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domingo, 30 de abril de 2017

A Rua de Cimo de Vila


A Rua de Cimo de Vila


 Cimo de Vila é a designação do ponto mais alto de uma povoação

 



Quem, hoje, suba ou desça (o sen­tido da marcha é indiferente, para o caso) a Rua de Cimo de Vila, não terá dificuldade em constatar que está a percorrer uma das mais an­tigas artérias do Porto, tantos são os vestígios de vetustez que por lá vai en­contrando.

Mas não pode facilmente imaginar que, em tempos idos, por ali viveu a nata da fi­dalguia portuense, alguns titulares que de­sempenharam importantes funções na ad­ministração do burgo, e abastados merca­dores que enriqueceram com o comércio das especiarias e os negócios com os vi­nhos do Alto Douro.

A atual Travessa de Cimo de Vila teve, em épocas anteriores, a designação de Viela dos Entrevados, porque era nela que ficava o Hospital de Nossa Senhora do Am­paro, popularmente conhecido por Hospi­tal dos Entrevados de Cima de Vila, assim denominado porque era nele que se reco­lhiam pessoas velhas e inválidas. Logo, era mais hospício do que hospital.

O edifício desse hospital começou a ser construído em setembro de 1639. Mais de 250 anos depois, em abril de 1891, a casa onde funcionava o hospital estava em ruínas e os entrevados foram transfe­ridos para um prédio da então chamada Rua de Trás da Sé, a atual Rua de D. Hu­go, para um edifício que pertencia às Ofi­cinas de S. José.

O mau fadário do Hospital dos Entreva­dos não ficou por aqui. Em 1901, deixou as instalações da Rua de Trás da Sé e foi ocu­par a ala norte do então denominado Esta­belecimento Humanitário do Barão de Nova Sintra, hoje Colégio do Barão de Nova Sintra, onde se manteve pelo menos até 1926. Daqui, foi definitivamente para os chamados Hospitais Menores (ou Lázaros), na Rua das Fontainhas, administrados pela Santa Casa da Misericórdia do Porto.

Outra artéria curiosa cujo nome desapa­receu da toponímia portuense foi a Traves­sa da Caridade. Trata-se da atual Travessa do Cativo. A denominação Caridade, como facilmente se constata, tinha a ver com a proximidade do Hospital de Nossa Senho­ra do Terço e Caridade, de que falamos mais em pormenor na caixa aqui ao lado.

À entrada da Rua de Cimo de Vila, à es­querda, para quem entra nela pelo lado da Rua Chã, fica uma casa a que ainda hoje chamam o Paço da Marquesa. Foi um dos mais opulentos palácios do Porto do sécu­lo XV. O edifício que hoje lá vemos não tem nada a ver com o palácio de outrora.

O primitivo Paço foi mandado construir no último quartel do século XV (1492 ou 1494) por João Rodrigues de Sá e Meneses, que foi alcaide-mor do Porto, cujos descen­dentes, através de ligações matrimoniais, vieram a entroncar na árvore genealógi­ca dos marqueses de Abrantes.

Na última década do século XVIII, vi­veu naquela casa, durante vários anos, D. Helena de Vasconcelos e Sousa, segunda filha dos segundos marqueses de Caste­lo Melhor e a penúltima marquesa de Abrantes. Daí o nome por que ainda hoje é conhecido o edifício.

Em 1810 (um ano depois da segunda invasão francesa), aquela segunda mar­quesa de Abrantes concedeu" por esmo­la" que nele se fundasse o Recolhimen­to das Meninas Desamparadas de Nossa Senhora das Dores e S. José, para interna­mento das muitas raparigas que, na se­quência da passagem dos franceses pelo Porto, tinham ficado sem pais e vaguea­vam, esfomeadas e com as roupas esfar­rapadas, pelas ruas da cidade.

Aquele estabelecimento de caridade, fundado por D. Francisca Paula da Con­ceição Grelho e Sousa, funcionou no Paço da Marquesa , de 23 de janeiro de 1810 até 31 de maio de 1825. Mais tarde, seria transferido para edifício próprio na zona das Portas do Sol, muito perto da entrada da Rua do Sol. Trata-se do edifí­cio onde hoje funciona a Universidade Lusófona do Porto.
Entre 1853 e 1864, esteve no Paço da Marquesa, o Seminário dos Meninos De­samparados. Neste último ano, o último marquês de Abrantes, D. José Maria da Piedade Lencastre, vendeu o edifício, "por oito contos de réis", ao seu procurador Jo­sé Ferreira de Azevedo e Castro, que, onze anos depois, em 1875, o vendeu "por quin­ze contos de réis" a um capitalista chama­do João Bernardino de Morais.

O primitivo Paço, mandado fazer por João Rodrigues de Sá e Meneses, foi, no seu tempo, uma das mais sumptuosas re­sidências senhoriais do Porto. Arquitetonicamente , parecia-se, muito, com o primitivo edifício da Alfândega, a nossa conhecida Casa do Infante.

O historiador Carlos de Passos, ao referir-se ao Paço da Marquesa atual, no seu "Guia Histórica do Porto", depois de lamentar o estado a que ele chegou, diz que nos últimos anos (a obra é de 1935) "o casarão albergou dois grandes negócios - o da batota e o dos penhores". •


História da Igreja do Terço
Atualmente, o edifício mais importante da Rua de Cimo de Vila é, sem dú­vida, o da Igreja do Terço (desenho) construída en­tre 1756 e 1759 e amplia­da em 1775. Teve origem, este templo, na devoção da reza do terço em co­mum, que era prática cor­rente, por aqueles tempos, entre os moradores da Rua de Cimo de Vila. Aos domingos e dias santifica­dos, os devotos do terço começavam a recitação na desaparecida Capela de Santo António do Penedo, que ficava no atual Largo do Primeiro de Dezembro, organizavam depois uma pequena procissão que percorria as ruas vizinhas e acabava junto de um oratório existente no local onde agora está a igreja que tomou o nome da de­voção e o deu também a uma irmandade.

Em Cimo de Vila existiu também o Hospital do Santo Espírito

JORNAL DE NOTÍCIAS, 30 ABRIL, 2017

sábado, 29 de abril de 2017

AS PIN-UPS DO FEMINISMO

PLUMA CAPRICHOSA 


  CLARA FERREIRA ALVES


AS PIN-UPS DO FEMINISMO

O feminismo, exceto em manifestações dispersas e localizadas, arregimentadas a causas ditas fraturantes, está morto e enterrado


Christine Lagarde não devia jogar póquer a dinheiro.

O momento foi espetacular e dá uma ideia do que é hoje o pós-feminismo, ou a representação enviesada do feminismo por um conjunto de mulheres cuja característica é a acumulação de poder e dinheiro. A senhora Merkel, com a mesma hesitação e tibieza que caracterizam a sua política pan-europeia, sumarizada na frase tão depressa uma coisa como outra, e que tão bons resultados tem dado, resolveu organizar uma cimeira em Berlim chamada Mulheres20, um G20 de saias. Esta cimeira fez-se de propósito para dar palco a uma recém-chegada, uma das novas combatentes pelos direitos das mulheres também conhecida como la fille Trump. Parece que Merkel digeriu a humilhação que Trump lhe assentou ao recusar apertar-lhe a mão, e resolveu chegar ao coração do pai através da filha. Vimos Jared no Iraque como agora vemos Ivanka na cimeira. No encontro de Berlim, Ivanka brilhou pela compostura e a elegância, como diria a revista “Hola”, o meio de comunicação adequado a momentos de espuma cor de rosa e sorriso frou frou. A Lagarde, suma-sacerdotisa das mulheres poderosas, e tal como a Merkel um péssimo exemplo de coerência política na questão das dívidas soberanas, sumarizada na frase façam como eu digo e não façam como eu faço, estava sentada ao lado de la fille Ivanka. A coisa parecia ser um debate, com uma moderadora a perguntar à fille como é que ela se revia no feminismo do papá. Sem um cabelo fora do sítio, e batendo as pestanas ao jeito da mãe, a saudosa e plástica Ivana dos anos 80, Ivanka declarou que o pai era um “tremendo” campeão dos direitos das mulheres (a mania do tremendo é genética). A Lagarde coçou o nariz nervosamente enquanto Merkel olhava por cima da linha do horizonte. Nestes momentos, Merkel nunca está lá e não ouviu nada. A Lagarde, que como todas as mulheres por esse mundo fora assistiu ao feminismo de Trump durante a campanha eleitoral, e que conhece Hillary e sabe que esta pode ter todos os defeitos mas foi sempre uma defensora dos direitos das mulheres, coçou o nariz numa aflição. Devia abster-se de jogar póquer a dinheiro porque denuncia-se muito. Só a feijões.

A seguir ao momento espetacular, em que Ivanka foi assobiada pela assistência, vieram as comentadoras femininas, não necessariamente feministas, que interpretaram o convite de Berlim para uma cimeira feita de propósito para la fille Trump como um modo de restabelecer as boas relações entre a Alemanha e os Estados Unidos. Um verdadeiro coup para Merkel, chamou-lhe um jornal, em francês no texto. Portanto, nada que tenha que ver com mulheres ou direitos das mulheres. É por causa de momentos tão espetaculares como este, que são uma forma de subjugação de mulheres poderosas ao macho alfa que ocupa a Casa Branca, que as mulheres continuam a não se fazer respeitar. Todo aquele W20 foi uma encenação deprimente. Os alemães não sabem mesmo o que andam a fazer. Humilham os fracos e humilham-se perante os fortes. Insultam a Grécia e dobram-se a Trump. Boa sorte com isso.

Acho que prefiro Kushner no Iraque a Ivanka na cimeira. Nada, até hoje, a recomenda como uma campeã dos direitos das mulheres, dentro ou fora da empresa do pai ou das empresas de luxo que criou à sombra do pai. A sua vida e obra não passam dos trabalhos de uma existência manicurada ao serviço de uma dinastia que não hesita em faturar a propósito de tudo e todos e que, como a pobre Melania disse com abandono, acha a Casa Branca uma oportunidade de negócio. Os Trump exploram o mundo a seu favor e são cumprimentados por isso. Ivanka vai vendendo a linha Ivanka nos países com os quais vai tratando no sossego da diplomacia que lhe ofereceu um lugar ao lado do pai. Se os Clintons eram dois pelo preço de um, os Trumps são três pelo preço de um.

Na verdade, o feminismo, exceto em manifestações dispersas e localizadas, arregimentadas a causas ditas fraturantes, está morto e enterrado. Os símbolos feministas são hoje as mulheres mais poderosas do capitalismo financeiro ou tecnológico, que nunca mexeram uma palha por uma mulher privada de recursos, que nunca ergueram a voz para ajudar ou protestar contra uma mulher queimada, injustiçada, humilhada, violada, proletarizada, torturada, mutilada, refugiada ou assassinada. Nem podiam. Não fazem a menor ideia do que é a destituição das mulheres da Nigéria ou do Sudão, da Somália ou da Bolívia, do Brasil ou da Índia, ou a perseguição das mulheres na Rússia, no Afeganistão ou no Paquistão. Na envidraçada redoma, nos palácios forrados a dólares, nenhuma daquelas mulheres reconhece uma geografia que caia fora da “Vogue” e da “Forbes”. Marisa Meyer, a CEO da Yahoo que afundou a Yahoo, acaba de ser recompensada com 168 milhões de dólares. Sheryl Sandberg, que publicou um livro para mulheres profissionais da sua classe e do seu meio, “Lean In”, um livro pueril diga-se de passagem, confessa que só ao perder o marido se deu conta de que era uma privilegiada. Os biliões da chefe operacional do Facebook ajudam muito.

São estas as pin-ups do feminismo, como a nossa Ivanka. E ninguém se lembrou de convidar la fille Le Pen, de que o velho Trump tanto gosta.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2322 - 29 de Abril de 2017

VIOLAR E MATAR EM DIRETO

HÁ HOMEM


LUÍS PEDRO NUNES


VIOLAR E MATAR EM DIRETO

Quantos psicopatas existem em dois mil milhões de utilizadores do Facebook? 

foto GETTY IMAGES

Não há muito tempo, nos filmes de Hollywood havia um momento em que os raptores, psicopatas, assassinos e todo o tipo de criminosos muito beras necessitam de publicitar as suas ações ou meramente de se proteger da polícia. Tipo momento-chave da coisa. Era então que decidiam chamar um jornalista ou um cameraman para registar o momento. Aliás, alguns desses filmes até se concentravam na questão ética que se colocava a esse mediador: deveria emitir essas imagens? Que papel de “agente provocador” tinha o repórter na ação do criminoso? Havia variantes. Num ou noutro, os criminosos até se passeiam já com câmaras portáteis de microcassetes para se autofilmarem. Deduzo que todos esses filmes se tornem incompreensíveis para as gerações que aí vêm. Tal como a necessidade de encontrar uma cabine telefónica ou dar com uma e não ter moedas. Porque hoje qualquer psicopata precisa apenas de ligar o Facebook Live e começar a transmitir. Como se costumava dizer para as coisas boas da tecnologia: o futuro já começou.

Ainda não há muito tempo andávamos espantados pelo facto de o Facebook ter atingido os 500 milhões de contas. Era — e é — um número brutal. Zuckerberg, eu disse-o aqui, podia ter capacidade de influenciar o mundo, para o bem e para o mal. Mas parecia mais interessado em si mesmo. Mas hoje somos dois mil milhões de utilizadores. Em 24 horas há mais de mil milhões ligados simultaneamente a isto. E é então que Zuckerberg lança o Facebook Live — a capacidade, em potência, de um utilizador poder transmitir do seu quarto um streaming para esses mil milhões. Ou dois mil milhões. Zuck mostrou-se excitado. Bateram-se palmas. É um poder brutal poder lançar algo assim. E parece inofensivo. Brincadeirinha.

No mês passado, uma adolescente foi vítima de uma violação coletiva que foi transmitida live no Facebook. Há dias, um velhote que ia na sua vida em Cleveland foi abatido aleatoriamente e o autor colocou de imediato o vídeo no Facebook. A conta só foi desativada duas horas depois e o vídeo teve mais de 150 mil visionamentos (e as TV de todo o mundo repetiram-nas à exaustão). Aliás, as imagens pareciam as de um jogo de POV — Point of View — em que se vê o braço do atirador a levantar e a disparar. Ora, dá para perceber que isto são apenas os tópicos fundadores de uma tendência que aí vem. E não vai ser bonito.

Vivemos numa Facebookocracia? A tender para uma Facebookoditadura? Já não se trata de perceber que influência têm as redes sociais nas nossas vidas, mas até que ponto elas não estão a ser determinantes para o que nos está a acontecer nas mudanças drásticas que a nossa vida tem ou vai ter: Trump, ‘Brexit’ ou Le Pen são fenómenos a que reconhecemos um qualquer benefício de um jogo sujo de algo externo (fake news, hackers russos, miúdos da Macedónia) que desculpabiliza parcialmente as próprias escolhas da sociedade. É impressionante como há uma total passividade por parte dos eleitores com a eventualidade do sistema político estar a ser corrompido pelas redes e pelos hackers. Pode ser verdade. Mas também pode não ser. É o campo da relatividade total.

Mas eis que chegamos ao dia de hoje. Percebe-se que estamos a viver o desenvolvimento de um tipo de fenómeno que liga o observador/voyeur diretamente a quem comete crimes, que dispensa qualquer tipo de mediador e vai levar a uma contaminação com episódios macabros nos próximos tempos. Caso o Facebook não faça nada. Que não irá fazer. A defesa da rede social é a de que, tendo em cima o número de utilizadores — 2.000.000.000 —, estes são um reflexo da sociedade. Onde há de tudo. Psicopatas e sociopatas incluídos. O que se pode fazer é atuar a posteriori para que esse tipo de situações possa ser atacado de imediato. Mas este é um problema que está só a emergir. As possibilidades de transmitir em direto a desgraça, a dor que se está a infligir aos outros, a violência gratuita, só agora começa a ser percecionada. E para o FB uma coisa é censurar mamilos. Outra é ter uma epidemia de transmissões de violência em direto.

O “Washington Post” lembrou as palavras de Zuckerberg quando apresentou o Facebook Live. Disse que era algo “cru e visceral”. Ora, nada pode ser mais cru e visceral do que a transmissão de uma violação ao vivo ou de um velhote a ser aleatoriamente abatido. Talvez o “Washington Post” esteja a ser prudente. A ideia está lançada e será obviamente recuperada por todo o tipo de gente capaz das coisas mais inomináveis, que a irá elevar a novos patamares. Seja para exibir a sua doença mental, seja para chocar o mundo a favor da sua causa, um mundo no qual o terrorismo mais abjeto tudo valida.

E o mais chocante é que iremos acabar por permitir que Zuckerberg contorne a situação e arranje uma qualquer ferramenta que nos coloque num curral mais apertado, “para nosso bem”, favorecendo o seu poder, apenas por incapacidade nossa de nos resgatarmos das redes sociais onde diariamente nos indignamos contra quase tudo e contra todos.

P.S.: Já depois de ter escrito este texto, um tailandês assassinou a filha bebé de 11 meses tendo-se suicidado de seguida. Transmitiu o crime via Facebook Live e as imagens estiveram acessíveis durante 24 horas, tendo sido visionadas por dezenas de milhares de pessoas. O Facebook está sob “muita pressão”, dizem os media locais.

Jornal Expresso SEMANÁRIO#2322 - 29 de Abril de 2017

O povo é quem mais ordena

  
Miguel Sousa Tavares


O povo é quem mais ordena

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
 
A Whirlpool Corporation é uma multinacional de máquinas domésticas a uma escala global: emprega 93 mil pessoas e tem 70 centros de investigação no mundo inteiro. Em França, tem uma fábrica em Amiens, no norte, a terra natal de Emmanuel Macron e um dos feudos eleitorais de Marine Le Pen — os dois candidatos finalistas à Presidência da França. A Whirlpool anunciou recentemente o encerramento da sua fábrica em França, onde emprega 300 trabalhadores, deslocando-a para a Polónia, onde a mão-de-obra é mais barata e a empresa beneficiará de um regime fiscal mais benevolente. Na terça-feira, Macron visitou a fábrica e reuniu-se com os dirigentes sindicais, a quem se limitou a dizer aquilo que podia dizer face às regras do jogo: que iria tentar dissuadir a empresa de emigrar. E mais não podia prometer, visto que a regra fundadora da União Europeia, estabelecida há cinquenta anos, é a da livre circulação de pessoas, bens e mercadorias. E, por isso mesmo, porque é um candidato assumidamente europeísta, foi apupado pelos trabalhadores à saída. Mas Le Pen (agora, para efeitos eleitorais, simplesmente Marine), tinha reservado um golpe de surpresa: apareceu na fábrica, à mesma hora, e foi directamente ao encontro dos trabalhadores a quem prometeu que, com ela a Presidente, a fábrica não fecharia. Saiu em ombros: a candidata da extrema-direita aos ombros da classe operária! Marx deveria ter assistido à cena para constatar como tinha razão: a história repete-se, senão como tragédia, ao menos como comédia. Ou vice-versa. Já vimos isto antes: na Alemanha do nacional-socialismo, na Itália do fascismo, no Portugal salazarista e por aí fora, do peronismo ao chavismo.

Marine copiou a jogada de Trump na campanha eleitoral americana, quando ele foi prometer aos mineiros do carvão que, com ele a Presidente, eles recuperariam os seus postos de trabalho perdidos, pois que não acreditava no aquecimento global nem nas alterações climáticas ou na necessidade de energias alternativas, não poluentes. Como é óbvio, Trump poderá declarar a poluição livre na América, mas, a prazo, não devolverá os empregos aos mineiros pela simples razão de que serão as próprias empresas americanas a recusar, até por motivos económicos e de concorrência, um crescimento baseado na exploração das energias fósseis. Trump também prometeu defender os empregos americanos ameaçados pela globalização, castigando fiscalmente as empresas americanas com fábricas no exterior ou as empresas estrangeiras que deslocassem fábricas dos Estados Unidos para outros lados (como a BMW e o seu projecto de deslocar duas fábricas dos Estados Unidos para o México). Trump e Marine admiram-se mutuamente, inspiram-se mutuamente e copiam-se mutuamente. Qual é o problema? É que a Whirlpool é americana, mas actua num mercado planetário, em busca da rentabilidade e do lucro máximo. Os 300 trabalhadores de Amiens são uma gota de água insignificante no universo dos seus 93 mil assalariados. Por vontade e promessa de Marine, a fábrica continuará em França; por vontade e ameaça de Trump, irá para os Estados Unidos. Mas nem uma coisa nem outra: a Whirlpool não levará a sua fábrica de volta aos Estados Unidos nem a deixará em França — irá para onde tiver de pagar menos salários e menos impostos. O grande capital não tem estados de alma nem assomos patrióticos, tem apenas Relatórios e Contas, dividendos para pagar aos accionistas e prémios de gestão para os administradores que garantirem mais dividendos aos accionistas.

O problema da globalização não é o do seu princípio — o do livre comércio — que tantos, com os Estados Unidos à cabeça, defenderam insistentemente durante décadas. O comércio, a liberdade de comércio e das trocas comerciais, fez a prosperidade dos povos ao longo dos séculos, aproximou culturas e civilizações e evitou as guerras, desprezando os nacionalismos e a imbecilidade extrema dos fanatismos religiosos. Nos dias de hoje, pondo termo a um sistema pós-colonial profundamente iníquo, que condenava os pobres à miséria eterna, a globalização arrancou dezenas de países e centenas de milhões de miseráveis à sua condição sem esperança. Mas quando se estabelece algum equilíbrio, é fatal que alguém perca para que alguém possa ganhar. Ganharam os pobres, perderam os ricos; ganharam os operários dos países pobres, perderam os dos países ricos. Fábricas, negócios, indústrias inteiras dos países ricos tornaram-se económicamente insustentáveis, face à mão-de-obra mais barata dos emergentes. Esses perdedores são o eleitorado natural de Marine Le Pen, de Donald Trump, dos defensores do ‘Brexit’ e dos comunistas, convertidos em seus compagnons de route. São eles os inimigos da Europa e, em geral, de qualquer tratado de comércio transfronteiriço.

Os perdedores da globalização são o eleitorado natural de Le Pen, de Donald Trump, dos defensores do ‘Brexit’ e dos comunistas, convertidos em seus compagnons de route


Mas existe alternativa para os que sentem deserdados pela globalização. A nível económico, é a aposta e reconversão em inovação, tecnologia, criatividade e diferente organização do trabalho. A indústria têxtil portuguesa, que os especialistas garantiram morta face à globalização, afinal sobreviveu e prosperou deixando de apostar na mão-de-obra barata como único factor concorrencial. E, a nível político, o problema não é o de excesso de regras comuns, como julgam os ingleses, mas justamente o contrário: uniformização fiscal para as empresas, combate ao dumping social e laboral, fim das offshores, mais apertado controlo sobre a banca e o sector financeiro, tributação das transacções financeiras não correspondentes a criação de riqueza efectiva, políticas comuns nos sectores de energia e ambiente, cooperação nos domínios da ciência e da investigação científica, reflexão comum sobre as questões da natalidade e do envelhecimento populacional.

A outra alternativa é a da Le Pen, de Trump, dos ingleses nostálgicos do império, do sultão Erdogan ou do czar Putin. É a alternativa do restabelecimento das fronteiras, do protecionismo, do chauvinismo de raça, de religião ou de nascimento. O nacionalismo de merceeiro. Naturalmente, pressupõe um discurso de lei e de ordem, em nome da pátria e da segurança. E naturalmente é o primeiro passo no caminho das ditaduras. É por isso, também, que eles não gostam da Europa: porque, teoricamente, não lhes permite a liberdade de escolherem a ditadura — mesmo que o povo a queira. É por isso que o discurso da extrema-direita e o dos comunistas nunca esteve tão próximo. Une-os o mesmo desprezo pela liberdade e pela democracia e a mesma criminosa convicção de que a história não se repetirá como tragédia. Querem de volta a velha Europa, com o longo repertório dos seus nacionalismos, dos seus ódios, dos seus ditadores das suas guerras. E é por isso que Jean-Luc Mélenchon, o candidato derrotado da extrema-esquerda francesa (o equivalente aos nossos PCP e BE juntos), não teve vergonha em arrancar a máscara: não só se recusa a apelar ao voto antifascista contra Le Pen, como também não se incomoda nada que os seus votantes da primeira volta se virem agora para Le Pen. Ambos querem fundamentalmente o mesmo: o fim da Europa, mesmo que acessoriamente isso implique também o fim da liberdade. É o pacto Molotov-Ribbentrop revisitado. É a vontade do povo, dizem eles. E é: 42% dos franceses votaram neles. Daqui por cinco anos, serão provavelmente a maioria e então a história seguirá o seu curso inexorável, porque a grande fraqueza da democracia é que ela nada pode contra a vontade maioritária do povo. Mesmo que o povo escolha a tragédia.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2322 - 29 de Abril de 2017

Claques | Eles fazem a guerra em tempos de cólera

Claques


VIOLÊNCIA Na semana em que morreu um adepto italiano, o Expresso conta-lhe como são e como se fazem os confrontos entre claques num contexto de tensão entre clubes

Eles fazem a guerra em tempos de cólera



Pedro Candeias e Hugo Franco

Há quem tenha começado cedo nisto, pela mão do pai, aos 11 anos, com idas ao estádio do clube do coração. Aos 16 anos, houve lugar a uma espécie de ritual de iniciação: um confronto contra Ultras de outro clube, sem a ajuda dos mais velhos. “Levámos uma coça. Era para ver se nos aguentávamos sozinhos” FOTO GETTY IMAGES

Não era suposto ter acabado assim. Há um limite para estas coisas, regras que não estão escritas mas que são para cumprir. Por exemplo, não se levam armas de fogo ou armas brancas, e no entanto poderá ter passado pela mão de alguém uma faca militar de 27 centímetros. Também é suposto o vencedor levantar o derrotado do chão, e naquela madrugada nenhum dos lados ganhou. E há uma moral no meio dos Ultras que diz que um Ultra nunca mata, e Marco Ficini perdeu a vida, atropelado por um carro conduzido por Luís Pina, mais conhecido por “Tanolas”. Aconteceu durante o confronto entre adeptos do Sporting e do Benfica, na madrugada do dérbi de 22 de abril (1-1). Houve pedradas, viram-se bastões de basebol, barras de ferro e soqueiras, e foi violento, “muito violento”, diz quem tomou lugar na rixa. Foi tão violento que “nem deu para ver bem quem bateu em quem e com o quê”.

Marco Ficini tinha 41 anos e não era a primeira nem a segunda vez que viajava de Itália para assistir ao dérbi de Lisboa. Era adepto da Fiorentina e tinha muitos amigos sportinguistas, porque a sua claque, a 7 Bello, e a do Sporting são ‘irmãs’ desde o dia em que o antigo líder da Juve Leo Miguel D’Almada fez a ponte entre ambas. Ficini era um homem corpulento e já estivera metido em contextos semelhantes com os 7 Bello. Por sua vez, Luís Pina é adepto do Benfica e faz parte dos No Name Boys, estava referenciado pela polícia por confrontos com adeptos em Alvalade, em 2011, e fora investigado pela PSP por tráfico de droga. O “Tanolas” entregou-se às autoridades na quinta-feira, cinco dias depois da morte de Ficini. Cinco dias depois de um carro ter arrastado um corpo no alcatrão. É aqui que a história segue por dois caminhos.


O carro e os ocupantes
Era uma da manhã, mais coisa menos coisa, quando o primeiro grupo avançou para a Luz. Era composto por 15 Ultras, os Casuals, os adeptos autointitulados independentes das claques de Alvalade que em 2013 estiveram envolvidos em rixas no Porto; depois, sete ou oito carros trouxeram elementos da Juve Leo dentro deles, e Marco Ficini chegou com eles. Os No Name Boys (NN) dizem que foi a Juve Leo (JL) a começar, por terem pintado a estátua de Cosme Damião de verde; a JL diz que isso só aconteceu porque os NN tinham estado em Alvalade horas antes. Foi tudo muito rápido e estava escuro. Cerca de 100 homens, 60 do lado benfiquista e 40 do lado sportinguista, embrulharam-se, agrediram-se e feriram-se; e depois aquilo. “O carro arrastou o Marco durante 30 metros, parou, voltou atrás ainda com o corpo debaixo dele e voltou a ir-se embora, passando mais uma vez por cima do corpo.” Segundo um Ultra sportinguista, “estavam três pessoas dentro do carro” que matou Ficini. Carlos Melo Alves, advogado de Luís Pina, diz que não. “Ele entrou no carro sozinho, e, quando se ia embora do local, elementos da Juventude Leonina fizeram-lhe uma espera e destruíram-lhe o carro.”


ACONTECEU À UMA DA MANHÃ. FOI TUDO RÁPIDO, VIOLENTO E FEITO NO ESCURO. O CORPO FOI ARRASTADO DEBAIXO DO CARRO “DURANTE 30 METROS”

Luís Pina ter-se-á encontrado com o advogado logo no sábado, no dia das agressões. A ideia era entregar-se no momento, mas “teve receio das consequências, ao aperceber-se do impacto das notícias”. Pina, diz o seu advogado, decidiu esperar. Passou o 25 de Abril escondido. E no dia seguinte Melo Alves fez um requerimento ao Ministério Público e à Polícia Judiciária: “O meu cliente vai entregar-se na quinta-feira.” A defesa do “Tanolas” sustenta-se na tese do acidente e não do homicídio. Seguem-se os argumentos. Carlos Melo Alves fala de uma barra de ferro que ainda se encontrava no interior do carro quando este foi descoberto dias depois pela polícia, numa casa abandonada, na Amadora. “Com medo daquela multidão de adeptos do Sporting, ele [Luís Pina] pôs-se em fuga, acabou por apanhar o adepto italiano, que foi arrastado no atropelamento.” O carro como veículo para a morte que fechou uma noite violenta num palco urbano, a cinco quilómetros do centro da capital.
Correu tudo ao contrário e talvez por isso tenha corrido tudo mal.


Do outro lado da ponte

Os adeptos não são todos iguais. As claques também não. O Sporting e o FC Porto têm as suas, e estão todas legalizadas — Super Dragões e Coletivo Ultras 95 (FCP); Juventude Leonina, Torcida Verde, Diretivo Ultras XXI e Brigada Ultras Sporting (SCP). As do Benfica estão ilegais (No Name Boys e Diabos Vermelhos), e este é um tema recorrentemente discutido no faroeste do futebol português (ver P&R). Bruno de Carvalho (BdC) acusa Luís Filipe Vieira (LFV) de apoiar encapotadamente os NN e diz que estes operam à margem da lei, sem qualquer supervisão, o que deixa o clube a salvo de sanções. Quando Ficini morreu e se percebeu que o condutor do carro era dos NN, BdC pediu a LFV que se distanciasse publicamente dos NN. Não aconteceu. Fonte próxima dos NN contraria a legalização, garante que é apenas uma “forma de a polícia ter acesso a uma base de dados gratuita” e que os desarranjos e os esquemas e as confusões são iguais em todo o lado. E acontecem na outra margem.

Antes ou depois dos grandes dérbis, há encontros espontâneos. Sucede que as casas do Benfica e os núcleos do Sporting ficam na vizinhança, e a possibilidade de uma rixa começar é grande. A probabilidade também. “Almada, Costa da Caparica, Feijó. Há muitos confrontos variados”, diz-nos um homem que costuma entrar nestas lutas de rua. Mas há outra forma de fazer isto, com marcação prévia: um líder combina com outro líder uma hora e um lugar, numa zona descampada, num terreno abandonado ou no mato, sítios onde a polícia não vai.


HÁ ENCONTROS MARCADOS PELOS LÍDERES DOS GRUPOS. TÊM REGRAS: CARNE NA CARNE, 25 CONTRA 25, NA MARGEM SUL DO TEJO... NO VERÃO, HÁ UM CAMPUS ONDE SE ENSINA A LUTAR



É neste ponto que se fala de regras. Carne na carne, “não há facas nem pistolas”, a não ser quando alguém fura os acordos, e então puxa-se das lâminas; e os grupos têm de equivaler-se em número: 25 contra 25, 50 contra 50, Casuals contra Casuals, com ou sem luvas... Luta-se, e aquilo acaba ali. “Pode parecer estúpido e difícil de acreditar, mas muitos dos que entram em confrontos conhecem-se uns aos outros”, diz uma fonte.

Há quem tenha começado nisto novo, pela mão do pai aos 11 anos, com um ritual de iniciação pelo meio, que consiste em entrar num confronto sem a ajuda dos mais velhos. “Aos 16 anos, levámos uma bela coça dos Ultras do Porto. Era para ver se aguentávamos sozinhos.” Tal e qual o filme “Rebeldes do Bairro”, de 2006, com Elijah Wood e Charlie Hunnam.

A ideia não é agredir por agredir, mas agredir com o propósito de mostrar quem manda na cidade, quem tem mais poder na rua. “Crianças e idosos não. Só confrontamos quem procura e quer confronto.” Não tem a ver especificamente com futebol, mas é por causa do futebol. E é tribal e territorial. O clube é o clã com o qual se identificam e que querem defender.

Para o fazerem, estes tipos praticam artes marciais, MMA, free fight, treinam em ginásios... São fortes, musculados e sabem bater. E os que não sabem são ensinados. “Uma vez por ano alugamos uma casa bem longe de Lisboa e levamos para lá 100 a 150 pessoas que querem aprender a lutar.” É o campus de férias deles.

O escritor Arthur Koestler pôs as coisas da seguinte forma: “Existe o nacionalismo e o nacionalismo futebolístico, que é um sentimento muito mais forte.” Rinus Michels, o pai da “Laranja Mecânica” holandesa, foi mais longe: “Futebol é guerra.” E na guerra há sempre vítimas. Talvez fosse mesmo suposto que a noite de 22 de abril tivesse acabado como acabou.


P&R

Para estarem legalizadas, as claques têm de proceder a que tipo de registo?
É obrigatório o registo dos grupos organizados de adeptos (GOA) no Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), previamente constituídos como associações, nos termos da legislação aplicável ou no âmbito do associativismo juvenil.

Desde quando é o registo obrigatório?
Desde 2009 (Lei nº 39/2009, de 30 de julho, de combate à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espetáculos desportivos). O registo cabe ao promotor do espetáculo, cumprindo a Lei da Proteção de Dados Pessoais, com indicação dos seguintes elementos: nome, número do BI ou CC, data de nascimento, foto, filiação (no caso de menores), morada, telefone e correio eletrónico.

E registo criminal?
Não.

Quais são as claques legalizadas?
São 23, entre as quais duas do FC Porto (Super Dragões e Coletivo Ultras 95), quatro do Sporting (Juventude Leonina, Torcida Verde, Diretivo Ultras XXI e Brigada Ultras Sporting), uma do Boavista (Panteras Negras), uma do Marítimo (Esquadrão Maritimista), uma do Guimarães (White Angels), duas do Setúbal (VIII Exército e Ultras 1910), uma do Nacional (Família Alvi-Negra)...

As claques Diabos Vermelhos e No Name Boys, do Benfica, já estiveram legalizadas?
Nunca estiveram registadas.

O registo é anual?
Após o registo único, o clube é obrigado a remeter trimestralmente nova cópia do registo e uma atualização dos membros dos GOA.

As claques têm de prestar contas (despesas/receitas) e fazer relatório de atividades?
Relativamente ao IPDJ, neste domínio, não existe qualquer obrigação dos GOA.

Em que tipo de sanções incorrem as claques não legalizadas? E os clubes das mesmas?
Não estão previstas sanções para a falta de registo dos GOA no IPDJ. Não sendo registados, fica-lhes vedada a atribuição de qualquer tipo de apoio por parte do clube. Em caso de violação desta proibição, o clube é sujeito a contraordenação e aplicação de coima, que pode variar entre €2500 e €250.000. A condenação pode ainda determinar sanção acessória de espetáculos à porta fechada por um período até 12 jogos.

Os clubes visitados são obrigados a admitir claques adversárias nos seus estádios?
Sim. Devem reservar zonas distintas para os adeptos do clube visitante nas provas profissionais ou não profissionais consideradas de risco elevado (Lei nº 39/2009, alterada pela Lei nº 52/2013).

Que sanções estão previstas em casos de violência, incitamento à violência através de cânticos, exibição de tarjas ou palavras de ordem?
São de natureza contraordenacional, aplicáveis, a “título individual”, aos adeptos e aos agentes desportivos (dirigentes, praticantes desportivos e árbitros). No caso dos adeptos, para incitamento ou prática de atos de violência, a moldura aplicável varia entre €750 e €10.000. Os agentes desportivos são punidos com coimas de €1500 a €20.000. Os clubes que atribuam apoio aos GOA que adotem sinais, símbolos e/ou expressões que incitem à violência sujeitam-se a coimas de €2500 a €250.000 e ainda a jogos à porta fechada (12 no máximo).

A quem cabe punir as claques? E denunciar desacatos?
A Lei nº 39/2009 não prevê sanções às claques enquanto associações de natureza privada. Face ao comportamento das claques, as punições são aplicadas aos clubes, cabendo o poder sancionatório ao IPDJ. As denúncias cabem às forças de segurança, a qualquer entidade ou particular.

Quais foram os castigos mais gravosos a clubes da I Liga?
€11.000, €30.000, €9000, €7500, €8550, €14.000...

Marco Gonçalves, jogador do Canelas 2010 que agrediu o árbitro José Rodrigues, estava registado nos Super Dragões?
Segundo a Lei nº 39/2009, os elementos são facultados ao IPDJ e às forças de segurança, não devendo ser divulgados sem haver fundado interesse.

Quem centraliza o registo de adeptos inibidos judicialmente de frequentarem recintos desportivos?
As medidas de interdição são comunicadas pelos tribunais ao Ponto Nacional de Informações sobre Futebol (PNIF), estrutura integrada na PSP.

Quantos adeptos estão inibidos de entrar em estádios de futebol?
O IPDJ não dispõe destes dados (21, até 4 de abril, segundo a PSP).

Que género de apoios podem as claques receber dos clubes a que são afetas?
Desde que registadas no IPDJ, podem receber qualquer tipo de apoios, nomeadamente através da concessão de facilidades de utilização ou cedência de instalações, apoio técnico, financeiro ou material. Isabel Paulo


Jornal Expresso SEMANÁRIO#2322 - 29 de Abril de 2017

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O Círculo | FÁTIMA | GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL.2


 CINEMA
A REDE QUE CONTROLA A NOSSA VIDA

“O Círculo” apresenta-nos a uma poderosa empresa tecnológica de um futuro próximo

Emma Watson e Tom Hanks protagonizam “O Círculo”, a nova longa-metragem de James Ponsoldt. O filme estreia-se hoje nas salas de cinema nacionais e promete fazer-nos pensar no mundo em que vivemos


TEXTO JOÃO MIGUEL SALVADOR


Era a oportunidade de uma vida, um sonho tornado realidade. Mae (Interpretada por Emma Watson) acabava de ser aceite na The Circle, a mais estimulante e poderosa empresa de tecnologia e redes sociais, e não podia estar mais contente com o seu novo emprego. Pensava que seria uma simples funcionária, mas a sua missão rapidamente foi alterada.

Eamon Bailey (Tom Hanks), o fundador do gigante grupo tecnológico, encorajou-a a participar numa experiência inovadora e Mae decide aceitar. A partir de agora não há limites e tudo será exposto perante O Círculo. A privacidade é um bem do passado e até a liberdade individual pode estar em causa. Em frente dela está um futuro desconhecido, que desde cedo se revela aterrador. As decisões que tomar vão afetá-la em primeiro lugar, mas as consequências rapidamente chegarão àqueles de quem mais gosta.



QUANDO A REALIDADE ULTRAPASSA A FICÇÃO
Construir uma longa-metragem de ficção científica — daquelas que fazem com que os espectadores acreditem na possibilidade de tal situação se tornar real — é cada vez mais difícil. A tecnologia está a tomar o mundo a uma velocidade cada vez maior e as redes sociais não são exceção. Mesmo que se esteja perante a adaptação de um livro lançado em 2013 (“O Círculo”, de Dave Eggers), são diversas as passagens que remetem para realidades que hoje já conhecemos. James Ponsoldt optou por não lhes fugir (e fez muito bem).

É natural que, durante a hora e meia que dura “O Círculo”, se seja confrontado com várias situações (ou imagens) que fazem parte do dia-a-dia. Se o símbolo da empresa é muito semelhante ao da plataforma de transportes Uber, as pulseiras e relógios de fitness como a Fitbit ou o Apple Watch rapidamente se associam às braceletes metálicas que se veem na longa-metragem.

O jogo faz-se sempre entre o real e o imaginado, entre o presente e o futuro, mas fica a promessa de que nada será como dantes. E de que partir de agora pensará duas vez antes de fazer algumas tarefas, que até hoje considerava normais. Iniciar um direto no Facebook Live, tentar comprar uns óculos Spectacles do Snapchat ou fazer compras sem recurso a qualquer código nunca mais será igual. Toma-se consciência do que até agora era inconsciente.

Título “O Círculo”

Realização James Ponsoldt

Atores Emma Watson, Karen Gillan, Tom Hanks, Bill Paxton, John Boyega

Duração 100 min.

..::
Pontuação dos críticos do Expresso: Jorge Leitão Ramos –☆☆

Vasco Baptista Marques –




“FÁTIMA”

400 QUILÓMETROS DE FÉ


São onze e partem de Vinhais, em Trás-os-Montes, rumo a Fátima. No novo filme de João Canijo, é a fé que as move e as faz percorrer 400 quilómetros durante nove dias, numa prova de superação que não está ao alcance de todos. Momentos de sofrimento, de rutura e de redenção, para ver nas salas de cinema nacionais

Título “Fátima”

Realização João Canijo

Atores Ana Bustorff, Alexandra Rosa, Teresa Tavares, Íris Macedo, Sara Norte E Márcia Breia, Rita Blanco, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Vera Barreto, Teresa Madruga

Duração 153 min.

..::
Pontuação dos críticos do Expresso: Jorge Leitão Ramos – ✩✩✩✩

Vasco Baptista Marques –



“GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL.2”


PARA LÁ DOS LIMITES DO COSMOS

O universo da Marvel continua a expandir-se no grande ecrã e “Guardiões da Galáxia Vol. 2” é a nova aposta da editora de banda desenhada. Neste segundo filme, o melhor é estar preparado para novas alianças — há antigo inimigos que se tornam aliados importantes — que vão surpreender os espectadores.

Título “Guardiões da Galáxia Vol. 2”

Realização James Gunn

Atores Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista

Duração 137 min.


 ..::   O filme não figura nas “Estrelas da Semana” dos críticos do Expresso.
Jornal Expresso Quinta - 27 de Abril de 2017

Se eu pudesse dividir o mundo em duas categorias, era assim que eu faria


Os homens sobreviveram a contar histórias uns aos outros


    Pedro Candeias



Se eu pudesse dividir o mundo em duas categorias, era assim que eu faria

Se eu pudesse dividir o mundo em duas categorias, era assim que eu faria: os que querem ser índios e os que gostam de ser cowboys. Não é coisa de somenos e não digo isto do pé para a mão, bem pelo contrário, até porque me demorei uns longos cinco minutos a pensar nos amigos e nos primos, e nas brincadeiras que tínhamos quando éramos putos - e naquilo que nos viemos a tornar. Acho que foi ali, no jardim ou no recreio ou no sofá, mascarados ou com os nossos brinquedos a inventar histórias, que começámos a definir personalidades e a distanciar os feitios.

Havia os que preferiam estar ao lado das regras, da intransigência e da equipa vencedora, que adoravam ver os melhores e os mais fortes a triunfar sobre os outros, porque tinham o poder do lado deles - esses eram os cowboys. E depois havia aqueles com queda para as personagens cinzentas, que faziam esta ou aquela pequena batota inofensiva para derrotarem o establishment do quintal - e esses eram os índios. E eu era um deles.

Nada me dava mais gozo do que ser o gajo que se escondia e escondia os fulminantes, pulava carcaças dos autocarros, rastejava dentro dos túneis de cimento onde havia aranhas e, dizia o meu pai, cobras que nunca vi. Eu e o meu primo, sujos de alcatrão, pó e poeira, com os raspanetes à espera em casa e a cabeça num mundo paralelo - o mundo do faz-de-conta em que éramos os bons-malandros.

Desde que me lembro que sou fã de filmes de golpes e de golpadas. Há um lado romântico no bom-ladrão-bom que assalta um banco, uma seguradora, uma joalharia, e consegue escapar num último suspiro, deixando o dono furioso, estarrecido, entregue a si próprio ou à polícia - às vezes, o tipo a quem roubam a fortuna tem um passado dúbio e poucos escrúpulos, está ali résvés Campo de Ourique entre o mau e o muito mau.

Trago comigo uma lista de imperdíveis: “The Usual Suspects” com Kevin Spacey, o “The Italian Job” original com Michael Caine, a série “Ocean” com George Clooney & friends , “The Getaway” com o carismático Steve McQueen, “The Sting” com os geniais Redford e Newman, “The Town” com Affleck, “Inside Man” com Denzel Washington e Clive Owen; e até incluo o “Point Break” com os canastrões Patrick Swayze e Keanu Reeves, espécie de filme de culto para a malta new age. Em todos estes, é fácil escolher um dos lados, porque os argumentos foram feitos assim: os bandidos têm charme, os (alegadamente) bonzinhos são como amebas.





E, depois, há o “Heat”

Ainda hoje quando o revejo pela enésima vez - e fi-lo há tempos - não me consigo decidir se gostaria de ver Neil McCauley safar-se ou ser apanhado, e morto, como foi pelo Lieutenant Vincent Hanna. Michael Mann conseguiu o improvável, que foi apresntar os bons e os maus, misturá-los, e dar-nos a escolher entre uns e outros. Não é fácil. Hanna, é um polícia quasi alcoólico, viciado no trabalho, com temperamento difícil e espalhafatoso, do jeito que só Al Pacino consegue ser.

E McCauley, o líder de um grupo de assaltantes profissionais, é frio, contido, e segue uma máxima curiosa que atravessa o filme inteiro: “Nunca te agarres a nada que não estejas disposto a deixar em trinta segundos se sentires o perigo ao virar da esquina”.

Hanna é mau marido, McCauley não quer mulheres e tenta consertar a relação entre Chris Shiherlis (Val Kilmer) e Charlene Shiherlis (Ashley Judd). Os dois estão em rota de colisão, é inevitável que choquem, e quando o fazem, acontece cinema:



Esta é uma das cenas mais memoráveis dos blockbusters e começa com um convite para um café. Discutem-se as chatices da rotina do dia-a-dia, os altos e baixos das relações, o que cada um faz na vida e porquê, e acaba-se com uma ameaça de parte a parte.

O texto e a interpretação de Pacino, o cowboy, e De Niro, o índio, são intensos, como se a cada momento um deles fosse explodir. E, não se enganem, o “Heat” tem explosões e tiros, momentos vertiginosos em que a baixa da cidade se transforma num teatro de guerra, e esta é a beleza do filme, que respira e acelera nos tempos certos. E, quem sabe, este é o segredo das obras de Michael Mann, um dos poucos realizadores que consegue fazer bons filmes para massas. E o único que me deixa banzado e me faz repensar as primeiras quatro linhas deste texto.

Jornal Expresso Quinta - 27 de Abril de 2017 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Anabela Moreira: “Este filme foi a maior loucura que todas nós, atrizes, fizemos por um realizador

Relacionado“Fátima”, de João Canijo: “Não é possível representar uma peregrinação sem a fazer”

Entrevista



Anabela Moreira:

“Este filme foi a maior loucura que todas nós, atrizes, fizemos por um realizador"

Anabela Moreira numa cena do filme Foto d.r.

O filme “Fátima”, do realizador português João Canijo, chega esta quinta-feira às salas de cinema. O Expresso entrevistou uma das protagonistas, a atriz Anabela Moreira

Entrevista Bernardo Mendonça
 
Para o filme “Fátima”, que estreia esta quinta-feira, fizeste mesmo a pé um dos percursos dos peregrinos até ao santuário. Quantos quilómetros andaste ao todo?
Olha, não te sei dizer. No cartaz diz 400 km. Mas foram mais de 400...

O cartaz engana para menos? Retirou quilómetros ao que realmente fizeram?

Não é questão de enganar. Tem a ver com a questão da publicidade. 11 mulheres, 400 quilómetros. Na verdade acho que nunca ninguém saberá quantos quilómetros fizemos, porque andámos em alguns caminhos alternativos, e às vezes no percurso os marcos diziam que tínhamos andado X km e o conta quilómetros dizia que tínhamos andado Y, no Google maps dizia que o percurso era de W. Era tudo muito confuso. Não sei. Sei que foram muitos. Eu fiz o percurso maior de Bragança a Fátima. Era para ser feito em 10 dias, acabou por ser feito em 9 dias e acabou por ser a maior loucura que eu fiz na minha vida.

Foi duro...

Foi muito duro. Não fui só eu. Fui eu com a Vera [Barreto]. Houve outros grupos, como o da Teresa Tavares com a Iris Macedo. Estas vieram do Norte. Outras vieram de outros locais. Acho que foi a maior loucura que todas nós fizemos por um realizador. Porque às tantas estava em causa a nossa saúde. As pessoas se calhar têm de ver o filme para perceberem o que é uma peregrinação a Fátima. O percurso Bragança – Fátima é o maior em Portugal. Eu pensava que se viéssemos do Algarve seria um percurso maior, mas não é. A maior peregrinação é a que sai de Bragança. Tanto que, quando chegámos ao Santuário, há 3 anos, na altura em que fizemos o percurso verdadeiro, há uma altura na missa em que alguém nos congratula, faz uma festa, porque o nosso grupo, o grupo do maior percurso, tinha chegado bem ao Santuário. Claro que não estávamos bem.

Fez-me muita confusão. Vão-se celebrar 100 anos desde que começaram a caminhar pessoas até ao Santuário

Não estavam bem? Normalmente as pessoas, e são muitas que todos os anos fazem esta peregrinação a Fátima, fazem este percurso por uma questão de fé. É uma experiência de fé. E convosco? E contigo? Que experiência foi esta?

Eu tenho um bocadinho de medo de falar dessa experiência, porque cada pessoa vive essa experiência de maneira diferente. Eu só posso falar de mim. Fez-me muita confusão. Vão-se celebrar 100 anos desde que começaram a caminhar pessoas até ao Santuário. Pois é uma loucura. Eu estava a vir de Bragança, mas a Teresa Tavares e a Irís estavam a vir de Vila Flor. Eu estava a ir por um percurso em que fazia mais quilómetros - íamos sabendo coisas umas das outras através da produção do filme – e eu sabia que em determinado dia elas estavam a fazer um atalho lindíssimo, que a Teresa Tavares diz que foi o percurso mais bonito que fez na sua peregrinação, onde passou por um ribeiro. Imaginando que pouparam uma hora. Ninguém imagina o sofrimento que é. Não está nada organizado nos caminhos de Fátima. É uma coisa absolutamente selvagem. E isto chocou-me. A determinada altura vais encontrando pessoas pelo caminho e alguém te diz ‘por aqui poupa-se uma hora’ ou ‘por aqui poupa-se 5 minutos’, o que seja e...

Mas não há roteiros? Vivemos numa era com os smartphones e Google Maps, que ajudam no caminho...

Existe uma coisa que é a rota do peregrino que fez um percurso, mas duvido que tenham batido o terreno todo para saberem todos os percursos alternativos e pequenos que passam dentro de campos. Aquilo é praticamente feito todo por estrada, por zonas perigosas. Há ali uma zona onde todos os anos há acidentes e eu fiquei a saber que há grupos que fazem um percurso alternativo, por dentro, no meio do campo. E nós estávamos a fazer o percurso na estrada, ao lado de camiões, sem bermas, sem nada. É um choque. E vou por ali porquê? Porque vou com um determinado grupo, com um determinado organizador, e não encontras ao longo do percurso nenhum sinal....Sou a favor que se estabeleçam os caminhos para Fátima de uma maneira mais inteligente. Com graus de dificuldade, e o percurso bem explicado. Tudo isto está por ser feito ainda. Na altura houve uma pequena revolta no grupo porque apareceu um senhor que já fazia o percurso há 30 anos e falava de atalhos, o José Júlio...Quando acabei essa peregrinação verdadeira, eu só dizia: ‘vou criar o caminho do José Júlio’.

Porque todo esse percurso a pé que o elenco fez anos antes até Fátima foi apenas para laboratório. Nada disso foi filmado ou aproveitado para o filme...

Não. Isto foi dois anos antes do filme.

Uau. Só para sofrerem...

(risos) Só para o João poder saber o que era uma peregrinação e para nós todas também sabermos o que era. Porque só quem vive este percurso tão gigante, tão louco, só quem o conhece, é que pode falar dele com propriedade. Até podes observar de fora, mas nunca vais entender.

A tua representação desta tua personagem, a Céu, seria outra se não tivesses feito este percurso dois anos antes?

Ah! Sim. Eu imaginaria que fosse isso que estavas a dizer, um ato de fé. É um ato de fé, não estou a dizer que não seja, mas do que eu consegui perceber...(pausa) Uma coisa é estares num momento de aflição da tua vida porque tens uma doença ou alguém que tu conheces tem um problema e tu virares-te lá para cima, porque achas que Deus ou Nossa Senhora estão tão distantes de ti que para pedires uma coisa tens que fazer uma promessa destas.
Gravei com uma pequena câmara esses percursos diários que fiz na realidade. Antes das filmagens arrancarem. E se os ouvir, e tive de os ouvir algumas vezes, eu estou louca. Completamente louca

São normalmente momentos de desespero que levam a maioria das pessoas a fazê-lo...

Eu depois descobri que algumas pessoas não chegam a fazer promessas, fazem porque gostam da superação, mas também há pessoas que gostam de fazer queda livre.

Não é o teu caso...

Não. Mas eu percebi rapidamente que, pelo menos para mim, daquilo a que assisti, uma coisa é o teu ato de fé quando tu fazes a promessa, outra coisa é cumprir a promessa. E, do que eu vivi, acho que esse caminho não é santo nem santificado. São pessoas a cumprir uma determinada coisa. E como pessoas que estão no limite do sofrimento, surgem uma série de aspetos teus que desconhecias. Eu cheguei ao limitar da loucura. Conheci os meus pontos mais positivos e partes da minha pessoa que eu desconhecia que existiam porque o sofrimento é muito.

Como por exemplo? O que te surpreendeu em ti, que aconteceu, por causa do sofrimento?

Eu gravei com uma pequena câmara esses percursos diários que fiz na realidade. Antes das filmagens arrancarem. E se os ouvir, e tive de os ouvir algumas vezes, eu estou louca. Completamente louca.

Porquê? Com pensamentos delirantes?

Não chego a ter pensamentos delirantes, mas aquilo que eu percebia que as pessoas estavam a dizer ou estavam a querer fazer era um bocadinho delirante, paranoico. Porque chegas a um ponto...tenho partes desse diário [gravado] em que estou praticamente só a dizer asneiras, porque a raiva é tanta... Nem é raiva. Nem sei explicar. Ninguém está preparado para andar 50 ou 60 quilómetros nos primeiros dias da tua ida a Fátima. E pensas assim: “São 430 quilómetros. Tens dias para o fazer. O que é que se está a passar aqui?”
Anabela Moreira, em primeiro plano, noutra cena do filme

Com este filme, já pagaste todos os teus pecados, para trás e para a frente, não?

Eu já tenho um saldo muito positivo. Um crédito enorme, para depois poder cobrar uma série de coisas para o futuro.

És uma mulher de fé?

Tenho fé em muita coisa. Não sou religiosa. E nesta fase da minha vida nem cristã, mas tenho fé.

Em quê?

Não te sei explicar. Seria fácil dizer que sou agnóstica. Não sei. Desenvolvi o meu próprio sistema de crença. Acredito que de facto não somos só o corpo, acredito que de facto isto não acaba aqui. E acredito sem colocar em questão. Não tenho medo da morte. Tenho medo de perder as pessoas que eu amo e de não ter feito tudo o que podia por elas. E tenho medo que elas morram sem estarem felizes. E acho que isso angustia-me um bocadinho. Mas eu tenho plena certeza, e isto é uma loucura, mas fiquei com essa certeza quando morreu a minha avó, que as pessoas não acabam quando morrem. Agora explica-me isto...não sei.

E gostas do resultado do filme “Fátima”, que teve este processo doloroso?

O filme “Fátima” poderia ter sido muita coisa porque é uma obra muito complexa e o João filmou muitas, muitas, muitas horas. Eu gosto muito da versão longa, não gosto tanto da versão curta.

Que é a que vai ser apresentada no cinema...

Sim. Acho que é um bocadinho precipitada. Mas quando digo que é precipitada, são opiniões minhas que não interferem com a qualidade do filme. Mas é um filme sobre uma peregrinação e não pode ser um filme rápido, onde as coisas sejam precipitadas. Quer dizer, aquilo foram 9 dias e o João escolheu apresentá-lo com a lógica da cronologia. E não se pode passar de forma leviana por esses 9 dias de sofrimento.

Com o realizador João Canijo consegues mais espaço para criar, não é?
O João Canijo cria para aquelas pessoas. Ele não cria no vazio, às vezes acontece. Por exemplo no filme “Sangue do Meu Sangue” começámos por ser três atrizes, depois foi preciso um rapaz para fazer de meu sobrinho e filho da Rita - [Blanco] fomos encontrar esse rapaz; depois foi preciso um namorado f- omos à procura desse ator. Ele antes de começar a escrever para as pessoas ele pensa nas pessoas. Não é que ele misture, porque é tudo uma coisa só, mas ele acaba por vir buscar o ator logo de início, nós atores fazemos parte desse ato de criação. Estamos ali a criar com ele. E, portanto, é um processo único e diferente de todos os outros, pelo menos daqueles que eu tenho experimentado. Essa confiança que ele me trouxe, de confiar em mim até o ponto em que verbalizo o que estou a sentir com a minha personagem, foi o que me fez pensar que poderia ser giro eu encenar-me a mim própria, a dirigir-me a mim própria. E permitir-me ir a uns sítios que se correrem mal, são projetos meus, fui eu que arrisquei, não tem problema nenhum. (pausa) Nós, atores, somos muito inseguros.

É mais fácil chegar à personagem quando percebes o contexto distante do teu...

Eu descobri neste último processo de trabalho, com o filme Fátima, que às vezes o distanciamento também é muito importante. Ou seja, esta coisa de às vezes imergires de uma tal situação tem de ser doseada. Por isso não posso dizer que tenha um método. Houve alturas do filme “Fátima”, como tinha mesmo ido a pé, como tinha mesmo feito aquele percurso, às tantas estava demasiado ligada ao realismo da questão. E dei por mim a querer reproduzir coisas que tinham acontecido e percebi a meio do processo e depois de ver o filme que não, que tinha que ajustar algumas coisas, tem de haver também esse distanciamento.

Por outro lado, costumas transformar-te fisicamente nos papéis que tens feito no cinema. Neste caso, no filme “Fátima” também te transformaste bastante. Estás quase irreconhecível.

Meu Deus! Eu quando fiz o “Mal Nascida” por uma série de razões decidi engordar 25 quilos. Não foi uma decisão fácil, mas eu sei porque é que a fiz. A fisicalidade que eu ganhei com o excesso de peso facilitou-me inclusive a deixar vir cá para fora uma série de sentimentos mais rudes. Foi um percurso que decidi fazer e que foi essencial para aquela personagem. Até porque eu tinha uma cena de sexo com o meu irmão. E queria ser tudo menos sensual, sentia que a Lúcia era um bicho, uma mulher que se tinha abandonado completamente e que estava desfigurada.

Isso é raro entre as atrizes. Muitas querem estar belas frente à câmara.

Isto é um caso de psicanálise. A primeira vez em que fiquei mesmo aflita numa personagem foi numa em que tinha que ficar linda, nos “Filhos do Rock”, eu era a Maria, a boa da história. Nem eu sabia que eu era assim. Eu chegava de manhã e tapava a cara para não me verem, achava-me feia. Tem a ver com coisas profundas da minha vida. Sinto-me muito melhor a fazer mulheres absolutamente banais. Que não tenham sex-appeal, do que a fazer mulher sensuais.

Foste ao limite mesmo fisicamente no filme “Fátima”.

Eu agora quando fiz este filme “Fátima” não queria nem emagrecer, nem engordar. Mas pensei, a minha personagem é uma mulher de Trás-os-Montes e como estou entre várias atrizes magrinhas e bonitas, vou comendo e vendo no que dá.

Deste-te aos prazeres da gastronomia...

Dei-me aos prazeres da gastronomia de Vinhais, neste caso numa aldeia maravilhosa chamada “Rio de Fornos”, onde eu trabalhava para dois patrões maravilhosos, o Tóino e a Fátima. E eu todos os dias ia tratar dos animais de manhã e eles davam-me de seguida o pequeno almoço. E o pequeno almoço era feito de presunto de porco bísaro que eles passavam por vinho tinto e punham na lareira. E digo-te uma coisa, aquele pedaço de pecado não fica atrás de nenhuma iguaria que eu já comi até hoje.

E só em Lisboa me apercebi que tinha ficado completamente deformada. Tudo bem foi uma coisa que eu quis fazer, não foi pensado, deixei-me ir no processo. Mas neste momento estou a lutar para perder peso e os quilos que ainda ficaram desse filme.

Quantos quilos engordaste?
Entrei num ginásio maravilhoso e durante 2 ou 3 meses não me quis pesar. Emagreci bastante e quando me decidi pesar ainda estava com 70 quilos, com mais 10 ou 15 quilos a mais. Portanto não sei quantos quilos ganhei para o filme. Muitos. Mas vou procurar ajuda para perder o resto. Não posso ser eu sozinha. E eu adoro comer, adoro viajar, adoro música e sou uma apaixonada pela vida por estas coisinhas do momento.

Esses pequenos instantes de felicidade...

Sim, são instantes mas a vida é só isso, não é? O que é a felicidade. A vida é a soma desses bocadinhos. E sem isso resta alguma coisa. Mas grande parte da minha felicidade é usufruir das coisas sem medos.


Jornal Expresso Quarta - 26 de Abril de 2017

“Fátima”, de João Canijo: “Não é possível representar uma peregrinação sem a fazer”

Entrevista a Anabela Moreira: “Este filme foi a maior loucura que todas nós, atrizes, fizemos por um realizador"

Cinema
“Fátima”, de João Canijo: “Não é possível representar uma peregrinação sem a fazer”


O novo filme de João Canijo acompanha 11 mulheres que vão em peregrinação a pé de Bragança até Fátima. Eurico de Barros falou com o realizador sobre esta sua nova experiência de realismo radical.


Eurico de Barros

De Vinhais, em Bragança, até Fátima são mais de 400 quilómetros. É a mais longa peregrinação a pé de Portugal até ao santuário. Foi de lá que vieram as 11 atrizes de “Fátima”, o novo filme de João Canijo (estreia-se na quinta-feira) sobre outras tantas mulheres que, levadas pela fé, caminham durante nove dias de suas casas até Fátima, apoiadas pela carrinha e pela caravana onde pernoitam, fazem as refeições e tratam as feridas feitas na estrada. Canijo, que gosta de preparar os seus filmes com o mesmo rigor e a mesma minúcia que põe na encenação da realidade, instalou primeiro as atrizes (quase todas “habitués” das suas realizações — Rita Blanco, Anabela Moreira, Vera Barreto, Ana Bustorff, Teresa Madruga, Cleia Almeida, Sara Norte, Márcia Breia, Alexandra Rosa, Teresa Tavares e Íris Macedo) em Vinhais, no pino do Inverno, para viverem e trabalharem como outras tantas mulheres transmontanas que vão fazer uma peregrinação a pé a Fátima em Maio de 2016.

Foi também em Vinhais que elas fizeram um laboratório para trabalharem as suas personagens. E depois, vieram a pé até Fátima. Não uma, mas duas vezes, como conta o realizador: “Fizeram uma peregrinação real, todas elas, sendo que algumas a fizeram em toda a sua extensão. Desde Bragança. E depois fizemos uma peregrinação falsa, mais ‘soft’. De preparação para o filme. Falsa porque embora as condições fossem as reais, ou seja, elas andavam e dormiam e comiam nas condições que se vê no filme, com aquela caravana e com aquela carrinha, iam todas juntas, não iam num grupo de peregrinos reais. Iam só elas e não andavam tanto como andariam na realidade. Mas foi também bastante intensa do ponto de vista da relação entre elas. Nesse aspeto, foi mais árdua.” E depois, vieram as nove semanas de filmagens “on the road”, que foram “a destilação” dessas duas peregrinações.

Veja o “trailer” de “Fátima”

João Canijo não é crente e nunca tinha ido em romaria até Fátima. Para preparar o filme, fez ele próprio uma peregrinação . “E foi por a ter feito que percebi que elas tinham obrigatoriamente que fazer a delas. Senão nunca conseguiam representar e interpretar uma peregrinação sem a fazer, saber o que é”, explica. A peregrinação do realizador foi mais suave. “Foram só dois dias e fiz quarenta e tal quilómetros num dia e trinta e tal no outro. Foi em 2011, quando julgava que o filme ia ser feito”. Só que depois veio a crise.
O filme teve o dinheiro do apoio em 2011, mas durante a crise ficou bloqueado. Por outro lado, também por causa da crise, deu-se a feliz coincidência da estreia ir agora coincidir com o centenário das aparições e com a vinda do Papa. Mas foi absoluta coincidência. O filme devia ter saído há dois anos.”

O autor de “Sangue do meu Sangue” nunca pretendeu fazer um filme explicativo, analítico ou crítico do fenómeno de Fátima. Nada do espírito de “Fátima Story” ou de “As Horas de Maria” por aqui. Esta narrativa de uma peregrinação inteiramente feminina radica “na ideia de filmar as relações de grupo, num grupo de mulheres em situação de tensão extrema. Pensei em várias coisas e de repente veio-me a epifania: evidentemente, é uma peregrinação a Fátima a pé. Depois disso apareceu outra coisa tão importante como essa: a relação com a necessidade de fé. E isso tornou-se tão importante quanto as relações entre as mulheres, até porque são paradoxais.”

E aqui entram em cena o esforço sobre-humano, o cansaço físico e a erosão psicológica, as alianças e as fricções entre as personagens, que vão levar inclusivamente à dissidência de uma das personagens, Céu, interpretada por Anabela Moreira. Nesta peregrinação, diz Canijo, “tirando o ritual de rezar o terço e de alguns cânticos, fala-se muito pouco de religião”. E tricas, zangas, confrontos e ruturas, é o que há mais. “Uma peregrinação feita em nome da fé agudiza os conflitos, porque tornam-se deslocados, condenáveis. E dissonantes.” Até as personagens de Márcia Breia e Sara Norte, avó e neta, que não são particularmente crentes e têm a seu cargo a carrinha e a caravana de apoio, se veem envolvidas nas querelas.


O realizador, João Canijo

O realizador defende que a peregrinação a pé a Fátima é algo caracteristicamente português, que não pode ser comparado com qualquer outra peregrinação, como a que se faz a Santiago de Compostela, por exemplo. Onde esta “tem como principal componente o encontro consigo próprio e a meditação sobre a fé”, a que se faz a Fátima tem a ver “fundamentalmente com o sacrifício. E isso dá um grande conforto em relação à necessidade de fé.” E há alturas em “Fátima” em que o comportamento das 11 mulheres parece mais o de pessoas que estão envolvidas numa prova de desporto “sui generis” – a caminhada radical – quer querem ganhar a todo o custo e ainda estabelecer um recorde, do que o de gente que vai a um santuário religioso levada por um impulso místico, para ali ter uma experiência espiritual ao mesmo tempo pessoal e coletiva.

Veja uma reportagem sobre uma peregrinação a pé a Fátima


O filme tem um argumento “completo, onde está tudo, só que é como um mote para a improvisação, como no jazz. No filme é praticamente tudo improvisado, embora elas respeitem tudo o que tinha que se passar e quando em cada cena”, continua João Canijo. Representação e realidade misturam-se em “Fátima”, um filme que o realizador quis deliberadamente que “gerasse essa confusão”. Logo, alguns dos conflitos (e não só) a que estamos a assistir aconteceram mesmo, não são encenados.

Essa foi a ideia inicial de juntar um grupo de mulheres que estivessem que ficar juntas 24 horas sobre 24 horas. Quando eu lhes apresentei o filme, elas reagiram todas bem. Depois, as reações durante a peregrinação é que foram díspares… E as soluções encontradas para as resolver também foram.”

“Fátima” tem versões para cinema (uma mais longa, com 200 minutos, e outra mais curta, com cerca de 150) e para televisão (cinco episódios, com quase uma hora cada, para passarem na RTP em cinco dias seguidos, de segunda a sexta-feira). “Começámos a montar a fita em Junho e acabámos no fim de Setembro. Tínhamos muitas horas e fomos depurando. Ainda chegámos a fazer uma projeção de quatro horas e 10 minutos. Cortámos e fizemos uma de três horas e 48 minutos, e a seguir chegámos à versão final da versão longa, e depois cortámos radicalmente para a versão curta, o que foi difícil, mas teve que ser”, explica Canijo. A versão longa para cinema tem mais cenas cómicas e de acampamento. “Foi nestas que eu consegui fazer exactamente aquilo que queria. A andar, acho que não tem mais. A versão curta tem, penso eu, menos densidade que a longa. Porque os conflitos, que são os mesmos que existem na curta, são mais densos já que existem antecedentes. E tem outras cenas sem conflito, o que também lhes dá mais densidade.”

Dir-se-ia que depois de “Fátima”, os limites da contiguidade da encenação da realidade com a realidade propriamente dita não poderiam ser levados mais longe, mas João Canijo não está de acordo, e vai continuar a esticar a corda: “O próximo filme vai ser uma encenação do real em termos da veracidade das personagens. Isso vai ser levado mais longe do que neste. Elas são como são e elas são o que são. E depois há um desafio que, mais do que isso, é uma necessidade minha. Quero fazer um filme como fiz o ‘É o Amor’, praticamente sem equipa. E vai ser só com mulheres também.” Até lá, ficamos com “Fátima”. Que poderia ter como subtítulo: “2016: Uma Odisseia na Estrada”.

“Fátima” estreia-se na quinta-feira, dia 27 de abril
OBSERVADOR  25/4/2017

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