momento sabendo que, em breve, a doença vai alterar totalmente a forma como percepciona o mundo – e como o mundo a percepciona a ela…
Com realização e argumento de Richard Glatzer e Wash Westmoreland, uma história dramática que adapta o "best-seller" homónimo escrito em 2007 por Lisa Genova, professora da Universidade de Harvard e doutorada em Neurociência. O elenco conta com a participação de Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth e Shane McRae. PÚBLICO

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Esta Terra É Nossa

Esta Terra É Nossa

Título original: Chez Nous
Género: Drama
Classificação: M/14
Outros dados: FRA/BEL, 2017, Cores, 117 min.
Co-escrito e realizado por Lucas Belvaux, este filme tenta olhar para o actual contexto político de França, centrando-se numa enfermeira que se envolve com um partido populista de extrema-direita, uma versão ficcional não muito camuflada da Frente Nacional, com uma equivalente de Marine Le Pen e tudo. Com Émile Duquenne, Catherine Jacob, André Dussollier e Guillaume Gouix, um filme que tem gerado bastante polémica das próprias pessoas em quem foi inspirado. PÚBLICO 
Trailer


Crítica Cinema
As regras do jogo


O filme de Belvaux é sobretudo a exploração de um argumento inteligente mas esquematicamente pedagógico, assente em personagens e interpretações justas.


Esta Terra É Nossa
3,0 estrelas

     Luís Miguel Oliveira




Há uma cena terrivelmente violenta lá para o final de Esta Terra é Nossa. É quando os pais de um miúdo adolescente descobrem aquilo que o rapaz passa os dias a fazer, enfiado no quarto, em frente ao computador: gerir e alimentar um site da mais histérica e sensacionalista propaganda islamófoba. A mãe, que já tínhamos visto e ouvido em tiradas racistas, reage com admiração; o pai, indivíduo silencioso de quem mal tínhamos ouvido uma palavra, reage mal. A mãe e o pai agridem-se mutuamente, perante o olhar inexpressivo do miúdo. Praticamente não se troca uma palavra, e depois Belvaux corta para outra cena. É um momento terrível, mas é um momento lógico: não há outra resolução para a profunda clivagem que divide as personagens de Esta Terra é Nossa que não a violência (e por ela, noutros termos, o filme se concluirá), o diálogo tornou-se impossível.

Procurar captar esta tensão e este mal estar no momento em que eles se encontram bem vivos e, tudo indica, longe do último capítulo, é a virtude maior de Esta Terra é Nossa. Como documento “sociológico”, é porventura demasiado ilustrativo e previsível: uma espécie de retrato do “povo de Le Pen”, filmado no Norte (na Flandres francesa, perto de Lens), onde tudo confere com as milhentas análises que já se escreveram sobre a ascensão dos movimentos “populistas” em França ou noutros sítios, os ressentimentos variados, os sentimentos de exclusão, catalisados contra os bodes expiatórios que estiverem à mão (os árabes, os imigrantes africanos). Lucas Belvaux faz o possível para evitar o maniqueísmo: ouvem-se bastantes barbaridades em Esta Terra é Nossa mas os que as proferem nunca se tornam, aos olhos da câmara, “monstros”.

Tome-se por exemplo a personagem do Dr. Berthier, eminência parda naquela região flamenga dum partido émulo da Frente Nacional: interpretado pelo excelentíssimo veterano André Dussollier (um regular de Alain Resnais) num prodígio de subtileza, é sempre um homem simpático, atencioso, de modos gentis, longe do estereótipo do fascista viscoso. Como a “correspondente” da própria Marine Le Pen, de resto, cuja personagem, entre a caricatura e o fac simile do original, tanto desagradou à própria e ao seus apaniguados (embora muito provavelmente também tenha contado o facto de ser interpretada por Catherine Jacob, popularíssima actriz do cinema e da televisão francesa, e porventura um ídolo do próprio “povo de Le Pen” — daí o sentimento de “traição” nalgumas reacções que pudemos ler).

Enfim, isto dito, e apesar das pinças de Belvaux, o filme em momento algum se confunde com uma “suavização” da FN. “Podemos ter mudado de estratégia, mas não mudámos de objectivo”, como diz o Dr. Berthier, e em última análise Esta Terra é Nossa, na sua dimensão “militante”, é uma exposição dessa estratégia (e do rabo que o gato da estratégia deixa mal escondido: as ligações neo-nazis, as organizações de “segurança”, os exércitos de trolls da internet, os ódios raciais variados, etc) dada de forma quase pedagógica, através do percurso revelador da protagonista (Emilie Dequenne, que há muitos anos foi a Rosetta dos irmãos Dardenne), uma jovem politicamente inocente, que se diz “mais à esquerda” por influência familiar (o pai é um velho comunista) mas também diz que “nunca vota porque não vale a pena”, escolhida como testa de ferro do partido para as eleições municipais por ser, em suma, o tipo de figura tenrinha e bem intencionada que se presta idealmente à manipulação pelos lobos em pele de cordeiro.

Um bocado esmagado pelo tema, Belvaux não se permite mesmo o tipo de invenção de que deu mostras nos seus melhores filmes (Para Rir ou aquela trilogia do princípio dos anos 2000, Em Fuga, Um Casal Encantador e Depois da Vida), e o seu filme é sobretudo a exploração de um argumento inteligente mas esquematicamente pedagógico, assente em personagens e interpretações justas. Mas, também pelo seu carácter irresolvido, em aberto, Esta Terra é Nossa é um filme que sabe que não pode “fechar” coisa nenhuma. Está tudo em andamento e — voltamos à cena que descrevemos no princípio — a tensão é demasiada para se dissipar sem violência. Nem Belvaux é Renoir nem este filme é A Regra do Jogo, muito longe disso; mas há nele uma consciência, semelhante ao que alguns (como Renoir) tinham em 1939, de que a “comédia” (“qual delas, senhor?”, perguntava-se no Renoir, e hoje a resposta também não seria fácil) se tornou imparável no seu rumo à catástrofe. E essa consciência o filme dá, com uma frieza que nem precisa de ser assustadora.
PÚBLICO, 20 de Abril de 2017

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